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4 DA ANÁLISE

4.1 QUEM TEM MEDO? | LOBAS E LOBOS

4.1.2 O acesso

Vivemos nos países latino-americanos alguns processos que nos remetem aos que as mulheres europeias e norte-americanas viveram cerca de um século atrás. Na virada do século XIX para o século XX, surgiu um padrão de comportamento feminino que ficou conhecido como a New Woman ou Nouvelle Femme (ADKINS, 2015). Esta “nova mulher” confrontava os papéis tradicionais impostos pela sociedade masculina às mulheres. E, durante as primeiras décadas do século passado, ela reivindica sua própria carreira profissional, seus direitos, a liberdade de viajar e de exercer uma sexualidade menos regrada, questionando a maternidade, o casamento e a associação da mulher exclusivamente à vida familiar. As mulheres fotógrafas entram internacionalmente neste contexto de embate, de assumir uma prática profissional que lhes promete uma vida independente, uma relação com o mundo das artes, da moda, do teatro, dos esportes, do jornalismo, da política, etc. Uma relação ativa com a vida urbana, o espaço público. E esse enfrentamento é composto por uma luta cotidiana contra o patriarcado e os papéis de gênero. Feminismo e ser mulher na fotografia caminham lado a lado.

Na Inglaterra anterior à Primeira Guerra Mundial, cerca de mil sufragistas foram presas por “ofensas provocativas”, ao chamar a atenção pública à sua causa. Entre elas, destaco a canadense Mary Richardson, que, em março de 1914, entrou com um cutelo na National Gallery de Londres e esfaqueou a tela da Vênus ao espelho, de Velázquez, em uma ação militante iconoclasta. Em nota divulgada pela imprensa, ela diz que tentou destruir a imagem mitológica símbolo da maior beleza feminina na intenção de protestar contra a prisão da líder Emmeline Pakhurst (“a mais bela figura da história moderna”, define ela), alegando que a justiça é um elemento da beleza, tanto quanto uma obra de arte, criticando a hipocrisia e reivindicando justiça às mulheres. (ADKINS 2015, p.148)

Figura 2 – Diego Velázquez, Vênus ao espelho, 1647-1651, óleo sobre tela. Acervo: Londres, National Gallery.

Uma ação direta contra um nu (idealizado) feminino, pintado por um homem e legitimado por um público masculino durante seus, até então, 250 anos de existência, foi um golpe simbolicamente potente por parte de Richardson e contempla questões ainda pertinentes, que abordaremos ao longo desta tese. Seu gesto se sintoniza ao da profissão da mulher fotógrafa, cuja existência por si só já reivindica para si um papel ativo na criação de imagens. Ao invés de serem fetiches ou objetos passivos submetidos aos desejos e olhares dos homens, podemos produzir outros discursos sobre nós mesmas e sobre os outros. Mas isso será abordado mais adiante.

Neste mesmo contexto de início do século passado, as fotógrafas eram engajadas nas lutas das mulheres: estar na profissão já era um enfrentamento, como foi dito, mas muitas também fotografavam as manifestações, as passeatas e outros atos feministas, como Kate Pagnell, Christina Broom, Lizzie Caswall Smith e Lena Connell.

Com a chegada da primeira grande guerra, a militância das sufragistas fica suspensa, mas a autonomia feminina acaba reforçada, já que a população masculina dos países envolvidos no confronto vai à luta militar, deixando as ocupações civis nas mãos de suas mães, esposas, irmãs e filhas. Essas experiências pertencem a uma consciência ideológica que orienta as mulheres fotógrafas, sobretudo nas décadas de 1920 e 1930, onde, no pós-guerra, uma outra geração feminista (pós-New Woman) experimenta novos meios de expressar sua independência, inclusive jogando com sua identidade de gênero.

Ao formular o questionário, perguntei: “Você acha que fotografia é uma prática masculina e/ou feminina? Por quê?”. Algumas fotógrafas, ao responderem, enveredaram pelo caminho de tentar classificar um tipo de fotografia mais feminina que outro ou mais masculina que outro, ou mesmo, em oposição a isso, outras tentaram negar que haja diferenças no olhar a partir do gênero. Esta abordagem veremos mais adiante, no capítulo 4.6. Para este momento da discussão, destaco que 85% das fotógrafas levaram a questão para um lugar mais social do que estético, sobretudo para reforçar e reiterar que todas as pessoas estão aptas e autorizadas a praticar a fotografia.

