2 PANORAMA HISTÓRICO DO ENSINO COLETIVO DE CORDAS:
2.3 NO ESTADO DO PARÁ
2.3.2 No interior do Estado
Também no interior do Estado do Pará projetos de ensino coletivo de cordas são consideravelmente difundidos, abrangendo cidades como: Rondon do Pará, Tucuruí e Oriximiná. Em geral, são chamados para lecionar nesses projetos professores da capital, da EMUFPA e do IECG.
O Projeto Socializando pela Música foi “implantado em fevereiro de 2004 na cidade de Rondon do Pará, pela Igreja Assembléia de Deus local” (BATISTA, 2010, p. 1405), quando fui convidado pelo Pr. Joel Barros Pereira, então pastor de referida igreja naquele município, para desenvolver um projeto cordas (só com violinos) na cidade. Nesse projeto, eu dava aulas de violino, musicalização, prática de banda e ainda era o coordenador do mesmo.
Este projeto só foi possível devido à visão social e coragem do Pastor Joel, pois implantar um projeto a 540 km da capital paraense, a sudeste do estado, em plena região Norte do Brasil, onde não se tinha nenhum histórico de ensino de instrumentos de cordas
friccionadas, era extremamente desafiador. Além disso, minha ida à cidade de Rondon ocorria em finais de semana intercalados, aonde eu chegava à sexta feira e dava aulas intensivas até a tarde de domingo, quando então retornava à Belém. Por conta dessa situação, o projeto foi pensado para ser desenvolvido em três fases distintas.
Na primeira fase, em fevereiro de 2004, o público alvo era formado por crianças a partir dos nove anos de idade, adolescentes, jovens e adultos da igreja sede do projeto, considerando que, se o mesmo não tivesse êxito, seria mais fácil administrar as frustrações internamente.
Na segunda fase, o que ocorreu a partir de agosto de 2004, o projeto foi aberto para pessoas pertencentes a todas as igrejas evangélicas da cidade.
Na terceira e última fase, já no início de 2005, o projeto foi oferecido para todas as pessoas da comunidade, quando tivemos ao todo 90 pessoas estudando violino, e uma turma de dez alunos na faixa etária dos cinco aos oito anos.
No início do projeto, só havia cinco violinos para 40 alunos, sendo necessário dividir os alunos em turmas com o mesmo número de instrumentos existentes; contudo, já no terceiro final de semana, todos os alunos tinham seus próprios instrumentos.
Figura 17: Alunos do “Projeto Socializando pela Música”. Da esquerda para a direita, acima: Wanderlene Nascimento, Prof. Antonio de Pádua, Elizabete Nunes; abaixo: Gemima Kretli, Isabella Coelho. Em 24.12.2005 (Fonte: Arquivo pessoal).
Esse projeto teve seu ápice em 2005, quando apresentamos um grande concerto natalino com transmissão pelo SBT (Sistema Brasileiro de Televisão) para várias cidades do Sudeste do Estado e Imperatriz - MA. Éramos uma orquestra sinfônica composta de 60 violinos e a banda local (35 músicos de sopro e percussão), um grupo de violinos composto por 15 crianças na faixa etária entre sete e dez anos, um coral de adultos com 40 integrantes e um coro infanto juvenil com 60 integrantes. Foi minha mais significativa experiência como regente. No segundo semestre do ano seguinte (2007), o pastor Joel foi transferido para outra cidade e o projeto foi perdendo sua força até finalizar em maio de 2008.Contudo, hojeum dos alunos desse projeto estuda música na Universidade de Minas Gerais e duas alunas estudam no Texas, USA.
Figura 18: Imagem do cartaz promocional do concerto natalino supracitado. (Fonte: Arquivo pessoal)
Esse foi um dos meus trabalhos mais desafiantes, pois através dele pude perceber a carência que existe, no interior do Estado do Pará, de um ensino de música com qualidade e sistematização.
