3. METODOLOGIA E ANÁLISE DOS RESULTADOS
3.2 RESULTADOS OBTIDOS
3.2.6 O concílio da vida profissional com a pessoal
Segundo Whitelegg (2007) quanto mais tempo de carreira o comissário de bordo tiver, mais flexibilidade na sua escala ele terá. Essa afirmação está presente na fala do entrevistado 6.
No começo não tem como você conciliar, você começa a ter isso depois de uns 8 anos de empresa. Eu não tinha aniversário, eu não tinha feriado, eu não tinha evento familiar. A sua vida pessoal literalmente pertence à empresa. (ENTREVISTADO 6)
Os comissários relatam que apesar da falta de rotina e a inexistência de uma escala fixa, no geral dá para conciliar a vida profissional com a pessoal. Segundo eles, o comissário que não consegue conciliar todos os aspectos da sua vida não conseguem se manter no cargo por muito tempo. Porém, quem possui filhos tem mais dificuldades e precisa da ajuda e compreensão, principalmente dos seus parceiros.
A entrevistada 2 relata no seu depoimento que é sofrido conseguir conciliar todos os seus compromissos familiares com os profissionais.
Eu posso te garantir que não é fácil. Todo mundo que tem filho e trabalha na aviação sabe como é sofrido e como é difícil, porque você fica só falando pelo telefone, resolvendo à distância. Você tem que ter alguém de confiança para cuidar dessa criança quando você não estiver. Nós temos as folgas, então eu tento me programar nessas folgas. Eu marco médico, eu marco festinhas, eu marco passeio, tudo nas minhas folgas e o restante nós vamos levando. É bem complicado e claro têm muitos casos. Eu poderia ficar a noite inteira te falando, inclusive tem gente que mora muito longe da onde trabalha. Por exemplo, eu tenho uma amiga, nós trabalhamos em Ribeirão Preto e ela mora em Recife, ela tem dois filhos e consegue ir para casa uma vez por mês na folga, nós temos direito a pedir 3 folgas durante o mês, é o período que ela consegue ficar com filhos. Então é muito ruim, é muito sofrido, é muito difícil. A gente sofre bastante em relação a isso, poderia ser mais fácil, mas não é. (ENTREVISTADA 2)
O relato acima mostra que a qualidade de vida no trabalho é prejudicada nesse aspecto. Segundo Walton (1973) a satisfação do funcionário é afetada quando o trabalho absorve parte da sua vida social. Os relatos comprovam que os
comissários de bordo sofrem por causa deste fato, pois a sua carreira interfere nos momentos dedicados à família, ao lazer e a sua convivência comunitária.
Analisando as respostas das entrevistas, percebe-se que há um sofrimento por parte dos comissários de bordo em não poder estar presentes em muitos eventos familiares e sociais. Além disso, por causa da escala de trabalho que estão submetidos, muitos abdicam da ideia de constituir família.
Quando perguntado sobre a rotina relataram que não há. Que cada dia é uma novidade, com pessoas, chefes, horários e lugares diferentes.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
As pesquisas sobre a temática da qualidade de vida no trabalho, associando- a com a relação de prazer e sofrimento estão ganhando uma repercussão mais abrangente no mundo. Durante a procura de pesquisas bibliográficas e referências sobre o assunto foi possível perceber a importância de produções direcionadas a esses conteúdos.
Um estudo sobre o ambiente de trabalho de aeronautas e sua visão acerca do meio em que estão inseridos esclarece dúvidas e auxilia não só aos profissionais da área, como também aqueles interessados ou até mesmo os mais receosos.
A atenção com a qualidade de vida dos funcionários e a sua influência na produtividade tem se tornado a questão norteadora para várias organizações e seus gestores. No universo da aviação não é algo diferenciado. O rendimento é medido em horas de voo ou quilômetros voados, só que nesse setor há mais fatores prejudiciais ao desempenho do empregado.
De acordo com a análise dos depoimentos o cargo apresenta limitação no tempo para desempenhar, mas consolidou-se como uma “profissão carreira” no qual as pessoas desejam trabalhar até a aposentadoria, arcando com os possíveis impactos que as longas jornadas podem trazer. Doenças ocupacionais, transtornos mentais menores, alterações corporais e de ritmo circadiano são apenas algumas dessas consequências.
Contudo, a legislação brasileira atual é capaz de minimizar o sofrimento proporcionado pelas condições insalubres resguardando pontos de psicohigiene. A regulamentação, como é chamada o conjunto de leis que normatiza a atividade a bordo dos aeronautas, comissários de bordo incluso, ainda se mostra capaz de manter padrões mínimos de bem-estar durante o exercício profissional.
Observa-se nos resultados encontrados que, há um dúbio sentimento, ora de prazer, ora de sofrimento. Por parte dos entrevistados, os fatores que mais influenciam a sensação de prazer são as recompensas e o estilo de vida. A qualidade de vida no trabalho é representada pelos seguintes itens: experiência turística, remuneração, a missão da profissão e realização pessoal. Com relação ao sofrimento, nota-se que as doenças ocupacionais, o ritmo desgastante e a
dificuldade em conciliar a vida profissional com a pessoa trazem alguns obstáculos para para quem deseja fazer carreira como comissário.
