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3. O autor de videojogos

3.1 O conceito de autor

As evidências históricas conhecidas sugerem que a arte não surgiu como sinónimo da criatividade dos seus autores, mas como uma representação do

mágico e, posteriormente, do divino. As pinturas rupestres sugerem-nos uma

utilização como forma sobrenatural de materialização ritualista com o fim de ajudar nas tarefas mundanas. Segundo as interpretações mais aceites na comunidade científica, o seu objetivo partiria de uma crença e de uma funcionalidade específica (Benjamin, 1936). Da magia à religião o papel do artista passava sobretudo por ser um canalizador, ou representante da inspiração e temáticas divinas. Só depois do Renascimento é que a figura do artista passou a ser reconhecida e encarada não apenas como um canal de Deus, mas como um ser criativo e possuidor de um estilo próprio. Apesar disso, a atividade artística não era propriamente independente, mas sim patrocinada

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pela Igreja e pelas famílias mais ricas como mecenas. As célebres obras de Botticelli, Michelangelo e Da Vinci são sobretudo trabalhos feitos nestes moldes. São trabalhos por encomenda, ainda que isso não lhes retire o mérito da obra realizada.

No que toca a artes como a pintura, escultura e literatura, a questão de autoria é desde então inerente à sua natureza, mas o mesmo não acontece numa forma artística colaborativa como o Cinema em que o mesmo tipo de visão autoral pode encontrar maiores dificuldades para fazer-se sentir. Quando o Cinema começou a deixar de ser visto como uma mera atividade industrial ligada ao entretenimento e começou a tornar-se uma forma de expressão mais pessoal e íntima, apenas aí começou a ser considerado como uma forma de Arte (Cook, 1985, 114).

De Lev Tolstoi a George Orwell, William Shakespeare, José Saramago ou J. K. Rowling, na literatura todos os escritores são reconhecidos publicamente como autores, independentemente de quaisquer juízos de valor das suas obras. Por outro lado, em formas menos tradicionais de literatura como por exemplo na Banda Desenhada, o sentido de autor pode tornar-se bastante mais diluído. Apesar do Homem Aranha ter sido criado em 1962 por Stan Lee e Steve Dikto, as suas aventuras foram escritas e desenhadas desde então por múltiplos autores. Até a autoria da criação dos heróis de banda desenhada é por vezes repartida entre dois autores, um escritor que cria o conceito e um artista que o transforma num personagem visível. Nestes casos os leitores regulares seguem as aventuras dos personagens que apreciam, independentemente de quem as escreve ou desenha. Isso acontece principalmente no caso das revistas mensais, por outro lado, nas Novelas Gráficas (Graphic Novels), que Alexandra Dias define como edições especiais autocontidas (2012, p.124) verifica-se o fenómeno quase inverso. Aí, autores como Allan More, Dave Mckean ou Frank Miller ganharam destaque pela qualidade das suas narrativas conjuntamente com artistas como Dave Gibbons e Alex Ross que foram reconhecidos pelo seu vincado estilo visual. Um leitor poderá então adquirir uma novela gráfica por curiosidade pelo conteúdo em si ou por ser apreciador da obra de determinado autor.

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Os criadores independentes, pela sua experimentação e liberdade criativa foram o veículo para uma cultura de expressão autoral no Cinema e consideramos que possa existir um efeito paralelo no campo os videojogos. Do período socioeconómico e tecnológico pós Segunda Guerra Mundial vincou-se a ideia da figura de autor de Cinema possibilitada pelo aparecimento de câmaras de filmar de 16mm, mais leves e económicas que retiraram a exclusividade da realização de filmes aos principais estúdios existentes à época (Demirbas, 2008). Particularmente notório em França, este fenómeno foi impulsionador de um tipo de cultura cinematográfica que ainda hoje se faz sentir. O trabalho do realizador cinematográfico, como criador independente com um maior grau de liberdade deveria ser mais solto e representativo de si próprio. A realização cinematográfica de cada autor não deveria ser apenas uma representação direta e impessoal de um texto literário, mas ter o seu estilo próprio, usada como uma forma de expressão do seu autor, tal como nas outras artes. Alexandre Astruc descreve-o simplesmente como a forma como o autor escrevia com a câmara (1948). Esta forma de trabalhar e, sobretudo de se expressar, criou uma diferenciação entre autores como estilos pessoais identificáveis (Gerstner, 2006, p. 6).

