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NOTAS SOBRE A SOLIDARIEDADE, OS CONFLITOS DE INTERESSE

2 O EMPOBRECIMENTO DAS RELAÇÕES SOCIAIS E SEUS REFLEXOS

2.3 NOTAS SOBRE A SOLIDARIEDADE, OS CONFLITOS DE INTERESSE

No processo de análise de questões pertinentes para iniciar a discussão do

tema proposto, o se que destacou como reflexão, a priori, foi o exame de um processo

de descontrole social em que a sociedade pós-moderna está vivenciando, seja no

âmbito das políticas ou das relações entre os sujeitos sociais, onde o discurso da

solidariedade está sempre no centro das relações sociais e que muitas vezes

aparecem como uma falsa maneira de controle social, uma vez que a forma de se

manifestar mediante a situações que envolvem o social em suas diferentes

configurações podem ou não determinar a pretensão do sujeito na execução de

atividades voltadas ao social e não ao individual como forma de manipulação popular

(BOFF, 1984).

Para que seja possível o levantamento de análises dessa maneira de lidar

com os problemas sociais de maior discussão, é importante a análise dos mínimos

comportamentos de quem discursa sobre as questões mais visíveis das iniquidades

sociais existentes, como a saúde, a acessibilidade a bens e serviços, a moradia,

dentre outros. Para que se possa entender se a finalidade desse “espírito solidário”

não seja uma forma de, além de ter preconceitos com pessoas, estarem defendendo

apenas seus interesses, destacando a questão da auto promoção numa sociedade

em que a carência se apresenta como uma realidade mais do que emergente; não

agir como seres oportunistas nesse processo de defesa dos seus interesses com o

discurso de defesa do social está mais do que comprovado que é um desafio.

Tais fatores sem dúvidas são conflitantes nos meandros de compreensão

dessas condições impostas pelo homem em tempos atuais (COSTA, 2006).

Isso mostra o discurso de quem de fato quer “ajudar”. Esta forma de suporte

defenderá quem? Quem recebe a ajuda ou a quem se está ajudando? Este está o

ponto crucial da análise da solidariedade e dos conflitos de interesses inerentes a ele.

Um ponto merecedor de destaque é que tais conflitos advêm da forma como se

conduz os interesses, se for de uma maneira em que uma camada considerável da

sociedade perceba, sem dúvida deflagrará agitações por parte de quem acreditava

nos propósitos iniciais de implementação de políticas. Para manter o controle social o

sujeito vem com o propósito de melhoria da qualidade de vida dos indivíduos que dela

necessita. As Instituições de Longa Permanência que prestam assistência ao idoso

está na pauta da discussão da sociedade atual, trazendo como discurso de ajuda ao

próximo, estes por sua vez representam uma camada populacional constituída por

pessoas frágeis, indefesas e que precisam de um gesto de carinho.

Isso gera um descontrole social muito grande visto que está à frente

interesses individuais de se autorreconhecer como alguém que fez algo pelo social e

que merece toda honra que existe; isto sem dúvida gera uma série de conflitos,

inclusive os de interesse. Portanto, a questão da solidariedade atrelada aos conflitos

de interesse merece maior aprofundamento de análises do que a forma breve como

foi abordada neste momento, para maior entendimento dessas grandes contradições

e dos limítrofes do individualismo humano, este merecendo grande ênfase e chamada

à reflexão junto aos indivíduos que constituem a sociedade em que estamos vivendo,

para não dizer, em processo de sobrevivência.

Todavia, para mudar o decurso da história, o homem necessita olhar para os

lados e ter ideia da dimensão dos principais problemas que acarreta as

miserabilidades existentes na sociedade contemporânea. Pensar e posteriormente

levantar análises reflexivas sobre a sociedade contemporânea em seus diferentes

níveis de ações históricas sem dúvida não é uma das tarefas mais simples de

desenvolver, pois, no momento em que nos deparamos com os grandes problemas

da humanidade na atualidade, surge sem dúvida, um pensamento crítico do que de

fato foram e são os agentes causadores das diversas dificuldades vivenciadas pelos

indivíduos do século XXI dentro de seu contexto social, em meio a tantas inversões e

embates de valores.

Contudo, não há como também não surgir o pensamento crítico de quem e de

onde partiu os grandes problemas que foram determinantes em muitos aspectos para

o delineamento das relações sociais. Há uma extrema relevância na seguinte

indagação: os homens dos séculos passados que ainda vivenciam relações sociais

no século vigente estão sofrendo os reflexos, intensificando ou recriando esses

grandes conflitos? Esta pergunta é comumente feita e merece reflexões, por muitas

vezes não ter as respostas que o homem, na sua condição ontológica, necessita para

seus questionamentos. A diversidade é vasta de problemas vivenciados pela

sociedade em tempos pós-modernos, destacando as desigualdades sociais, a

ditadura do consumo, os conflitos entre gerações, as relações humanas cada vez mais

fragilizadas, e a que é merecedora de profundas reflexões dentro dessa

contextualização por abarcar estes e outros fatores de análises, e por continuidade a

chamada sociedade do descarte (OSVALDO JÚNIOR, 2012).

