NOTAS
5. o Ú ltimo A to
em osasco, onde a situação aparentemente voltou à normalidade, não passa um dia sem que um pequeno grupo de operários não receba o aviso de demissão. Alguns quilômetros adiante, nos enormes quartéis de Quitaúna, onde se concentra o grosso das tropas do II exército (com sede em São Pau-lo), jovens oficiais, encolerizados pela ocupação das fábricas pelos operários, preparam listas de nomes dos “mais perigosos”, que serão castigados no “mo-mento propício”32. Para isso, é necessário impedir a mobilização da imprensa, da opinião pública, dos advogados e, assim, criar as condições para que a caçada seja proveitosa. em dezembro, todas essas condições estarão formal-mente reunidas.
atentados com bombas etc. No Serviço Nacional de Informações (SNI), o general Garrastazu Médici, seu diretor, observa atentamente a evolução das ações arma-das e a reação popular. Na secretaria geral do Conselho de Segurança Nacional, o general jayme Portella discute e analisa os informes. o general Meira Mattos, considerado um especialista em “guerra revolucionária”, é nomeado Inspetor Geral das polícias militares dos estados33.
os primeiros sintomas de radicalização nos altos comandos militares começam a se tornar públicos em meados de junho, depois da grande mani-festação de rua no Rio. o deputado Martins Rodrigues, secretário geral do partido oposicionista Movimento democrático Brasileiro (MdB), denuncia as tentativas de restabelecimento do “Ato Institucional nº 2” para suprimir as garantias individuais, censurar a imprensa e controlar o judiciário:
é a terapia sugerida pela oligarquia militar para sufocar uma crise provocada pelos anseios de liberdade do povo [...] estamos às vésperas de novas tentati-vas para institucionalizar a violência e a opressão. A inequívoca manifestação do povo não foi uma lição suficiente para a obstinação antidemocrática do go-verno, prisioneiro de uma oligarquia político-militar que o mantém surdo ao clamor popular [...] e que por isso prefere o estado policialesco34.
Falta, no entanto, desencadear um plano para justificar a escalada da repressão. em um modesto edifício do largo do Paissandu, em São Paulo, um curioso e estranho homem que lê a Bíblia no original hebraico, que estuda os discos voadores e diz que viajou a Marte em um deles, recebe a visita do general de reserva Paulo Trajano, amigo íntimo do general Meira Mattos. As visitas do general Trajano a Aladino Félix – o homem dos textos sagrados e dos discos voadores – tornam-se cada vez mais frequentes.
dois meses mais tarde, Aladino Félix (também conhecido por Sábato dinotos) é detido e acusado de ser o inspirador de um plano terrorista des-tinado a semear o pânico em São Paulo. encabeçando um grupo formado especialmente por soldados da força pública do estado, Aladino Félix come-teu uma série de atentados e atos de sabotagem que culminam, no dia 18 de agosto de 1968, com três explosões simultâneas, a mais violenta das quais aconteceu em frente ao prédio da polícia política (doPS), com tal potência que a explosão foi ouvida num raio de dez quilômetros. Três dias depois, a polícia civil descobre e detém o bando de Aladino Félix. os jornais de 21 de agosto estão cheios de informação sobre o fato:
Aladino, um psicopata que dá aulas sobre discos voadores, disse que recebe or-dens de gente muito importante [...] Segundo o comissário ernesto dias, “ele queria forçar o regime endurecer”.
em 1964, quando frequentava reuniões preparatórias ao golpe, Aladino conhe-ceu muita gente hoje importante.
“diante do juiz penal, aladino disse que a Casa Militar da Presidência da república era a que dirigia as ações de terror e destacou, igualmente, que só funcionava como intermediário entre a Casa Militar e os terroristas.”
o general Paulo Trajano, por outro lado, desmentiu que tivesse ligações com Aladino, embora admitisse haver estado várias vezes em seu escritório, mas unicamente para estudar a Bíblia.
