O compromisso arbitral, segundo a corrente civilista, pode ser definido lato sensu, como um contrato particular de direito privado estipulado com o fim de produzir entre as partes efeitos processuais, obrigando-as a subtrair da competência da autoridade judiciária ordinária o conhecimento da controvérsia considerada no compromisso, passando tal competência à esfera do juízo arbitral.
Na concepção de Chiovenda, o compromisso arbitral nada mais é do que um contrato processual, que tem como conteúdo o regulamento convencional do processo ou a renúncia a direitos oponíveis com o processo. Para ele, o
compromisso arbitral implica “uma renúncia ao conhecimento de uma controvérsia
por obra da autoridade judiciária”. 123
A mesma opinião é sustentada por Hamilton de Moraes e Barros,124
que sustenta igualmente ser o compromisso arbitral uma renúncia ao conhecimento de uma controvérsia por obra da autoridade judiciária.
Salvatore Satta vai além e nega a própria existência do contrato processual, afirmando que, as partes, pelo compromisso, querem é excluir qualquer pretensão que seja à tutela jurídica, pois não querem litigar, procurando “tratar a
controvérsia jurídica como uma controvérsia econômica, e resolvê-la como qualquer outra controvérsia, com a constituição de um (novo) contrato”
E ainda:
“Convém enunciar desde logo que a causa do compromisso acaba por ser a constituição de uma relação através do arbítrio de um terceiro; a substituição da precedente (incerta) relação é o seu motivo; a exclusão da lide, o efeito”. 125
No direito pátrio, Clóvis Bevilácqua definiu o compromisso arbitral, da seguinte forma:
O compromisso arbitral é um acordo de vontades para o fim de adquirir, resguardar, modificar ou extinguir direitos. Essa definição gerou polêmica entre os juristas brasileiros, que, segundo opinião de alguns, o ilustre jurista deixou de atentar para o vínculo da relação jurídica gerada pelo compromisso em relação às partes.126
Por seu turno, Almeida e SOUSA, concluiu que “no compromisso havia um acordo de vontades, cujo fim seria instituir única e exclusivamente, o juízo arbitral, para através deste, extinguir as obrigações”. 127
123
CHIOVENDA, op. cit., p. 775-778
124
MORAES E BARROS, Hamilton de. Op. cit., p. 473.
125
SATTA, Salvatore. Contributto alla Dottrina dell’Arbitrato. Milão:Giuffrè, 1969, p. 73 e p. 160.
126
BEVILÁCQUA, Clóvis.Código Civil Comentado, vol. 5, 4. ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1939.
127
Partindo dessa premissa, não haveria, em síntese, os elementos aos quais se referiu Clóvis Beviláqua, em sua definição, mas tão somente, a extinção das obrigações, mediante o juízo arbitral.
Pontes de Miranda definiu o compromisso arbitral como “contrato pelo qual os figurantes se submetem, a respeito de direito, pretensão, ação ou exceção, sobre que há controvérsia, à decisão de árbitro” . 128
Por fim, Washington de Barros Monteiro, em sua obra Curso de Direito Civil, após discorrer sobre a natureza jurídica do compromisso, afirma que trata-se in casu, de um acordo de vontades, porém sem o caráter contratual. E assevera que “a transação seria natural complemento do compromisso. O
compromisso seria o acordo entre as partes, que convencionaram ser uma pendência submetida à decisão de árbitros comprometendo-se a sujeitar a essa decisão”. 129
Conclui-se, pois, que os juristas não conseguiram chegar a um consenso a respeito do tema, alguns entendendo tratar-se de um contrato processual; outros admitindo a sua natureza jurídica como um acordo de vontades; outros, ainda, como um negócio jurídico processual e como um elemento natural de uma transação realizada entre as partes.
Em que pese a essa divergência doutrinária, o certo é que o compromisso produz efeitos processuais, pois, além de regular a matéria de ordem processual (afasta o juízo natural, e concede aos árbitros poderes para dirimir a controvérsia), predispõe as partes ao efeito vinculante da decisão arbitral, e ainda estabelece vínculos obrigacionais entre as partes e os árbitros que assumem a obrigação de julgar, segundo as regras procedimentais estabelecidas, nos limites e prazos estipulados, como ficam, também, obrigados a manter o devido sigilo a respeito do objeto da arbitragem.
128
PONTES DE MIRANDA, citado por BEVILÁCQUA, Clóvis.Código Civil Comentado, vol. 5, 4. ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1939.
