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O Bom Samaritano

No documento Parabolas de Jesus Completo Kistemaker (páginas 145-154)

Ez 23.41; Am 6.6 Daniel-Rops, Palestine, p 208.

25. O Bom Samaritano

Lucas 10.25-37 “E eis que certo homem, intérprete da Lei, se levantou com o intuito de pôr Jesus à prova e disse-lhe: Mestre, que farei para herdar a vida eterna? Então, Jesus lhe perguntou: Que está escrito na Lei? Como interpretas? A isto ele respondeu: Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu entendimento; e: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Então, Jesus lhe disse: Respondeste corretamente; faze isto e viverás. Ele, porém, querendo justificar-se, perguntou a Jesus: Quem é o meu próximo? Jesus prosseguiu, dizendo: Certo homem descia de Jerusalém para Jericó e veio a cair em mãos de salteadores, os quais, depois de tudo lhe roubarem e lhe causarem muitos ferimentos, retiraram-se, deixando-o semimorto. Casualmente, descia um sacerdote por aquele mesmo caminho e, vendo-o, passou de largo. Semelhantemente, um levita descia por aquele lugar e, vendo-o, também passou de largo. Certo samaritano, que seguia o seu caminho, passou-lhe perto e, vendo-o, compadeceu-se dele. E, chegando-se, pensou-lhe os ferimentos, aplicando-lhes óleo e vinho; e, colocando-o sobre o seu próprio animal, levou-o para uma hospedaria e tratou dele. No dia seguinte, tirou dois denários e os entregou ao hospedeiro, dizendo: Cuida deste homem, e, se alguma coisa gastares a mais, eu to indenizarei quando voltar. Qual destes três te parece ter sido o próximo do homem que caiu nas mãos dos salteadores? Respondeu-lhe o intérprete da Lei: O que usou de misericórdia para com ele. Então, lhe disse: Vai e procede tu de igual modo”.

A parábola do bom samaritano se tornou parte de nossa cultura

e de nosso vocabulário. É comum encontrarmos hospitais e instituições de caridade usando esse nome. A estrada de Jericó é mencionada em hinos e canções, e hoje os turistas podem encontrar a Hospedaria do Bom Samaritano a meio caminho de Jerusalém para

Jericó.

Lugar e Povo

A caminho de Jerusalém, Jesus foi inquirido por um estudioso das Escrituras do Velho Testamento a respeito de como fazer para herdar a vida eterna. Esse teólogo, naturalmente, não fez a pergunta por ignorância, mas porque queria testar Jesus e ouvir sua explicação sobre as Escrituras. Ele se dirigiu a Jesus, chamando-o de “mestre”, reconhecendo, assim, sua autoridade em assuntos religiosos. Ele esperava de Jesus uma resposta para uma pergunta muito comum309.

Hábil e gentilmente, o Mestre instruiu seu aluno de teologia nos ensinamentos e implicações da Palavra. Dirigiu-lhe outra pergunta: “que está escrito na lei?” De fato, ele perguntou: “Como resumes a lei, quando adoras na sinagoga?” O teólogo respondeu citando os dois mandamentos ligados pela palavra amor: “Amarás o Senhor teu Deus...” e “amaras o teu próximo como a ti mesmo310”.

Logo o doutor da lei compreendeu que Jesus tinha o controle da situação e que sabia a resposta. Ao comentário de Jesus: “Respondestes corretamente; faze isto, e viverás”, ele apôs a questão: “Quem é o meu próximo?” Esse era o ponto fundamental.

O judeu vivia num círculo: o centro era ele mesmo, cercado por seus parentes mais próximos, então pelos outros parentes, e, finalmente, pelo círculo daqueles que proclamavam descendência judaica e que se tinham convertido ao judaísmo. A palavra próximo tinha um significado de reciprocidade: ele é meu irmão e eu sou irmão dele311.Assim se fecha o círculo de egoísmo e etnocentrismo.

Suas linhas tinham sido cuidadosamente traçadas, a fim de assegurar o bem-estar dos que se achavam dentro e negar ajuda aos que estavam fora.

Nos dias de Jesus, havia uma marcada afluência de não-judeus para Israel. Os samaritanos separavam os judeus do norte daqueles do sul.

As forças de ocupação romanas estavam presentes em todos os lugares, e viajantes helênicos visitavam Israel regularmente. Israel funcionava como uma ponte entre as nações, e diariamente o judeu esbarrava em estrangeiros. “Quem é o meu próximo?” — era uma pergunta comum.

