2.3 Constru¸c˜ao do C´odigo de Shor
2.3.3 O C´odigo de Shor
O c´odigo de Shor ´e capaz de corrigir um erro quˆantico arbitr´ario em um qubit. Para constru´ı-lo basta fazer uma combina¸c˜ao dos c´odigos de trˆes qubits para os canais bit flip e phase flip. Primeiro codificamos o qubit usando o c´odigo phase flip: |0i → | + ++i e |1i → |−−−i. A seguir, codificamos cada um destes qubits usando o c´odigo bit flip de trˆes qubits: |+i ´e codificado como (|000i + |111i)/√2 e |−i ´e codificado como (|000i − |111i)/√2. O resultado ´e um c´odigo de nove qubits, com palavras-c´odigo dadas por
|ui → |uLi ≡ 1 2√2 1
∑
p,q,r=0 (−1)(p+q+r)u|p, p, p, q, q, q, r, r, ri, (2.18) onde u = {0,1}. Ou, mais explicitamente,|0i → |0Li ≡ (|000i + |111i)(|000i + |111i)(|000i + |111i)
2√2
(2.19) |1i → |1Li ≡ (|000i − |111i)(|000i − |111i)(|000i − |111i)
2√2
Uma superposi¸c˜ao original a|0i + b|1i ´e codificada como a|0Li + b|1Li, deslocalizando a
informa¸c˜ao a ser codificada entre os nove qubits.
Este c´odigo quˆantico corrigir´a um erro quˆantico geral em qualquer dos qubits pelas seguintes raz˜oes. Primeiro devemos mostrar que este c´odigo ´e capaz de corrigir erros X e Z em qualquer dos qubits. Sem perda de generalidade, suponha que tenha ocorrido um erro X no primeiro qubit. Da mesma forma que para o c´odigo bit flip, este erro pode ser detectado sem ambiguidade quando realizamos a medida dos observ´aveis Z1Z2e Z2Z3. Neste caso, os
resultados das medidas ser˜ao, respectivamente −1 e +1, indicando que ocorreu um erro no primeiro qubit. Para corrigi-lo basta ent˜ao aplicar o operador X ao primeiro qubit. Simi- larmente, podemos detectar e corrigir um erro bit flip em qualquer um dos nove qubits do c´odigo. Como em geral n˜ao sabemos em qual dos blocos um erro X eventualmente ocorreu, ´e necess´ario realizar a medida de seis observ´aveis {Z1Z2, Z2Z3, Z4Z5, Z5Z6, Z7Z8, Z8Z9}.
Similarmente, um erro Z pode ser facilmente detectado quando comparamos os sinais do primeiro e do segundo blocos, e do segundo e do terceiro blocos, da mesma forma que comparamos o sinal do primeiro e do segundo qubits para o c´odigo phase flip. Por exemplo,
2.3. Constru¸c˜ao do C´odigo de Shor 55 suponha, sem perda de generalidade, que um erro de fase tenha ocorrido no primeiro qubit. Este erro troca o sinal do primeiro bloco de qubits, de |000i+|111i para |000i−|111i (para |0Li), e de |000i− |111i para |000i+ |111i (para |1Li). Na verdade, um erro Z em qualquer
um dos trˆes primeiros qubits tem este efeito e, portanto, o procedimento que vamos descrever serve para um erro Z em qualquer um dos trˆes qubits. ´E poss´ıvel demonstrar com um pouco de ´algebra que os dois poss´ıveis observ´aveis que comparam os sinais dos blocos s˜ao X1X2X3X4X5X6, X4X5X6X7X8X9. O primeiro destes observ´aveis compara o sinal
do primeiro e do segundo blocos e o segundo observ´avel compara o sinal do segundo e do terceiro blocos. Quando um erro Z ocorre em qualquer um dos trˆes primeiros qubits, os sinais do primeiro e do segundo blocos s˜ao diferentes e os sinais do segundo e do terceiro blocos s˜ao iguais. Para recuperar o estado original, basta aplicar o operador Z sobre qualquer um dos trˆes primeiros qubits.
O c´odigo de Shor tamb´em pode corrigir um erro X e Z ocorrendo no mesmo qubit. Para que isto seja poss´ıvel ´e necess´ario aplicarmos ambos os procedimentos acima descritos de detec¸c˜ao e corre¸c˜ao de erros X e Z, os quais s˜ao independentes. Finalmente, um qubit com um erro arbitr´ario ´e projetado para ter erros I, X, Z, ou XZ durante as medidas de s´ındrome dos erros X e Z, e assim fazer com que estes erros possam ser corrigidos.
