1.1 O Direito do Trabalho e o trabalho subordinado
1.1.1 O capitalismo e o surgimento do Direito do Trabalho
É o capitalismo o modo de produção que interessa ao estudo do Direito do Trabalho, até porque este é fruto daquele.
O Direito do Trabalho, ramo jurídico especializado do Direito, surgiu e evoluiu acompanhando a história do sistema econômico capitalista, “retificando-lhe distorções
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Conforme Viana (2017, p. 23-24), a “fábrica” surgiu pela necessidade do capitalista de controlar os horários e a produção. Isso porque, até então, com o enfraquecimento do sistema feudal e o crescimento do comércio, os negociantes, além de comprar para revender, passaram a encomendar produtos – normalmente, tecidos – para venda. Eles faziam as encomendas “a famílias pobres, fornecendo matéria-prima, fixando prazos e às vezes até emprestando pequenas máquinas”. Tal fenômeno, para alguns sociólogos, foi chamado de “fábrica difusa ou disseminada”. Na verdade, “muitas vezes, o que havia era verdadeiro trabalho em domicílio”. Evidentemente, esse modelo de produção não permitia que o capitalista verificasse como o serviço estava sendo prestado, e as pessoas não estavam “habituadas a prazos, horários, nem a comandos rígidos de trabalho”, muitas vezes descumpriam o combinado, entregando o produto fora do prazo e sem qualidade. Então, a reunião dessas pessoas num espaço físico – a fábrica – permitiria ao capitalista “disciplinar os corpos, condicionar as mentes e racionalizar a produção”.
econômico-sociais e civilizando importante relação de poder que sua dinâmica econômica cria no seio da sociedade civil” (DELGADO, 2010, p. 78).
Como fenômeno “sócio-histórico”, no ocidente, o Direito do Trabalho originou-se, no século XIX, da combinação de um conjunto de fatores – econômicos, sociais e políticos (DELGADO, 2010, p. 83).
A Primeira Revolução Industrial, iniciada em meados de 1700 na Inglaterra, impulsionada pela descoberta da máquina a vapor, permitiu a produção em larga escala e, com o tempo, a alteração da relação entre o dono da fábrica e o trabalhador, este em número cada vez mais crescente tendo em vista a expulsão dos servos das glebas, o êxodo rural e o ressurgimento das cidades. Um processo evolutivo, no qual as transformações econômicas, sociais e políticas viabilizaram a emergência do Direito do Trabalho.
Na perspectiva econômica, destacou-se a expansão de um modelo de organização do processo produtivo centrado na utilização de máquinas, na especialização de atividades, com o fim de alcançar um sistema de produção em sequência, “em série rotinizada”. Trata-se do modelo da “grande indústria” que, ultrapassando as formas primitivas de organização da produção (artesanato e manufatura), passou a exigir a utilização “maciça e concentrada da força de trabalho assalariada” (DELGADO, 2010, p. 84).
Ao lado da grande indústria, despontou o fenômeno da concentração industrial, em especial nos países ocidentais e nos Estados Unidos da América, potencializando a formação de conglomerados urbanos operários e a necessidade do uso da força de trabalho livre e subordinada.
Com isso, a utilização da força de trabalho assalariada – livre e subordinada – passou a ser o “instrumento central de relação de produção pelo novo sistema produtivo”, alavancando a relação de trabalho subordinado (relação empregatícia) como “núcleo motor” desse processo produtivo (DELGADO, 2010, p. 82;84).
Na perspectiva social, destacaram-se como fatores viabilizadores do surgimento do Direito do Trabalho a concentração de trabalhadores ao redor das cidades industriais e a formação de uma “identidade profissional entre as grandes massas obreiras” (DELGADO, 2010, p. 84). Segundo Viana (2017, p. 28-29), a reunião de trabalhadores na fábrica, necessária para produção, uniu corações e mentes, favorecendo a resistência coletiva.
No aspecto político, destacou-se a descoberta da “ação coletiva” pelos trabalhadores, adotada como instrumento de atuação frente ao Estado e aos empregadores, o que propiciou o surgimento de organizações coletivas (v.g., sindicatos) e, também,
“modalidades novas de normatização jurídica” (v.g., acordos coletivos, regulamentos de empresa) face à ausência de regras estatais (DELGADO, 2010, p. 85).