309 Mt 19.16. Consulte-se SB, 1:808, para fontes rabínicas. 310 Dt 6.5 e Lv 19.18.

311 B. Gerbardsson, The Good Samaritan — The Good Shepherd? (Lund,

Copenhagen: Gleerup, 1958), p. 7. quando um soldado judeu morreu em conflito armado, a nação pranteia a morte de um irmão.

O estudioso de teologia não via qualquer problema com relação ao primeiro grande mandamento: “Amarás o Senhor teu Deus”. Mas o amor a Deus não poderia se expressar separado do segundo mandamento: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo.” Ele via um problema no segundo mandamento e fez a pergunta, esperando que Jesus delineasse os limites. Mas, Jesus se recusou a responder diretamente. Em vez disso, aplicou o princípio da regra áurea: “Como quereis que os homens vos façam, assim fazei-o vós também a eles” (Lc 6.31), e contou a história do bom samaritano. Ele queria que seu ouvinte lhe perguntasse: “Quem devo tratar como meu próximo?”.

A história que Jesus contou é tão real e verdadeira que pode muito bem se refletir a um acontecimento atual relatado por alguém que foi assaltado e sobreviveu para contar o fato com todos os pormenores. Embora nem a hora ou o local exatos sejam descritos, o incidente pode muito bem ter acontecido naquele ano, não muito longe de Jerusalém312.

A estrada de Jerusalém para Jericó tem apenas 27 quilômetros (=17 milhas) de extensão, e ao longo desse trecho apresenta um declive de 1200 metros (= 3300 pés). A área é praticamente deserta, sem vegetação e marcada por penhascos de pedras calcáreas e barrancos, em ambos os lados da estrada. Nos tempos bíblicos, a estrada era conhecida como “o caminho (ladeira) do sangue”, muito provavelmente por ser considerada insegura313. O trânsito de

peregrinos e caravanas era bastante pesado por ali. De tempos em tempos, eles eram assaltados por bandidos que se escondiam atrás das rochas314.

De acordo com a história contada por Jesus, um homem descia a estrada de Jericó. Não nos é dito se era rico ou pobre. Ele foi assaltado, e, porque reagiu, foi espancado. Em trapos, e quase morto, foi abandonado à beira do caminho. Logo após o assalto, passou por ali um sacerdote, a caminho de sua casa em Jericó315. Ele olhou o

homem ferido, e passou de lado. Se estivesse montando um burrico, na() teria se incomodado ao menos em saltar. Negou ao homem qualquer ajuda ou esperança. Pouco depois, um levita fez exatamente o mesmo: olhou-o e continuou seu caminho.

312 E. F. F. Bishop, “People on the Road to Jericho. The Good Samaritan — and the

Others” EvQ 42 (1970):2.

313 A expressão “subida de sangue” pode ser uma corruptela do hebraico “subida

de Adumim” Consulte-se Bishop, “People on the Road to Jericho”, p. 3. Veja-se, também. Js 15.7 e 18.17 Bishop “Down from Jerusalem to Jericho” EvQ 35 (1963): 97-102.

314 Histórias sobre assaltantes ao longo da estrada de Jericó têm sido registradas

desde os tempos antigos até ao presente. Por exemplo, veja-se o comentário de Jerônimo, Jr. 3.2.

315 Jericó era uma das cidades com alta concentração de sacerdotes, que tinham

Mais tarde veio um mercador, cujas roupas o identificavam como um samaritano. Parou, e olhou para o homem, que, desamparado jazia em seu próprio sangue. O samaritano se encheu de pena. Se estivesse no lugar do homem ferido, estaria também ansiando por ajuda. Aproximou-se e, cuidadosamente, ergueu o ferido. Raspou em tiras um pedaço de linho para fazer ataduras, aplicou azeite e vinho316, limpando e tratando as feridas do homem.

Então o samaritano, por assim dizer, caminhou a segunda milha. Colocou o homem sobre seu próprio animal e, firmando-o, levou-o à hospedaria mais próxima. Lá, cuidou dele o resto do dia e durante a noite. Tendo negócios para cuidar, teve que deixar o ferido, no dia seguinte; mas, primeiro, pagou ao hospedeiro duas moedas de prata e lhe deu instruções para cuidar dele317.Disse também ao dono

da estalagem que se mais dinheiro fosse gasto, ele lhe pagaria, quando voltasse de sua viagem.

Implicações

Jesus terminou a história perguntando: “Qual destes três te parece ter sido o próximo do homem que caiu nas mãos dos salteadores?” O teólogo teve que dizer: “O que usou de misericórdia para com ele”. Em outras palavras, o samaritano provou ser um irmão do homem ferido. Com o conselho: “Vai, e procede tu de igual modo”, Jesus o dispensou.

