RUPTURAS DA CIÊNCIA E DA TECNOLOGIA NA PÓS-MODERNIDADE
1.3 O bluff no contexto do determinismo tecnológico
Iniciamos a reflexão das técnicas analisando o pensamento do filósofo Jacques Ellul cuja contribuição abre caminho para toda uma critica da ciência e da tecnologia, deixando de lado a tentativa de examiná-las como forças produtivas inseridas em uma relação social concreta de acumulação, transformadoras e transformáveis, mas como forças culturais a serviço de um sistema inevitável de dominação. Sua obra privilegia a imperativa necessidade de redirecionar as políticas públicas sobre o assunto de forma a humanizar a trajetória dos vetores tecnológicos.
Ellul (1990) analisa o conceito de ambivalência do progresso técnico do ponto de vista das incertezas dos seus resultados. Para o autor, a técnica carrega em essência seus próprios efeitos independentemente do uso que se faça dela. Se acreditarmos na neutralidade da técnica admitimos que do seu uso dependam os impactos gerados por um sistema inserido em um contexto de sociedade capitalista, onde o Estado e os mercados são poderes que se legitimam pelas coalizões entre as forças dominantes. Esse conceito de neutralidade é freqüentemente utilizado de forma inadequada quando utilizado no contexto da ambivalência caracterizada pelo autor: ao aceitar que a técnica é neutra, admitimos que ela tenha suas próprias determinações e sua própria lógica, não que ela interesse a tal ou qual grupo dominante nem que esteja na dependência dos usos que lhe sejam dados.
O progresso técnico implica em efeitos nocivos e em benefícios muitos deles inseparáveis e imprevisíveis. Demanda ainda, planejamento e organização: quanto mais uma sociedade controla seus objetivos mais se despreocupa dos processos que, por sua vez, limitam as escolhas. Seus efeitos podem ser desejáveis, esperados e inesperados; os resultados positivos
são concretos e imediatos e os negativos abstratos, no entanto, se manifestam em longo prazo e às vezes em caráter irreversível.
O autor entende que o mundo precisa outra técnica e outro modo de pensá-la, por enquanto, esta civilização cientifica e tecnológica continua acelerando sua gigantesca máquina geradora de entropia, distribuindo perdas entre as populações humanas empobrecidas. Falar da técnica não significa apenas reportar-se a um fenômeno externo, é referir-se sim, ao nosso modo de ser cultural. Virilio (1997) enfatiza que na ausência de liberdade para criticar a técnica, não pode haver progresso técnico, o que se manifesta é apenas um condicionamento às novas tecnologias que, nessas condições, se comportam como padronizadoras de condutas, uniformizando consciências e culturas.
Se a técnica originária aparecia como a arte de resolver problemas de sobrevivência e adaptação, a tecnociencia se mostra como uma maquinária de exploração e dominação que espolia a natureza e as sociedades humanas, desorganizando sem contemplação, formas milenares de adaptação. O extraordinário avanço vê-se comprometido pelas imensas destruições e desequilíbrios que ameaçam a supervivência da própria espécie. A ambivalência desta razão técnica tenta amparar-se em uma racionalização instrumental que atende prioritariamente ao crescimento econômico e às necessidades de expansão dos mercados. Na medida em que as técnicas se tornam mais poderosas, as fases de invenção, inovação e difusão se aceleram e as previsões quanto aos resultados se fazem imprescindíveis. As duas primeiras etapas dependem de diretrizes políticas e a terceira, de orientação econômica. A ciência acelera o progresso técnico e este torna possível novas descobertas científicas. A técnica viabiliza o crescimento econômico, no entanto, é necessário devido às limitações financeiras enfrentar algumas dificuldades e fazer algumas escolhas que se traduzem em contradições internas vivenciadas pelas sociedades tecnificadas: a escassez dos tempos modernos se produz em um contexto de excesso de produção pela destruição dos laços de solidariedade e o abandono do individuo a sua própria sorte.
O sistema técnico capitalista tem sido o responsável pela proletarização em escala planetária; nenhuma das violências cometidas pelos estados totalitários teria sido possível sem a suposta
racionalidade das técnicas utilizadas em seu benefício. O discurso humanístico é o oposto da nossa experiência real: quanto mais se fala nele como projeto coletivo mais se percebe sua ausência; senão recordemos as invasões armadas dos tempos da colonização, as duas guerras mundiais e os atos de terrorismo da contemporaneidade. Os tecnocratas têm se engajado no discurso humanístico, na opinião de Ellul (1990), é a mais perfeita ante-sala do bluff tecnológico.
