3. DE CENTAURO DOS PAMPAS A CENTAURO NO JARDIM
3.1. O CENTAURO E O IMIGRANTE JUDEU NOS PAMPAS
Duas direções migratórias eram vistas pela comunidade judaica do final do século XIX e do início do século XX como forma para escapar às difíceis condições de vida na Europa, em grande parte, na Europa oriental, como é o caso dos pais do protagonista que vieram para o sul do Brasil no início dos anos 30: à época, uma movimentação sionista já se propagava e propunha a Palestina como destinação. A outra possibilidade era partir para as Américas. Esta opção fora de um significativo número de famílias, sobretudo para países como Argentina, Estados Unidos, Canadá e Brasil.
Nascido ali, nos pampas, Guedali, o mais novo entre quatro irmãos, é deveras diferente daquela família de judeus que o gerara. Essa região natural e pastoril de planícies com coxilhas cobertas por campos e que cobre grande parte do estado do Rio Grande do Sul de mitos e tradições bem peculiares é geralmente posta em valor por seus habitantes. Mas, para a mãe de Guedali, é um fim de mundo onde estão rodeados de
animais, cavalos inclusive. Em suas lembranças está o terror vivido pela família antes de imigrarem e que acabam se associando ao processo de ambientação ao Rio Grande do Sul, como a imagem de uma Rússia que deixaram para trás onde cossacos montados em cavalos – essa associação homem e animal que trazia pânico às aldeias – os perseguiam: eram os pogroms.
Embarcaram num cargueiro, em Odessa. (Muitos anos depois ela ainda se lembraria com horror daquela viagem; o frio, e depois o calor sufocante, o enjoo, o cheiro de vômito e de suor, o convés onde se comprimiam centenas de judeus, os homens de boné, as mulheres de lenço na cabeça, as crianças chorando sem parar.) Minha mãe chegou a Porto Alegre doente, com febre. Mas a odisseia ainda não estava terminada. Tiveram de viajar para o interior, primeiro de trem, depois em carroções, por uma picada aberta no meio do mato, até a colônia (CJ, p. 25)
Como é expresso em outros romances de Scliar, a possibilidade de colonizar a América do Sul, particularmente o Brasil, o sul do Brasil, embora abrisse a perspectiva de uma vida melhor, era aterrorizante. Rosa, a mãe de Guedali, apavorada, “pensava em selvagens nus, em tigres, em cobras gigantescas” (C.J, p. 25). O relato da travessia, como podemos constatar, é outro momento que ocupa lugar privilegiado na obra do autor, de forma que o trânsito, esse espaço intervalar entre os ambientes de origem e de destino, integra-se significativamente ao imaginário desses imigrantes e seus descendentes, reatualizando mitos seculares como o do judeu errante. O processo de passagem transforma assim em memória coletiva esse período de vagas migratórias entre o final do século XIX e meados do século XX.
A descrição dessa travessia que encontramos em O centauro no Jardim, se quisermos recorrer a outra expressão artística, traz em mente aquela expressa pelo pintor Lasar Segall em sua tela intitulada Navio de imigrantes (1939/42), onde o autor retrata como muitos fugiram de uma Europa em plena guerra sem saber ao certo o que encontrariam no fim dessa viagem. Estão expostas ali, na expressão dos rostos, nos
corpos curvados, as duras condições da travessia dos imigrantes que deixavam para trás uma vida inacabada para tentar recomeçá-la em outro lugar.
Se a matriarca da família de Guedali, em seus sonhos, temia os índios naquele território inóspito que era a colônia, “montados em cavalos negros como os dos cossacos” (CJ, p. 25), com o passar dos tempos foi se acostumando ao lugar e à perspectiva de ali criar seus filhos. Já em A majestade do Xingu, é entre índios que Noel Nutels encontra seu cadinho.
Várias obras de Scliar apresentam personagens imigrantes para os quais os trópicos são ambiente de possível redenção e reconforto. Enquanto perspectiva, nem sempre vindo imediatamente a se concretizar: O sonho no caroço do abacate (1995) é também um exemplo, trata de vinda de uma família de imigrantes judeus para o Brasil. A esperança de uma vida melhor, longe de uma Europa ocupada pela guerra, é simbolizada pelo desejo da esposa em conhecer frutas tropicais e sobretudo o gosto do
exótico abacate. No Brasil, com avidez e inocência ao provar o fruto pela primeira vez, expressou grande decepção pelo seu amargor após tê-lo comido com casca e tudo. De forma caricata, está expresso aqui a estranheza e o exercício de adaptação vivido por recém-chegados, nutridos por imagens estereotipadas.
