TEORIAS E MODELOS NA COMPREENSÃO DO DESENVOLVIMENTO E DAS INTERACÇÕES HUMANAS
5. Resultados de investigação:
5.1. Envolvimento e características da criança
5.1.4. Envolvimento e temperamento
5.1.4.1. O conceito de Temperamento
O interesse pelo estudo sistemático do temperamento em crianças surgiu de constatações em diversas áreas de pesquisa. Nos anos 1920 e 1930, ao tentar estabelecer sequências desenvolvimentais normativas, os investigadores verificaram a existência de uma variabilidade acentuada no comportamento das crianças observadas, o que os levou a assumir a existência de trajectórias alternativas de desenvolvimento, nas quais tendências desenvolvimentais se entrecruzam com as idiossincrasias pessoais, explicando as diferenças individuais (Rothbart & Bates, 1998). No entanto, nos anos 1950, as abordagens da aprendizagem social dominavam o campo da psicologia desenvolvimental – as diferenças individuais eram explicadas em termos de reforços e punições e pouca atenção era dada ao estado inicial de diferenças individuais das crianças. Nos anos 1960 e seguintes, tornaram-se dominantes abordagens do desenvolvimento cognitivo, baseadas numa teoria desenvolvimental, mas limitando o seu estudo a fenómenos da cognição e da linguagem e negligenciando as emoções, a motivação e mesmo o comportamento da criança (Rothbart, 2004). Com a popularidade da área do desenvolvimento cognitivo, a formação e a investigação em psicologia do desenvolvimento dividiu-se em duas grandes áreas – a área do desenvolvimento da cognição/linguagem e a área do desenvolvimento social/emocional – que, por vezes, se uniam na área de cognição social. Os contributos de estudos noutras áreas, nomeadamente a psicobiologia, o desenvolvimento emocional, o temperamento/personalidade, as diferenças individuais e a motivação, eram considerados mais subsidiários para a compreensão do desenvolvimento da criança. Segundo Rothbart (2004) esta fragmentação limitou o âmbito da nossa forma de pensar o desenvolvimento. O autor considera que teria sido preferível fornecer uma formação geral em psicologia do desenvolvimento, com as especializações organizadas em torno de questões de investigação, evitando fronteiras entre áreas. Mais recentemente, verifica-se um interesse crescente pelas emoções e pelo desenvolvimento emocional, com um renascimento de estudos sobre o desenvolvimento do temperamento e da personalidade. Nesta área de pesquisa Rothbart e Bates (1998) referem três conceitos, realçados por Gesell e Shirley, que tiveram grande influência na forma de conceptualizar o temperamento: (a) os traços de temperamento podem ser considerados como características com base constitucional que constituem o âmago da personalidade e influenciam direcções do desenvolvimento; (b) embora seja de esperar alguma estabilidade nos traços de temperamento, os resultados desenvolvimentais dependem, em larga medida, dos processos de desenvolvimento e do contexto social em que estes ocorrem; (c) um
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conjunto definido de características temperamentais constitui a base para uma variedade de resultados desenvolvimentais – “. . . Podem verificar-se diferentes trajectórias e resultados desenvolvimentais em
crianças com traços de temperamento semelhantes, e crianças que diferem em temperamento podem atingir resultados desenvolvimentais semelhantes através de diferentes trajectórias.” (Rothbart &
Bates, 1998, p. 106).
Uma outra área que forneceu contributos importantes para o estudo do temperamento foi a linha de pesquisa em genética comportamental e psicologia comparativa, que realçou as diferenças individuais na expressão dos sistemas motivacionais, tanto entre espécies como numa mesma espécie, e investigou a criação selectiva de características de temperamento (Rothbart & Bates, 1998). As características temperamentais estudadas nesta linha de pesquisa continuam a ser relevantes nos estudos actuais de temperamento (e.g., nível de actividade, impulsividade, aproximação/retraimento). Além disso as abordagens actuais em genética comportamental do temperamento em animais incluem estudos sobre a busca de sensações, e sobre a propensão para dependências que lhes está associada.
