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O CEGO ENTUSIASMO E A CONFLITUOSA REALIDADE

No documento adalbertoalvesdemattos (páginas 119-122)

CAPITULO 3: A ESCOLA AGRÍCOLA UNIÃO INDÚSTRIA: UM PROJETO EM

3.3 O CEGO ENTUSIASMO E A CONFLITUOSA REALIDADE

Todo entusiasmo em meio provocado pelas menções de honra e agradecimentos pelos serviços prestados pela companhia União Indústria, por consequencia de mais um objetivo cumprido, não significou, porém, a certeza da tão almejada prosperidade da escola agrícola. Já no segundo semestre de 1869, primeiro semestre letivo de estudos, eram evidentes as dificuldades acumuladas em decorrência dos altos custos da fundação e manutenção da instituição: “A despeza com a fundação desta escola foi de 108:789$866182

entende, porém, a diretoria que ainda são mister 40:000$ para colocá-la na altura de sua missão”183.

A companhia União Indústria investira somas significativas na construção e aquisição de equipamentos e máquinas para a Escola, e parecia estar cumprindo com sua obrigação sem se preocupar com o futuro financeiro da instituição, considerando ainda os gastos com a exposição agrícola e indústrial que teve lugar junto com a inauguração da Escola. O resultado foi a geração de um déficit que a companhai União indústria herdará desde o início dos trabalhos, repetindo a situação adversa vivenciada anteriormente na construção da Estrada. Os problemas de ordem financeira da escola também ocasionaram problemas na manutenção dos serviços. Mas, afinal, qual seria a estratégia da companhia para manter a instituição, uma vez que, ao contrário do que ocorreu com a estrada de rodagem, não

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A Escola Agrícola custou à companhia União Indústria a importância monetária de 108:789$866, ou seja, cento e oito contos, setecentos e oitenta e nove mil, oitocentos e sessenta e seis réis).

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Almanak Laemmert, Rio de Janeiro, 1871. Tipografado. Suplemento, p. 58. Disponível em: http://www.crl.edu/brazil acesso em: 12/01/2015.

haveria socorro por parte do governo Imperial? Como visto, em 1864 o governo se resguardou criando a seguinte ressalva no decreto 3.325, artigo 8º: “A companhia não poderá reclamar do governo indenização alguma, sob qualquer pretexto, e com os seus haveres garantirá o fiel cumprimento das condições acima estipuladas, e de quaisquer reclamações de terceiro184”. O cumprimento das condições estipuladas dizia respeito à manutenção da estrada de rodagem, da colônia Dom Pedro II e às despesas de construção e custeio da Escola.

Além dos elevadissímos custos, a esperança de ver muitos alunos pensionistas matriculados no estabelecimento se frustrará logo em sua inauguração, como registrou o próprio comendador Ferreira Lage. Em 1869, o espaço preparado para receber 60 alunos contava somente com a matrícula de 10 estudantes; o número de alunos nos anos subsequentes divergem nos relatórios do ministério da agricultura, mas ao que tudo indica a Escola nunca chegou a ter lotação máxima.

O jornal Diário do Rio de Janeiro, na edição de 28 de dezembro de 1869, relacionou os estudantes que completaram o primeiro semestre na Escola Agrícola União Indústria:

A utilissima escola agrícola União indústria, núcleo de futuros reformadores de nossa lavoura, velocino de ouro das nações cultas, terminou no dia 22 de dezembro os seus trabalhos semestrais. Os 23 alunos, que por hora frequentam a escola, cujos nomes vão abaixo transcritos por ordem alfabética, foram examinados e aprovadas em organografia, fisiologia de vegetais, física, aritmética e geometria, sendo examindados pelos Srs. J. Schindler, diretor da escola, Abade Almeida, Reitor, Dr. Alvaro de Castro, A. Mynssen e Raymundo de Macedo. Alunos, os Srs. Antônio Menezes Marcondes Jobim, Antônio de Bretas, Antônio Candido de Barbosa, Antônio Francisco de Oliveira Flores, Augusto Xavier de Lima, Baltazar Pinto dos Reis, Domingos Coimbra Ribeiro, Eugênio de Freitas Malta, Emílio Teixeira Lopes Guimaraes, Francisco de Assis Ribeiro dos Santos, Francisco de Paula Benício, Genuino Mineiro de Magalhaes Portilho, Honório Antunes Pereira, Honório Augusto Gomes Ribeiro, José Carlos Pereira Vieira de Carvalho185, José de Oliveira Senna, José Coelho da Silva Brandão, José Soares Valente Henriques, Luiz Alvares de Castro, Manoel de Freitas Novaes Junior, Pedro de Alcantara Barbosa, Pedro Antônio Freelis, Thomaz de Aquino Arantes186.

Mesmo reconhecendo o desafio em fundar uma escola agrícola, existia por parte da diretoria da companhia a esperança de ver a ideia revertida em sucesso, com adesão de boa parte dos produtores nacionais, como evidencia o comendador Mariano Procópio:

184

Relatório ministério da agricultura 1864. Anexos, p. A-L-1 Disponível em: http://www.crl.edu/brazil acesso em: 12/01/2015.

