CAPÍTULO 3 O MANGUEZAL: CONCEPÇÕES HISTÓRICAS E ATUAIS
3.3. O conceito de manguezal e elementos da epistemologia
As diferentes concepções apresentadas para manguezal, associadas intimamente ao curso histórico, também apresentam bases epistemológicas específicas ligadas a questões filosóficas e visões da natureza. Soffiati (2004) ao analisar as concepções de pescadores afirma que estas são como revisitar as descrições dos colonizadores.
No estudo de Barcellos et al. (2005), após uma investigação do curso histórico, apontou três diferentes grupos. Um primeiro, com uma visão medieval da natureza como manifestação divina, na qual, a experiência sensorial era determinante. Um outro grupo, fruto de uma forte influência européia, apresentou rejeição devido a inacessibilidade e um último, considera a sua importância e diversidade.
Analisando o comportamento humano diante dos manguezais, Vanucci (2004) apresenta o homem como observador, como morador, como usuário e por último explorador e
destruidor. Embora com uma análise bem mais abrangente que o recorte utilizado com impressões registradas por observações no Brasil, são fortemente ligadas aos nossos propósitos.
Sobre essas visões de natureza presentes nas diferentes concepções sobre manguezal, Thomas (1988) e Carvalho (2006) descrevem uma história social das relações a última, classificando-a, por exemplo, como domínio esteticamente desagradável e ameaçador, justificando uma postura antropocêntrica e de exploração uma outra com o início da necessidade de conservação.
Cabe mencionar que existem associadas às diferentes visões de natureza posturas filosóficas relacionadas com as perspectivas para as concepções de manguezal que localizamos. Assim, podemos sugerir que houve uma mudança das primeiras impressões que relacionam o manguezal apenas a aspectos de sujeira e pobreza, provenientes da experiência direta e sensorial, sobretudo de europeus que desconheciam o ambiente e associaram-no a pântanos. Concepções enraizadas na a experiência apresentam relações com o realismo ingênuo de Bachelard.
Bachelard (1996) coloca a experiência primeira, aquela colocada acima de qualquer crítica como um entrave ao conhecimento científico, já que, considera a crítica como essencial ao espírito científico. Assim, chama atenção para a subjetividade como fator condicionante às primeiras experiências, às primeiras imagens criadas que são insuficientes para a cultura científica por se apresentarem [...] pitorescas, concretas, naturais e fáceis8. (p.25)
Para o autor, corresponderia mais especificamente a uma das três fases do espírito científico, o estado concreto em que [...] o espírito científico se entretém com as primeiras imagens do fenômeno [...] (p.11) e [...] não constitui, de forma alguma, uma base segura [...] (p.29), já que:
[...] o fato de oferecer uma satisfação imediata à curiosidade, de multiplicar as ocasiões de curiosidade, em vez de benefício pode ser um obstáculo para a cultura científica. Substitui-se o conhecimento pela admiração, as idéias pelas imagens [...] (p.36)
Em uma segunda perspectiva, começa a existir o reconhecimento da importância do manguezal, tanto para as comunidades quanto posteriormente para alguns representantes das expedições européias, no entanto, em uma visão na qual o homem tem domínio sobre a natureza e a exploração e utilização de recursos. O caráter pragmático e utilitário do
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conhecimento também é localizado na obra de Bachelard (1996) para quem são inconsistentes explicações pela utilidade dos fenômenos naturais, pelos princípios gerais da Natureza.
Dessa forma, em uma visão denominada pelo autor de unidades parcelares que entendemos como próxima à fragmentação existe a indução utilitária, na qual [...] procura-se atribuir a todas as minúcias de um fenômeno uma utilidade característica [...] (p.115). “Logo, o verdadeiro deve ser acompanhado do útil. O verdadeiro sem função é um verdadeiro mutilado. E, quando se descobrir a utilidade, encontra-se a função real do verdadeiro”, (p. (117).
O autor então afirma que o pragmatismo é um exagero e que há uma tendência natural em se buscar em todos os fenômenos uma utilidade humana [...] não só pela vantagem que pode oferecer, mas como princípio de explicação. Encontrar uma utilidade é encontrar uma razão [...] (p. 114, 115).
