5. Confrarias ou Irmandades e outras devoções marítimas em Sesimbra
5.1 Devoções marítimas em Sesimbra
5.1.3 Outras Devoções
5.1.3.9 Nossa Senhora da Misericórdia
Mas se a atividade da Capela e do Sprital do Espírito Santo, estavam consagrados ao culto e à assistência e apoio a naturais e viajantes, a Capela da Santa Casa da Misericórdia, cuja fundação remontará ao início do século XVI267, teria também a mesma função de assistência
social de acordo com o pressuposto da fundação das Misericórdias.
Figura 24 – Capela da Santa Casa da Misericórdia (Foto da autora, Dezembro 2012)
A Santa Casa da Misericórdia localizada num centro de mareantes e pescadores teria, inevitavelmente, ligação à classe piscatória. Muitos dos seus provedores foram também homens do mar e as irmandades/confrarias que albergou tiveram uma estreita ligação com os
267 Sobre este assunto encontramos um documento de 1528, na Biblioteca online da Torre do Tombo
(http://digitarq.dgarq.gov.pt/details?id=3772241, visto em 07/05/2012), que se refere a um alvará dado pelo Cardeal Infante relativo à licença dada aos confrades da Misericórdia de Sesimbra para a construção de uma ermida. Por aqui se poderá balizar a datação da capela da Santa Casa como sendo do primeiro quartel do século XVI. Tanto quanto sabemos será este o documento mais antigo sobre a construção da Capela, não deixando no entanto de ser importante a referência deixada por Rafael Monteiro relativamente a uma escritura celebrada em 1555, pelo então Provedor da Santa Casa, João Serrão, e a suposta anexação da Misericórdia à Albergaria e Hospital do Espírito Santo existente no Castelo (SERRÃO, Eduardo da Cunha e SERRÃO, Vítor, op. cit., p. 53). Ainda sobre a questão da fundação da Misericórdia de Sesimbra, dois aspetos deixaram-nos curiosos. Durante as nossas pesquisas sobre a implementação da Santa Casa encontramos numtreslado efetuado no Livro I do Tombo
da Vila de Sesimbra a alusão, em 1611, à “casa da misericórdia da vila”, a referência da vila leva-nos a pensar
que terá existido no castelo uma misericórdia (AMS, CMS Livro I da Câmara Municipal de Sesimbra. Extractos
dos assentos nele tratados, p. 173), questão também mencionada por Albino Lapa, quando se refere a uma
escritura em que aparece a designação de «Provedor da Casa da Mizª e do hospital e Albergaria do Castelo», (LAPA, Albino, op. cit., p. 22). Certamente novos documentos irão permitir um melhor esclarecimento do assunto.
80
armadores locais. Testemunho desta ligação foi a ereção de uma das suas capelas, em 1696, pelo armador e Capitão de Mar e Guerra José de Carvalho, em honra de Nossa Senhora do Rosário,268 para cujo altar “ofereceu uma imagem da mesma invocação, sua «companheira» em todas as viagens marítimas.”269
Figura 25 – Pedra relativa à construção da Capela de Nossa Senhora do Rosário, pelo Capitão de Mar e Guerra José de Carvalho, e a respetiva imagem. (Fotos da autora, Dezembro 2012)
Ligados ainda às devoções marinheiras locais, a Nossa Senhora da Piedade270 e o Senhor dos
Passos271, os quais conjuntamente com o Senhor das Chagas, objeto em estudo deste nosso
268 A devoção à Senhora do Rosário dever-se-á a S. Domingos de Gusmão. Em 1470 são organizadas as
primeiras confrarias por parte do dominicano Alamo Rupe, que lançará “as bases da devoção a Nossa Senhora
do Rosário.” O seu culto estará ligado a alguns factos históricos, nomeadamente “a investida dos cristãos contra os hereges de Albi, em França,” e, mais tarde, em 1571, com “vitória das forças cristãs sobre os turcos, na (…) batalha de Lepanto.” (COELHO, Beatriz, op. cit., 2005, p. 70), na qual o “capitão general D. Juan de Áustria levava uma imagem de Nª Srª do Rosário (…) [que] passou a ser considerada a padroeira da Armada Espanhola e também da Carreira das Índias.” A festa a Nª Srª do Rosário será instituída pelo Papa Pio V em 1572.
