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2.5 OS INFORTÚNIOS DO ASSÉDIO MORAL

2.5.2 O assédio moral como acidente do trabalho

Os problemas de saúde decorrentes do assédio moral sofrido pelo empregado podem configurar acidente do trabalho, em decorrência do desenvolvimento de “doença profissional, a exemplo do estresse pós- traumático, depressão, síndrome de burnout, distúrbios cardíacos ou digestivos, alcoolismo, além da possiblidade de tentativa de suicídio”273. Nesse sentido, Manoel Jorge e Silva Neto ressalta que os efeitos produzidos pelo assédio são extremamente danosos ao empregado, pois

270 TEIXEIRA, João Luís Vieira. O assédio moral no trabalho: conceito, causas

e efeitos, liderança versus assédio, valoração do dano e sua prevenção. São Paulo: LTr, 2016, p. 46.

271 TEIXEIRA, João Luís Vieira. Op. cit., p. 46.

272 RUFINO, Regina Célia Pezzuto. Assédio moral no âmbito da empresa. São

Paulo: LTr, 2006, p. 89.

273 STEPHAN, Cláudia Coutinho. O princípio constitucional da dignidade e o assédio moral no direito do trabalho de Portugal e do Brasil. São Paulo: LTr,

em situações extremas pode ocorrer que o empregado “tente ou chegue até a consumar o suicídio”274.

O acidente do trabalho pode ser definido como evento que ocorre durante o período de execução do trabalho ou à disposição do

empregador, que gera uma “lesão ou perturbação funcional”275,

acarretando incapacidade para o trabalho.

Para a caracterização do acidente do trabalho, o evento deve ser

prejudicial ao trabalhador, “acarretar uma incapacitação”276, temporária

ou permanente, e estar relacionado à atividade desenvolvida pelo empregado. Porém, há situações em que a incapacidade do empregado

não é produzida por um fato súbito, como ocorre no acidente típico277,

mas sim progressivamente por meio de um “processo interno, lento e gradual”278.

Diante disso, a Lei n. 8.231/91279, que regula a concessão dos benefícios previdenciários, estabelece três espécies de acidentes do

274 SILVA NETO, Manoel Jorge e. Teoria jurídica do assédio e sua fundamentação constitucional. São Paulo: LTr, 2012, p. 116.

275 OLIVEIRA, Sebastião Geraldo de. Indenizações por acidente do trabalho ou doença ocupacional. 5. ed. rev., ampl. e atual. São Paulo: LTr, 2009, p. 45. 276 MANHABUSCO, José Carlos; MANHABUSCO, Gianncarlo Camargo. Responsabilidade civil objetiva do empregador decorrente de acidente do trabalho e do risco da atividade. 2. ed. São Paulo: LTr, 2010, p. 31.

277 O acidente de trabalho típico ou acidente-tipo vem definido no art. 19 da Lei

n. 8.213, de 24 de julho de 1991, estabelecendo que “acidente do trabalho é o que ocorre pelo exercício do trabalho a serviço de empresa ou de empregador doméstico ou pelo exercício do trabalho dos segurados referidos no inciso VII do art. 11 desta Lei, provocando lesão corporal ou perturbação funcional que cause a morte ou a perda ou redução, permanente ou temporária, da capacidade para o trabalho” (BRASIL. Lei n. 8.213, de 24 de julho de 1991. Dispõe sobre os Planos de Benefícios da Previdência Social e dá outras providências. Disponível em: <http://www.planalto. gov.br/ccivil_03/leis/L8213cons.htm>. Acesso em: 16 dez. 2016). Porém, essa definição não abrange todas “as hipóteses em que o exercício da atividade profissional pelo empregado gera incapacidade laborativa”. Em razão disso, a lei define apenas o acidente típico e equipara, para fins de proteção legal do empregado, outras hipóteses a acidente do trabalho (OLIVEIRA, Sebastião Geraldo de. Op. cit., p. 39).