129
O compromisso arbitral pode, a seu turno, ser do tipo amigável ou judiciário. Amigável é o compromisso estipulado de comum acordo. Somente na falta de acordo entre as partes, e desde que existente uma cláusula compromissória do tipo em branco, permite-se à parte interessada em promover a instauração da arbitragem recorrer ao Poder Judiciário para que se decrete o compromisso arbitral do tipo judiciário. Como teve a oportunidade de afirmar o Ministro Nelson Jobim, “...
o art. 7º é exclusivo da cláusula compromissória em branco”. 130
A conclusão do compromisso arbitral pode ser realizada de forma amigável, mediante acordo entre as partes, que serão instigadas a concluí-lo em dois momentos: antes da participação do juiz estatal, na forma prescrita pelo art. 6º da Lei de Arbitragem, ou, antes que se decrete o compromisso, perante o juiz estatal, conforme dispõe o art. 7.º, § 2º., do mesmo dispositivo legal.
Com relação à cláusula compromissória, os sistemas arbitrais codificados, anteriores à Lei de Arbitragem, não faziam menção a ela, limitando-se o juízo arbitral, então existente, à modalidade do compromisso.
A cláusula compromissória, também denominada cláusula arbitral ou
pactum de compromittendo, conceitua-se como uma convenção celebrada entre os
contratantes, pela qual estipulam as partes que as divergências que vierem a surgir entre elas a respeito de um certo negócio jurídico serão resolvidas por meio da arbitragem.
Em regra, esta convenção refere-se acerca da execução ou da interpretação de um contrato. O novo Código Civil, acerca da cláusula compromissória, dispõe:
Art. 854 Admite-se nos contratos a cláusula compromissória, pela qual as partes convencionam submeter quaisquer divergências a juízo arbitral. Neste caso deverão indicar desde logo o árbitro ou os árbitros. Se estes não puderem servir, e as partes não acordarem em outros, ficará sem efeito a cláusula.
130
Supremo Tribunal Federal. Voto proferido nos autos do AGI em Sentença Estrangeira nº 5.207-7 (Reino da Espanha), 2001.
Art. 855 A despeito da cláusula compromissória, poderá o interessado submeter a questão à justiça comum, que será a competente, se o réu não excepcionar.
A cláusula compromissória é uma convenção pela qual as partes, num contrato, se comprometem a submeter à arbitragem os litígios que possam vir a surgir em relação a esse contrato. Portanto, é considerada uma obrigação de fazer relativamente a litígio futuro, que pode ou não ocorrer, mas caso ocorra, poderá ser mantido na via arbitral, espontaneamente, havendo acordo das partes, ou judicialmente, se uma delas se recusar a honrar o prometido.
A cláusula compromissória não é, portanto, obrigatória, uma vez que a questão poderá ser submetida à justiça comum. As partes podem, então, convencionar se a questão a ser resolvida, o será pela exigência da cláusula compromissória, ou julgada no âmbito da esfera do juízo comum.
A cláusula compromissória dever ser estipulada por escrito, no próprio contrato, ou em apartado que a ele se refira. Não há no nosso ordenamento jurídico o compromisso verbal, como em outros ordenamentos. Essa exigência tem por objetivo tornar certa a extensão da cláusula compromissória, pelo que, se não fizer referência expressa a um contrato determinado, mas não deixar dúvida de que se refere a tal contrato, não há razão para se negar eficácia à convenção.
A cláusula compromissória cheia pode ser do tipo ad hoc ou do tipo institucional. A do tipo ad hoc prescreve, em seu texto, a modalidade de escolha e de nomeação dos árbitros, sem referência às regras de instituição arbitral alguma; a do tipo institucional remete a modalidade de instauração da arbitragem às regras de uma entidade especializada ou instituição de arbitragem indicada pelas partes.
Nos dois casos, cabe à parte interessada em instaurar a instância arbitral dar início ao procedimento previsto no compromisso ou na cláusula compromissória ou, se for o caso, no regulamento da arbitragem da instituição ou entidade especializada indicada, sem que, para tanto, seja necessário interferência judicial, como aliás, prescreve o art. 5.º da Lei de Arbitragem:
Art. 5. Reportando-se as partes, na cláusula compromissória, às regras de algum órgão arbitral institucional ou entidade especializada, a arbitragem
será instituída e processada de acordo com tais regras, podendo, igualmente, as partes estabelecer na própria cláusula, ou em outro documento, a forma convencionada para a instituição da arbitragem.
Em contrapartida, se a convenção firmada pelas partes foi do tipo cláusula compromissória em branco, não será possível instaurar a instância arbitral sem a prévia conclusão de um compromisso arbitral, o que, se for o caso, poderá requerer a participação do juiz estatal.