A ordem dos c´odigos bit flip e phase flip na concatena¸c˜ao ´e importante. ´E f´acil de verificar que se tiv´essemos codificado o qubit primeiro com o c´odigo bit flip, ou seja, |0i → |000i e |1i → |111i, e em seguida codificado cada um destes trˆes qubits com o c´odigo phase flip, ou seja, |0i → | + ++i e |1i → | − −−i, ter´ıamos, na base {|0i, |1i}, o seguinte c´odigo:
|0i →(|0i + |1i)(|0i + |1i)(|0i + |1i)(|0i + |1i)(|0i + |1i)(|0i + |1i)(|0i + |1i)(|0i + |1i)(|0i + |1i)
16√2
(2.20) |1i →(|0i − |1i)(|0i − |1i)(|0i − |1i)(|0i − |1i)(|0i − |1i)(|0i − |1i)(|0i − |1i)(|0i − |1i)(|0i − |1i)
16√2
Mas este ´e um “c´odigo universal” do tipo |000...000i, |000...001i, |000...010i, . . . , |111...101i, |111...110i, |111...111i, incapaz de garantir a corre¸c˜ao de qualquer erro.
dos neste c´odigo:
1. Medir as s´ındromes n˜ao implica em medir os qubits. As s´ındromes podem ser encontradas sem o ganho de qualquer informa¸c˜ao sobre os estados codificados. Os erros unit´arios (X e Z) podem ser invertidos sem o conhecimento da informa¸c˜ao codificada. Isto ´e an´alogo ao m´etodo de decodifica¸c˜ao cl´assica que projeta o estado recebido do canal sobre uma classe lateral do arranjo padr˜ao e inverte o erro mais prov´avel (de peso m´ınimo).
2. A redundˆancia ´e usada para inserir o espa¸co das palavras-c´odigo em um espa¸co maior, de forma a fazer com que os erros corrig´ıveis mapeiem o espa¸co do c´odigo em subespa¸cos ortogonais (sem intersec¸c˜ao). Isto ´e o an´alogo quˆantico das esferas de Hamming.
3. Os erros s˜ao locais e a informa¸c˜ao codificada ´e n˜ao local. ´E importante en- fatizar a hip´otese central que serve de base para a constru¸c˜ao de um c´odigo quˆantico − erros afetando diferentes qubits s˜ao, em boa aproxima¸c˜ao, n˜ao correlacionados. Assumimos que um evento que causa um erro em dois qubits ´e muito menos prov´avel que um evento que causa um erro em um qubit. ´E claro que uma quest˜ao f´ısica ´e saber se esta hip´otese ´e justificada ou n˜ao − podemos facilmente imaginar processos que causam erros em dois qubits de uma s´o vez. Se tais erros correlacionados forem comuns, a codifica¸c˜ao falhar´a.
4. O c´odigo de Shor ´e um c´odigo concatenado. Este c´odigo concatena dois c´odigos de repeti¸c˜ao de trˆes qubits. A concatena¸c˜ao segue uma hierarquia de n´ıveis. O primeiro c´odigo, que corrige erros Z, ´e concatenado ao segundo c´odigo, que corrige erros X. Portanto, a matriz geradora do c´odigo cl´assico associado ao c´odigo de Shor ´e G= GZ· GX = h 1 1 1 i · 1 1 1 0 0 0 0 0 0 0 0 0 1 1 1 0 0 0 0 0 0 0 0 0 1 1 1 = h 1 1 1 1 1 1 1 1 1 i . (2.21)
2.3. Constru¸c˜ao do C´odigo de Shor 57 ou seja, um c´odigo de repeti¸c˜ao de taxa 1/9 (e, obviamente, distˆancia igual a nove). Portanto, este c´odigo cl´assico ´e capaz de corrigir b(9 − 1)/2c = 4 erros.
5. O c´odigo de Shor pode corrigir um erro arbitr´ario ocorrendo em um qubit. O c´odigo de Shor pode corrigir um erro quˆantico geral porque os c´odigos cl´assicos associados aos c´odigos bit flip, phase flip e bit-phase flip tˆem distˆancias trˆes (o que garante a corre¸c˜ao de um erro X), trˆes (o que garante a corre¸c˜ao de um erro Z) e nove (o que garante a corre¸c˜ao de um erro cuja base ´e gerada pelos erros X, Z, XZ e I), respectivamente. O grupo de erros que este c´odigo corrige ´e composto por dois geradores, hX,Zi. Isto ´e aparentemente imposs´ıvel, j´a que o espa¸co de s´ındromes ´e finito e o n´umero poss´ıvel de erros ´e infinito. Por´em, o continuum de erros pode ser discretizado. Para ver isto, suponha que um erro arbitr´ario E tenha ocorrido em um qubit. Como E pode ser sempre escrito como E = ciI+ cxX+ cyY+ czZ, o
estado corrompido ´e a superposi¸c˜ao E|ψini = ci|ψini + cxX|ψini + cyY|ψini + czZ|ψini.