Menos de uma semana depois, o termômetro político atinge outra vez sua temperatura máxima. Tropas da polícia militar do distrito Federal e do exérci-to, junto com agentes do departamento de ordem Política e Social (doPS) inva-dem a universidade de Brasília, disparando em todas as direções e depredando os laboratórios, sob o pretexto de deter alguns dirigentes estudantis, entre eles Alduísio Moreira de Souza, libertado no dia anterior e que se encontrava trans-tornado por causa das torturas, e honestino Guimarães, presidente da Federa-ção de estudantes universitários, já há algum tempo procurado pela polícia35. A ocupação foi praticada com requintes de violência. dezenas de deputados que acorreram à universidade (alguns chamados por seus próprios filhos estudan-tes) foram espancados e puderam ver quando honestino Guimarães foi levado a um carro da polícia com o rosto e o corpo sangrando, enquanto recebia novos chutes e golpes de cassetetes.
A invasão da universidade teve ampla repercussão no Congresso e em todo país. A Câmara de deputados cria uma comissão parlamentar de inqué-rito para apurar e definir a responsabilidade dos fatos, enquanto o governo promete o mesmo e anuncia que o Serviço Nacional de Informações, sob a di-reção direta do general Garrastazu Médici, averiguará o ocorrido. A comissão de investigação da Câmara foi sabotada pelos próprios deputados da Arena, e a do governo (através do SNI) jamais publicou seus resultados. Contudo, ficou claro que um grupo de militares do exército, comandados pelo coronel Carlos evaristo, teve a iniciativa da invasão, sem que, de fato, as autoridades de mais alto nível tivessem conhecimento antecipado. o poder repressivo já estava, então, dividido ao meio, e era exercido livremente pelos oficiais de níveis in-feriores, sem que jamais fossem penalizados por seus superiores.
A escalada continua e, progressivamente, os aprendizes de bruxos já não podiam controlar seus subordinados. em agosto, explodiu o escândalo dos as-sassinatos massivos preparados pelos militares do PARA-SAR. os oficiais que haviam se recusado a participar da utilização criminosa dessa organização foram penalizados com prisão domiciliar e transferência para lugares longínquos do país. os culpados foram premiados. os que executaram as ordens repressivas e
deram ao processo uma tônica de violência fora de qualquer proporção passaram a controlá-lo. o general jayme Portella, chefe da Casa Militar da Presidência, tornou-se um dos homens fortes do regime, devido a suas funções paralelas de secretário-geral do Conselho de Segurança Nacional.
em São Paulo, a Faculdade de Filosofia, um dos núcleos mais politiza-dos da cidade, é atacada a tiros por grupos do CCC (Comando de Caça aos Comunistas) entrincheirados em uma universidade privada do outro lado da rua. Formado por oficiais do exército, policiais e filhos de famílias ricas, o CCC é uma organização tipicamente paramilitar e foi particularmente ativa em 1968, atacando com bombas e à mão armada espetáculos teatrais de vanguarda, sequestrando atores e realizando uma série de atos de provocação. depois de decretado o Ato Institucional nº 5, e a institucionalização da tortura, os membros do CCC começaram a participar diretamente dos interrogatórios dos presos políticos na operação Bandeirantes, em São Paulo.
junto à Faculdade de Filosofia se produz uma verdadeira batalha cam-pal nos primeiros dias de outubro. oficiais e soldados da Força Pública de São Paulo ajudam os integrantes do CCC a preparar os “coquetéis molotov”, com os quais atacarão os estudantes. durante os três primeiros dias do enfrenta-mento, o governo do estado se nega a intervir e, com isso, favorece aos assal-tantes direitistas, que, bem armados, estão em vantagem. em 3 de outubro, tiros de revólver calibre 38 do CCC matam um estudante secundário, josé Guimarães, e, pouco depois, tropas da Força Pública, a cavalo, invadem, com seus cães amestrados, a Faculdade de Filosofia36.
Mais além dos objetivos gerais de intimidação ao crescente movimento de massas, a repressão pelo terror contra o setor estudantil tem um alvo em curto prazo: impedir, por todos os meios, a realização do XXX Congresso Nacional da união Nacional dos estudantes, previsto para outubro “em algum ponto do país”.
Seus dirigentes são perseguidos, em uma verdadeira caçada, e as faculdades, vigiadas. Apesar de tudo, o XXX Congresso se instala, em meados de outubro, em um sítio isolado em Ibiúna, zona rural nas cercanias de São Paulo, reunindo 712 delegados de todo o país. No segundo dia, o sítio de Ibiúna é cercado por três destacamentos de soldados da Força Pública. Todos os estudantes são presos, fichados, fotografados como criminosos e enquadrados na lei de Segurança Na-cional. entre os presos se encontravam: Vladimir Palmeira, o dirigente da mani-festação dos “Cem Mil”, no Rio, e luís Travassos, presidente da uNe.