Resgatando os objetivos específicos deste trabalho, com relação ao primeiro era sobre a trajetória e inserção desses profissionais no ramo, foi possível identificar que entrevistados de companhias aéreas nacionais tiveram trajetórias parecidas. Passaram por treinamentos e aulas semelhantes no curso de formação de comissário de bordo. Além disso, tiveram resultados positivos de imediato no exame da ANAC e no processo seletivo para ingressar nas suas respectivas empresas (as atividades presentes nas seleções são idênticas entre as organizações).
Já os profissionais de empresas internacionais passaram por processos seletivos e treinamentos diferenciados entre si. Sendo assim, percebe-se que a trajetória foi mais criteriosa e rigorosa. Ao contrário dos comissários de companhias brasileiras, os trabalhadores de organizações estrangeiras foram submetidos ao treinamento depois de contratados.
Com relação ao segundo objetivo, que era discutir a rotina e o ambiente de trabalho dos comissários, verificou-se que, de maneira geral, é um ambiente em que não impera a competitividade. O desgaste entre os funcionários é pouco recorrente em razão da dinamicidade da profissão (muitos lugares e diferentes contatos pessoais).
Tratando do terceiro objetivo, com relação às motivações, as respostas estão relacionadas às facilidades da profissão, ou seja: viajar pelo mundo, aprender novas línguas, conhecer novas culturas e etc, facilidades estas que são consideradas recompensas para quem está atuando na área. O surpreendente é que ainda que submetidos a condições laborais desfavoráveis e relatarem que já sofreram problemas de saúde ocasionados pela rotina e ambiente de trabalho. Muitos entrevistados se sentem satisfeitos e motivados com a profissão. Desse modo, os dados corroboram com Dejours (1994) que afirma que os trabalhadores alcançam determinado equilíbrio psicológico, mesmo estando submetidos a condições de trabalho sem uma estrutura adequada, se existir fatores que possibilitem a transformação do sofrimento em prazer.
As dificuldades encontradas para realização deste estudo foi, em primeiro momento, a familiarização com as teorias existentes sobre o tema, pois há uma diversa gama de informações que aborda as vertentes direcionadas ao assunto.
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Logo em seguida, houve um esforço para colocar as ideias e as premissas em ordem e associá-las, com o intuito de desenvolver a teoria.
Uma sugestão para as empresas que possuem o interesse em melhorar a qualidade de vida no trabalho de seus funcionários neste ramo de atividade, é que dialoguem mais com a academia, permitindo, por meio dos estudos, promover melhores condições de trabalho. É importante lembrar também que não é possível fornecer um excelente serviço aos clientes externos se não se conhece os clientes internos, ou seja, os próprios funcionários.
Outra proposta de pesquisa seria ampliar o escopo deste estudo, investigando a qualidade de vida no trabalho, dos comissários de bordo no Brasil e no mundo, envolvendo, assim, mais empresas aéreas e participantes na pesquisa.
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APÊNDICE
ROTEIRO DE ENTREVISTA COM OS COMISSÁRIOS DE BORDO
1. Nome 2. Idade 3. Estado Civil
4. Tem filhos? Quantos?
5. Em quais empresas trabalhou ou trabalha?
6. Há quanto tempo trabalha como comissário de bordo? 7. Por que escolheu a profissão de comissário de bordo?
8. Na sua percepção, por que muitas pessoas optam por essa profissão?
9. Quando ingressou na profissão, o trabalho atendeu as suas expectativas? Ainda atende?
10. Como foi o curso de comissário de bordo? Quanto tempo durou? 11. Como foi a prova da ANAC?
12. Como soube da vaga para trabalhar como comissário?
13. Como foi o processo seletivo? Quantos processos seletivos você participou? 14. Qual é o perfil desejado ou esperado para quem atua como comissário de bordo?
15. Como foi o treinamento após a contratação?
16. As companhias aéreas costumam oferecer treinamento direcionado ao atendimento ao cliente? Explique.
17. Além do salário, as companhias oferecem outros tipos de recompensas? (Benefício, remuneração variável, recompensas não financeiras)
18. O desempenho do funcionário é avaliado? Conte-me sobre o processo.
19. As companhias aéreas oferecem oportunidade de crescimento para o profissional? Fale sobre.
20. O que mais te motiva e encanta na profissão? 21. Conte brevemente como é a sua rotina?
22. Como você concilia a sua vida familiar e social com a profissional? 23. Como é o seu ambiente de trabalho? É competitivo?
25. Você considera a profissão de comissário desgastante? Explique 26. Fale sobre os desgastes físicos e psicológicos
27. Você sofreu algum problema de saúde ocasionada pela rotina de trabalho ou conhece algum companheiro de profissão que passa ou já passou por algum problema?
28. Qual é a reação da empresa quando algum funcionário está sofrendo por causa de trabalho?
29. Você já presenciou algum caso de injustiça ou sofrimento no seu ambiente de trabalho?
30. Você já se sentiu ameaçado a perder o emprego? Isso é frequente? 31. Você se sente realizado profissionalmente? É reconhecido na profissão?
32. Você tem liberdade para expressar as suas opiniões, seus sentimentos, dá ideias e etc?
33. Você já pensou em mudar de profissão ou já pensou nessa possibilidade? 34. Como você se enxerga nos próximos anos profissionalmente?