As medidas de s´ındrome, as quais identificam os erros I, X, Y e Z, projetam o estado corrompido sobre um dos quatro termos, todos eles corrig´ıveis. Em outras palavras, quantizamos os erros. Embora os erros na informa¸c˜ao quˆantica possam ser pequenos, fazemos medidas que projetam nosso estado sobre um estado sem nenhum erro ou sobre um estado com um erro que pertence a um conjunto discreto de erros que sabemos como corrigir.
6. Erros Z atuando em diferentes qubits dentro do mesmo bloco tˆem efeitos idˆenticos. N˜ao ´e poss´ıvel, nem necess´ario, distinguir tais erros. Um c´odigo quˆan- tico ´e n˜ao degenerado se todos os erros corrig´ıveis podem ser identificados sem am- biguidade; caso contr´ario, ´e degenerado. O c´odigo de Shor ´e portanto um c´odigo degenerado.
Esta propriedade ´e mais facilmente entendida atrav´es de um exemplo. Considere o efeito dos erros Z1, Z2 e Z3 (primeiro bloco) sobre a palavra-c´odigo (2.19). ´E f´acil de
perceber que o efeito destes erros sobre esta palavra-c´odigo ´e o mesmo. O processo de decodifica¸c˜ao nos permite identificar um erro de fase no primeiro bloco, mas n˜ao nos permite identificar em qual dos trˆes primeiros qubits o erro de fase ocorreu. Para
corrigir qualquer um destes trˆes erros, basta aplicar qualquer um dos operadores inversos, ou seja, Z1, Z2 ou Z3.
A informa¸c˜ao foi armazenada em correla¸c˜oes envolvendo v´arios qubits. Presumimos uma natureza local para os erros e codificamos a informa¸c˜ao por um m´etodo n˜ao local. N˜ao existe meio de distinguir |0Li de |1Li atrav´es da medida de nenhum dos nove qubits. Se
medirmos um qubit, encontraremos |0Li com probabilidade 1/2 e |1Li com probabilidade
1/2 independente do valor do qubit codificado.
O meio circundante pode ocasionalmente “medir” um dos qubits. Mas, neste caso, a informa¸c˜ao codificada n˜ao pode ser prejudicada atrav´es da perturba¸c˜ao daquele qubit, porque um qubit, por si s´o, n˜ao carrega informa¸c˜ao pelo todo. A informa¸c˜ao codificada n˜ao localmente ´e invulner´avel a influˆencias locais − este ´e o princ´ıpio central sobre o qual os CCEQs est˜ao fundamentados.
2.4
Crit´erios para a Corre¸c˜ao de Erros Quˆanticos
Nesta se¸c˜ao apresentamos as condi¸c˜oes alg´ebricas para que um subespa¸co
C
seja um c´odigo quˆantico que corrige certos erros atuando sobre o espa¸co de HilbertH
. Estas condi¸c˜oes s˜ao freq¨uentemente chamadas de crit´erios para a corre¸c˜ao de erros quˆanticos, e s˜ao de grande valor para o entendimento e a constru¸c˜ao de c´odigos quˆanticos. Tais condi¸c˜oes tamb´em permitem que as no¸c˜oes de corre¸c˜ao de erros quˆanticos sejam tratadas de modo mais rigoroso.Para codificar k qubits em n qubits, um c´odigo ter´a 2k palavras-c´odigo-base. Qualquer
combina¸c˜ao linear destas palavras-c´odigo-base tamb´em ´e uma palavra-c´odigo. O espa¸co
C
de palavras-c´odigo (o espa¸co de codifica¸c˜ao) ´e portanto um espa¸co de Hilbert de 2kdimens˜oes e um subespa¸co de um espa¸co de Hilbert com 2n dimens˜oes.
Vimos atrav´es do c´odigo de Shor que se pudermos corrigir erros E e F, tamb´em poder- emos corrigir um erro arbitr´ario aE + bF. Logo, precisamos somente nos preocupar se o c´odigo pode corrigir uma base de erros. Uma base conveniente para se usar ´e o conjunto de produtos tensoriais de X, Y , Z e I. O peso de um operador desta forma ´e o n´umero de qubits que diferem da identidade. O conjunto de todos estes produtos tensoriais com
2.4. Crit´erios para a Corre¸c˜ao de Erros Quˆanticos 59