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CAPÍTULO 2 O BENEFÍCIO DE PRESTAÇÃO CONTINUADA NA INTERFACE DA PREVIDÊNCIA E ASSISTÊNCIA SOCIAL: CONSTRUÇÃO NA

2.3 O conceito de família na perspectiva do BPC

A elegibilidade do BPC vincula a conceituação de família à análise da renda

per capta. O propósito de definição de família do BPC é para estimar a possibilidade

material de uma família prover a manutenção de seus membros. Assim, “[...] é razoável entender sustendo como consumo de bens essenciais e [...] família como unidade de consumo.” (MEDEIROS; BARROS; SAWAYA NETO, 2010, p. 116).

Para o computo da renda a capacidade de manutenção material do requerente do BPC é analisada individualmente e/ou no âmbito familiar. A regulamentação formal compreende família como aquela composta pelo requerente, o cônjuge ou companheiro, os pais e, na ausência de um deles, a madrasta ou o padrasto, os irmãos solteiros, os filhos e enteados solteiros e os menores tutelados, desde que vivam sob o mesmo teto. (BRASIL, 2011).

O conceito de família utilizado no BPC em sua gênese não foi desenhado para analisar pobreza, mas sim, estabelecer uma linha sucessória para transferência de benefícios previdenciários, como exemplo, nos casos de pensões por morte. (DINIZ; MEDEIROS; BARBOSA, 2010, p. 18), mesmo que sua natureza seja intransferível e cessa com a superação dos critérios que deram origem a concessão ou morte do usuário.

A família foi definida na primeira regulamentação do BPC em 1995 como a unidade mononuclear, vivendo sob o mesmo teto, cuja economia é mantida pela contribuição de seus integrantes (Decreto n. 1.744, de 1995). Esse formato vislumbrava qualquer parentesco, por afinidade ou por consanguinidade, desde que houvesse a coabitação, poderia ser reconhecido como família para a formação da renda per capita avaliada na concessão do benefício assistencial.

A definição no Decreto n. 1744, de 1995 traduzia uma visão frágil de acesso ao direito ao não permitir que o próprio cidadão declarasse a sua composição familiar e renda, não sendo reconhecido como cidadão de direitos e sim como alguém que necessitava de tutela de terceiros. A declaração era atestada ou pelo órgão gestor da assistência social ou, então, pelos conselhos. Na direção de respeito ao usuário como sujeito de diretos a declaração de composição e renda familiar é de responsabilidade do requerente, qualquer iniciativa regressiva desse entendimento fragiliza este direito conquistado historicamente e expõe o requerente a situação vexatória.

O conceito de família para o BPC é replicado em certa medida ao utilizado pela Previdência Social para o benefício, com a especificação da interpretação familiar a partir dos princípios do art. 16 da Lei n. 8.213, de 24 de julho de 1991, desde que vivam sob o mesmo teto. Assim, para fins de concessão, a família descrita até 2011, à qual integrava o requerente do BPC, era aquela formada pelo seu cônjuge, seus filhos e irmãos não emancipados menores de 21 anos ou inválidos, seus pais desde que vivessem sob o mesmo teto.

Os novos arranjos e composições familiares que se estabelecem na sociedade influenciada por questões de produção, unidade de consumo, consanguinidade, afetividade, entre outros, transmuta para além de uma definição padrão que possa exprimir os diversos tipos de convivência. Como no direito e nas políticas públicas brasileiras não há um conceito único de família que permita complementar inequivocamente a Constituição de 1988 ao determinar a prestação da assistência social às pessoas não capazes de suprir seu sustento ou tê-lo provido por suas famílias. (DINIZ; MEDEIROS; BARBOSA, 2010, p. 114).

Mesmo com as alterações realizadas na legislação com a Lei n. 12.435, de 2011, a qual ampliou a condição de irmãos e filhos de qualquer idade na condição de solteiros, e incluiu a condição de companheiro ou companheira, madrasta ou padrasto, ainda diverge dos conceitos de família adotado por outras políticas e ações sócio assistenciais brasileiras. Observamos o próprio conceito de família apresentado pela Política Nacional de Assistência Social (PNAS, 2005) como o grupo de pessoas que se estão unidas por laços consanguíneos, afetivos ou de solidariedade.

