4 SOBRE “ISSO QUE SE TEM”
4.1 O CAMINHO PERCORRIDO
Revendo o caminho percorrido até aqui, retomo meu projeto inicial, cotejando- o com o que foi sendo construído nessa investigação. Entendo, como Boaventura (2006, p, 38-39), que os fenômenos sociais têm que ser compreendidos:
a partir de atitudes mentais e do sentido que os agentes conferem as suas acções, para o que é necessário utilizar métodos de investigação e mesmo critérios epistemológicos diferentes dos correntes nas ciências naturais, métodos qualitativos em vez de quantitativos, com vista à obtenção de um conhecimento intersubjectivo, descritivo e compreensivo, em vez de um conhecimento objectivo, explicativo e nomotético.
Reconheço também que minha construção como ser humano, mulher, educadora, professora de Língua Portuguesa, tutora, aliada à minha rica aproximação pedagógica na escola da vida com os adolescentes, foi determinante na condução à pesquisa. Estas particularidades pessoais, mais o contexto até aqui enfatizado, me induziram a reconfigurar meu tema: a compreensão do processo de educação sexual dos adolescentes, mediados pelas tecnologias.
A questão definidora do objetivo geral foi a busca da compreensão da sexualidade pelos próprios adolescentes no seu processo de vida cotidiana, imersos que estão em várias linguagens midiáticas, destacando-se entre elas a televisão e, nela, as telenovelas. Como objetivos específicos, procurei investigar o uso da televisão, em particular as telenovelas, como instrumento para facilitar o debate sobre sexualidade. Seus enredos e jogo de imagens exercem um fascínio nos jovens, como também suas histórias. Muitos se identificam com as situações vividas pelas as personagens.
Outro objetivo é a convicção, agora com mais conhecimento sobre educação, de poder oferecer à instituição em que trabalho um projeto de educação sexual sob uma perspectiva emancipatória.
Defini uma população-alvo constituída por um grupo de 54 estudantes, homens e mulheres, na faixa etária de 13 a 18 anos, matriculados na oitava série de uma escola pública da rede estadual de ensino. Além de definir a população, com ela convivi.
Como método de pesquisa, trilhei pela senda do método dialético, que parte do pressuposto de que homens e mulheres não estão prontos, acabados, mas são constituídos, como diz Silva (2001), “em uma intrincada rede de inter-relações entre causas externas e internas de sua formação, evolução e produção social” (p.84). Defini-me pela pesquisa-ação por ser:
Um tipo de pesquisa social com base empírica que é concebida e realizada em estreita associação com uma ação ou com a resolução de um problema coletivo e no qual os pesquisadores e os participantes representativos da situação ou do problema estão envolvidos do modo cooperativo ou participativo (THIOLLENT, 1985, p.14).
A abordagem da pesquisa-ação foi hermenêutico-interpretativa.
Para a coleta de dados, defini-me pela realização de oficinas, utilizando as mesmas propostas de trabalho para as duas turmas, relacionadas no quadro abaixo:
Turmas A e B I Oficina 80 min Trabalho de sensibilização. Turmas A e B II Oficina 80 min
Projeção do vídeo sobre “o beijo nas telenovelas”, editado pela pesquisadora: discussão sobre o conteúdo e produção oral e escrita.
Turmas A e B
III Oficina 80min
Leitura de textos sobre a temática do beijo: debate sobre o conteúdo.
Turmas A e B
IV Oficina 80 min
Projeção do vídeo sobre “as relações homossexuais nas telenovelas”, editado pela pesquisadora: discussão sobre o conteúdo e produção oral e escrita.
Turmas A e B
V Oficina 80 min
Leitura de textos sobre a temática das relações homossexuais: debate sobre o conteúdo.
Turmas A e B
VI Oficina 80 min
Projeção do vídeo sobre “a gravidez na adolescência nas telenovelas”, editado pela pesquisadora: discussão sobre o conteúdo e produção oral e escrita.
Turmas A e B
VII Oficina 80 min
Leitura de textos sobre a temática da gravidez na adolescência: debate sobre o conteúdo.
Turmas A e B
VIII Oficina 80 min
Leitura de textos sobre a temática da gravidez na adolescência: debate sobre o conteúdo.
Turmas A e B
IX Oficina 80 min
Conversando sobre as oficinas realizadas. Turmas
A e B
X Oficina 80 min
Confraternização – Jogral com o texto “Terapia do Abraço”.
Quadro 1 - Oficinas
Fonte: Da autora (2009).
Tive como instrumento principal de coleta de dados o material audiovisual constituído por gravações em DVD de recortes das seguintes telenovelas: Páginas
da Vida, Paraíso Tropical, Duas Caras e A Favorita, além do uso de gravador e
O processo de escolha das cenas das telenovelas não foi muito fácil. Perguntava-me: como editar recortes das cenas? Onde vou encontrar os arquivos das séries ficcionais desejadas? Gravei vários capítulos das telenovelas Paraíso
Tropical e Duas Caras, mas faltavam mais conteúdos que interessavam à pesquisa
para serem gravados. Em busca de solução, fiz assinatura com a Globo-Vídeo e pesquisei, nas sinopses, cenas que achei interessantes para serem editadas por um profissional de informática. Foi um trabalho demorado, mas que, depois das idas e vindas das edições para serem vistas e avaliadas, deu um resultado satisfatório. A análise das sinopses só foi possível porque havia assistido às telenovelas selecionadas.
Na análise dos dados, na busca das mensagens expressas nas falas orais e escritas dos adolescentes, após cada temática trabalhada, durante as atividades propostas e depois delas, registrava minhas interpretações, procurando compreender cada fala, cada gesto, cada olhar, cada risada, para posteriormente mergulhar na análise interpretativa, pois, como dizem Spink e Lima (2000), “o diálogo travado com as informações que elegemos como nossa matéria-prima de pesquisa, impõe-nos a necessidade de dar sentido: conversar, posicionar, buscar novas informações, priorizar e selecionar” (p.105).
Tomando como referência o método de análise utilizado por Melo (2001), que se constitui de cinco passos básicos, caminhei pelas seguintes etapas:
1. coleta de dados verbais: optei pela gravação de depoimentos orais, depois transcritos, e também por produções escritas dos alunos a perguntas que lhes eram dirigidas e a propostas de produção textual;
2. apreensão do sentido do todo: buscando captar esse sentido na leitura das produções transcritas e escritas, à procura de um encontro maior com o outro;
3. discriminação das unidades de significado: fiz, por diversas vezes, a leitura do material recolhido e cataloguei-o de acordo com os conteúdos que convergiam para o mesmo ponto de vista, sem alterar-lhes a linguagem; transferência das unidades de significado para a linguagem do pesquisador: nessa etapa, fiz a descrição interpretativa dos dados recolhidos, assim como das imagens do vídeo, sempre procurando manter uma atitude reflexiva que facilitasse a compreensão do que me fora informado pelos adolescentes;
4. elaboração das sínteses das estruturas de significado, estabelecendo a relação com o revelado pelos sujeitos, na busca da essência, no respeito às idéias registradas, levando em consideração na síntese todas as unidades significativas, integrando-as e sintetizando-as em uma descrição consistente com a estrutura do acontecimento;
5. desvelamento das categorias: busquei refletir sobre as essências do que fora revelado, sempre procurando fundamentos teóricos adequados para desvelar, de forma precisa e pontual, as categorias encontradas.