Na parábola, cinco pessoas são mencionadas (com exceção dos ladrões). São, pela ordem: o homem assaltado e ferido, o sacerdote, o levita, o samaritano e o dono da hospedaria. O ponto central não é tanto o homem à beira da estrada, embora ele seja objeto de atenção. Depois de roubado, ele foi primeiro negligenciado, mas depois cuidado com bondade. O objeto da história não é o sacerdote, nem o levita, ou o dono da estalagem. A figura central é o samaritano. Ele é o autor, o agente e o principal personagem. Por isso a parábola é chamada parábola do bom samaritano e não parábola do homem que foi assaltado e ferido. O ferido é uma figura sem rosto, cuja ocupação, nacionalidade, religião ou raça são ignoradas318. 316 Ap 6.6: “... e não danifiques o azeite e o vinho”. Azeite e vinho eram usados nos

primeiros socorros, nos tempos antigos. SB, 1: 428. O azeite era paliativo e o vinho um anti-séptico.

317 As duas moedas de prata eram dois denários, quantia suficiente para pagar a

hospedagem por vários dias. Na parábola dos trabalhadores na vinha (Ml 20.1-16), o salário diário dos trabalhadores é de um denário.

318 C. Daniel, ‘Les Esséniens et l’arrière — fond historique de la parabole du Bom

Samaritan”. NovT II(1969): 71-104, retrata a vítima como um essênio que foi assaltado por zelotes. Os zelotes odiavam os essênios. Assim também o sacerdote e o levita passaram de largo, porque pertenciam a diferentes ordens religiosas. Entretanto, teria Jesus ensinado a lição apenas para condenar o ódio entre facções religiosas rivais? Se fosse assim, ele teria sido mais explícito. E correto presumir que o homem era judeu, porque assim entenderam aqueles que primeiro ouviram

Talvez, sem suas roupas, o homem não pudesse ser identificado pelo sacerdote, pelo levita ou pelo samaritano. Resumindo, a identidade do homem não importa. Ele faz apenas o papel do próximo — é só um vulto.

Os ladrões vêm e vão. Cometem o crime e partem. É inútil, portanto, especular se eram zelotes, se tinha alguma queixa contra o homem — afinal de contas, o sacerdote, o levita e o samaritano não foram atacados — ou se eram moradores das redondezas e que viviam roubando os desventurados que por ali passavam.

O sacerdote e, presumivelmente, o levita estavam a caminho de casa, vindos do templo, em Jerusalém. Pela lei, estavam impedidos de tocar em um defunto319.Se transgredissem a regra, estariam criando

embaraços para si mesmos: socialmente (se tornando impuros), financeiramente (pagando o funeral) e profissionalmente (sendo suspensos de seus ofícios sacerdotais e levíticos)320.

Naturalmente, o homem assaltado e ferido não estava morto. Mas, iria um sacerdote ou um levita desmontar de seu jumento, apanhar uma vara e com ela tocar o ferido para verificar se estava vivo, e, então, por fim, ministrar-lhe os primeiros socorros? Dificilmente. Na história, entretanto, o homem estava vivo, e por isso não havia desculpa convincente a ser apresentada pelos clérigos. Se tiverem medo de cair numa emboscada, ou se tinham o coração empedernido, ou se acreditavam estar interferindo no julgamento de Deus, que golpeava um pecador perverso, ou se eram vaidosos demais a respeito de sua posição de líderes religiosos para desmontar e ajudar uma vítima desafortunada, jamais saberemos321.O fato é que

nenhum dos dois, nem o sacerdote nem o levita, mostrou misericórdia.

O samaritano, como é descrito, enternece o coração de todos. É a figura preferida na história. Sabe o que deve fazer e o faz bem. Raça, religião, diferença de classes não são importantes para ele. Vê um ser humano em dificuldades e o ajuda.

Jesus. Veja-se, também, B. Reicke, “Der harmherzige Samariter”, Verborum

Veritas, Festschrift honorig G. Stãhlin (Wuppertal; Brockhaus, 1970). p. 107. 319 Lv 21.1; Nm 19.11.

320 Derrett, “Law in the New Testament: Fresh Light on the Parable of the Good

Samaritan”, NTS 11(1964-65): 22-37, publicado em Law in the New Testament (London: Longman and Todd, 1970), pp. 208-27).

