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CAPÍTULO 1 CRIAÇÃO E AFIRMAÇÃO DE UM GRUPO DE

1.4 O período de ouro da Liga Naval Portuguesa: os grandes congressos

1.4.2 O Congresso Internacional de Lisboa em 1904

Os congressos precursores e a Associação Marítima Internacional

Entre 4 e 12 de Agosto de 1900, por ocasião da Exposição Universal, reuniu em Paris o Congresso Internacional da Marinha Mercante. Não se tratou da primeira grande reunião internacional para debater os seus problemas, mas este encontro do primeiro ano do novo século decorreu num contexto de aceleração do comércio, de competição colonial, de consolidação dos avanços técnicos da revolução industrial e, mais relevante ainda, como o futuro se encarregaria de demonstrar, do desafio alemão à supremacia britânica nos mares. Fizeram-se representar Alemanha, Inglaterra, França, Rússia, Bélgica, Itália, Espanha, Dinamarca, Noruega, para além do Japão, Estados Unidos e México. De acordo com a documentação do congresso Portugal não enviou um delegado oficial177.

174 A revista satírica Paródia: Comédia Portuguesa de 11 de Fevereiro de 1903 publicou para a ocasião um desenho do seu director Rafael Bordalo Pinheiro, caricaturando as figuras do rei, de Hintze Ribeiro e Teixeira de Sousa, com o título “Projecto de centro de mesa em prata … da casa,- oferecido pela PARODIA em comemoração do Congresso Maritimo”.

175 Boletim Oficial, Série II, nº 2 – Fevereiro de 1903, pp. 38-40. 176 Boletim Oficial, Série II, nº 4 – Abril de 1903, p. 76.

177 Congrès International de la Marine Marchande – 4 au 12 Août 1900, Compte rendu des travaux et des séances, Paris, Imprimerie Paul Dupont, 1901, p. 6.

76 O congresso debateu o que pode considerar-se como a totalidade das questões relacionadas com a marinha mercante da época: a sua situação e evolução; os avanços técnicos; a protecção dos Estados – sob a forma de subvenções – aos serviços postais e às linhas regulares; a influência dos regimes alfandegários; os sistemas de cálculo da tonelagem dos navios; a farolagem e a balizagem; a pilotagem nas barras e portos; a exploração comercial dos navios; o desenvolvimento dos cabos submarinos; a situação das equipagens e formas de melhorar as suas condições material e moral. Todas estas problemáticas diziam também respeito a Portugal, de uma forma agravada pelo atraso económico e pela crise do início da década de 1890. De acordo com os documentos do Congresso de Paris, a marinha mercante portuguesa, que ocupava, em 1873, o 14º lugar do ordenamento internacional, em termos de tonelagem da frota, estava em 1899 na 18ª posição, já que, naquele período, tinha ficado praticamente estagnada178.

Um dos votos aprovados no final da reunião179 apelou à criação de uma associação marítima internacional para se ocupar da realização anual de um congresso, no qual seriam debatidos os problemas das marinhas de comércio dos países aderentes. Foi, ao mesmo tempo nomeada uma “comissão de estudos” para pôr em marcha o projecto.

Embora, como já se referiu, não exista notícia da presença de qualquer delegado nacional ao congresso, a verdade é que Portugal foi membro fundador da “Association Internationale de la Marine” (Associação Marítima Internacional), cujos estatutos foram aprovados ainda em 1900 e publicados em conjunto com as actas do Congresso Internacional da Marinha Mercante de que nos vimos ocupando.

Com sede em Paris, tendo por fins representar os interesses das instituições e empresas com actividades relacionadas com o mar, a navegação e as pescas, a nova associação internacional reunia representantes da Alemanha, Áustria e Hungria, Bélgica, Espanha, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Itália, Espanha, Grécia, Itália, Mónaco e Portugal, por intermédio da Liga Naval Portuguesa.

A sua criação foi tornada necessária pela generalização da navegação a vapor e o incremento do transporte marítimo, tendo como antecedentes na conferência diplomática marítima realizada em Washington, em 1888 e, mais tarde, no Congresso de Navegação,

178 Ibid., pp. 36-38. 179 Ibid. , p. 357.

77 que em 1898 reuniu em Bruxelas bem como, no mesmo ano, no Congresso de Direito Marítimo que reuniu em Antuérpia180.

