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8. L EGÍTIMA DEFESA PREVENTIVA E PREEMPTIVA NA HISTÓRIA

8.7. O assassinato de Qassem Soleimani em 2020

Seguiram-se mais sanções e momentos de tensão entre ambos os Estados. Entre vários acontecimentos podemos apontar um míssil que suspeita-se que foi disparado pelo Irão e que aterrou perto da embaixada dos EUA em Bagdad; as tentativas de mediação entre ambos os Estados, durante as quais o supremo líder do Irão desconsiderou Donald Trump como um parceiro para possíveis negociações, a autorização do Pentágono em aumentar o número de forças armadas no Médio Oriente e a consequente ameaça do Irão em ultrapassar os estabelecidos limites de produção de urânio402.

A 20 de Junho de 2019, o Irão abateu um drone militar dos EUA. Enquanto que os EUA afirmavam que o drone sobrevoava águas internacionais, o Irão alegava que o mesmo tinha entrado no espaço aéreo iraniano. No seguimento de tal situação, Donald Trump tinha afirmado em como iria proceder a uma retaliação contra Teerão, retaliação essa que foi, posteriormente, cancelada pelo Presidente dos EUA403.

Seguiram-se uns meses repletos de mais sanções, aumento de pressão, limites de produção de urânio excedidos e activação das centrífugas iranianas. A 31 de Dezembro de 2019, protestantes dos grupos pró-Iranianos no Iraque assaltaram a Embaixada dos EUA em Bagdad, incendiando algumas das partes deste terreno404.

A 3 de Janeiro de 2020, pela ordem de Donald Trump, foi levado a cabo um ataque aéreo, no decorrer do qual foi assassinado Qassem Soleimani, o general mais poderoso do Irão. O ataque foi perpetrado por um drone enquanto Soleimani estava a ser escoltado do aeroporto de Bagdad pelas Forças de Mobilização Popular (“Popular Mobilisation Forces”) locais. Juntamente com Qassem Soleimani, foi também assassinado Abu Mahdi al-Muhandis, líder das Forças de Mobilização Popular405.

De acordo com a declaração elaborada pelo Departamento de Defesa dos EUA o General Soleimani estava a desenvolver activamente planos de ataque a diplomatas e outros serviços diplomáticos americanos no Iraque, tendo sido também responsável pelo ataque ocorrido a 31 de Dezembro de 2019 na Embaixada dos EUA em Bagdad. Neste sentido, o Departamento de Defesa alegou que o ataque perpetrado teve por objectivo dissuadir os futuros planos de ataque Iranianos:

402 AL JAZEERA NEWS - US-Iran tensions…, paras. 16 e ss.

403 AL JAZEERA NEWS - US-Iran tensions…, paras. 43 e ss.

404 AL JAZEERA NEWS - US-Iran tensions…, paras. 106 e ss.

405 THE GUARDIAN EDITORS - US kills Iran general Qassem Suleimani in strike ordered by Trump, paras. 1 e ss.

“General Soleimani was actively developing plans to attack American diplomats and service members in Iraq and throughout the region. (…) He had orchestrated attacks on coalition bases in Iraq over the last several months – including the attack on December 27th – culminating in the death and wounding of additional American and Iraqui personnel. General Soleimani also approved the attacks on the U.S. Embassy in Bagdhdad that took place this week. This strike was aimed at deterring future Iranian attack plans. The United States will continue to take all necessary action to protect our people and our interests wherever they are around the world.”406

Da declaração proferida podemos depreender que o uso de força levado a cabo pelos EUA teve uma intenção antecipatória, na medida em que o objectivo foi, conforme afirmou o Departamento de Defesa, “dissuadir futuros planos de ataque”. No mesmo sentido foram proferidas as declarações do Secretário de Estado Mike Pompeo, o qual referiu que os EUA tinham alegadamente recebido informações muito claras e específicas relativamente a um ataque iminente sobre as embaixadas dos EUA:

“We had specific information on an imminent threat and those included attack on US embassies. Period, full stop. (…) Those are completely consistent thoughts. I don’t know exactly which minute. We don’t know exactly which day it would have been executed, but it was very clear.

Qasem Soleimani himself was plotting a large-scale attack on American interests ant those attacks were imminent.”407

No entanto, a verdade é que até ao dia de hoje não foram apresentadas nenhumas provas de tais informações.

Alguns Estados apoiaram o assassinato do Qassem Soleimani. A título de exemplo veja-se as declarações do Ministério das Relações Exteriores do Brasil:

406 U.S.A.DEPARTMENT OF DEFENSE - Statement by the Department of Defense, paras. 2 e ss.

407 VAZQUEZ, Maegan; KLEIN, Betsy; COLLINS, Kaitlan - Pompeo reasserts that Soleimani posed imminent threat, but won’t define ‘imminent’, paras.3 e ss., sublinhados nossos.

“Ao tomar conhecimento das ações conduzidas pelos EUA nos últimos dias no Iraque, o Governo brasileiro manifesta seu apoio à luta contra o flagelo do terrorismo e reitera que essa luta requer a cooperação de toda a comunidade internacional sem que se busque qualquer justificativa ou relativização para o terrorismo.”408

O Primeiro-Ministro de Israel, Benjamin Netanyahu também apoiou o acto dos EUA, referindo que Qassem Soleimani era responsável pela morte dos cidadãos americanos e várias pessoas inocentes, estando a planear mais ataques, pelo que “se Israel tem o direito de legítima defesa, os EUA também têm o mesmo direito”409:

“Just as Israel has the right of self-defense, the United States has eactly the same right.

Qassem Soleimani is responsible for the death of American citizens and many other innocent people. He was planning more such attacks.

President Trump deserves all the credit for acting swiftly, forcefully and decisively.

