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CAPÍTULO 1 REVISÃO DE LITERATURA

1.2. Psicoterapia e Bem ‑Estar

1.2.1. O Bem ‑Estar como resultado da psicoterapia

Decorrente de um modelo médico de compreensão, a investigação sobre o im- pacto da psicoterapia focou-se maioritariamente no impacto sobre a redução de sin- tomas e limitações do funcionamento, incluindo limitações interpessoais, cognitivas e sociais (Derogatis, 1982;1993).

A relação entre a psicoterapia e o Bem -Estar e, especificamente, a investigação sobre o Bem -Estar como resultado da Psicoterapia só mais recentemente começou a ser investigada. Esta investigação tem sido feita integrando, nos sistemas de avaliação dos resultados, medidas que avaliam, para além do impacto da psicoterapia nos sinto- mas e funcionamento, o Bem -Estar ou algumas das dimensões do Bem -Estar (e.g. Out- come Rating Scale – ORS; Miller, Duncan & Hubble, 2005; Treatment Outcome Package; Kraus & Castonguay, 2010; Clinical Outcome Routine Evaluation-PC; Barkham, Mellor- -Clark, Connell, Evans, & Margison, 2010).

Cabe aqui referir que alguma investigação sobre o impacto da psicoterapia no Bem -Estar e em populações clínicas (e.g. Ho, Nopoulos, Flaum, Arndt & Andreasen, 1998) foi feita no âmbito de estudos focados sobre o conceito de Qualidade de Vida. Não estando sempre claras as definições, alguns autores usam os termos Qualidade de Vida e Bem -Estar de modo indiferenciado, não parecendo haver um consenso no que

diz respeito à definição do conceito Qualidade de Vida e à sua relação com o conceito de Bem -Estar.

A avaliação genérica da experiência humana tem sido comummente apelidada de Qualidade de Vida (Quality Of Life – QOL). No entanto, o conceito Qualidade de Vida parece integrar quer dimensões, quer medidas, que se referem a vários e distintos aspe- tos, objetivos e subjetivos, do funcionamento físico, social e emocional (Gladis, Goschi, Dishuk, & Crits-Cristoph, 1999). Nesse sentido, o Bem -Estar pode ser perspetivado como um dos vários indicadores da qualidade de vida, como o apoio social, o nível de vida ou o estado de saúde, refletindo as origens diversas, da sociologia à medicina, da investigação sobre a qualidade de vida (Lent, 2004).

Os julgamentos da qualidade de vida são complexos e refletem um sistema fluido e dinâmico. A qualidade de vida, num dado momento do tempo, resulta da avaliação de alguém sobre o grau em que cada uma das suas necessidades é identificada e atingida e da importância dessa necessidade para essa pessoa, ou para o seu grupo, ou para outros grupos significativos ou respeitados (Costanza, Fisher, Ali, Beer, et al., 2006).

As melhorias na Qualidade de Vida ou no Bem -Estar podem ser perspetivadas como um subproduto da melhoria dos sintomas ou da resolução de problemas ou, mais do que isso, as experiências de satisfação e vivência positiva podem ser pensadas como constituintes do processo de mudança implícito na psicoterapia (Crits-Christoph, Gibbons, Ring-Kurtz, Gallop, et al. 2008), da disfuncionalidade para a funcionalidade, da patologia para normalidade, do sofrimento para o Bem -Estar.

Alguns autores estudaram a qualidade de vida ao longo da psicoterapia focando- se não só nas mudanças sintomáticas, limitações e impedimentos (e.g. Gladis et al., 1999), mas também na qualidade de vida positiva. O Programa Treatment for Depres- sion Collaborative Research mostrou que a existência de aspetos positivos da experiên- cia do paciente, como sentimentos de Bem -Estar e sentimentos de que são capazes de lidar com a situação, predizia o estado dos pacientes no momento de follow-up mais do que os valores obtidos na própria sintomatologia depressiva (Elkin, Ainbinder, Park

& Yamaguchi, 2006). Outro estudo longitudinal (Crits-Christoph et al., 2008), com pa- cientes diagnosticados com vários tipos de perturbações e a fazerem vários tipos de terapia (no qual, a qualidade de vida era avaliada no início, no fim da terapia e passados 6 e 12 meses), mostrou que a qualidade de vida melhorou moderadamente ao longo da terapia, tendo os ganhos sido mantidos no follow-up. No entanto, o grau de mudança e o grau da qualidade de vida variavam consideravelmente em função do tipo de pertur- bação. Este estudo mostrou ainda correlações modestas entre a qualidade de vida, as mudanças sintomáticas e o funcionamento interpessoal, tendo-se focado na avaliação da qualidade de vida positiva em vários domínios.