Em 1900 foram, como já referimos, aprovados os seus estatutos e, simultaneamente, designados os seus órgãos dirigentes e os representantes dos estados aderentes. Foi nomeado seu secretário Cardozo de Bethencourt181, que acompanhou o Segundo-tenente António Pereira de Matos na representação de Portugal na Comissão Internacional da nova associação.

João Leão Cardozo de Bethencourt foi um erudito de origem hebraica, nascido em Nantes em 1865. Dele apenas se conhece, com algum detalhe, a actividade em Portugal, a partir de 1905, quando foi encarregado por D. Carlos de fazer o catálogo dos manuscritos da biblioteca do palácio da Ajuda, ocupando depois, entre 1907 e 1911, o lugar de bibliotecário da Academia das Ciências de Lisboa, de que pediu a exoneração com a implantação da República. Foi paleógrafo e historiador, com uma interessante bibliografia publicada. Sabe-se que ainda vivia em 1938, estando estabelecido em Bordéus, onde desenvolvia actividade de investigação sobre a “acção histórica, literária, económica e diplomática dos judeus”182.

O primeiro congresso da Associação Marítima Internacional teve lugar no Mónaco, em 1901, discutindo múltiplas questões relativas às actividades marítimas como, entre outras, a assistência ao seus trabalhadores; o salvamento no mar; a farolagem e balizagem; os portos francos; a oceanografia e a meteorologia183; a telegrafia e a telefonia sem fios e, curiosamente, a demonstrar o período de transição que se atravessava quanto a algumas tecnologias, o correio marítimo por pombos-viajantes184.

180 Association Internationale de la Marine, Congrès de Copenhague – 1902, Paris, Imprimerie Lahure, 1902, p. 26.

181 Breve Relação […], p. 87.

182 “Bettencourt (João Leão Cardozo de)”, Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, 37 Volumes, 1 Apêndice e 10 volumes de Actualização, Volume 4, Lisboa/ Rio de Janeiro, Editorial Enciclopédia, [s.d.], p. 618. Ver também Ana Isabel Ferraz de Oliveira Pinto de Abreu, “J. L. Cardozo de Bethencourt, sua ascendência e descendência portuguesa”, Gerações/ Brasil, Boletim da Sociedade Genealógica Judaica do Brasil, Volume 12, Fevereiro de 2004, pp. 18-19, que refere 1861 como a data do seu nascimento.

183 O príncipe Alberto I do Mónaco apresentou uma tese sobre o estabelecimento de um observatório meteorológico nos Açores, que tinha sido criado em 1901 pelo governo de Hintze Ribeiro, no culminar de um projecto que teve como um dos patronos o soberano monegasco e o meteorologista Coronel Afonso Chaves como impulsionador. O assunto está estudado em Maria da Conceição da Silva Tavares, Viagens e diálogos epistolares na construção científica do mundo atlântico. Albert I do Mónaco (1848-1922), Afonso Chaves (1857-1926) e a Meteorologia nos Açores, Dissertação de mestrado em História e Filosofia das Ciências, apresentada à Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa - Secção Autónoma de História e Filosofia das Ciências, 2007.

184 Association Internationale de la Marine, Congrès de Monaco 1901 – Compte rendu des travaux, Imprimerie de Monaco, 1901, passim.

78 Os trabalhos decorreram no Museu Oceanográfico do principado, com a contribuição de delegações oficiais de apenas quatro países: França, Itália, Montenegro e Portugal, enquanto Alemanha, Inglaterra, Áustria-Hungria e Holanda estiveram presentes através de companhias ou associações marítimas. As ligas navais alemã, inglesa, italiana, belga e espanhola investiram na sua presença, através dos respectivos presidentes, no “Comité de Patronage” da Associação Marítima Internacional, no qual estavam representados, para além dos países com delegações oficiais, Dinamarca, França, Mónaco, Noruega e Suécia. A Liga Naval Portuguesa integrava a representação nacional, através do Segundo-tenente António Pereira de Matos, de João Leão Cardozo de Bettencourt e de Cordeiro de Sousa, do Porto de Lisboa185.

O Comité português da Associação foi constituído em Dezembro de 1902: presidido por Júlio de Vilhena, teve como vice-presidentes os Contra-almirantes Pedro Inácio do Rio Carvalho e Joaquim Ferreira do Amaral; como vogais os oficiais da Armada D. Fernando de Serpa Pimentel, Vicente Almeida d´Eça, Guilherme Arnaud e António Jervis de Atouguia Ferrreira Pinto Basto e como secretário, António Pereira de Matos. O Comité ficou instalado na sede da Liga Naval.