Mais tarde, o “álbum” de fotos dos presos de Ibiúna servirá como um dos pontos de partida dos militares para identificar muitos dos participantes das organizações revolucionárias. de fato, depois do fracassado congresso e da destruição temporária do movimento estudantil, inúmeros estudantes aderiram às fileiras das organizações de luta armada.
os estudantes estão nas prisões. os atos terroristas de direita são des-mascarados. Pouco a pouco, crescem os atos de expropriações a bancos ou de armas, realizados pelos grupos revolucionários armados. Paralelamente, amadurece a trama tecida pelos generais para um novo “endurecimento”. o pretexto será um brevíssimo e incisivo discurso do deputado Márcio Moreira Alves na Câmara Federal, em agosto. odiado pelos militares por causa do seu livro Torturas e Torturados, o jornalista e então deputado denuncia, em um discurso de dez minutos, a gratuita e excessiva violência militar empregada na invasão da universidade de Brasília.
o ministro do exército, general lira Tavares, exige de Costa e Silva a
“cabeça” de Márcio Alves. Nos quartéis, recomeça o clima que antecedeu o Ato Institucional nº 2, de outubro de 1965. Proliferam os manifestos de gru-pos de coronéis e capitães. um general, de baixa estatura e de aspecto severo, visita os principais quartéis do país para prometer que “a revolução” seguirá seu caminho. Seu nome: Afonso de Albuquerque lima, ministro encarregado dos órgãos de desenvolvimento regionais, conhecido como ultradireitista e que se autodenomina “nacionalista”.
Costa e Silva está agora, como presidente, tão isolado como Castelo Branco em 1965. Contudo, para cortar a “cabeça” de Márcio Alves é necessário cumprir várias formalidades. uma solicitação de cassação de seu mandato parlamentar é enviada ao Supremo Tribunal Federal, que a remete à Câmara de deputados para que ali se decida se o deputado – que constitucionalmente tem imunidade – pode ser objeto de uma ação judicial. Paralelamente, os militares tentam enquadrar na nova lei de Imprensa o deputado hermano Alves, também jornalista, e que publicara em um jornal artigos considerados injuriosos às Forças Armadas.
A Comissão de justiça da Câmara rejeita, em princípio, a solicitação para quebra de imunidade do deputado, ao analisá-la do ponto de vista jurí-dico-constitucional. oito deputados da comissão são substituídos por outros ,fiéis e dóceis aos militares. diante do risco de se esgotar o período legislativo sem que o assunto tivesse sido votado, o presidente Costa e Silva convoca o Congresso para funcionar em sessão extraordinária. o ministro do Interior e justiça deixa seus gabinetes habituais no Rio e se encaminha a Brasília para se reunir com as lideranças parlamentares do governo. o deputado precisa perder a imunidade: assim o exigem os militares. Trata-se de “um problema político”. Sem que a Comissão de justiça tenha decidido sobre o assunto (apesar das substituições) o projeto vai à reunião plenária.
Quando o líder da Arena, Geraldo Freire, subiu à tribuna para defender a cassa-ção, estava sério e triste. Seu rosto ficou vermelho, as palavras foram veementes,
mas faltavam argumentos. os poucos aplausos, ao final do seu discurso, mostra-ram que o governo havia perdido o primeiro assalto. A vitória do “não”, já espe-rada até em listas e bolos feitos por jornalistas, deputados e funcionários do Con-gresso, só surpreendeu por ser maior, numericamente, do que se previa. Quando o presidente josé Bonifácio falou com voz grave “Não, 216 votos; Sim, 141 votos;
Brancos, 12. o projeto fica rejeitado”, o plenário de pé aplaudia, Mário Covas chorava nos braços de Mario Piva (MdB-Bahia), joão herculino (MdB-Minas) gritava sua alegria, funcionários e deputados choravam. o hino Nacional co-meçou a ser cantado nas galerias lotadas e foi puxado no plenário pela depu-tada Ivete Vargas (MdB-São Paulo). o presidente da Casa, josé Bonifácio, ficou atrapalhado, mas acabou se perfilando em respeito ao hino37.