Quase que em um movimento de defesa e legitimação de sua própria escolha de vida – ser fotógrafa –, frases como “é uma prática humana, qualquer um pode fazer”, “tanto faz, é de quem quer se expressar através da imagem”; “é universal”; “é ageneral”; “a capacidade não depende de gênero”; “é de ambos”; ou “é para todos” palpitam entre elas. Porém, 40% dentre todas destacam que a fotografia é uma prática dominada por homens: “há mais homens na fotografia”; “o meio fotográfico ainda tem resquícios de ser algo masculino”; “as mulheres ainda são minoria”; “podemos refletir sobre o machismo existente no universo da fotografia”; “por muito tempo ela se restringiu aos homens”; “é um meio, um mercado, um universo masculino até hoje”; ou mesmo “foi desenvolvida por homens”. O movimento das respostas vai em direção a, em um primeiro momento, autorizar e afirmar a legitimidade da prática fotográfica por mulheres (ou seja, por todos, não só pelos homens) e, logo em seguida, a denunciar e destacar o machismo presente neste campo.

Destaco duas respostas, que merecem uma atenção maior em termos reflexivos e que desdobraremos ao longo desta tese: “socialmente [a fotografia] é tida como uma prática principalmente de homens. Por sua relação com viagens, aventuras e exploração e com o conhecimento técnico e habilidades e sensibilidades artísticas dominadas por homens”; e “minhas referências são mais masculinas. As mulheres ao longo da história não tiveram a mesma visibilidade que os homens”.

Quando vamos às entrevistas, vários depoimentos caminham lado-a-lado aos dados coletados e analisados a partir do questionário. Roberta Guimarães, que começou sua carreira ainda na década de 1980, relaciona o fazer fotográfico a mais uma prática estabelecida como masculina, mas que a atraía, entre outras, e que ela assumiu como enfrentamento. E conta:

Desde pequena, eu sempre gostei de “brincadeira de menino”. Assim, eu brincava de boneca, mas eu brinquei de carrinho, do meu primo, eu jogava bola, eu andava de bicicleta, entendeu? Eu sei que quem subia no pé de jambo, lá em cima, para mandar os jambos pro povo que ficava embaixo, era eu. Talvez eu tenha buscado a fotografia um pouco por isso, talvez eu não me adaptasse a um trabalho dentro de

escritório, e esse lado da fotografia eu sempre peitei, sabe? Eu nunca fui um a pessoa submissa!

Tuca Siqueira desmonta as dificuldades e as possibilidades postas para uma mulher, quando ela decide ser fotógrafa:

O caminho que a gente tem disponível pra gente é completamente diferente. É muito mais complexo, muito mais difícil. A gente tem que provar. Entendeu? E o lugar que foi apresentado pra mim é um lugar que eu não quero. O que estava para mim colocado e posto fora de casa, no ambiente em que eu estudei, no namoro que eu tive, nas relações, nos vizinhos e tudo, era o que se reproduz pra toda mulher, que era a construção de matrimônio e patrimônio e de maternidade. Que até hoje eu não sei se eu quero. Mas era um lugar que estava dentro dessas três caixinhas: matrimônio, patrimônio e maternidade. Eu poderia fazer da maneira que eu quisesse, mas dentro disso aí. Então, eu acho que a fotografia ela meio que reproduz isso, assim. As pessoas ficam sempre esperando que você tenha um olhar mais sensível, porque você é mulher. E aí, que olhar sensível é esse? Que parâmetro é esse? As pessoas acham que você não vai aguentar um equipamento tão mais pesado, que você não vai ter tanta resistência... E é muito chato ter que ficar provando isso o tempo inteiro! E é muito chato ter que ficar provando isso no momento em que você tem que provar socialmente que você quer esse caminho pra você: quando eu estava entrando no mercado de trabalho, eu estava saindo da universidade, quando ninguém confiava em mim... É puxado “pra caralho”! Se eu fosse um homem, eu tenho certeza de que teria sido mais fácil pra mim. Certeza absoluta, eu não tenho dúvidas. E aí os homens podem achar, e eles sempre acham, que é um pouco de exagero. Mas, assim, essa certeza eu tenho. Absoluta.

