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O coletivo e o particular: a terra e o mar

PRA FRENTE BRASIL (BLOCO TRANSPORTE)

89 BRASIL – MINISTÉRIO DA CULTURA – INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E

2.2 A VIDA MARÍTIMA

2.2.2 O coletivo e o particular: a terra e o mar

Como sugerimos anteriormente, a característica mais relevante de A vida marítima está na relação estabelecida entre áudio e imagens. Assim, se as imagens compunham um quadro festivo, o áudio adicionava às ações por elas apresentadas uma característica de usurpação; de uso indevido dos investimentos públicos em favor de interesses e benefícios restritos. Como aponta o filme,

NARRAÇÃO: “(...) a tripulação dos navios brasileiros é numericamente o dobro dos que fazem o mesmo trabalho em navios de outras nações. Critério que onera o transporte, aumenta o preço dos produtos e sacrifica toda a nação”.

Opondo interesses particulares e coletivos, o filme é estruturado de forma em que a crítica às empresas marítimas estatais, às ações dos portuários, sejam exploradas a partir da oposição entre “terra” e “mar”. Se, como afirma o próprio filme, “é da terra” que o país subvenciona as empresas marítimas estatais, não poderia ser em outro lugar que os marinheiros defenderiam seus interesses; reservando o mar para os momentos de ócio e lazer. Em terra, esses “interesses” eram defendidos pelos sindicatos e corporações de classe que não apenas organizavam a ação de seus membros, como garantiam, junto às classes patronais, a fixação de salários, taxas e pagamentos extras.

Segundo Mendes (1992), a mobilização dos funcionários da estiva portuária e dos funcionários da Marinha Mercante resultou num crescente aumento das manifestações e greves que paralisaram, especialmente durante a década de 1960, as atividades dos portos nacionais e, particularmente, as atividades do porto de Santos. Em 2 de julho de 1960, 53 sindicatos decidiam pela paralisação total do porto de Santos, fato que se repetiria no dia 18 de outubro daquele mesmo ano com o movimento paredista do Sindicato dos Estivadores de Santos. No ano seguinte, duas novas paralisações abalariam o porto. Em 10 de fevereiro, em protesto contra as más condições de segurança no trabalho, que levaram à morte três portuários e feriram gravemente outros quinze, e em 05 de agosto em protesto contra as ameaças de prisão feitas pelo comandante da Capitania dos Portos a

jornalistas e dirigentes sindicais, que se encontravam com sua atenção voltada às reivindicações da classe portuária98.

Ainda segundo o autor, a reivindicação pelo pagamento por produção seria o motivo principal da primeira grande greve no porto em 16 de março de 1962, organizada por empregados da Companhia Docas de Santos, com a colaboração de estivadores e outros trabalhadores do cais. Menos de dois meses depois, em 8 de maio, todos os sindicatos paralisariam não só o porto, mas toda a baixada santista. Nova greve geral ocorreu no dia 05 de julho. Novamente, em 23 de agosto de 1962, o porto voltava a paralisar, com os operadores das máquinas e motoristas da Companhia Docas de Santos reivindicando acréscimo referente ao pagamento do salário por produção. E, em 13 de setembro daquele mesmo ano, nova greve paralisaria a baixada durante cinco dias em protesto contra prisões de líderes sindicais. Essas manifestações prosseguiram até abril de 1964 quando o Golpe Militar coibiu definitivamente todas as reivindicações dos sindicatos ligados ao porto.

Apesar dessas manifestações indicarem a inconteste organização das atividades de portuários e marinheiros elas não foram, nem de longe, retratadas pelo filme A boa empresa da maneira como efetivamente ocorriam; e nem poderiam. Uma das mais regulares e importantes contribuintes do IPÊS era a Companhia Docas de Santos, concessionária para a exploração do mais importante porto do país: o porto de Santos.

A Cia Docas de Santos era presidida por Cândido Guinle de Paula Machado; um dos mais ativos líderes ipesianos. Ele era o responsável por uma empresa que começou suas atividades em 1888. Nos 129 anos em que esteve sob a responsabilidade do grupo o antigo atracadouro do porto de Santos se transformou no mais importante porto comercial do país. Nesse sentido, se o

caráter principal da Companhia Docas era a agilidade com que atendia às exigências do comercio, essa característica deveria também estar relacionada às imagens que a simbolizava. Nota-se que sua imagem é contraposta apenas às imagens do porto carioca do filme Portos paralíticos. Empresa exemplar e, principalmente, uma das principais financiadoras do IPÊS, sua imagem não poderia ser maculada por uma associação indevida entre suas atividades e as ações de sindicatos tão próximos a ela.

Como indicou Luiz Cássio dos Santos Werneck (Anexo C), se a preocupação em A vida marítima era demonstrar a “real situação dos marítimos e portuários”, essa demonstração ocorreu de maneira invertida. Ao invés de se optar por caracterizar as manifestações dos trabalhadores ligados ao porto de maneira delitosa como apresentado em Deixem o estudante estudar, os baderneiros, A boa empresa, os demagogos, Conceito de empresa, os anarquistas etc, a opção em A vida marítima foi caracterizá-las pela defesa de privilégios e regalias.

É certo que a idéia da defesa de “privilégios” e “regalias” adquiridos poderia sugestionar precedentes e incitar outros agrupamentos de trabalhadores para ações de mesma ordem. Entretanto, a maneira como A vida marítima evidencia os motivos pelos quais os movimentos de marinheiros e estivadores reagem às ações de contensão de suas ações, caracterizam uma defesa singular de suas demandas e sublimam qualquer possibilidade de serem percebidos como trabalhadores comuns. Novamente, a forma como o áudio manipula as imagens é substancialmente contundente. Aliados à sintaxe manzoniana do “posado” – que descaracteriza as ações quotidianas simples como o recebimento de salários, os momentos de descanso, as reuniões do sindicato etc, em favor de uma imagem padrão construída – o áudio confirma a idéia de serem os marítimos e portuários um “mundo à parte na realidade brasileira”. Talvez a imagem que melhor retrate essa diferença entre a realidade nacional e uma realidade construída pela ação

sindical está na imagem da sede do Sindicato dos Estivadores. Recortada a partir de uma tomada em contra-plongée ela edifica uma catedral incomum às representações dadas em todos os filmes ipesianos às ações de movimentos sindicais. O plano da fachada da sede do sindicato pode ser comparado com a fachada da sede do partido comunista em Budapeste na Hungria a que faz referência o filme Depende de mim do bloco Resgate / Problemas Sociais.

Fig. 12 Fig. 13

Desse modo, na concepção de A vida marítima, antes de ser um movimento organizado em tornos de ideais políticos e ideológicos, o movimento dos marinheiros, portuários e estivadores era um movimento que primava por ações únicas de “retaguarda dos altos salários percebidos”. Segundo o documentário, esse critério, de caráter particular, onerava o transporte de mercadorias realizado pelo porto e sacrificava a “nação”. Definidos como inimigos da nação, as ações do movimento dos portuários simbolizavam um ponto de desequilíbrio às intenções do Instituto.