(PEDROSA, Fernando Gomes – “Marinheiros Portugueses em navios espanhóis e as suas devoções (1550-
1636) ”, 2011c, p. 5). Em Sesimbra, e considerando as fontes encontradas, esteve em franca atividade a partir de
meados do século XVIII, tendo-se mesmo registado a presença de uma Confraria, no início do século XX, sediada na Igreja da Santa Casa da Misericórdia. A par desta, regista-se a existência de uma outra imagem na Igreja Paroquial de Santiago.
269 MONTEIRO, Rafael, op. cit., 2001, p. 42
270 A devoção a nossa Senhora da Piedade está ligado a “sentimentos de solidariedade e de piedade cristã” e
insere-se no “ciclo que procura lembrar os sofrimentos de Nossa Senhora – Piedade, Soledade e do Pranto”. De acordo com Beatriz Coelho, em “Portugal, a Irmandade é de remota existência, tinha por finalidade o enterro
dos mortos, a visita e confortação dos presos e o acompanhamento dos condenados até à consumação de sua sentença de morte. Decorrente disso a ligação que logo se estabeleceu entre a Irmandade da Piedade e as Santas Casas de Misericórdia portuguesas, em cujo emblema se vê a representação de Nossa Senhora da Piedade”. (COELHO, Beatriz, op. cit., 2005, p. 81-82) Na região de Sesimbra referência deverá ser feita ao
Convento de Nossa Senhora da Piedade em Azeitão, século XV, e à época situado no município de Sesimbra. Em termos da vila propriamente dita e considerando as fontes encontradas, registou-se atividade a partir de meados do século XVIII, tendo-se mesmo registado a presença de uma Confraria, em meados do século XIX, sediada na Igreja da Santa Casa da Misericórdia.
81
trabalho, disputaram altares entre si na Capela da Santa Casa da Misericórdia no 1ºquartel do século XVIII.
Grandes mestres da pintura e entalhadores trabalharam e contribuíram para o embelezamento da Capela da Misericórdia dos séculos XVI ao XVIII, de que destacamos a pintura quinhentista atribuída a Gregório Lopes que representa Nossa Senhora da Misericórdia, séc. XVI; o retábulo de talha dourada da capela-mor; uma imagem de Cristo e uma outra de Santo Amaro272, ambos do mestre escultor lisboeta Félix Adaucto da Cunha, e, por último, uma