Quando Tuca fala de “matrimônio, patrimônio e maternidade”, ela resume – mais do que um percurso – um estilo de vida estimulado e oferecido às mulheres, como meio para realização pessoal e felicidade: a dedicação total à vida familiar patriarcal, esta instituição- base da vida supostamente ideal. Colonizaram-se as mulheres. Mulheres fotógrafas, em certa medida (umas em mais instâncias que outras), escolheram entrar no movimento de descolonizar-se.

Madame Yevonde, fotógrafa britânica que viveu entre 1893 e 1975, dizia que, se precisasse escolher entre casamento e carreira, ela optaria por uma carreira sem renunciar a ser mulher (1940, p.284). Ao afirmá-lo, a fotógrafa questiona certa compulsoriedade dos papéis de gênero, ao mesmo tempo que se reforça enquanto mulher. Ela reivindica que se traga às mulheres a possibilidade de outros caminhos (para além do “matrimônio, patrimônio e maternidade”). Não é que ela vá se “masculinizar” enquanto fotógrafa, que ela vá se inserir em um universo que é próprio “do homem”. Pelo contrário, é como se ela afirmasse que a fotografia não é uma profissão somente masculina, mas também feminina. E que, para ser fotógrafa, ela não precisaria necessariamente se atrelar aos velhos papéis de gênero, nem muito menos negá-los ou deixar de reconhecer-se enquanto mulher. Assim como as fotógrafas que responderam ao questionário, ela reforça que a fotografia é uma prática “ageneral”.

Porém, os fatos históricos mostram que sempre fomos vistas como “o outro”, no caso, “as outras”, não apenas do gênero, como também da prática fotográfica. Em fevereiro de 1896 a Associação nacional de fotógrafos amadores da França anuncia o primeiro concurso de fotografia exclusivamente reservado às mulheres. Os membros do júri eram todos homens. (GALIFOT, 2015, p.43). Não era de se esperar menos quando em 1851 foi fundada a primeira associação de fotografia na França (La Société héliographique) da qual nenhuma mulher participou. A publicação periódica La Lumière, lançada pela associação e que teve sucesso até os anos 1860, também não falava em mulheres. A impressão que temos, pelos registros institucionais que há, é a de que não havia nenhuma mulher entre as grandes personalidades da fotografia francesa no século XIX (FONT-RÉAULX, 2015, p. 56). Se pensamos que a prática é para todos, ou deveria ser, e que em nada deveriam diferir as possibilidades de escolhas dadas a homens e a mulheres, não foi a partir desta lógica que nossos percursos se consolidaram historicamente, nem mesmo nos países em que os movimentos feministas já atuam há bastante tempo.

Dando continuidade à mesma reflexão, também no questionário, fiz outra pergunta, próxima à anterior, porém com caráter mais elucidativo: “Você acha que a fotografia é uma profissão diferente para homens e para mulheres? Por quê?”. 60% das mulheres que responderam ao questionário dizem firmemente que sim, que a fotografia é uma profissão diferente para homens e para mulheres. Algumas delas citam que a diferença está em questões como o preconceito contra as mulheres; o machismo; a falta de segurança e o medo de ocupar espaços urbanos para fotografar; a vulnerabilidade e suscetibilidade; a facilidade de acesso a espaços, que é maior para os homens (como em ambientes de conflito, por exemplo); e maiores oportunidades e abertura dentro do mercado (sobretudo no jornalismo e na publicidade). Outras falam de espaços de diferença mais simbólicos, como o domínio masculino sobre a história da fotografia, o desenvolvimento técnico, a ocupação de espaços de legitimação, como curadoria de exposições e avaliação de editais ou cargos de chefia. E algumas falam que tudo isso faz parte de uma dinâmica social maior, que privilegia homens em relação a mulheres em todos os campos e todas as instâncias da nossa sociedade, não só na fotografia. O que percebemos é que as mulheres precisam constantemente estar se afirmando neste universo, enquanto para os homens tudo é mais naturalizado, mais simples, mais fluido e mais orgânico.