Figura 19: Igreja Assembléia de Deus de Rondon do Pará. Prof. Antonio de Pádua, Naason de Carvalho, Állifã dos Santos e Gemima Kretli. Em 28.06.2005. (Fonte: Arquivo pessoal)
O Projeto Cordas de Davi “desenvolvido no período de 2005 a 2006 pela Faculdade Gamaliel, na cidade de Tucuruí/PA” (BATISTA, 2010, p. 1405), também tinha a mim como seu professor e era voltado unicamente para o ensino do violino.
Enquanto dava aulas em Rondon do Pará, fui convidado a desenvolver um projeto com as mesmas características na cidade de Tucuruí/PA, na Assembléia de Deus local, que mantinha a Faculdade Gamaliel. Isso ocorreu nos anos de 2006 e 2007. Esse projeto foi muito desgastante para mim nos aspectos físico e emocional, pois eu saía de Belém na quarta feira à noite e chegava a Tucuruí na quinta feira de madrugada, dava aula o dia todo e viajava à noite para Rondon do Pará. Chegava à Rondon na sexta feira de manhã e dava aula durante todo o dia de sexta e de sábado, e no domingo até as 16h00, quando arrumava as malas para voltar à Belém, chegar à segunda de manhã e dar aula durante todo o dia no Projeto Vale Música. A recompensa proveniente desse projeto foi que hoje existe uma orquestra em Tucuruí fruto daquele trabalho.
Figura 20: Grupo de Violinos do Projeto “Cordas de Davi”. Dezembro de 2006. (Fonte: Arquivo pessoal)
Figura 21: Orquestra do “Projeto Cordas de Davi”. Dezembro de 2006. (Fonte: Arquivo da Orquestra)
O Projeto Cordas de Oriximiná-Pa consiste na interiorização de um curso regular da EMUFPA, que tem como por objetivo dar aos alunos uma formação de “Técnico em Instrumentista de Orquestra”. É desenvolvido pela Secretaria de Cultura do município em convênio com a EMUFPA, que envia professores que fazem parte do Núcleo de Cordas da mesma e, em caso de necessidade, do Instituto Estadual Carlos Gomes. Nos três primeiros meses letivos de cada semestre é enviado um professor de Belém para Oriximiná-Pa, intercalando um de violino e viola, um de violoncelo e um de contrabaixo, quando ministram aulas do seu instrumento específico e trabalham também com a Orquestra de Cordas da Escola de Música da cidade pelo período de uma semana, culminando com uma apresentação. O quarto professor enviado, que pode ser um dos que foram anteriormente, irá desta vez com
o objetivo de trabalhar especificamente com a orquestra de cordas, o que não o impede de trabalhar com os alunos do seu instrumento específico.
Este projeto iniciou em 2008 e tem previsão de finalizar em 2013, quando diplomará os concluintes do curso técnico. Sua atual coordenadora é a Prof.ª Dra. Lia Braga Vieira, docente da EMUFPA.
Figura 22: Alunos da Orquestra de Cordas de Oriximiná – PA, em dia de apresentação. Junho de 2010. (Fonte: Arquivo pessoal)
Figura 23: Professor Pádua na aula de prática de orquestra. Junho de 2010. (Fonte: Arquivo pessoal)
O capítulo seguinte descreve especificamente o Projeto Vale Música, ressaltando seu surgimento e as características que lhe são peculiares.
O Projeto Vale Música (PVM), uma iniciativa da Fundação Vale (FV), chegou à Belém a partir de uma parceria estabelecida entre esta e a Fundação Amazônica de Música (FAM), através de sua presidente Maria da Glória Boulhosa Caputo.
São vários os fatores que contribuíram para que essa aproximação viesse acontecer, dentre os quais destacamos o momento social adequado e propulsor dessas iniciativas dentro do terceiro setor da sociedade, onde se insere a Fundação Vale, e a figura de Glória Caputo, com sua trajetória de vida dentro da música e da sociedade paraense, juntamente com a FAM, entidade por ela criada e presidida. Portanto, antes de se falar propriamente do PVM, faz-se necessário que se tenha uma visão clara do campo onde o mesmo se insere, bem como dos agentes que o desenvolvem em Belém: Glória Caputo e a FAM.