Isso ocorreu em 12 de dezembro de 1968, uma quinta-feira. No mesmo dia, um pouco antes, o Supremo Tribunal Federal concedeu o habeas corpus mandando libertar os 712 estudantes presos por ocasião do congresso da uNe, em Ibiúna, e que ainda estavam encarcerados, inclusive os principais dirigentes universitários. Contudo, os generais já haviam decidido que não se cumpriria nenhuma das duas decisões. À noite, nos diversos quartéis onde se encontravam detidos os estudantes, é recebido um comunicado do comando do II exército, em São Paulo, ordenando que ninguém fosse libertado porque, apesar da decisão da Corte Suprema, “algo muito importante deverá acontecer nas próximas horas”.
Na tarde do dia 13, o Conselho de Segurança Nacional se reúne. estão presentes todos os ministros do governo, mais o chefe do Serviço Nacional de Informações, general Garrastazu Médici, o chefe do Gabinete Militar da Presidência da República, general jayme Portella, e o vice-presidente Pedro Aleixo, que é o único a se opor à decretação de um novo Ato Institucional, o de número 5.
o jornalista Carlos Chagas, secretário de imprensa da Presidência da República, mais tarde iria se referir às situações jurídicas criadas pelo Ato Institucional nº 5, ao escrever em seu jornal sobre os últimos momentos do governo Costa e Silva38:
o sistema de cascata determinará os poderes de exceção aplicados pelo mais reles esbirro policial. Na suspensão do habeas corpus, por exemplo, que, se-gundo a minuta lida, não prevalecerá para crimes políticos ou contra a ordem econômica, quem estabelecerá a tipicidade de cada fato? Quem dirá se tal e qual crime tem implicações políticas ou se relaciona com a ordem econômica?
Muitas vezes, matéria tão importante estará em mãos de um recalcado, ao ar-bítrio de um despreparado.
Na noite desse dia 13, o país saberá, por rádio e televisão, que foi decre-tado um novo Ato Institucional e que o Congresso foi fechado:
Art. 2º - o Presidente da República poderá decretar o recesso do Congresso Na-cional [...]
Art. 3º - [...] decretar a intervenção nos estados e Municípios, sem as limitações previstas na Constituição.
Art. 4º - [...] suspender os direitos políticos de quaisquer cidadãos pelo prazo de 10 anos e cassar mandatos eletivos federais, estaduais e municipais.
Art. 6º - Ficam suspensas as garantias constitucionais ou legais de: vitalicieda-de, inamovibilidade e estabilidavitalicieda-de, bem como a de exercício em funções por prazo certo.
Art. 10 - Fica suspensa a garantia de habeas corpus, nos casos de crimes políticos, contra a segurança nacional, a ordem econômica e social e a economia popular.
Brasília, 13 de dezembro de 1968; 147º da Independência e 80º da República.
os generais haviam se esquecido de mencionar: “5º ano da ditadura militar”.
Começa uma longa noite de terror. No mesmo dia 13, comandos poli-ciais ou militares prendem, em todo país, dirigentes trabalhadores e estudan-tis, parlamentares e intelectuais39.
Censores militares são destacados para as redações dos jornais, que publicam o texto do “Ato Institucional nº 5” e substituem as informações políticas por anúncios fúteis, em um visível – embora débil – protesto contra a censura. em casas e apartamentos do Rio e de São Paulo, jovens de menos de 25 anos releem, com duplo interesse e atenção, as proclamas e artigos de Carlos Marighella, feitas ainda em maio de 1968, no jornal clandestino O Guerrilheiro. é um chamado aos militares de esquerda para desencadearem a luta armada contra a ditadura militar.
Nos dias seguintes à promulgação do “Ato Institucional nº 5”, Mari-ghella repete e aprofunda seus pontos de vista:
estratégia da ação Libertadora Nacional: em um país como o Brasil, onde existe uma crise política permanente como resultado do agravamento da crise crônica de estrutura e da crise geral do capitalismo e de onde surge, em consequência um poder militar, nosso princípio estratégico é transformar a crise política em luta armada do povo contra o poder militar. o princípio básico dessa estratégia é desencadear, tanto na cidade como no campo, um volume tal de ações revolu-cionárias que o inimigo se veja obrigado a transformar a situação política do país em uma situação militar [...] é esta identidade de conceitos ideológicos, te-óricos e práticos o que faz que, em vários pontos do país, revolucionários
des-vinculados uns dos outros acabem fazendo coisas que os identifiquem como se pertencessem a nossa organização [...] Nossa organização foi constituída para levar à prática uma linha revolucionária que tem como estratégia a guerrilha.