imagem de Santa Isabel de Aragão273, todas elas do século XVIII274. Diferente
271 Cf. p. 37-38 e 116-120 do presente trabalho.
272 Santo Amaro é o nome dado a santos distintos com lendas também distintas. Uns identificam-no com S.
Mauro, discípulo de S. Bento. Outros com um peregrino de Santiago, que depois fixou residência em Burgos. Outros ainda, fazem dele um buscador do Paraíso Perdido, ao estilo de S. Brandão; desta última lenda há várias versões. (PASCUAL, Francisco Rodriguez - Las leyendas de San Amaro. In Brigantia, vol. VIII, nºs 3-4, Bragança, 1988, p. 42) O conto de Amaro, que aparece na literatura portuguesa no séc. XIV, é uma réplica portuguesa ou castelhana das viagens de S. Brandão; tal como ele, Santo Amaro faz por mar uma viagem maravilhosa. (MATTOSO, José - Antecedentes Medievais da Expansão Portuguesa. In BETHENCOURT, Francisco, e CHAUDHURI, Kirti (Dir.) - História da Expansão Portuguesa, Vol. 1, Circulo de Leitores, Rio de Mouro, 1998, p. 25) A ermida de Santo Amaro, em Lisboa (Alto de Santo Amaro), foi fundada no séc. XVI por marítimos galegos, segundo uns, ou pelos freires de Cristo, segundo outros. (SILVA, Augusto Vieira da - Dispersos, vol. II, 2ª ed., Câmara Municipal de Lisboa, 1985, p. 285-291). S. Mauro é Amaro de Glanfeuil, monge beneditino que terá vivido no séc. VI. A sua biografia está associada a várias lendas e milagres, entre os quais especial menção deverá ser feita ao episódio relacionado com o salvamento de S Plácido que terá caído a um lago gelado correndo o risco de se afogar. Stº Amaro terá então agido por revelação de S. Bento, que caminhando sobre as águas terá assim salvo S. Plácido. Deste episódio, ressalta a invocação de Stº Amaro na proteção contra doenças relacionadas com o reumatismo, bronquite e constipação, uma vez que ao mergulhar em água fria provou a sua imunidade contra o frio da água e os resfriamentos, bem como a invocação para a cura da gota, “e por afinidade, protector de todos
que coxeiam ou manquejam (…) e tornou-se advogado contra as quebraduras e todos os males das pernas e braços” (PEREIRA, Fernando António Baptista, (coord.) [et al.] - A Arte e o Mar, Fundação Calouste
Gulbenkian, Lisboa, 1998, p. 62). Todos estes episódios remetem-nos naturalmente para a vivência diária de uma povoa onde problemas ósseos são uma constante e estão diretamente ligados à própria atividade marítima, e, embora não seja o patrono dos afogados, porque neste caso teremos a invocação de S. Plácido, o episódio do salvamento por parte de Stº Amaro àquele, constitui um facto de ligação às gentes do mar. Relativamente à devoção local a Stº Amaro encontramos três referências na documentação pesquisada: uma no ano económico de 1744-45, que considerando que a imagem está datada de 1744 (PEREIRA, Fernando António Baptista, op. cit., 2001, p. 75), poderá corresponder ao momento de aquisição da imagem “Despendeu com o que se devia ao
entalhador do resto da Capela-mor e de Stº Amaro a quantia de duzentos e nove mil e trezentos e trinta e quatro reis. (AMS, SCMS Livro de Registo de Despesa 1732-1811, p. 84; no ano económico de 1863-1864 foi
adquirido um bordão para a imagem que terá custado $500 reis (AMS, SCMS Conta de receita Despesa e
Orçamento 1863-1864); e por último surge uma referência a uma festa de Stº Amaro (ano económico de 1821-
1822) que terá rendido para a Santa Casa da Misericórdia $480 reis (AMS, SCMS Livro de Registo de Receita
1732-1811, p. 257). A propósito da lenda de Santo Amaro sugere-se a leitura de NASCIMENTO, Aires A. (ed.
crítica) - A Navegação de S. Brandão nas fontes portuguesas medievais, Edições Colibri, Lisboa, 1998, 142 p. ISBN:972-772-041-2
273 Imagem datada de 1744, (PEREIRA, Fernando António Baptista, op. cit., 2001, p. 75), ligada naturalmente à
vertente caritativa da Santa Casa da Misericórdia, dada as ações piedosas que a Rainha Santa efetuava junto dos mais pobres.
82
Figura 26 – Pintura quinhentista representando Nossa Senhora da Misericórdia275 atribuída a Gregório Lopes, e as imagens de Santa Isabel e de Santo Amaro, século XVIII276 (Fotos da autora, Dezembro 2012)
Direta ou indiretamente ligados às confrarias e irmandades, estes elementos e muitos outros são testemunho do poder económico que se viveu em Sesimbra fruto dos vários contributos a que armadores e pescadores estavam obrigados a efetuar anualmente, por devoção e/ou obrigação. Aliás tal aconteceria também com a própria Igreja Paroquial de Santiago, como iremos ver a seguir.