321 Os motivos da atitude do sacerdote e do levita têm sido estudados por muitos

exegetas. Mas muitas explicações se baseiam em suposições, porque Jesus não especificou a razão por que os clérigos se recusaram a ajudar. Omitindo-se, deliberadamente, de explicar a razão, ele evitou que a parábola se tomasse um ataque frontal aos religiosos daqueles dias. Em vez disso, ele criticou a falta de misericórdia. Veja-se Oesterley, Parables, p. 162; H. Zimmerman, ‘Das Gleichnis vom barmherzigen Samariter: Lukas 10.25-37, “Die Zeit Jesu, Festschrift honoring H. Schlier (Freiburg, Basel, Vienna: 1970), p. 69; Jeremias, Parables, pp. 2034; Miachelis, Gleichnisse, p. 208.

Os samaritanos, para sermos exatos, não eram um povo muito simpático. Seu ódio pelos judeus explodia de diversas maneiras. Por exemplo, certa vez, entre 9 e 6 A.C., tinham profanado a área do templo para evitar que os judeus celebrassem a Páscoa. Fizeram isso espalhando ossos humanos pelos pátios do templo322. Aos olhos dos

judeus, os samaritanos eram mestiços. Tinham-se estabelecido na terra de Israel durante o exílio dos judeus, e sua Bíblia consistia apenas dos cinco livros de Moisés. Tinham construído seu próprio templo no monte Gerizim (Jo 4.20); os judeus o destruíram em 128 a.C. Por causa desse ódio profundo, os judeus não se davam com os samaritanos323.

Ainda assim, esse viajante, reconhecido como um samaritano, por suas roupas, seu modo de falar e suas maneiras, parou, desmontou e ajudou com bondade o seu semelhante. Não perguntou se o ferido era judeu, romano ou sírio. Para ele, aquela pessoa nua, ferida, meio morta, era um irmão precisando de ajuda. Prontamente pagou ao dono da hospedaria o suficiente para manter o homem na estalagem por alguns dias. Deve, também, ter providenciado roupas.

O samaritano não praticou este ato de amor e caridade esperando retorno. Ele podia ter pedido que o ferido ao se recuperar lhe pagasse o que havia gastado. Mas, nem mesmo sabia se ele expressaria alguma gratidão, quando soubesse quem o socorrera. O modo de agir do samaritano representava um genuíno sacrifício de dinheiro, posses, risco de saúde, segurança e muitas horas de cuidado e amor324.Ele cumpriu a Regra Áurea.

A última pessoa mencionada na parábola, o dono da hospedaria, recebe pouca atenção. Ele, possivelmente, conhecia o samaritano de outras passagens por ali. Um relacionamento de confiança mútua se estabelecera entre eles, o que é um testemunho eloqüente da conduta moral do samaritano. Ele era um homem em quem o hospedeiro podia confiar. “Cuida deste homem, e se alguma coisa gastares a mais, eu to indenizarei quando voltar”. Sua palavra valia ouro.

Paralelos do Velho Testamento

Embora a história possa se referir a um incidente recente, atual, Jesus é o criador da parábola. Ao contar a parábola do bom samaritano, ele chama a atenção de seu ouvinte versado em teologia para, pelo menos, dois paralelos do Velho Testamento. O intérprete

322 Josephus, Antiquities 18:30.

323 15. SB 1:538. Mi 10.5; Lc 9.52,53; Jo 4.9. Nos cultos nas sinagogas judaicas, os

samaritanos eram amaldiçoados. Os judeus oravam a Deus que os excluísse da vida futura.

da lei deve ter reconhecido as alusões feitas a essas conhecidas passagens das Escrituras. Primeiro, há o relato registrado em 2 Cr 28.5-15. Fala do povo de Jerusalém e Judá, durante o reinando do rei Acaz, em 734 A.C., que foi levado cativo para Samaria. O relato termina com estas palavras:

“Homens foram designados nominalmente, os quais se levantaram e tomaram os cativos e o despojo, e vestiram a todos os que estavam nus; vestiram-nos, calçaram-nos e lhes deram de comer e de beber, e os ungiram; a todos os que, por fracos, não podiam andar, levaram sobre jumentos a Jericó, cidade das palmeiras, a seus irmãos. Então voltaram para Samaria”. (2 Cr 28.15)

Numerosas palavras-chave, naturalmente, reaparecem na parábola do bom samaritano.

A segunda referência é o texto de Os 6.9: “Como hordas de salteadores que espreitam alguém, assim é a companhia dos sacerdotes, pois matam no caminho para Siquém; praticam abominações325”.