278 MANHABUSCO, José Carlos; MANHABUSCO, Gianncarlo Camargo. Op. cit., p. 35.

279 BRASIL. Lei n. 8.213, de 24 de julho de 1991. Dispõe sobre os Planos de

Benefícios da Previdência Social e dá outras providências. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8213cons.htm>. Acesso em: 16 dez. 2016.

trabalho: (i) o acidente-tipo ou típico, previsto no art. 19; (ii) as doenças ocupacionais, nos termos do art. 20; e (iii) os acidentes de trabalho por equiparação, conforme o art. 21280.

As doenças ocupacionais subdividem-se em doenças profissionais e doenças do trabalho. As doenças profissionais são específicas de determinadas profissões, por isso são chamadas de “doença profissional típica, tecnopatia ou ergopatia”281. Já as doenças do trabalho não estão vinculadas a determinada profissão, mas sim às condições com que o trabalho é executado, “têm como grande agente causador o meio ambiente em que o trabalho é desenvolvido”282.

No caso do assédio moral, a incapacidade do trabalho não é decorrente de fato inesperado e externo ao trabalhador, mas decorre de

“uma série de doenças originadas pela violência psicológica”283.

Para Regina Célia Pezzuto Rufino, a existência de um “ambiente de trabalho equilibrado e salutar é essencial para a saúde e para a preservação da dignidade do trabalhador”284. A prática de gestos e comportamentos agressivos causa perturbação em diversas esferas da vida vítima, principalmente nas questões relacionados à saúde física e psíquica do empregado.

Como ressalta Alice Monteiro de Barros, o assédio moral é “um fator de risco psicossocial”285 na relação de emprego, podendo ser considerado doença do trabalho equiparada a acidente, nos termos do art. 20 da Lei n. 8.213/91286.

280 Entre as hipóteses de acidente do trabalho por equiparação incluem-se, entre

outras, as concausas, isto é, causas que contribuem para a ocorrência ou o agravamento do acidente ou doença ocupacional; e os acidentes de trajeto.

281 OLIVEIRA, Sebastião Geraldo de. Indenizações por acidente do trabalho ou doença ocupacional. 5. ed. rev., ampl. e atual. São Paulo: LTr, 2009, p. 46. 282 MANHABUSCO, José Carlos; MANHABUSCO, Gianncarlo Camargo. Responsabilidade civil objetiva do empregador decorrente de acidente do trabalho e do risco da atividade. 2. ed. São Paulo: LTr, 2010, p. 36.

283 CANDIDO, Tchilla Helena. Assédio moral – acidente laboral. São: Paulo,

LTr, 2011, p. 181.

284 RUFINO, Regina Célia Pezzuto. Assédio moral no âmbito da empresa. São

Paulo: LTr, 2006, p. 89.

285 BARROS, Alice Monteiro de. Proteção à intimidade do empregado. 2. ed.

São Paulo: LTr, 2009, p. 190.

286 BRASIL. Lei n. 8.213, de 24 de julho de 1991. Dispõe sobre os Planos de

Benefícios da Previdência Social e dá outras providências. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8213cons.htm>. Acesso em: 16 dez. 2016.

João Silvestre da Silva Junior, em estudo realizado com 385 segurados da previdência social afastados do trabalho por transtorno mental, em período superior a 15 dias, apontou que 85% dos entrevistados relataram a exposição de situações de violência no trabalho. A pesquisa apurou ainda que 61,8% dos entrevistados afirmaram ter sido vítimas de agressão verbal, 53,8% de perseguição e 48,6% de piada/discriminação. Outro dado colhido com o estudo foi o fato de que 48,3% dos empregados afastados tiveram atendimento médico por problemas emocionais no

último ano em relação ao período da pesquisa287.

Conclusão relevante apontada pela pesquisa foi de que:

Os resultados reforçam a mudança do paradigma do adoecimento relacionado ao trabalho, que migrou da preocupação sobre agentes físicos, químicos, biológicos para aspectos de conteúdo e organização do trabalho. Fatores do ambiente de trabalho não influenciaram o desfecho, mas o fizeram os fatores organizacionais e psicossociais do trabalho288.

Os efeitos do assédio moral não se restringem aos danos à vítima e aos efeitos previdenciários, ocasionando reflexos também nos “custos

operacionais da empresa”289, em razão do absenteísmo e da redução na

produtividade.

O estudo da repercussão do assédio moral para a empresa torna-se relevante para a exata compreensão das consequências perversas dessa forma de agressão.