Referindo-nos agora à cultura técnica podemos ressaltar três aspectos fundamentais: a aquisição de um conhecimento tecnológico; a adaptação da sociedade ao ambiente tecnológico desenvolvido e a criação de um clima psicológico favorável à preservação desse ambiente. Gravitamos em uma economia baseada na produção e circulação de bens imateriais: a informação e o conhecimento, fatores determinantes do preço dos produtos detêm uma menor participação nas escolhas dos valores consumidos pela sociedade. Depois de séculos de divorcio entre a alta tecnologia e a cultura não especializada, os tecnopólos se propõem a intermediar o que alguns sabem com o que outros fazem: as tecnologias de informação e comunicação são facilitadoras e a lógica das redes aproxima mais às pessoas do que a própria linguagem e o território.
O discurso técnico não se identifica com a prática científica, a ciência não da nascimento à cultura técnica na medida em que ela muda sua natureza quando se transforma em discurso. Observa-se uma tecnocultura de massa que corresponde a um produto da indústria sancionado pelo Estado. A cultura técnica é representada pelo conhecimento e o saber que se legitimam na dominação, sua obsolescência é extremamente rápida e sua ausência simplesmente alienante.
Ellul (1990) enfatiza que a maior tragédia intelectual e cultural do mundo moderno é a humanidade estar incorporada a um meio técnico que não permite a reflexão; é um mundo dominado pelos meios que a técnica tem de difundir, pela velocidade da informação e pela confusão entre as imagens e a realidade. A cultura de massa ressalta significados e valores que prescindem dos contatos entre os seres humanos, propiciando comportamentos que favorecem a solidão e o individualismo.
Cultura e tecnologia são categorias radicalmente contrastantes; mudar o sistema técnico implica em mudar a cultura dominante. O processo de seleção das técnicas é de caráter social, político e econômico; uma sociedade se constrói não pelas tecnologias que cria e sim pelas escolhas que faz. O que fazemos com as técnicas depende de nossos valores e as escolhas dependem do grau de autonomia da sociedade e do seu nível de conhecimento adquirido. Gradativamente as técnicas foram tornando-se mais independentes e autônomas, desenvolvendo-se a partir dos seus próprios imperativos e sem responder exatamente aos apelos de crescimento econômico; se a inovação tinha ou não algum interesse social pouco importava, não era esse o fator determinante. A autonomia das técnicas constitui a força motora que amplia as possibilidades de produção, distribuição e consumo no sistema capitalista. O progresso técnico se traduz em uma constante criação de novas necessidades; as transformações processadas crescem em quantidade e são muito mais significativas que as mudanças qualitativas.
A nova revolução tecnológica no campo das inutilidades retrata uma sociedade que se caracteriza pela abundância; ganhamos em eficiência, racionalidade e produtividade o que perdemos em qualidade do produto fabricado e em empregos gerados em diversos setores da economia. O discurso técnico é fascinante e envolvente: requer preparação psicológica e imposição compulsória; seus agentes são os tecnocratas que participam do poder político e que atuam diretamente na manipulação de consciências.
Em presença da técnica desaparece a ética e a busca de um sentido para a vida. A técnica não tem uma finalidade especifica, detêm sua própria ética: a ética da eficácia e progride de maneira puramente causal, não há diferença entre a técnica e o seu uso: o uso técnico. A técnica tem se tornado independente do homem e este tem se transformado no seu escravo; para Ellul (2003) a alienação não é político-econômica senão técnica. Ciência, técnica e Estado estão atualmente perfeitamente imbricados, segundo o autor, a técnica transcende à máquina, dado que esta assume a totalidade das atividades do homem e não somente sua atividade produtiva.
A autonomia das técnicas é sem duvida, a sua característica mais arriscada dado que supõe o questionamento global da nossa civilização e admite a mais completa dependência do ser humano em relação às técnicas. A relação da técnica com a sociedade e o individuo, comum nas civilizações anteriores ao século 18 tem desaparecido no mundo moderno; as aplicações que vem se fazendo da tecnologia investida de instintos de dominação e praticamente confundida com o crescimento de margens de especulação capitalista, cada vez mais amplas, vêm produzindo desde meados do século passado catástrofes incontroladas e irreversíveis derivadas da desaparição das medidas de referência da experiência.
Para refletir sobre as técnicas é preciso elaborar um pensamento “não técnico”, uma leitura crítica e desconstrutiva que questione as concepções ideológicas baseadas nos postulados que defendem a natureza autodeterminativa das técnicas, a presunção da neutralidade das técnicas e a assunção de que existe uma causalidade unívoca entre mudança tecnológica e progresso assumido como um fenômeno meramente automático: um progresso “sem gente” onde o social tenha sido finalmente expulsado do campo dos objetivos propostos.