Durante a viagem particular que fez a Paris em 1902 – partiu de Lisboa em 16 de Outubro usando o nome de conde de Barcelos186, o rei D. Carlos recebeu o vice-presidente da Associação Marítima Internacional, Charles Roux, que convidou o soberano para aceitar o título de seu “haut protecteur”. O convite, que tinha sido anteriormente formulado pelas vias diplomáticas, foi aceite por D. Carlos187, valendo a pena assinalar que o rei Afonso XIII de Espanha só foi convidado para ser investido naquela dignidade em 1904188.

No mesmo ano de 1902 o congresso da Associação reuniu em Copenhaga. O príncipe Henrique da Prússia, irmão mais novo de Guilherme II e neto da rainha Vitória, encabeçava então a lista dos “Altos Protectores” da associação, onde também figuravam, entre outros, Leopoldo II, rei dos Belgas, Émile Loubet, presidente francês e o grão-duque Alexis Alexandrovich, filho de Alexandre II que fora avô do czar Nicolau II, e o rei D. Carlos.

Este congresso debateu os temas da meteorologia, oceanografia, pesca marítima, regulamentos internacionais, legislação, tanques de ensaios de modelos, navios

185 Ibid., pp. 11-12, 508.

186 Rui Ramos, D. Carlos, Lisboa, Temas e Debates, 2007, p. 480. 187 Boletim Oficial, Série I – Outubro de 1902, p. 10.

188 Ricardo Arroyo Ruiz-Zorilla, Juan Pérez de Rubín e Alexandro Anca Alamillo, La Real Liga Naval Española. […], p. 147.

79 insubmergíveis, portos e maquinarias, telegrafia e telefonia sem fios e, finalmente, a conveniência da criação de uma rede de organismos para promover o desenvolvimento do diálogo internacional sobre todas as questões marítimas. Esta rede envolveria um “Bureau Maritime International Permanent”, os congressos marítimos internacionais, uma “Comission Permanente Internationale Officielle”, bem como conferências diplomáticas, cujos esforços deveriam terminar com a aprovação da Carta para uma “Union Maritime Internationale”. Seria o culminar de esforços que decorriam havia já trinta anos, que contavam agora com a colaboração das ligas navais dos países envolvidos189.

A participação de Portugal nas actividades da Associação Marítima Internacional em 1902 contava com um bom número de personalidades, alguns a título meramente nominal, mas na sua maior parte envolvidos nas actividades da Liga Naval Portuguesa. Vejamos:

• No elenco dos “Presidents d´Honneur”, incluíam-se os nomes do chefe do governo, Hintze Ribeiro; do ministro da Marinha e Ultramar, António Teixeira de Sousa; do presidente da Liga Naval, Júlio de Vilhena e do almirante Francisco Ferreira do Amaral, presidente da Sociedade de Geografia de Lisboa.

• Dos “Membres d´Honneur”, faziam parte o director-geral de Marinha, Almirante Pedro do Rio Carvalho; Guilherme Arnaud, director da Empresa Insulana de Navegação e dirigente da Real Associação Naval de Lisboa; e ainda José Adolfo de Melo e Sousa, presidente da Associação Comercial de Lisboa, que fora em 1901 o primeiro dirigente máximo da Liga Naval Portuguesa.

• Na “Comission Internationale”, surgiam o então Capitão-de-fragata Vicente Almeida d´Eça, professor da Escola Naval e vice-presidente da Sociedade de Geografia de Lisboa; o Capitão-de-fragata D. Fernando de Serpa Pimentel, comandante do Iate Amélia e ajudante de campo do rei, bem como o secretário-perpétuo da Liga Naval, Primeiro-tenente António Pereira de Matos.

Entre as múltiplas e ambiciosas conclusões aprovadas pelo Congresso de Copenhaga - 1902, na grande maioria respeitantes à harmonização de normativos e

80 práticas do comércio marítimo, marinha mercante e portos, contavam-se ainda duas outras, uma das quais com especial interesse nacional:

• A determinação da Associação na “disparition de ces animaux [les rats] dans tous les pays du monde”, seguindo assim a recomendação formulada pelo “Comité pour l´extermination des rats en Danemark”.