A partir da experiência de Guedali e sua família, os Tartakovsky, o romance O centauro no jardim coloca em evidência o processo de adaptação dos chegados ao Brasil por meio do programa de colonização da ICA, que com o tempo passaram a ocupar as grandes cidades, cujas atividades de subsistência eram mais condizentes com aquelas conhecidas pelos imigrantes
Entre narrativa histórica e narrativa ficcional, o difícil nascimento de Guedali e as reclamações da mãe sobre continuar residindo na colônia de Quatro irmãos, espaço rural distante e inabitual para aquela família, quando grande parte dos colonos judeus já havia tomado o rumo das grandes cidades, fizeram com que traíssem, segundo o pai, os propósitos do barão Hirsch, o de ver colonos judeus povoando os campos.
O barão não nos trouxe da Europa para nada. Ele quer que a gente fique aqui, trabalhando a terra, plantando e colhendo, mostrando aos góim que os judeus são iguais a todos os outros povos. (CJ, p. 19)
Os esforços na vida agrícola, via de regra, não obtiveram grande êxito em razão de boa parte da comunidade judaica da época não possuir conhecimentos nem experiência com o trato no campo. Tanto na lógica do romance quanto na narrativa histórica, o objetivo era retomar profissões urbanas, geralmente preferidas por indivíduos da comunidade judaica. Leon, pai de Guedali, planejava assim o destino dos filhos:
Mas meus filhos vão ter uma vida melhor, consola-se meu pai. Estudarão, serão doutores. E um dia me agradecerão pelos sacrifícios que fiz. Por eles e pelo Barão Hirsch”. (CJ, p. 20)
Mencionado com frequência nas obras de Moacyr Scliar, o barão Maurice de Hirsch, nascido Moritz von Hirsch (1831 - 1896), fora um banqueiro judeu milionário. Após a perda do filho, dedicou sua fortuna à organização que criara para financiar a imigração de judeus que se encontravam em condições precárias e de perseguição no continente europeu. Fundada em 1891, a JCA (Jewish Colonization Association) mais conhecida no Brasil como ICA, fora, segundo a pesquisadora Dominique Frischer, a maior organização filantrópica já estabelecida até o ano 197815. Investiu inicialmente nos EUA, depois na Argentina e no Brasil, em lotes de terras a serem financiados a longos prazos. Leon, o pai de Guedali, tornara-se, como por um sentimento de gratidão, um grande admirador do barão Hirsch.
Confundem-se a difícil conjuntura para os imigrantes judeus no campo e as fantasias em torno da condição aberrante do personagem. O pai, segundo a narrativa, imagina que aos 12 anos, no despertar da puberdade, seu filho poderia procurar uma égua no campo, ao ter sua parte ou instinto animal mais determinante naquele momento. No mundo fantástico de Guedali, estes seriam elementos que justificariam a partida da família do campo para a cidade; outra versão para o êxodo rural, cujo caráter verossímil é apoiado pelos fatos históricos, seriam os desastres ocorridos na colheita e a inabilidade com as atividades agrícolas após tentativas que duraram pelo menos uma década.
Em 1947, a família de Guedali muda-se para Porto Alegre. No bairro Teresópolis, afastado do reduto judaico e junto a classes mais humildes, o pai adquire um armazém com dinheiro que lhe restara, iniciando assim atividade melhor conhecida
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Frischer, em seu artigo publicado na revista Webmoisaica, intitulado O Barão de Hirsch e a imigração judaica para o Novo Mundo, destaca a influência de Hirsch no processo de imigração para as Américas. Apesar de sucessivos fracassos em seus projetos de colonização, que envolviam, por exemplo, negociação com o governo russo que exigia a retirada de três quartos dos judeus do país em até 25 anos, até 1910, chegou a levar só para a Argentina cerca de vinte mil famílias.
pelos supostos colonizadores judeus chegados da Rússia. O filho mais velho, Bernardo, tornara-se o que se chamava de clientelchik, isto é, um vendedor de produtos de porta em porta, comercializando a crédito mercadorias em consignação em bairros mais afastados ou em cidades vizinhas. Atividade esta muito comum naquele período entre imigrantes judeus descapitalizados, que se adentravam no mundo do comércio.