Israel stands with the United States in its just struggle for peace, security and self-defense.”410

Não obstante, apesar de alguns Estados terem apoiado o acto dos EUA, seja por via da legítima defesa, seja devido à luta contra o terrorismo, uma grande maioria dos Estados demonstrou preocupação relativamente ao ataque perpetrado, sendo que alguns declararam abertamente tratar-se de uma violação dos princípios do Direito Internacional.

A França, Alemanha e Reino Unido proferiram uma declaração conjunta, apelando para uma urgente inversão da escalada de violência no Iraque, demonstrando preocupação pelo papel negativo do Irão nesta região411:

408 MINISTÉRIO DAS RELAÇÕES EXTERIORES – Acontecimentos no Iraque e luta contra o terrorismo, para.1

409 NETANYAHU, Benjamin – PM Netanyahu Statement on Targeting of Qassem Soleimani, paras.1 e ss.

410 NETANYAHU, Benjamin – PM Netanyahu Statement…, paras.1 e ss.

411 MINISTÈRE DE L’EUROPE ET DES AFFAIRES ÉTRANGÈRES – France, UK, Germany call for Middle East de-escalation, paras. 1 e ss.

“We have condemned the recente attacks on coalition forces in Iraq and are greatly concerned by the negative role Iran has played in the region, including through the IRGC and the Al-Qods force under the command of General Soleimani. There is now an urgent need for de-escalation. We call on all parties to exercise utmost restraint and responsibility. The current cycle of violence in Iraq must be stopped.”412

O ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Sergei Lavrov referiu que o assassinato de Qasem Soleimani violou de forma flagrante os princípios de Direito Internacional, merecendo tal acto uma condenação413.

O representante do Irão na ONU, numa carta endereçada ao Secretário Geral e ao Presidente do Conselho de Segurança declarou que o assassinato de Qassem Soleimani foi um acto de terrorismo de Estado, o qual viola os princípios fundamentais do direito internacional, bem como os princípios da CNU414:

“Conducted “at the direction of the President” of the United States, the assassination of Major General Qassem Soleimani, by any measure, is an obvious example of State terrorism and, as a criminal act, constitutes a gross violation of the fundamental principles of international law, including, in particular, those stipulated in the Charter of the United Nations, and thus entails the international responsibility of the United States.”415

O Secretário de Estado americano Mike Pompeo referiu que, alegadamente, os EUA receberam informação verídica sobre ataques iminentes que poderiam vir a acontecer.

Assumindo que as mesmas foram, efectivamente, verídicas, se a ameaça fosse próxima e o ataque provável, poderíamos estar perante uma eventual legítima defesa preemptiva.

Não obstante, existem autores que admitem a figura do “targeted killing”, isto é, da utilização premeditada e deliberada de uso de força por um sujeito de Direito

412 MINISTÈRE DE L’EUROPE ET DES AFFAIRES ÉTRANGÈRES – France, UK, Germany..., paras.

1 e ss.

413 RAPOZA, Kenneth - Russia Says Iran General’s Killing ‘Illegal’, para. 7.

414 RAVANCHI, Majid Takht – Letter dated 3 January 2020 from the Permanent Representative of the Islamic Republic of Iran to the United Nations addressed to the Secretary-General and the President of the Security Council, para 3.

415 RAVANCHI, Maji Takht – Letter dated 3 January…, para 3.

Internacional, cujo objectivo é assassinar indivíduos selectivamente escolhidos e que não se encontram em custódia pelos sujeitos que os pretendem assassinar416. Ainda que o assassinato de Qassem Soleimani possa ser, eventualmente, enquadrado dentro da legítima defesa preemptiva, também não será descabido caracterizá-lo simultaneamente como “targeted killing”, na medida em que se trata da prática de um Estado matar de forma intencional indivíduos concretamente selecionados, sem que haja por parte dos mesmos uma situação de ameaça imediata à vida ou integridade física de outras pessoas, e sem que tal pena de morte tenha sido declarada na sequência de um processo penal417. Sucede que, de acordo com Georg Nolte, o exercício de “targeted killing” deve sempre respeitar os Direitos Humanos e, quando aplicável, as regras do conflito armado.

Refere ainda este autor que, quando um Estado um pretende conduzir tal operação no território de outro Estado, deve obter um consentimento do mesmo, excepto quando o

“targeted killing” é efectuado em legítima defesa418419 (o que, veja-se, não se apresenta como concordante perante o critério de se tratar de assassinato de uma pessoa que não representa ameaça iminente).

Ora, os EUA alegaram que o assassinato de Qassem Soleimani foi levado a cabo em legítima defesa preemptiva, a qual, no seguimento da implementada Doutrina Bush, era vista pelos EUA como necessária e admissível. Assim, poder-se-á afirmar que, pelo menos no entendimento dos EUA, o referido assassinato foi um "targeted killing” no território de um Estado terceiro, justificado pela legítima defesa preemptiva.

416 MELZER, Nils – Targeted Killing in International Law, p.5

417 NOLTE, Georg – Targeted Killing, para. 1.

418 NOLTE, Georg – Targeted Killing, para. 4.

419 É de realçar que foi esta a justificação apresentada pelos EUA aquando do assassinato de Osama bin Laden em 2011. Nas palavras do Secretário de Imprensa Jay Carney: “There is simply no question that this operation was lawful. Bin Laden was the head of al Qaeda, the organization that conducted the attacks of September 11, 2001. And al Qaeda and bin Laden himself had continued to plot attacks against the United States. We acted in the nation’s self-defense.” – Respectivamente: KOWALSKI, Michał - Prawo do samoobrony…, p.242. THE WHITE HOUSE - Press Briefing by Press Secretary Jay Carney, 5/4/2011, para.140, sublinhados nossos.