• A decisão de realizar em Lisboa o próximo congresso da Associação, recebida pela audiência com “applaudissements prolongés”.

O relatório que o primeiro-tenente Pereira de Matos, secretário da Liga Naval e único delegado português presente em Copenhaga, apresentou ao ministro da Marinha e Ultramar António Teixeira de Sousa, forneceu um testemunho directo sobre os fins da nova associação, que tinham em vista procurar as melhores soluções para as questões marítimas com natureza internacional bem como a sua divulgação190.

O mesmo documento chamou também a atenção para as posições da Alemanha e da Inglaterra: enquanto em 1901, o kaiser se tinha manifestado entusiasticamente em relação ao novo conclave internacional, “a que daria todo o apoio da sua Alta influência e Rara energia”, a Inglaterra ainda não tinha aderido “a este sympathico movimento”.

Esta divergência de perspectivas entre os dois maiores poderes europeus, relativamente às questões marítimas, reflectia a competição entre a potência global e marítima, a Inglaterra, e a potência terrestre com ambições mundiais que era a Alemanha. Estávamos então nas vésperas do novo alinhamento dos países europeus, nas alianças que se iriam defrontar na Grande Guerra.

O Congresso Marítimo Internacional de Lisboa – 1904

A Ordem da Armada do dia 27 de Março de 1904191, dava conta da nomeação pelo rei de uma comissão de quinze membros para proceder à organização e recepção do Congresso Marítimo Internacional, que se deveria reunir em Lisboa nesse ano.

Esta realização, inicialmente prevista para o período da Páscoa, mas já com local designado – a Sociedade de Geografia de Lisboa, tinha sido decidida quase dois anos antes, em Outubro de 1902, como já assinalámos192.

190 A. Pereira de Matos, O Congresso Internacional Marítimo de Copenhague em 1902 – Relatório, Porto, Typographia Pereira, 1903.

191 Ordem da Armada, Série B, nº 5, 1904.

81 Presidida pelo Contra-Almirante Guilherme de Brito Capelo, a comissão organizadora do novo congresso ficou constituída por

• Sete oficiais da Armada: Capitão-de-mar-e-guerra João Augusto Botto, Capitão-de-fragata D. Fernando de Serpa Pimentel, Capitão-de-fragata Vivente Almeida d´Eça, Capitão-de-fragata Hipácio de Brion, Capitão-tenente António Ferreira Pinto Basto, Capitão-tenente Policarpo de Azevedo e Primeiro-tenente Pereira de Matos;

• Um oficial do Exército, o major Cordeiro de Sousa;

• Cinco civis: o naturalista Albert Girard; o banqueiro Jorge O´Neill; o director da Empresa de Navegação para a África Portuguesa, Pedro Gomes da Silva; o representante da Empresa Insulana de Navegação, Germano Arnaut; e o director das obras do Porto de Lisboa Luís Strauss.

A organização do Congresso foi repartida entre a Sociedade de Geografia de Lisboa, onde decorreram as sessões, e a Liga Naval Portuguesa. A minuciosa preparação envolveu o empenhamento das companhias de caminhos de ferro e dos melhores hotéis de Lisboa, que praticaram preço especiais para os congressistas.

À margem das sessões e das visitas oficiais ao Museu Colonial193 e ao Porto de Lisboa, o dia 26 de Maio foi reservado para uma excursão a Sintra, com almoço no parque da Pena e regresso por Cascais. A criação da Sociedade Propaganda de Portugal, uma iniciativa privada, estava ainda a dois anos de vista, mas era já tempo de aproveitar as oportunidades para divulgar, de uma forma organizada, os locais de lazer mais popularizados junto das elites de que eram parte os 180 congressistas e os acompanhantes que aproveitaram a deslocação recreativa. O documento final do Congresso relatou a excursão com colorido entusiasmo:

“A 10 heures du matin, à la gare principale de Rocio, un train spécial emmenait les Congressistes […] environ 180 personnes, parmi lesquelles de nombreuses dames en elegantes toilettes, jusqu´à Cintra […] De la gare une soixantaine de voitures conduisirent les excursionnistes jusqu´au château royal […] à 1 heure on parvint sur un plateau […] et là sous de grandes tentes enguirlandées, étaits dressées les tables”194.

193 A designação Museu Colonial sucedeu em 1892 à de Museu Etnográfico e Colonial da Sociedade de Geografia de Lisboa. Até então e desde 1894, funcionou na Escola Naval, na rua do Arsenal.

