5. OS SEGREDOS DAS GROTAS
5.2.1. O causo do encontro de Valdomiro com o Gritador
“Porque isso aí aconteceu comigo uma certa ocasião eu era, eu tinha os meus vinte e cinco anos naquela época... Fui num moinho láá no tal Seu Vergílio tu sabe lá onde é o Seu Vergílio lá? [para Afonso, sentado ao seu lado; aponta a direção] E anoiteci bem atrás daquele morro ali eu anoiteci atrás daquele morro no faxinal *em cima* [aponta para o morro]... E daí eu vinha vindo de, de a cavalo...
e quando eu vi o treco tava gritando mas muito longe mas só que se vocês vêem o grito dele óia vocês se apavoram... Porque não dá pra saber se é cachorro uivando não dá pra ver se é animal relinchando ou se é touro urrando não se sabe o que que é! Mas se ele gritar aqui lá no tio Afonso tu ouve perfeitamente... E eu comecei a ver de muito longe por um grotão que tem ali assim [aponta na direção] e foi subindo e foi subindo direito ao meu encontro... E quando ele chegou a uma distância como daqui pra bananeira [aponta a bananeira]
assim pra gente julgar assim mais ou menos... daí eu vi aquele tropelão mas olha é um tropelo que pode ser uma manada de bicho quando corre da gente no mato assim... E veio pro meu lado e, e quando eu vi o cavalo deu um gemido e caiu comigo, e daí eu só senti aquele vento na minhas costas assim [simula a queda do cavalo abaixando as mãos e o vento abanando as mãos nas costas] e o cavalo deu um gemido e caiu! E daí eu era meio, meio bobo naquela época assim ‘mas isso só pode ser o diabo que tá aí!’, levei a mão assim [leva a mão às costas como se quisesse pegar algo]
quando eu disse assim ele, o cavalo levantou saiu pastando e, e aquele gritador se foi não sei pra onde. Isso aí aconteceu comigo mesmo... Só que vulto assim a gente não vê nada, só vê o grito dele e aquele tropelão medonho... E pra gente olhar parece aí uns vinte ou trinta criação quando corre da gente que se assusta assim no mato o,
35 Vídeo no DVD anexo;
o tropelo o barulho dele... Então a gente pode ver que isso aí aconteceu e acontece até nos dias de hoje porque aconteceu comigo... E daí.... Montei a cavalo vim embora olha não vi mais nada o cavalo tranquilamente mas lá quando aquele bicho montou na garupa ele caiu... o cavalo debruçou comigo...”
(Valdomiro, 68 anos)
No narrar deste causo transparecem as características de Valdomiro (como narrador) e do Gritador na experiência do encontro e de sua atualização no evento performático. Lembrando que este causo foi contado em uma seqüência imediata a outro, sobre a origem da aparição, aparece novamente a tendência de Valdomiro de ancorar sua prática narrativa (e também o próprio universo sobrenatural) na própria experiência. Os elementos comuns aos seus inícios de narrativa estão presentes também aqui. O narrador sobrepõe as referências das diferentes geografias locais para compor um mapa rico em detalhes. Posicionando-se no causo, também historicamente, aponta as referências sociais e culturais que atualizam sua ação. Reforçada pela função fática, que inclui a presença do próprio Afonso como lastro adicional, e pela figuração espacial, a narrativa é preenchida na sua relação com o trabalho (o moinho), com a rede social local (o Seu Vergílio) e com a topografia específica (o morro). Este último elemento recebe um paralelismo para marcar não apenas o local, mas o fato de que havia anoitecido.
É neste momento, adentrando um cenário narrativo já suficientemente estabelecido, que o Gritador surge na narrativa através da sua característica mais marcante, e aquela à qual deve seu nome. Entender a sobrenaturalidade do grito é de tal forma relevante para a compreensão do caráter sobrenatural da própria criatura que Valdomiro utiliza-se da função fática para incorporar a própria audiência na experiência de apreensão diante dele – “mas só que se vocês vêem o grito dele óia vocês se apavoram”. O paralelismo construído a seguir, que age em conjunto com linguagem figurada, é próprio da oralidade e bastante enfraquecido pela transcrição, mas constrói a sensibilidade da
experiência no evento narrativo pela referência a animais e sons conhecidos –
“cachorro uivando (...) animal relinchando (...) touro urrando”. É uma das marcas do gritador a incapacidade de defini-lo adequadamente, e é justamente nisto que reside a essência de sua sobrenaturalidade. Assim como no sumiço inexplicável do tatu, ou na incapacidade de definir a aparência e o comportamento da criatura que pulara na garupa do falecido Puve, a indefinição desqualifica o elemento para as demais geografias, qualificando-o para o sobrenatural. O caráter extraordinário do grito se confirma ainda na forma como ele ocupa a topografia, ocupando distâncias reconhecidamente grandes demais (a casa de Afonso com relação à casa de Valdomiro, onde o caso foi contado) para serem ocupadas sonoramente por uma criatura normal.
O grito se aproxima de Valdomiro seguindo a figuração espacial da grota devidamente apontada, sobreposta pelo paralelismo da palavra subindo que conduz para a proximidade sensível da bananeira visível no evento narrativo, a audiência imersa na percepção dos espaços. Se a manifestação sonora do Gritador já carecia de linguagem figurada, sua manifestação visível necessita também de elementos conhecidos que qualifiquem o sobrenatural. A experiência comum da “criação quando corre da gente que se assusta assim no mato”
significa a outra, incomum, da aproximação física do Gritador. A criatura, no entanto, tem por característica nunca ficar plenamente visível, e é fundamentalmente aos sinais de sua presença que se deve sua fama. Uma rica figuração corporal em conjunto com o discurso indireto revive as conseqüências do contato com o sobrenatural. O cavalo geme e cai, Valdomiro tenta pegar o
“diabo nas costas” e, com o afastamento repentino da aparição, a cena volta subitamente a uma normalidade quase intocada, o cavalo pastando como se nada lhe tivesse ocorrido. Do contato com o Gritador permanece apenas a experiência sensorial de Valdomiro e sua convicção de que esta, aliada à permanência constante das demais geografias com as quais a geografia do sobrenatural interage, é uma chave suficiente para a credibilidade do causo.