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O Canabidiol (CBD) é um fitocanabinoide que não é psicoativo, isto é, não leva às alterações psicossensoriais, ao contrário do tetra-hidrocanabinol (THC). Ocupa cerca de 40% nos extratos da Cannabis sativa. As concentrações podem variar muito devido a diversos fatores como, por exemplo, variabilida-de botânica, clima e solo. O mecanismo variabilida-de ação do CBD ainda não está total-mente elucidado, mas há algumas hipóteses sendo levadas em questão, como ação antagonista de receptor CB1, agonista inverso de CB2, estímulo TRPV1 e inibição da amida hidrolase (tem sido sugerida como a possível razão dos efeitos antipsicóticos do CBD). Além disso, o canabidiol pode, em condições fisiológicas, aumentar a concentração de cálcio no meio intracelular. Porém, nos momentos de elevada excitabilidade, ocorre redução destes níveis. O CBD ainda pode exercer a função de antagonista de GPR55, diminuindo a liberação de glutamato, o que sugere um possível mecanismo anticonvulsivante (FRAN-CO; JUNIOR, 2017).

A administração de canabinoides no tratamento de crianças com TEA é uma questão legal e polêmica (KHALIL, 2012). A infância e adolescência são períodos de maturação e rearranjo cerebral e é necessário avaliar criteriosa-mente o uso de canabinoides e seu impacto no sistema nervoso central. Por esse motivo, numerosos estudos em humanos relacionam o uso precoce de Cannabis aos desenvolvimentos de transtorno depressivo maior e ao vício em drogas. Além de haver uma forte associação com esquizofrenia, considerando que fatores genéticos interagem com o ambiental. Contudo, curiosamente, o CBD demonstrou ter efeitos neuroprotetores, que são importantes para a cog-nição, vício e apresenta baixa toxicidade em humanos e em outras espécies (POLEG et al., 2019).

Schleider et al. (2019) descreveram um estudo epidemiológico em pacien-tes com TEA que fizeram tratamento medicamentoso com Cannabis e asso-ciaram a segurança e eficácia desta intervenção. O tratamento na maioria dos

pacientes foi baseado em óleo de Cannabis contendo 30% de CBD e 1,5% de THC, que mostrou ser eficaz, seguro e bem tolerado pelos pacientes de modo geral. Efeitos colaterais foram observados por 25,2% dos pacientes, sendo in-quietação (6,6%) o mais comum. Concluiu-se que, depois de seis meses de tratamento, 30,1% dos pacientes relataram melhora significativa dos sinto-mas; 53,7% relataram resposta moderada; 6,4% relataram melhora discreta; e 8,6% não relataram melhora alguma. Ademais, melhora ou desaparecimento de sintomas como inquietação, ataques de raiva, agitação, problemas do sono, ansiedade, constipação e problemas na digestão foram relatados em 75% dos pacientes ou mais. A mesma eficácia não foi observada na melhora ou desapa-recimento de distúrbios da fala, déficits cognitivos, incontinência, mobilidade limitada, apetite aumentado e falta de apetite.

Crianças com TEA comumente apresentam hiperatividade, agressividade, distúrbios do sono e ansiedade. Em outro estudo publicado pela revista Na-ture, Karhson, Hardan e Parker (2016) enalteceram a possibilidade do uso de CBD no autismo para alívio da ansiedade e do estresse crônico, assim como para melhora das interações sociais e da comunicação. O tratamento médico convencional inclui vários medicamentos psicotrópicos, como antipsicóticos atípicos, inibidores seletivos da recaptação da serotonina (ISRS) e ansiolíticos (BARCHEL et al, 2019).

Mesmo havendo necessidade de mais ensaios clínicos randomizados, Car-bone et al. (2021) mostram que pesquisas recentes vêm evidenciando uma pos-sível associação da fisiopatologia do Transtorno do Espectro Autista como uma condição neuroinflamatória crônica. Por esse motivo, existe a investigação en-torno do Sistema Endocanabinoide (SEC), uma vez que já se sabe do seu papel no neurodesenvolvimento e nas respostas anti-inflamatórias. Para Schleider et al. (2019), o mecanismo pode envolver a regulação do GABA e do glutamato, assim como poderia atuar também sobre a ocitocina e a vasopressina, impor-tantes neurotransmissores moduladores de comportamentos sociais.

Contudo, o Food and Drug Administration (FDA) dos EUA recomenda cau-tela ao interpretar os resultados do uso de CBD em crianças com TEA (SAL-GADO; CASTELLANOS, 2018), pois grande parte desses estudos são observa-cionais, sem grupo controle, e, portanto, nenhuma causalidade entre a terapia com Cannabis e a melhora no bem-estar dos pacientes pode ser estabelecida, embora tenha sugerido que o tratamento com Cannabis seja seguro e apresente algum grau de melhora nos sintomas de TEA (SCHLEIDER et al., 2019).

Considerações finais

Pessoas com TEA costumam apresentar sintomas comórbidos como agres-sividade, hiperatividade e ansiedade. Vários estudos estão sendo realizados em todo o mundo sobre o uso de canabidiol no TEA; no entanto, essas pesquisas ainda estão em andamento e os dados sobre os efeitos de seu uso são muito limitados (BARCHEL et al., 2019).

Baseados nos relatórios dos pais, alguns estudos sugerem que o canabidiol pode melhorar os sintomas de comorbidades do TEA. No entanto, os efeitos a longo prazo devem ser avaliados em estudos de larga escala.

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