Na contemporaneidade, como terceira perspectiva, existe uma visão ecossistêmica e da necessidade de conservação existe uma aproximação com o racionalismo contemporâneo comentado por Mortimer (2006) a partir da obra de Bachelard. Nele, as explicações se tornam mais complexas e parte de uma rede mais ampla de conceitos, engloba avanços recentes da ciência como os sistemas complexos. Também o pensamento sistêmico está próximo de tal perspectiva e, para Capra (1996):
[...] As propriedades das partes não são propriedades intrínsecas, mas só podem ser entendidas dentro de um contexto do todo mais amplo. Desse modo, a relação entre as partes e o todo foi revertida. Na abordagem sistêmica, as propriedades das partes só podem ser entendidas a partir da organização do todo [...] (p.41).
A partir de tal postura a idéia de manguezal adquire uma maior abrangência, incluindo desde uma caracterização racional desse ecossistema enquanto objeto científico de estudo, até o seu papel para o ambiente e a existência humana, em termos sociais, econômicos e culturais associado à idéias de preservação e conservação.
Diferentes visões da natureza e de compromissos epistemológicos pautados em correntes filosóficas também podem ser observados no próprio desenvolvimento de ecossistema trabalhado por Lévêque (2001) que também caminhou de uma forma fragmentada, puramente de descrição de componentes como a flora para um tratamento mais amplo e conectado, cuja noção é recente e transita entre o mecanicismo9 e o pensamento que pode ser dito como sistêmico.
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9 Lévêque (2001) menciona a concepção mecanicista do mundo com base no pensamento de Galileu, na qual “[...] o universo identificado como uma máquina é possível de decomposição enquanto tal nos seus elementos constitutivos e o seu funcionamento é determinado pela ação das partes distintas” (p.72).
Carvalho (2006) e Capra (1996) fazem referência ao surgimento relativamente recente do termo ecossistema, implementado no século XX (1935) e, a ecologia, área imediatamente correlata, apresenta sua terminologia definida no século anterior, em 1866.
Cabe ressaltar que os compromissos epistemológicos apresentados co-existem, mesmo na contemporaneidade, já que, como proposto no perfil conceitual podem ser complementares, dependendo da ontologia para compreensão dos conceitos. É essencial recorrer ao fato de que as visões epistemológicas não estão presas e são completamente características a uma época em específico. Ao contrário, coexistem e, visões mais elementares permanecem na época atual, refletida inclusive no cotidiano da escola e estão sendo consideradas para o tratamento de concepções neste trabalho.
O presente capítulo apresenta aspectos relativos ao desenho metodológico adotado nesta pesquisa em sintonia com o problema e objetivos de investigação propostos e com a fundamentação teórica construída. Assim, seqüencialmente, haverá a caracterização do tipo de pesquisa, seguida pela caracterização do campo empírico e sujeitos participantes, dos procedimentos e instrumentos, bem como o direcionamento dado à estruturação e análise dos dados: a etnografia interacional e a dinâmica discursiva que constituem a fundamentação teórico-metodológica.
4.1. Caracterização da pesquisa
De uma forma geral, as pesquisas acadêmicas são definidas como quantitativas e qualitativas, embora haja cruzamentos entre as duas perspectivas. Neste trabalho, desenvolvemos uma abordagem metodológica prioritariamente qualitativa, visando uma averiguação mais abrangente e detalhada de concepções e situações do cotidiano escolar. Para André (1995), a abordagem qualitativa defende uma visão holística dos fenômenos, isto é, que leve em conta todos os componentes de uma situação em suas interações e influências recíprocas. Oliveira (2005) define a pesquisa qualitativa como um processo de reflexão e análise da realidade através da utilização de métodos e técnicas para compreensão detalhada do objeto de estudo em seu contexto histórico e/ou segundo sua estruturação.
Como desdobramento da vertente qualitativa, temos um estudo de natureza etnográfica, exploratória e de observação participante. André (1995) coloca que a abordagem etnográfica é oriunda da Antropologia e pode ser caracterizada a partir da vivência, observação e descrição detalhada de diferentes grupos sociais e suas culturas. Para a autora, em educação, os estudos que são de tipo etnográfico se aproximam das interações ocorridas no dia-a-dia da sala de aula, do fenômeno natural do cotidiano escolar, instaurando-se como uma perspectiva para além dos estudos experimentais, e são dependentes de instrumentos e procedimentos específicos que serão abordados mais adiante.
Assim, neste trabalho, iremos analisar as interações discursivas em uma sala de aula, considerando o trabalho com um tema com forte cunho social e cultural para a escola em foco - o manguezal. Nesse sentido, ratificamos que a pesquisa adquire um caráter etnográfico, uma vez que serão analisadas as influências do contexto no processo de construção de significados desenvolvido pelas crianças em sala de aula.