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Notas sobre governança e multissetorialismo

No documento Precarização do Trabalho (páginas 56-60)

6 PRODUTO: O CASO DO BIBI MOB E O APOIO DO ESTADO A INICIATIVAS COOPERATIVISTAS

Os atores não territoriais e a realocação de autoridades ajudam a explicar a tendência recente de focar em processos de governança ao invés daqueles governos como instrumentos nas quais autoridade é exercida. Enquanto governos são atores concretos acordados com jurisdição formal em domínio territorial, governança é um conceito maior que destaca Esferas de Autoridade que podem não ser territorial em escopo e podem empregar apenas autoridade informal para atingir cumprimento na parte daquelas na esfera. Governança, em outras palavras, se refere ao mecanismo para direção social para chegar ao seu objetivo, a concepção que é mais aceitável para o entendimento do mundo na qual fronteiras antigas estão se tornando obscuras e que novas identidades estão se tornando um espaço comum e na qual a escala do pensamento político se tornou global.

Com essas mudanças na ontologia da governança, novos termos evoluíram para designar unidades de governança que não são instrumentos do estado e governos, como Organizações Não-Governamentais, atores não estatais, atores livres de soberania, policy networks, movimentos sociais, sociedade civil global, coalizões transnacionais, lobbies transnacionais e comunidades epistêmicas, entre outras. Também podemos levar em consideração sindicatos e cooperativas, como há um exemplo de exercício da governança em Araraquara, no qual trabalhadores se juntaram em uma cooperativa, para desenvolvimento de um aplicativo que fosse mais benéfico para todos que a alternativa já usada antes com grandes corporações.

De acordo com Saskia Sassen (2008), há um rompimento com a visão binária de global versus nacional. É insuficiente analisar o Estado Nacional e o Sistema Global como duas entidades exclusivas distintas. Há um processo de

“desnacionalização”, em que há reorientação de agendas nacionais para globais e circulação dentro do Estado de agendas privadas vestidas de políticas públicas, desta forma, sendo um facilitador para o surgimento de cidades globais. Essa dinâmica, as assemblages, como categoriza Sassen (2008), cria novos tipos de territorialidade que podem eliminar fronteiras, constroem ordens normativas particularizadas muitas vezes voltadas a mera lógica de utilidade, retiram diversos segmentos da estrutura normativa do Estado nacional, reorganizando seus alinhamentos constitucionais.

Segundo Sassen (2008), há institucionalizações emergentes que desestabilizam o revestimento nacional do território. Existe uma territorialidade constituída através do desenvolvimento de novas geografias jurisdicionais, ou seja,

tipos de territorialidade. Essas entidades criam tanto poder que vão suprir a concepção do Estado. Em um sistema jurídico nacional certos processos são muito demorados, se tornando mais fácil resolver em outras jurisdições. Há também o trabalho de Estados Nacionais ao redor do mundo para construir um espaço global padronizado para a operação de firmas e mercados. Isso para que essas atividades possam ser desempenhadas em seu território. Os Estados começaram a entender que precisam trabalhar em conjunto a essas pressões.

Consequentemente, há a formação de uma rede global de centros financeiros. São desnacionalizados de maneiras específicas, multiterritoriais e divergem de nossa tradição de entender a territorialidade através do Estado. Logo, também se criam redes globais de ativistas locais, a Sociedade Civil Global, que começa a ter participação na economia internacional com um lugar à mesa em espaços de discussão.

De acordo com Sassen (2008), todos esses pontos são diferentes, sejam eles fixos ou digitais. Não são exclusivamente globais ou nacionais, mas sim um conjunto de elementos de cada um. Uma rede digital de processos globais que reúne diferentes ordens espaço-temporais, diferentes velocidades e escopos, o que pode produzir um engajamento agitado, como contestações e o efeito da zona de fronteira e o surgimento de novos tipos de atores podem ter a opção de acessar domínios antes exclusivos.

Além da discussão sobre território e Estado, Saskia Sassen (2008) propõe também uma nova interpretação do processo de globalização em que o Estado é um dos domínios institucionais estratégicos onde o trabalho e o desenvolvimento da globalização se localizam. Não necessariamente implica em um declínio do Estado, mas não se mantém como sempre esteve. Além disso, o Estado se torna espaço para transformações fundamentais na relação público e privado.