Como uma terceira grande linha que esteve na génese da pesquisa sobre temperamento em crianças, Rothbart e Bates (1998) referem ainda os estudos clínicos, biologicamente orientados. É nesta linha de investigadores clínicos que surge um marco de referência na emergência do estudo sistemático do temperamento em crianças – o New York Longitudinal Study (NYLS), que teve o seu início em 1956, uma época em que a investigação do desenvolvimento era dominada pela ênfase em factores ambientais e educativos, e que surgiu como uma forma de reagir à tradição que considerava os pais como responsáveis pelos problemas dos seus filhos (Thomas & Chess, 1977). Inspirados nas diferenças entre os seus próprios filhos, estes autores propuseram-se estudar aquilo a que chamaram os padrões primários de reacção em crianças e foram pioneiros na aplicação sistemática de conceitos de temperamento à medida da individualidade da criança. Neste estudo, os autores definiram temperamento como um estilo comportamental, isto é, o “como” do comportamento, de forma a ser diferenciado das capacidades que consideraram o “quê” e o “quanto” do comportamento, e da motivação que viam como o “porquê” do comportamento. Nesta definição “como” refere-se sobretudo a características formais do temperamento, tais como reactividade, actividade e auto-regulação. Partindo da ideia que o temperamento da criança deve ser considerado em qualquer discussão de parentalidade, Thomas e Chess (1977, 1981, 1989) propõem o conceito de “goodness-of-fit”27 entre as características da criança e as exigências do meio,
conceito que tem sido muito influente na pesquisa sobre temperamento, especialmente no estudo das interacções pais-criança. Os primeiros relatos do NYLS vieram ao encontro das constatações dos investigadores em desenvolvimento social que estavam cada vez mais conscientes dos contributos da criança para as suas interacções sociais (Putman, Sanson, & Rothbart, 2002) e para o seu próprio
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desenvolvimento, reconhecendo as diferenças em idades precoces como a base para o desenvolvimento futuro (cf. Rothbart & Bates, 1998).
Finalmente as abordagens cognitivas, ao realçarem a influência das representações perceptivas e cognitivas da criança no seu próprio desenvolvimento, contribuíram para que a pesquisa sobre temperamento veiculasse a ideia que diferenças individuais entre as crianças no processamento emocional poderiam resultar num enviesamento das suas representações acerca das experiências, baseado na forma como estas experiências as afectavam, com implicações importantes para o desenvolvimento (ibd.).
A investigação sobre temperamento sofreu um forte incremento a partir da década de 1990, em particular em áreas como as bases fisiológicas e os contributos genéticos, a continuidade e a descontinuidade das dimensões temperamentais, as dimensões temperamentais enquanto factor determinante do comportamento e a importância do temperamento na determinação dos problemas de comportamento e da psicopatologia (Rothbart & Bates, 1998). Nas duas últimas décadas, as abordagens da neurociência à imagiologia do cérebro humano e ao mapeamento do genoma humano têm fornecido contributos valiosos no estudo da psicobiologia do desenvolvimento e das diferenças individuais (Rothbart, 2004).