A revista Cahiers du Cinéma foi um dos principais meios de divulgação, teorização e incentivo desta nova corrente numa Política dos Autores. Acreditavam que o significado de um filme não advinha somente de um texto previamente escrito, mas da forma como o realizador usa a linguagem fílmica para contar, pela sua voz, essa narrativa (Gillain, 1990, p. 71). Um autor de cinema será, portanto, aquele que demonstra criatividade e arte numa obra que apresenta uma visão consistente e coerente do mundo através de um estilo pessoal individual (Demirbas, 2008).

Este tipo de abordagem, mais criativa e desafiante, aparecia em contraste com o Cinema comercial dos grandes estúdios que, tal como no seu paralelo no campo dos videojogos, mostrava-se como pouco criativo, produzindo com os melhores meios, mas seguindo apenas uma abordagem de apostas comercialmente seguras que não elevam o meio. François Truffaut criticava intensamente essa abordagem referindo que apenas cerca de 10% dos filmes

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anualmente produzidos mereciam a atenção dos verdadeiros críticos e cinéfilos (1954). Este tipo de contestação ao Cinema estabelecido teve os seus frutos resultando no movimento Nouvelle Vague, muito mais aberto a novas ideias de jovens realizadores, à arte e experimentação. Destacaram-se realizadores como o próprio Truffaut, Jean-Luc Godard, Agnès Varda, Claude Chabrol, entre outros, numa valorização do seu espirito criativo e estilo de realização pessoal que lhes conferia a autoria criativa do filme realizado, em detrimento do argumentista que apenas escrevia o guião. Este movimento teve importantes repercussões no cinema mundial e especificamente na indústria de Hollywood em que alguns dos seus maiores realizadores, de Coppola a Robert Altman, Martin Scorsese e Brian de Palma reconhecem a sua importância. Os jovens realizadores de Hollywood dos anos 60 adotaram a mesma política de autor em detrimento do cinema mais comercial que se encontrava estagnado em filmes que não traziam novas visões. O papel dos realizadores/autores e sua obra torna-se então um importante critério de escolha e preferência para os espectadores e cineastas (Cook 1985, p. 137).

Segundo Andrew Sarris a elevação do trabalho de realizador até autor passa por três níveis:

1. O domínio das competências técnicas da utilização da linguagem cinematográfica;

2. A coerência estética que unifica o trabalho do realizador;

3. O ponto de vista pessoal e mensagem passada nos seus filmes; (Sarris, 1962, p. 563)

As filosofias estruturalistas contrariam o sentido de realizador/autor como o criador principal da obra cinematográfica encarando-o apenas como mais uma de várias peças pré-existentes intervenientes no processo e estrutura do filme como um todo. O conceito de Autor começou a perder popularidade e a interpretação do texto feita pelo público ganhou destaque. Nesse sentido alegava-se que o reconhecimento de um autor poderia ser visto como prejudicial ou tendencioso relativamente ao texto pois o espectador poderia limitar o significado da obra conhecendo a visão do criador (Barthes, 1967).

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Poderemos também identificar o autor em três dimensões que apesar de distintas são correlacionáveis:

1. Como a origem que expressa conscientemente uma mensagem; 2. Como personalidade que apesar de não ter plena completa

consciência, apresenta uma personalidade coerente;

3. Como assinatura, como uma espécie de traço ou característica recorrente que o autor emprega na sua obra;

(Steiger, 2003, pp. 30-43) De Deleuze a Derrida e Baudrillard, as definições e discussões sobre a problemática da autoria são vastas e, por si só, material suficientemente abrangente e complexo para investigação própria, mas neste caso, concentrar- nos-emos sobretudo no nosso objeto de estudo. A identificação de um autor no campo dos videojogos pode ser benéfica como transição desta área como apenas entretenimento para uma expressão cultural, da mesma forma como aconteceu no Cinema. O nome do autor como uma marca é também um conceito interessante que se verifica na Indústria de Hollywood a partir de realizadores que se destacaram na história do cinema, e também com resultados comerciais que beneficiam toda a indústria. Ao assistir a um novo filme de Tim Burton, Lars Von Trier ou David Linch sabemos, ou contamos à partida, com um certo tipo de experiência consistente com o trabalho autoral de cada um dos realizadores. Em termos académicos o estudo aprofundado do trabalho desenvolvido por autores de videojogos pode trazer um foco ainda maior dos Game Studies nos processos de conceptualização e design de videojogos e nos seus intervenientes.