Ensinando a parábola de modo a fazê-la soar como passagem familiar das Escrituras, Jesus demonstra que suas palavras são uma continuação das próprias Escrituras e uma explicação da Lei e dos Profetas. Assim, sua hábil exposição do segundo grande mandamento: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” revela uma perspectiva mais profunda. Jesus se mostra como intérprete da Lei326.

Ele diz ao teólogo: “Faze isto, e viverás327”.

Aplicação

Em seu ministério terreno, Jesus torna conhecida uma dimensão mais ampla da exigência da Lei: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. No Sermão da Montanha, o mandamento não se restringe ao próximo, mas inclui, também, o inimigo: “Amai os vossos inimigos”. (Mt 5.44; Lc 6.27)

Para o sacerdote e o levita descritos na parábola, a palavra próximo se referia a um judeu que podia ser claramente identificado. Mas alguém assaltado, espancado, nu e semimorto, simplesmente não se qualificava como tal.

325 Mänek, Frucht, p. 88, considera a parábola em Midrash, comentário ou sermão a

respeito da Palavra de Deus, registrada em Os 6.6: “Pois misericórdia quero, e não sacrifício...” Do mesmo modo, Derrett, em Law ln the New Testament, p. 227.

326 Derrett, Law in the New Testament, pp. 222-23, destaca que Jesus “tem um

papel semelhante ao de Moisés”.

Para o intérprete da lei que inquiria Jesus, a questão era como traçar o limite. Ele queria saber se o amor tem limites. Queria se autojustificar e se assegurar de estar cumprindo o que a Lei ordenava.

Se a Lei pudesse ser usada como uma barreira protetora, seria possível viver em paz dentro desse abrigo, onde tudo já estaria interpretado e soaria familiar328. Mas, quando a Lei está em aberto —

“Amarás o teu próximo”, que inclui “Amai os vossos inimigos” —, uma visão toda nova se destaca possibilitando um novo questionamento dessa Lei.

Jesus não contou a história de um judeu que encontrou um samaritano ferido, ao longo da estrada, e o ajudou, levando-o a uma hospedaria próxima329. Tal história poderia provocar uma reação

contrária, porque o judeu seria considerado um traidor da causa judaica. Do mesmo modo, se Jesus tivesse usado os três: o sacerdote, o levita e o israelita, o efeito teria sido inteiramente diferente. Teria criado um contraste entre o clero e os leigos com uma tendência decididamente anticlerical. Mas, a apresentação do samaritano, na conjuntura apropriada, surpreende agradavelmente o ouvinte e não o predispõe a levantar objeções. O samaritano mostra como se deve amar o próximo e ser como um irmão para ele.

Se o intérprete da lei tivesse quaisquer objeções teológicas, elas desapareceram com o desenrolar da história. Jesus podia ter-se referido ao estrangeiro que vivia entre os judeus e era tratado como um natural do lugar330. Também, podia ter mencionado os judeus

convertidos e os que eram chamados tementes a Deus, que, regularmente, assistiam aos serviços religiosos na sinagoga. Mas, essas pessoas tinham como retribuir a bondade que recebiam. Além disso, eram considerados amigos e, em alguns casos, membros da fé judaica.

Jesus, no entanto, focaliza não o próximo — “Quem é o meu próximo?” —, mas o único que mostrou amor e compaixão. O próximo não é uma pessoa atraente. Na parábola ele é mostrado sujo de sangue, nu e semimorto. Não tem condições para retribuir o amor, o dinheiro e as roupas. Precisa de ajuda e não tem como ressarcir. Deixar de atender esse próximo é incorrer na ira divina, pois significa não apenas transgredir o segundo grande mandamento, mas, também, deixar de praticar o primeiro.

A parábola do bom samaritano é atemporal. Podemos substituir ocupações, nacionalidades e raças por equivalentes modernos, e nada mudou desde o dia em que Jesus ensinou a parábola. Portanto, a parábola não é uma história sobre alguém que, simplesmente,

328 Linnemann, Parables, p. 52. 329 Armstrong, Parables, p. 165.

praticou uma boa ação. Ela é uma denúncia contra qualquer um que tenha erguido barreiras protetoras e construído com elas um abrigo331.

“Amarás o teu próximo como a ti mesmo” é uma ordem que alcança além de nosso círculo de amigos e companheiros cristão. É um chamado para que mostremos misericórdia aos desafortunados que jazem pela estrada de Jericó que é a vida humana. É um clamor às nações desenvolvidas para que atentem ao sofrimento e pobreza sem fim, experimentados pelos povos subdesenvolvidos.

Desde os primeiros tempos patrísticos ao tempo atual, os exegetas têm tentado interpretar, simbolicamente, a parábola. Há

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