Essa interpretação vem com implicações políticas e normativas como novos tipos de desigualdades sistêmicas, novas localizações para as normativas, articulação que, antes era centrípeta do Estado-Nação, passa a ser uma multiplicação centrífuga de agenciamentos especializados. Outra implicação política é o Executivo cada vez mais privatizado e alinhado com atores globais. Logo, a legislatura pede importância e como consequência, causa o confinamento da legislatura a assuntos domésticos. Contudo, o Legislativo interno do Estado enfraquece sua eficácia à medida que a globalização se expande (SASSEN, 2008).

Tão importante quanto as outras implicâncias políticas que Sassen chama a atenção, se não for mais é a erosão dos direitos dos cidadãos. As evidências trazidas por Sassen são:

1. Crescente importância de componentes particulares de administração para a implementação de uma economia corporativa global; 2. Reguladores globais (OMC, FMI) não lidam com legislatura, o que pode fortalecer a adoção de lógicas globais pelo executivo; 3.

Casos de apoio das administrações centrais a gestão de operações importantes em outros Estados. (SASSEN, 2008, tradução livre).

Os atores de maior relevância na governança global atualmente são as empresas. As grandes corporações, que estão presentes em diversos países, têm grande poder de atuação dentro dos Estados, principalmente no que diz respeito ao poder econômico, político e até social.

As empresas atuam tanto no espaço nacional quanto no ambiente internacional ao mesmo tempo. Neste meio, há também questões de contestação, como é a questão ambiental, por exemplo, porém não existe nenhum mecanismo legal internacional de responsabilização de empresas, só o Estado.

Um dos elementos que as empresas utilizam para dificultar o processo de responsabilização é a fragmentação jurídica das empresas nos Estados. Um exemplo disso são empresas subsidiadas ou cada empresa em cada país com registro diferente ou que praticam infrações diferentes em países diferentes, como por exemplo, multinacionais que violam legislação trabalhista em um país, realizam perseguição sindical em outro país, e fazem dano ambiental em outro local. Desta forma e assim, fortalecido pela globalização, é muito difícil conectar eventos uma vez que, juridicamente falando, não há ligação entre as empresas, causando um vácuo de responsabilização. Se tornando impossível responsabilizar pelo conjunto de transgressões, apenas individualmente dentro de cada Estado, e ainda sim com limitações.

Com essas mudanças nas formas de governança global, outros atores vão sendo incluídos no jogo para além da atuação do Estado. Segundo Gleckman (2018), uma mudança para a governança multistakeholder, ou multissetorialismo introduziria um novo conjunto de atores de governança e um novo processo para fazer “leis e regulamentos” globais. Em teoria, esse subgrupo seria mais representativo justamente para lidar com as desigualdades produzidas pela economia globalizada. O multissetorialismo de outra forma não está amarrado a

instituições chave dentro dos governos. Não é mais um departamento de estado, um escritório estrangeiro ou um ministério da economia a força principal que coordena a participação do governo na governança global. Esses grupos podem ser empresas, Organizações Não-Governamentais, organizações sem fins lucrativos, fundações, sindicatos, cooperativas, movimentos sociais e outras organizações da sociedade civil.

Desta forma, é importante lembrar que os Estados não estão imunes à presença de empresas, como, por exemplo, para efeitos da análise deste trabalho, no modelo multilateral, há lobby para aprovação ou barrar projetos de lei de regulamentação do trabalho de plataforma, de forma que seja mais vantajoso para o aplicativo. Os interesses privados se fazem presentes na estrutura multilateral (vide agenda dos próprios Estados nacionais). Os interesses são construídos a partir de grupos, coalizões e influências políticas.

Já no modelo multissetorial, a representação é mais opaca, não necessariamente centralizada nos Estados. Nesses arranjos, a lógica é outra: a participação está muito mais aberta; diversos atores estão na mesa de negociação e têm o mesmo peso no processo decisório. Ou seja, ONGs internacionais, fundações, academia, filantropia, mas principalmente o setor privado.

De acordo com Gleckman (2018), existem três tipos de arranjos multissetoriais: o primeiro são aqueles orientados para produtos e processos (padronizações, critérios); o segundo são os orientados para o desenvolvimento de projetos; e, finalmente, os terceiros são os orientados para a formulação de políticas (diretrizes, ações). Este último grupo são iniciativas mais políticas de elaboração de diretrizes e normas informais. Essas iniciativas não têm uma vinculação jurídica legal e obrigatória, não é uma fonte de norma internacional que pode ser internalizada nos ordenamentos dos países (como acontece com as organizações internacionais).

Elas produzem uma governançasoft.

No documento Precarização do Trabalho (páginas 56-60)

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