O Caso 5: O menino que usava cadeira de rodas no playground

No documento Acessibilidade e interação social: comportamento social em face de problemas de mobilidade no parque ecológico da Pampulha (páginas 125-130)

6. ANÁLISE DOS RESULTADOS E DISCUSSÃO

6.2 O comportamento dos usuários com problemas de mobilidade

6.2.5 O Caso 5: O menino que usava cadeira de rodas no playground

Da visita realizada em um domingo, 28 de outubro de 2012 das 09:00h às 13:00h.

Havia um grupo grande de pessoas composto por muitas crianças e alguns adultos os acompanhando no parquinho 1, da Área Silvestre. A observação então teve início no ponto do quadrado azul demarcado no mapa de deslocamentos como mostrado na figura 85.

FIGURA 85 – Mapa de deslocamento do menino na cadeira de rodas e seus acompanhantes Fonte: Criado pela autora, 2012.

Dentre as crianças do grupo, um menino andava com cadeira de rodas e estava à volta das outras crianças observando a movimentação. As pessoas permaneceram nesse parquinho por pouco tempo, e decidiram deixar o lugar.

Nesse momento, o menino seguiu para a trilha periférica ao parque (de areia e seixos) e passou do gramado para andar na trilha com o auxílio da mãe, como mostrado na figura 86, sendo esse local indicado no mapa pelo círculo de número um.

125

FIGURA 86 – Menino segue para a trilha com auxílio da mãe Fonte: Arquivo da autora, 2012.

Do ponto em que chega à trilha até o ponto número dois no mapa de deslocamentos, o menino seguiu impulsionando a cadeira de rodas sozinho e se distanciou um pouco de sua mãe (FIGURA 87), mas de repente parou e a aguardou, contando novamente com sua ajuda.

FIGURA 87 – Menino segue pela trilha, sozinho Fonte: Arquivo da autora, 2012.

Enquanto os dois continuavam pela trilha, o grupo que os acompanhava seguia em linha reta atravessando pela área gramada em direção ao Centro de Apoio. Como neste trajeto não havia sinalização nem trilhas que os guiasse por aquele caminho, esse comportamento do grupo leva a crer que as pessoas já conheciam o parque.

126 Em determinado momento, a mulher e o menino estavam bem próximos a mim e pude ouvir o menino questionar à mãe:

“Não podemos ir na grama com eles?”, e a mãe respondeu: “Na grama é ruim de te empurrar meu filho, você vai acabar caindo”. O menino ainda comenta: “Nossa, mas tá muito quente”. A mãe então parou no ponto representado pelo número três no mapa de deslocamento e com dificuldade passou a impulsioná-lo pelo gramado (FIGURA 88).

Em seguida eles avistaram o grupo e a mulher parou mais uma vez (FIGURA 89), no ponto quatro no mapa de deslocamento, até que receberam ajuda de uma das pessoas para continuar impulsionando a cadeira de rodas do garoto (FIGURA 90). Essa outra pessoa, um homem, auxiliou o garoto ao passar em torno do espelho d’água (FIGURA 91), até que chegaram ao playground do Centro de Apoio.

FIGURA 88 – Mãe e menino seguem pelo gramado FIGURA 89 – Reencontrando o grupo Fonte: Arquivo da autora, 2012. Fonte: Arquivo da autora, 2012

FIGURA 90 – Ajuda para seguir pelo gramado FIGURA 91 – Indo para o outro parque Fonte: Arquivo da autora, 2012. Fonte: Arquivo da autora, 2012

127 Já na área do Centro de Apoio, os adultos se acomodaram próximos ao parquinho, enquanto as crianças foram brincar nele. Nesse momento, o garoto na cadeira de rodas ficou também próximo, mas fora da área do parque, no ponto de parada número cinco no mapa de deslocamento, apenas observando seus colegas que o acompanhavam.

Passados alguns instantes, pessoas do grupo o ajudaram a descer para a área do parque e o levaram até um balanço. Sentaram-no nesse brinquedo, junto a outras crianças para que ele pudesse brincar um pouco.

O menino permaneceu no brinquedo por pouco tempo, sempre sendo segurado por uma mulher, como mostra a figura 92. Em seguida, ele retornou para a cadeira e os adultos o levaram de volta para o local de onde ele poderia observar as crianças brincando, figuras 93 e 94.

FIGURA 92 – Raro momento de interação Fonte: Arquivo da autora, 2012.

FIGURA 93 – Acabou a brincadeira FIGURA 94 – Deixando o playground Fonte: Arquivo da autora, 2012. Fonte: Arquivo da autora, 2012.

128 O grupo permaneceu na área do playground por mais algum tempo. Os adultos chamaram as crianças para um lanche que ocorreu ali mesmo na grama e, em seguida, eles deixaram o parque pela portaria 1.

Neste último caso descrito, o aspecto que mais se destaca são os momentos em que o menino que utiliza cadeira de rodas precisou se separar de seu grupo e manifestou sua vontade de permanecer junto a ele.

Numa primeira ocasião quando eles deixaram a área do parque, e o garoto e sua mãe seguiram por um trajeto completamente oposto ao do grupo para acessarem a trilha, mas no caminho ele pediu para ficar junto das outras pessoas novamente.

Num segundo momento, já próximo ao outro parque, ele observou os outros garotos brincando e tentou brincar junto com eles.

É importante ressaltar também a questão da autonomia, pois o garoto conseguia guiar a cadeira sozinho, mas devido às dificuldades no caminho ele precisou ser ajudado várias vezes.

Quando ele pediu pra andar na grama junto com os outros reclamando do calor e a mãe seguiu com ele. Provavelmente o pedido não se deve ao fato de ir para a grama, mas sim de estar em companhia do grupo. Caso houvesse mais opções de trilhas que conectassem a Área Silvestre com o Centro de Apoio, por exemplo, eles não precisariam ter se separado do grupo, a mãe teria mais conforto e segurança para acompanhá-lo ou talvez nem precisasse empurrar a cadeira de rodas.

Já no playground, a falta de acessibilidade pelos desníveis no piso, os trechos de grama e de areia, não possibilitavam que o garoto pudesse permanecer na área dos brinquedos com as crianças, nem mesmo para só se deslocar com segurança. Além disso, a falta de brinquedos adequados para que ele pudesse compartilhar com as outras crianças parece ter sido a principal razão para que ele permanecesse a maior parte do tempo sozinho, enquanto os outros se divertiam.

129

No documento Acessibilidade e interação social: comportamento social em face de problemas de mobilidade no parque ecológico da Pampulha (páginas 125-130)