Nessa perspectiva de mensuração da capacidade de manutenção da pessoa com deficiência, o conceito de família estabelecido na legislação vigente ora agrega, ora prejudica a avaliação diante suas limitações e os diversos arranjos de convívio que se estabelece na sociedade. Como a condição de solteiro dos irmãos e filhos, considera-se para essa comprovação a formalidade do status civil, sabe-se hoje que há inúmeras uniões de convivência não registradas em cartórios e, não só, já são reconhecidas como tal pelo novo ordenamento civil, como também, que em uma mesma casa agrega mais de um núcleo familiar, na prática essa situação superestima a capacidade de alguns familiares pobres ao não contabilizar o outro núcleo existente, como primos, avós, netos, noras, genros. Por outro lado, porém,

subestima a capacidade de certos parentes com poder aquisitivo maior ao ignorar os filhos e irmãos solteiros, e divorciados que voltam a compor o grupo do requerente.

O cômputo da renda que é aferida entre as pessoas no convívio familiar definido legalmente para se cumprir um direito individual à pessoa com deficiência, em outro viés, quando se reconhecido o direito ao benefício, o mesmo passa, em muitos casos, a se constituir também como principal transferência de renda para o sustento familiar. Atribui-se a centralidade à família como a responsável pela manutenção desses segmentos e caráter subsidiário ao Estado, de acordo com Sposati (2004, p. 129):

[...] é um mínimo tutelado na medida em que submete seu acesso a uma condição externa, e não ao direito do cidadão que dele necessita, isto é, vincula o acesso à condição econômica da família, e não ao cidadão individualmente considerado. Sua regulamentação o faz transitar pendularmente do direito individual para o princípio de subsidiariedade, onde o Estado tem responsabilidade secundária à família, mesmo que esta não resida sob o mesmo teto do ancião ou do inválido.

A vida das pessoas com deficiência em particular está permeada por relações de cuidado, e a família34 e/ou as relações de afetividade e outros tipos de pertencimentos é sinônimo de cuidados. Martha Nussbaum (2010) discute em seu artigo que, receber cuidado é uma necessidade, e, portanto, cabe ao Estado assegurar a possibilidade de que a relação de cuidado se estabeleça sem que isso implique uma carga excessiva para grupos específicos, o que frequentemente é demandado a responsabilidade das mulheres.

Em muitos casos, membros da família se dedicam como cuidadores e não há possibilidade da busca de sobrevivência material, como também, em outras situações esses se mantêm no trabalho informal, uma vez que o benefício não é suficiente para suprir as despesas, com intuito de não alterar a renda do núcleo familiar e com vistas a manter o enquadramento aos limites de elegibilidade ao benefício.

O entrave se estabelece entre a dependência familiar como critério para acesso ao benefício, embora este mantenha seu caráter pessoal e intransferível. O usuário é dependente para ser aceito, mas torna-se imediatamente independente para cuidar de si, pois seu benefício é intransferível. Isso tem algumas implicações

34 É preciso levar em conta a família vivida e não a idealizada, ou seja, aquela na qual se observam

diversas formas de organização e de ligações e na qual as estratégias relacionadas à sobrevivência muitas vezes se sobrepõem aos laços de parentesco. (JOSÉ FILHO, 2007, p.142 apud OLIVEIRA, 2014, p. 78).

do ponto de vista legal. Dentre elas está o fato de que, até pouco tempo, quem recebia o BPC não poderia acumular nenhum outro benefício de renda proveniente de políticas públicas, mas suas famílias poderiam. Além disso, sendo o benefício destinado ao indivíduo, outros membros da família (como os cuidadores) não receberiam nenhuma forma especial de proteção social.

Os ciclos de vida das pessoas a quem se destina o benefício revelam essa necessidade, ao considerar já idosas ou pessoas com deficiência que, em muitos casos, necessitam de cuidados precocemente. Como visto, os aspectos como renda e a composição familiar são preponderantes para o acesso ao benefício, outra situação, que desperta discussão é a comprovação da condição da deficiência relacionada, a qual será apresentada no próximo subitem.

2.4 Um olhar sobre os aspectos da deficiência e incapacidade para acesso ao