Phase Model of Psychotherapy Outcome

Um modelo que aborda diretamente a questão do impacto da Psicoterapia no Bem -Estar é o Modelo das Fases – Phase Model of Psychotherapy Outcome proposto por Howard, Lueger, Maling e Martinovich (1993) e que considera o Bem -Estar como um dos resultados esperados da Psicoterapia. Este modelo estabelece uma melhoria progressiva e sequencial ao longo da terapia, que geralmente se inicia com a melho- ria no Bem -Estar subjetivamente experienciado, seguido da redução da sintomatologia ocorrendo, por fim, as melhorias no funcionamento. Assim, o modelo postula 3 fases: a primeira denominada de Remoralização, a segunda de Remediação e a terceira de Reabilitação.

Sempre de acordo com os autores Howard, Lueger, Maling e Martinovich (1993), a fase de Remoralização corresponde à fase de estabelecer a relação terapêutica e de criar esperança no cliente, o que leva a um maior Bem -Estar. De acordo com os autores, o Bem -Estar subjetivo aumenta devido a fatores dos processos terapêuticos que exer- cem a sua influência até mesmo antes do processo formal ter início, por exemplo, com a marcação da consulta ou noutros contextos não psicoterapêuticos, como em situações de aconselhamento ou na medicação. Na segunda fase do modelo – a Remediação, a terapia foca-se na resolução dos problemas de vida ou dos sintomas dos pacientes, ou

em ambos. Nesta fase a terapia facilita a mobilização dos estratégias de coping dos pa- cientes e/ou o encorajamento de uso de melhores estratégias de coping (e.g. treino de assertividade, dessensibilização sistemática, interpretação para compreensão adapta- tiva ou reflexão empática para promover as condições de sentir-se válido. Ao chegar à última fase – a Reabilitação, muitos pacientes desistem da terapia devido ao alívio sintomático já conseguido na fase anterior e alguns pacientes decidem não continuar o processo. No entanto, alguns continuarão o processo, considerando que o problema que os trouxe à terapia tem sido recorrente nas suas vidas e que podem ser o resultado de padrões persistentes que são mal adaptativos e que dificultam o atingir dos objeti- vos de vida (e.g. ter uma relação duradoura e significativa). Nesta fase da terapia são trabalhados os padrões e o estabelecimento de novas maneiras de lidar com vários as- petos do Self e da Vida, entrando muitos pacientes num processo terapêutico de longo prazo com vista a encontrar um melhor modo de funcionar.

Este modelo, suportado empiricamente por Howard, Lueger, Maling e Martinovich (1993) e por estudos posteriores (e.g. Budge, Owen, Kopta, Minami, Hanson & Hirch, 2013; Kopta, Howard, Lowry & Beutler, 1994), propõe o Bem -Estar Subjetivo como um dos resultados iniciais e esperados da psicoterapia, que é conseguido logo nas primei- ras sessões na fase de Remoralização e através da mobilização da esperança dos pa- cientes. É importante sublinhar que este modelo das fases se refere apenas e unica- mente a um tipo de Bem -Estar, o Bem -Estar Subjetivo, como resultado esperado da psicoterapia.

É interessante verificar que os autores consideram que essa Remoralização ou aumento do Bem -Estar Subjetivo possa ser, nalguns casos, suficiente para permitir a mobilização dos recursos de coping dessa pessoa, de um modo que lhe permita re- solver a situação e não necessitar de mais intervenção formal ou psicoterapêutica (ver também Talmon, 1990).