As definições avançadas para o temperamento têm sido diversas, variando com as orientações teóricas dos autores que as defendem (Bates, 1989b; Goldsmith et al., 1987; Kochanska, 1991, 1997; Rothbart & Bates, 1998; Rothbart, Ahadi, & Evans, 2000; Strelau, 1991). Segundo Portugal (1998) os bebés trazem consigo diferenças notáveis, que se reflectem em perfis identificáveis e que determinam a qualidade da relação com os outros e com as coisas, sendo que o termo temperamento é actualmente utilizado para falar dessas qualidades individuais, que se salientam desde muito cedo, e que constituem um conjunto de características únicas de cada criança. Segundo esta autora, os factores temperamentais influenciam a frequência, a intensidade e a qualidade afectiva na expressão individual de comportamentos cuja ocorrência é, no entanto universal, como a ansiedade de separação, a angústia perante o estranho, a tristeza, a vergonha ou a culpa. Ao longo das últimas três décadas alguns aspectos têm sido aceites de forma consensual na definição de temperamento: (a) o temperamento tem uma forte componente biológica de base, sofrendo influências de factores congénitos; (b) as características temperamentais estão presentes desde o nascimento e tendem a apresentar estabilidade ao longo do tempo e consistência entre situações, o que não quer dizer que não possam ser modificáveis por factores ambientais; (c) o temperamento é um conceito multidimensional, verificando-se, por isso, a tendência para falar em características temperamentais que traduzem essas dimensões (e.g., emocionalidade, reactividade, nível de actividade, sociabilidade); (d) as características temperamentais exprimem-se em tendências comportamentais que se manifestam sob diferentes organizações em diferentes idades e períodos do desenvolvimento; (e) as características temperamentais interagem com as influências socializadoras na
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O temperamento é comummente considerado como um sub-área da área mais genérica da personalidade (Chess & Thomas, 1981, 1989; Rothbart & Ahadi, 1994; Rothbart et al., 2000), e inclui diferenças em processos psicológicos básicos, relativos a factores emocionais, de reactividade motora, de atenção e de auto-regulação, que constituem a base da personalidade e do seu desenvolvimento (Rothbart & Bates, 1998; Rothbart, 2004). No mesmo sentido Putman e colaboradores (2002) definem temperamento como diferenças individuais em reactividade à estimulação a níveis emocional, motor e de atenção, e em padrões de auto-regulação comportamental e de atenção. Estas diferenças manifestam-se desde o nascimento sugerindo que, tanto os factores genéticos como os factores ambientais, influenciam o desenvolvimento da criança e têm implicações na sua interacção com os seus pais e educadores. “Reactividade” refere-se a diferenças individuais no nível de activação (arousability) motora, na expressividade emocional e na orientação. “Auto-regulação”refere-se a processos que regulam a reactividade, nomeadamente tendências de aproximação, retraimento (ou inibição comportamental) e de controlo do esforço (effortful control) (Rothbart, 2004). Portugal (1998) considera que aquilo que o constructo temperamento oferece é a ênfase na individualidade, sendo o “. . . aspecto do comportamento
que reflecte a contribuição individual (distinta da relação ou de aspectos situacionais) e que se refere a diferenças individuais no estilo comportamental (e não tanto a conteúdos comportamentais ou componentes motivacionais) sendo, como todas as características humanas, afectada por influências ambientais” (p. 37).
O domínio da personalidade, por sua vez, inclui, para além do temperamento, as capacidades, os hábitos, os valores, o conteúdo da cognição social e as atitudes relativamente a si, aos outros e ao mundo físico (ibd.). Rothbart, Ahadi e Hershey (1994) referem que as características da personalidade também são moldadas por reforços e punições e que o temperamento está relacionado com o grau relativo de influência desses reforços e das punições. Rothbart (2004) argumenta que o temperamento constitui um constructo integrativo do desenvolvimento social, cognitivo e da personalidade, realçando as suas conexões com diversas áreas de estudo, nomeadamente: (a) o desenvolvimento da psicopatologia pela ligação estreita entre perturbações de humor e de conduta e as dimensões temperamentais de afecto negativo e controlo da atenção; (b) o estudo de ligações entre comportamento, experiência e funcionamento do cérebro, com base nas relações entre dimensões do temperamento e a neurociência afectiva e cognitiva; (c) o estudo do desenvolvimento da personalidade; (d) o desenvolvimento da consciência, da empatia e de outros comportamentos pró-sociais.
Em seguida apresentam-se as principais características de dois tipos de abordagem no estudo do temperamento: as abordagens de tipo causal que enfatizam as origens biológicas das características temperamentais e as abordagens descritivas que realçam as transacções ou interacções dinâmicas entre características da criança e exigências do seu meio ambiente, realçando o papel activo da criança no seu processo de desenvolvimento.
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