Nas entrevistas, temos reflexões parecidas. O meio fotográfico, instituído por homens, é fechado às mulheres. Homens priorizam homens nos campos social e profissional – provavelmente pelo tal medo ou estranhamento do qual viemos falando. O que vemos é que

para que uma mulher seja “acolhida” nos espaços estabelecidos e legitimados, há de haver ou submissão ou muito enfrentamento. Mila Souza afirma:

O fato de as mulheres fotografarem não quer dizer que elas acessem muita coisa, não! Não acessam! Eu estou dizendo a você, porque eu não acesso. A gente não acessa dinheiro, a gente sente dificuldade em acessar os festivais. A gente tem dificuldade acessar a fala. Mesas. A gente tem dificuldade em acessar muita coisa. O fato de as mulheres estarem com a câmera na mão e estarem fotografando muito só diz da vontade delas de fazer coisas. Mas, que tenha acesso, não.

Assim como Mila, Pri Buhr também fala de acesso e de resistência:

Uma coisa que me incomoda muito é essa disparidade dos festivais na quantidade de mulheres presentes. Mulher ainda é tratada como cota, né? É muito isso e isso me incomoda demais. Isso me abusa. Mas é preciso fazer resistência. Só que é a gente vive de fazer resistência, sabe? Será que um dia eu não vou precisar?

“A fotografia é um homem branco, heterossexual, classe média e nascido no Sudeste. Vejo isso quando penso nos principais curadores e produtores culturais da área, a imensa maioria homens. Existem fotógrafas, milhares, porém a voz de legitimação (de autoridade) em geral é do homem descrito acima”. Esta frase, de uma das fotógrafas que responderam ao questionário, deixa claro os lugares de privilégio dentro da prática fotográfica e de quem a ocupa. É histórico.

“A fotografia é uma prática elitista”, acima de tudo, como mencionou outra fotógrafa. A lógica de produção vinculada à ideia de utilização de equipamentos de ponta, estudos técnicos elaborados, cursos de aperfeiçoamento, deslocamentos rumo ao desconhecido distante, é uma engrenagem apenas possível para modos de existência privilegiados, sobretudo por modos de existência masculinos. A rua, como tenho reforçado, também não é um lugar ocupado historicamente por mulheres nesta nossa sociedade moderna. Nossa circulação foi por séculos reservada ao espaço doméstico. Como, diante de tantos obstáculos, desenvolver, ocupar e se apropriar de uma prática atrelada ao espírito desbravador, aventureiro, curioso, como a fotografia se estabeleceu?

Fotografar tem sido pouco acessível para as mulheres, principalmente como prática profissional. Mais ainda para as mulheres negras, periféricas, mães, trans, etc.

Profissionais que atuam da porta de casa pra fora enfrentam duplamente resistências: ao se apossarem da câmera e ao saírem do meio privado e encararem o espaço público. Girardin (2015, p.263) diz que as viajantes possuem um olhar dinâmico e observador, até para os pequenos detalhes, pois, se um viajante deve estar constantemente atento, uma viajante deve ainda, além disso, se situar também enquanto mulher, muitas vezes em uma cultura que não é a sua. Isso provoca um observar constante a respeito das diferenças, o que acaba transformando também o seu olhar. O autor (2015, p. 266) destaca também a própria

ambiguidade no emprego do termo aventureira. Quando falamos em homens aventureiros, nos referimos aos heróis de ficção, que não tiveram equivalente feminino por muito tempo. Já as mulheres aventureiras são aquelas sedutoras, mundanas, predadoras, aquelas que nutrem anedotas e fantasias. Lobas.

O desenvolvimento técnico e tecnológico também nunca foi um saber direcionado ao público feminino. Na verdade, o próprio direito à educação nos foi por muito tempo negado – o já conhecido fruto proibido da árvore do conhecimento –, por isso os costumes e saberes transmitidos através da oralidade, em muitas civilizações que escapam ao logos ocidental- patriarcal-capitalista-colonizador (poucas resistiram hoje em dia), se estabeleceram como um “conhecimento feminino” e a civilização escrita se fez tão “masculina”: a história escrita é uma história de pensadores homens, pois, às mulheres, nem mesmo a alfabetização era acessível. Até 1827 (data bem próxima àquela da “invenção” oficial da fotografia), as mulheres eram proibidas no Brasil de frequentarem as escolas elementares. E só em 1879 as mulheres brasileiras foram autorizadas a estudar em instituições de ensino superior – as que tiveram condições de o fazer e que o fizeram, à época, foram bastante criticadas. Enfrentamento. Até hoje, a maior parte das mulheres do país, as mulheres negras, não têm acesso à educação, especialmente à universidade.