Por conta dessa atuação coletiva, das pressões e mobilizações dos trabalhadores, no século XIX, começaram a surgir respostas do Estado, com vistas a, estrategicamente, conter o movimento operário e, ao mesmo tempo, melhorar as condições de vida dos trabalhadores.
Segundo Delgado (2010, p. 86), o “Direito vigorante à época, consistente no Direito Civil, de formação liberal-individualista, não tinha resposta jurídica adequada ao fato novo da relação empregatícia”. As questões decorrentes dessa relação jurídica bilateral eram tratadas sob o enfoque civil e contratual comum, e os indivíduos que a compõem – empregador e empregado – abordados isoladamente como “seres individuais singelos”.
As ideias liberais à época exigiam um Estado não interventor no campo social e econômico, nas relações entre particulares – um Estado mínimo. O trabalhador era visto como sujeito de direitos, livre e capaz de negociar as condições de trabalho e vincular-se ao tomador de serviços por meio de um contrato.
Ocorre que, nessas condições, o trabalhador subordinado acabou em uma situação de miséria. No exercício da autonomia da vontade, ele não tinha condições de negociar os salários e as condições de trabalho, ou seja, as bases contratuais. Os trabalhadores laboravam em condições degradantes, com jornadas 12, 14 e 15 horas por dia (GASPAR, 2011, p. 34). A força de trabalho de crianças e de mulheres passou a ser explorada.
Como destacou Porto (2008, p. 31), “a liberdade econômica sem limites conduziu à opressão dos mais fracos, gerando, segundo alguns autores, uma nova forma (talvez mais perversa) de escravidão”.
Em contraposição a essa situação aviltante, movimentos sociais dos trabalhadores propiciaram a formação de uma consciência de classe, em busca da igualdade material entre as partes da relação de emprego. Percebeu-se que, nessa relação jurídica, o empregador “sempre foi um ser coletivo”, cuja vontade gera impacto social, seja no ambiente de trabalho seja na sociedade, pois atinge um coletivo de pessoas (DELGADO, 2010, p. 87). De outro lado, a vontade do trabalhador não produz efeitos para além da relação de emprego. Um descompasso não explicado pela legislação civil e contraposto pelo movimento sindical.
Nesse contexto, seja por regras instituídas pelo Estado, seja pelas criadas por negociação coletiva, buscou-se regulamentar as relações de emprego, prevendo-se condições mínimas a serem obedecidas nas relações individuais, face à desigualdade – econômica, social e política – entre as partes contratantes isoladamente consideradas. Esse conjunto normativo,
composto de princípios e regras imperativas e irrenunciáveis, foi denominado de Direito do Trabalho4, um ramo jurídico especializado, que surgiu para, de um lado, “tutelar os trabalhadores hipossuficientes5”, carentes de proteção “para alcançar um nível de vida digno”, promovendo a igualdade material, e, de outro, assegurar a paz social, bem como “a vivência e a funcionalidade do sistema capitalista” (PORTO, 2008, p. 34).
Conforme resumiu Góis (2009, p. 137), o Direito do Trabalho foi concebido como um mecanismo para frear o avanço do capital sobre o trabalho, visando conferir “um mínimo de dignidade aos indivíduos que alienavam seu tempo, sua saúde e sua força em favor de um empreendimento empresarial”. Para tanto, foi preciso conceder um tratamento diferenciado ao trabalhador subordinado, a parte hipossuficiente na relação, com o fim de igualar a sua desigualdade frente ao tomador dos serviços. Isso resultou em um intervencionismo estatal na autonomia da vontade dos contratantes, com o estabelecimento de “direitos e condições de trabalho de observância obrigatória”, tudo em prol de “um bem jurídico superior” – a dignidade do trabalhador.
Segundo Delgado (2010, p. 55-56;183), incorporando e realizando um conjunto de valores socialmente considerados relevantes em um determinado contexto histórico, o Direito do Trabalho introjetou um “valor finalístico essencial, que marca a direção de todo sistema jurídico que compõe”, qual seja “a melhoria das condições de pactuação da força de trabalho na ordem socioeconômica”, que é a sua “função central”. Essa função central imprimiu o valor e a direção finalística do Direito do Trabalho, que se estruturou numa teia protetiva da parte hipossuficiente da relação de emprego – o obreiro, “visando retificar (ou atenuar), no plano jurídico, o desequilíbrio inerente ao plano fático do contrato de trabalho”.