os princípios dessa organização não se confundem com os das organizações políticas de esquerda tradicionais no Brasil, cujo funcionamento se estabelece à base de reuniões para elaborar documentos [...] A espinha dorsal de nossa orga-nização são os grupos revolucionários que se caracterizam por sua iniciativa e combatividade [...] o princípio básico é partir da guerrilha e, uma vez assentada tal premissa, fazer da organização um instrumento da linha política que segue essa estratégia [...] Nossa atividade principal não é a construção de um partido, mas sim desencadear a ação revolucionária sob uma linha revolucionária única, que contém em si, como uma só coisa, a linha política e militar fundidas [...] A guerrilha é o próprio comando político e militar da revolução. O dever do revo-lucionário é fazer a revolução.40
Para uma grande parte dos militantes políticos, dirigentes estudantis e operários, encerra-se a etapa de luta por ampliar a estreita faixa de liberdades públicas e individuais dentro do sistema, levada a cabo a partir do Ato Institu-cional nº 2. Para todos, inclusive para os mais politizados, é o fim da agitação política clássica da esquerda. Quase em sua totalidade, passam à ação. Muitos passam à clandestinidade e integram os grupos armados que constituirão a
“guerrilha urbana”, a que os militares chamam de “terroristas”.
As organizações políticas revolucionárias (constituídas a partir de ações de “expropriações” de bancos) nasceram praticamente em decorrência da decretação do AI-5, ou pouco antes. Anteriormente, em 1962, dentro da esquerda surge uma definição em favor da luta armada, na cisão do velho PCB. Nasce, então, o Partido Comunista do Brasil (em oposição ao PC Bra-sileiro), dizendo-se de “linha chinesa” e falando de luta armada, mas sem nenhuma perspectiva clara e definida.
o golpe de 1964 cria as condições objetivas aparentes para a luta armada, mas as primeiras tentativas fracassam. A Ação Popular, de origem cristã, adere ao “foquismo” em 1965 e, pouco depois, adota a estratégia da guerra popular prolongada, ao estilo chinês, mas sem nenhuma iniciativa prática ou visível, pelo menos. Subalternos expulsos das Forças Armadas (sargentos, cabos, mari-nheiros), junto com intelectuais e profissionais liberais, constituem o Movimen-to Nacionalista Revolucionário (MNR), sob a direção política de leonel Brizola, e realizam diversas investidas guerrilheiras no campo (Caparaó e muitas outras), que fracassam. em finais de 1967, com alguns dos seus principais membros na prisão, o MNR está praticamente destruído, antes mesmo de sua tentativa de ação ter visibilidade.
A data coincide com a volta de Carlos Marighella da reunião de olAS, em havana, e o início de um amplo trabalho de organização. No entanto, a Ação libertadora Nacional, sua articulação, só surgirá em meados de 1968, ampliando-se a partir do momento (finais desse ano) em que o trabalho político de massas já não é possível.
em princípios de 1968 (mais ou menos na mesma época das primeiras ações de Marighella), ex-sargentos e estudantes (que antes haviam pertencido ao MNR) organizam em São Paulo comandos de expropriação de armas nos quartéis e de dinheiro nos bancos. Intelectuais e operários se integram tam-bém à organização, que passa a se chamar Vanguarda Popular Revolucionária e que tem, entre seus membros, o capitão Carlos lamarca, que logo desertará do exército com alguns sargentos, soldados e armas de seu batalhão. em fi-nais de 1968 e especialmente em inícios de 1969, as organizações de luta armada se reproduzem em grande número. Surge em São Paulo a Ala Verme-lha (cisão revolucionária do PCdoB, de linha maoísta) e, no Rio, o Movimento de Ação Revolucionária (MAR), com base em antigos militantes do já inexis-tente MNR, além do MR-8, que tenta, inicialmente, formar focos rurais e se reorganizar a partir dos quadros do movimento estudantil. em Belo horizon-te, surge o Comando de libertação Nacional (Colina).
No entanto, a quase totalidade das ações desses grupos se limita a as-saltos a bancos e pequenos ataques de sabotagem nas cidades. Mais tarde, algumas organizações se tornarão conhecidas pelos sequestros de diplomatas estrangeiros, que buscam principalmente libertar prisioneiros submetidos à tortura e sob um regime carcerário rígido e brutal.