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O jornal Diário do Rio de Janeiro ao publicar a solenidade de abertura da escola agrícola destacou a presença do filho do conde de Lages, José Carlos Pereira Vieira de Carvalho. Disponível na página eletrônica da Biblioteca Nacional. em: http://memoria.bn.br. Acesso em 12/05/2014.

186

Jornal Diário do Rio de Janeiro, 1869. Disponível na página eletrônica da Biblioteca Nacional. em: http://memoria.bn.br. Acesso em 13/05/2015.

Depois de dizer que o custeio do 1º Semestre importará em 2:771$530187 e que anexa a despeza da escola agrícola vinha a da exposição e feira anual, assim se exprimiu o presidente da diretoria em 1870: Os primeiros passos são dificeis. O resultado que se colhe ao começo é quase nulo. Vigorando, porém, todos os anos a ideia há de produzir excelentes frutos, e a geração futura, mais do que a nossa, abençoará a memoria daqueles que lançam na terra a semente da arvore a cuja sombra ela terá de deleitar-se188

Não havendo, portanto, uma possibilidade de um no novo socorro do governo imperial, a alternativa encontrada pelo comendador foi solicitar ajuda aos cofres provinciais, o que chegou a ser bem visto pelo então presidente da província de Minas, Afonso de Carvalho, em 1871:

A escola de agricultura do Juiz de Fora, criada e sustentada pela companhia União indústria, de que é presidente o comendador Mariano Procópio Ferreira Lage, um dos dignos deputados por essa provincia, não tem sido ainda compreendida como era de esperar, e acompanhia, lamentando ter sido a escola frequentanda no máximo por 40 alunos, julga impossível a sua continuação com os seus próprios recursos, que cada vez escasseião mais. Obrigada a prover-se de instrumentos, satisfazer os honorários dos professores e curar do tratamento dos alunos, monta a despeza já feita em réis 182:453$606 fora o custo do terreno. O seu deficit é de 8:225$660 réis. A provincia de Minas, mais do que a nenhuma, convem interessar-se pela continuação de tão importante estabelecimento, e estou certo que, se não recusará a prestar-lhe os auxilios de que carecer afim de não ser privada desta fonte de ilustração teórica e prática para sua agricultura. Na lei Nº1:741 foi-lhe concedida a subvenção de 6:000$000 réis com a obrigação de receber e sustentar a sua custa pelo menos 12 orfãos pobres enviados pelas câmaras dos municípios, em que se cultiva café. No futuro exercícios em que tem de reger esta lei, farse-a efetiva a subvenção. O mesmo favor acaba a provincia de Pernambuco de conceder aá escola ali estabelecida, e a da Bahia tem merecido a proteção dos poderes provinciais. Na lei 1:741, art. 4º § 12 fui autorisado a despender desde já a quantia necessária para fundar três escolas práticas de agricultura nas imediações das cidades de Ouro Preto, São João del Rei e Campanha, mandado para esse fim vir da Alemanhã, ou de outro ponto três familias de agricultores, ás quais se ministrará terras, casas, instrumentos aratórios, utensílios e meios de subsistência até que independão do suxilio do governo, expedidno o necessário regulamento sobre esse serviço189.

Mesmo aprovando uma lei que autorizava o repasse à escola agrícola de uma subvenção anual de 6:000$000, o que se observou nos anos subsequentes foi que o governo da província de Minas Gerais não se utilizou dessa lei para socorrer a Companhia União

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A respeito desse valor pode-se ler: dois contos, setecentos e setenta e um mil, quinhentos e trinha réis. 188

REVISTA AGRICOLA DO IMPERIAL INSTITUTO FLUMINENSE DE AGRICULTURA. Rio de Janeiro: Tipografia do Imperial Instituto Artístico, v.6, n.3, Set.1875. p. 116. Disponível em: http://bndigital.bn.br/ acesso em: 12/01/2015.

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Relatório província de Minas Gerais, 1871. p. 43. Disponível em: Disponível em: http://www.crl.edu/brazil acesso em: 19/01/2015. Grifos meus.

indústria, como notificado em relatório do ministério da Agricultura de autoria de Jose Fernandes da Costa Pereira Junior, no ano de 1874:

Falou-se no limitado prazo da vida da União Indústria, na incerteza de futuro expirado esse prazo, na indiferença do Brasil com o ensino prático de agricultura, na pouca frequência de alunos e nas dificuldades de pessoal idôneo para dirigir estabelecimentos de tal ordem, não obstante os esforços empregados, as vantagens oferecidas pela companhia em prol de uma instituição que tantos trabalhos e despezas custou, e digna de vir a ser abundante fonte de benefícios para lavoura e para o Estado. Entretanto lampejou uma esperança: a de que a presidência da provincia de Minas usasse do crédito coim que foi habilitada pela assembléia Provincial para caeitar os encargos da manutenção da escola agrícola, cedendo estabelecimento e com a obrigação de manter por 8 ou 10 anos, sem mais encargos para a companhia. Pelo que dá a entender os subsequentes relatórios, o governo provincial até hoje não se quis utilizar da autorização190.

No documento adalbertoalvesdemattos (páginas 119-122)