Por intermédio da norma jurídica trabalhista, que intervém na relação de emprego, é possível, na sociedade capitalista estruturalmente desigual, alcançar “certo padrão
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Cassar (2013, p. 5) bem conceituou o Direito do Trabalho: “é um sistema jurídico permeado por institutos, valores, regras e princípios dirigidos aos trabalhadores subordinados e assemelhados, aos empregadores, empresas coligadas, tomadores de serviço, para a tutela do contrato mínimo de trabalho, das obrigações decorrentes das relações de trabalho, das medidas que visem à proteção da sociedade trabalhadora, sempre norteadas pelos princípios constitucionais, principalmente o da dignidade da pessoa humana. Também é recheado de normas destinadas aos sindicatos e associações representativas; à atenuação e forma de solução dos conflitos individuais, coletivos e difusos, existentes entre capital e trabalho; à estabilização da economia social e à melhoria da condição social de todos os relacionados”.
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São pertinentes as observações de Delgado (2010, p. 181;183) no sentido de que “toda a estrutura do Direito Individual do Trabalho” foi construída a partir da “constatação fática da diferenciação social, econômica e política básica entre os sujeitos” da relação de emprego. O empregador age sempre como um ser coletivo, cujos atos repercutem para além das relações de emprego individualmente consideradas, enquanto o empregado age como ser individual, já que suas ações, isoladamente, não geram impacto comunitário. Essa disparidade, revelada pela hipossuficiência de uma das partes na relação empregatícia, fez surgir um Direito Individual do Trabalho “largamente protetivo, caracterizado por métodos, princípios e regras que buscam reequilibrar, juridicamente, a relação desigual vivenciada na prática cotidiana da relação de emprego”.
genérico de justiça social6”, com a distribuição, em certa medida, dos ganhos do sistema econômico a um número significativo de indivíduos (empregados) (DELGADO, Maurício, 2015, p. 116).
Além dessa função central, Delgado destacou outras funções do Direito do Trabalho no sistema econômico capitalista interligadas àquela e também dignas de nota.
Na perspectiva socioeconômica, o Direito do Trabalho tem uma função modernizante e progressista. Ele estende a trabalhadores de vários seguimentos econômicos, direitos alcançados por outros obreiros dos seguimentos mais avançados da economia, melhorando, de forma geral, as condições de gestão e pactuação da força de trabalho. Em consequência dessa melhoria, além de realizar a justiça social, o Direito do Trabalho “cria e preserva mercado para o próprio capitalismo interno, devolvendo a este os ganhos materiais socialmente distribuídos em decorrência da aplicação de suas regras jurídicas” (DELGADO, Maurício, 2015, p. 117).
Na história do capitalismo ocidental, o Direito do Trabalho também comprova sua função democrática e civilizatória. Ele tem sido o instrumento de inserção de indivíduos destituídos de riqueza material, que vivem especialmente do seu trabalho, na sociedade econômica. Além disso, ele se mostrou um instrumento eficaz de democratização do poder, viabilizando a gestão e a moderação “de uma das mais importantes relações de poder existentes na sociedade contemporânea, a relação de emprego”. Em suma, o Direito do Trabalho apresenta-se como um dos mais relevantes “mecanismos de controle e atenuação das distorções socioeconômicas inevitáveis do mercado e do sistema capitalista” (DELGADO, Maurício, 2015, p. 119).
Por fim, o Direito do Trabalho tem uma função política conservadora, vez que legitima cultural e politicamente o capitalismo, o sistema socioeconômico dominante, que, através de instrumentos racionais, materializa-se observando padrão civilizatório mais alto (do que no capitalismo “sem peias”, sem reciprocidade), isto é, adequando-se a “parâmetros mínimos de justiça social” (DELGADO, Maurício, 2015, p. 120).
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Segundo Maior (2002, p. 6), a justiça social compreende tanto a proteção da pessoa do trabalhador quanto uma melhor distribuição dos ganhos no sistema econômico capitalista: “a justiça social, tanto pode ser vista do ponto de vista ético (ou filosófico), que reflete a preocupação de preservar a integridade física e moral do trabalhador; quanto do ponto de vista econômico, que se traduz como a busca de uma necessária distribuição eqüitativa da riqueza produzida no modelo capitalista”.