Também fomos roubadas do poder de consumo (somos historicamente financeiramente dependentes dos homens, sobretudo por conta do dispositivo do “combo casamento+maternidade” que nos encaminha à vida doméstica), mais ainda ao consumo tecnológico. Os estímulos e as possibilidade são outras,

As mudanças decisivas que favorizam o acesso das mulheres à fotografia, em todas as suas formas, estão relacionadas à sua emancipação de modo geral. Até que as mulheres burguesas tivessem acesso à uma formação profissional, elas não puderam encontrar emprego nas carreiras ou empreendimentos reservados aos homens, nem controlar seus salários ou assinar um contrato ou adquirir propriedades sem a permissão dos seus maridos ou dos seus pais. (SOLOMON-GODEAU, 2015, p.16)62

Enquanto não nos fosse autorizado o acesso à educação, antes de tudo, uma vida longe dos padrões de “matrimônio, patrimônio e maternidade”, usando os termos trazidos por Tuca Siqueira, não poderia ser deslumbrada, menos ainda as possibilidades de investir em uma carreira profissional. Isso, que fique claro, serve para as mulheres burguesas, em sua maioria brancas, que foram as primeiras a terem acesso à prática fotográfica. As histórias das

62 Do original : « les changements décisifs qui favorisent l’accès des femmes à la photographie sous toutes ses

formes ont partie liée avec leur émancipation en général. Tant que les femmes issues de la bourgeoise n’ont pas accès à une formation professionnelle, qu’elles ne peuvent trouver d’emploi dans des carrières ou entreprises ‘réservées’ aux hommes, ni contrôler leur salaire ou signer un contrat, qu’elles n’acquièrent de propriété qu’avec la permission de leur mari ou de leur père ». Tradução minha.

mulheres periféricas percorrem outros meandros, mais complexos (propriedade e casamento não necessariamente são valores que atravessam suas vidas, educação tampouco é caminho facilmente acessível). Com esta consciência, do percurso de uma compreensão dita liberal para falarmos de fotografia, continuemos à discussão.

Na França, segundo Font-Réaulx (2015, p.58), foi preciso esperar 1907 para que uma lei enfim permitisse que as mulheres que trabalhavam pudessem dispor livremente de seus salários (antes, eles pertenciam a seus maridos ou pais, no caso de ela ser solteira). Também lá, a academia de Belas Artes e a Escola de Belas Artes se mantiveram fechadas às mulheres até o fim do século XIX.

Se a França adentrou no século XX com algumas conquistas, até 1915, no Brasil, uma mulher casada ainda não podia ter conta bancária em seu nome (a partir desta data, a abertura da conta era autorizada apenas caso o marido não se opusesse, vale salientar). Só em 1962 a legislação brasileira permitiu que mulheres casadas não precisassem mais da autorização dos seus maridos para trabalhar, por exemplo. Também no Brasil, antes do casamento, as mulheres estavam sob responsabilidade dos seus pais. Independência e crescimento financeiro não foi historicamente um caminho institucionalmente aberto para as mulheres. Na sociedade patriarcal, o casamento é a regra oficial, na qual, para as mulheres, reserva-se a dependência financeira e a manutenção do lar. Até hoje, mesmo com algumas conquistas legais que foram chave para novas possibilidades, vivemos estas heranças. São movimentos bastante recentes.

Ao partilhar a história das mulheres de sua família, a fotógrafa Ana Lira diz que:

Todas elas eram donas de casa. Cozinharam a vida inteira. Minha avó e minha tia- avó tiveram um processo também de os pais morrerem super cedo. A família delas tinha muitos irmãos e cada um deles foi morar num lugar com uma pessoa diferente. Era assim: várias irmãs e meu tio. E, não sei se culturalmente, conscientemente ou inconscientemente, o homem, o meu tio, foi o único que foi ser criado por uma família classe média, tá entendendo? Se formou em jornalismo, entrou no partido comunista, foi para Moscou, tá entendendo? E elas não. Todas as mulheres foram trabalhar em cozinhas, foram criadas pelas partes pobres da família. Então é um histórico. Ele tinha formação intelectual. Elas não tiveram essa oportunidade, eram quase semi-analfabetas. Todas elas. Mas elas tinham uma formação pessoal e política muito forte. Sabedoria mesmo, assim, sabedoria política e sabedoria social. Você conversava com a minha avó, ela discutia política com você como ela discutia

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