Sociedade do descarte pode representar uma das mais completas definições

da sociedade pós-moderna, uma sociedade que mantém padrões preestabelecidos

para se viver nela, aquilo que está fora do determinado pode ser descartado, ou seja,

duas representatividades que ao mesmo tempo perderam seu valor por não ter

cumprido a sua função de forma “correta”, ou por não ter superado as expectativas do

meio em que está inserido pode ser descartado sem hesitações (BAUMAN, 2004).

Trazendo para análise da problemática que necessita de maior cautela para

contextualizar sobre a questão, a do descarte de pessoas, é importante destacar que

a sociedade atual traz consigo, além de outras padronizações, um modelo essencial

de pessoa: aquela que seja capaz de oferecer uma contribuição para o crescimento

do capital. Essa sociedade dispensa aqueles que não se faz mais útil e é importante

frisar que desde o desenvolvimento do homem na sociedade isso já se fazia presente.

Com o passar do tempo se estreitou e se afunilou de tal forma que se adotaram outras

linhas de valorizar a vida em coletividade e as maneiras de se analisar os fatos sociais

como um todo. A valorização do belo, na ótica pós-moderna, está na visão de que o

que está dentro desses ditos padrões é o que se pode aproveitar, o restante é

descartável, não serve mais para nada.

Conduzindo à realidade de maneira clara, é possível afirmar que as pessoas

que não representam certa utilidade para a sociedade podem ser descartadas, a

exemplo os idosos, principalmente os que residem em abrigos, que, muitas vezes, de

maneira preconceituosa, são caracterizados como pessoas que estão à margem em

todos os aspectos existentes na sociedade.

Em razão dessa análise do descarte de pessoas, vem a necessidade de uma

pergunta oportuna: As instituições para idosos surgiram para consolidar ainda mais

essa maneira de “acirrar” a sociedade do descarte? É importante tal análise pelo fato

de se perceber os aspectos contraditórios da sociedade que, ao mesmo tempo em

que criam tais instituições para prestar atendimentos aqueles que necessitam, as

utilizam como uma espécie de “linha” para separá-los daqueles que ainda são úteis

para a sociedade, deixando-os à margem. Logo pensamos que, grosso modo, o que

essa realidade conota é um descarte propriamente dito (BAUMAN, 2010).

As entidades de assistência aos idosos são os que mais sofrem com essa

forma de conceituação, pelo momento em que a sociedade atravessa cuja realidade

é o envelhecimento populacional e, como consequência, o crescimento desses locais

para atender esta nova demanda social (SILVA, 2000). A sociedade do descarte

caminha em sintonia com a “Sociedade do Espetáculo”, conforme título de uma

importante obra do filósofo Guy Debord (1997), na qual destaca como a sociedade se

comporta em meio a grandes transformações mediante a “proletarização do mundo”

(p. 9).

Debord, (1997, p. 13) expõe que,

Toda a vida das sociedades nas quais reinam as modernas condições de

produção se apresenta como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo

o que era vivido diretamente tornou-se uma representação [...] O espetáculo

em geral, como inversão completa da vida, é o movimento autônomo do não

vivo.

Diante dos fatos expostos, sem sombra de dúvida, vivemos em uma

“sociedade do espetáculo”, onde as formas em que se enxergam os fatos estão cada

vez mais voltadas às ações que muitas vezes carecem de autenticidade. Dessa

maneira, as relações humanas tendem a entrar numa situação cada vez mais

emergente. Não se pode deixar a natureza humana submergir numa condição de

seletividade, até entre as suas relações sociais, desta forma as ditas relações ficarão

mais fragilizadas, como inevitável consequência passarão por um processo de

rompimento.

Destarte, teoricamente, uma das alternativas é viver numa sociedade cujo

espetáculo está atrelado à ausência do “ser” verdadeiro, e aquelas pessoas que não

podem por algum motivo se inserir neste processo, provavelmente sofrerão um

descarte. Para que isso não venha a acontecer de forma mais agressiva, é necessário

que haja uma visão de que todos os indivíduos que constituem a sociedade possuem

seus papéis sociais, suas representatividades, sua importância e seu valor enquanto

pessoa que de certa forma também é protagonista dos fatos existentes na sociedade

contemporânea.

3 SOBRE O EIXO DAS RELAÇÕES SOCIAIS: A CONDIÇÃO DE “SER