194 Association Internationale de la Marine, Congrès de Lisbonne – 1904, Paris, Imprimerie Lahure, 1904, pp. 230-233.

82 As sessões do Congresso tiveram lugar, como referimos, na Sociedade de Geografia, onde tinha sido preparada uma exposição, principalmente constituída por peças das colecções oceanográficas de D. Carlos I, a que faremos referência mais adiante. A abertura fez-se com a presença do rei, da rainha D. Amélia, da rainha D. Maria Pia, do duque do Porto (irmão do rei, o “Arreda” nas crónicas pitorescas) e de um luzido elenco de membros do governo, diplomatas, delegados oficiais dos EUA, Espanha, França, Grécia, Itália, Mónaco e Montenegro, para além de representantes de colectividades marítimas e múltiplos e menos notórios convidados.

A delegação oficial portuguesa era, naturalmente, a mais numerosa: encabeçada pelo presidente do Conselho Geral da Liga Naval, Júlio de Vilhena, contava com o Contra- almirante Ferreira do Amaral (presidente da Sociedade de Geografia), o General Pina Vidal (director do Observatório Meteorológico D. Luís I), António Eduardo Vilaça (ministro da Marinha entre 1898 e 1900), Contra-almirante Chagas Roquete (presidente da Comissão Central de Pescarias), Contra-almirante Morais e Sousa (comandante da Divisão Naval e membro do Conselho Geral da Liga Naval), Capitão-de-fragata Schultz Xavier (engenheiro hidrógrafo), Capitão-de-fragata Ernesto Vasconcelos (engenheiro hidrógrafo, secretário- geral da Sociedade de Geografia), Capitão-de-fragata Hipácio de Brion (chefe do gabinete do ministro da Marinha, Inspector dos Socorros a Náufragos), Capitão-tenente Ramos da Costa (engenheiro hidrógrafo), João Mendes Guerreiro (Inspector de Obras Públicas) e Albert Girard (naturalista, colaborador do rei D. Carlos I nas actividades oceanográficas).

Para além da delegação oficial, os países participantes enviaram representantes de empresas, associações e diferentes colectividades com actividades ligadas ao mar. De Portugal estiveram presentes a Academia Real das Ciências, Associação Comercial de Lisboa, Associação dos Engenheiros Civis, Associação dos Engenheiros Maquinistas, Associação dos Lojistas de Lisboa, Real Associação Naval, Biblioteca e Arquivos Nacionais, Centro Comercial do Porto, Clube Naval Madeirense, Clube Militar Naval, Escola Naval, Instituto de Coimbra, Real Instituto de Lisboa, Sociedade de Geografia de Lisboa e Liga Naval Portuguesa, que na sua qualidade de instância co-responsável pela organização do congresso se apresentou com a representação mais numerosa.

Os temas discutidos ao longo do evento não diferiram dos que tinham sido objecto de debate nas anteriores reuniões magnas da “Association Internationale de la Marine”: meteorologia, oceanografia e hidrografia, mar territorial e litoral, profilaxia sanitária internacional, assistência e salvamento marítimo, legislação marítima internacional, pesca

83 marítima, “yachting”, calados e linhas de carga, luzes e sinais de navegação, equipamento marítimo, equipamento dos portos, telegrafia e telefonia sem fios, projecto de criação da “Union Maritime Internationale” e do Bureau “Maritime International Permanent”195.

Durante o congresso esteve patente na Sociedade de Geografia uma exposição de colecções, modelos e aparelhos relativos à oceanografia e hidrografia e às artes e indústrias de pesca. As peças exibidas foram da responsabilidade do ministério da Marinha, Comissão Central de Pescarias, Sociedade de Geografia, Biblioteca e Arquivos Nacionais, Escola de Hidrografia, Sociedade Oceanográfica do Golfo de Gasconha e Compagnie du Gaz Clayton (devotada à extinção de ratos e desinfecções sanitárias). Estiveram ainda em exposição quadros representando espécies piscícolas de Sesimbra196.

O futuro sombrio da “Association Internationale de la Marine”

Os dois primeiros congressos da Associação Marítima Internacional, a que já nos referimos, foram realizados no Mónaco, em 1901, e em Copenhaga, em 1902. O objecto principal dos trabalhos do terceiro congresso da Associação, que teve lugar em 1904, em Lisboa era, na esteira do que tinha sido realizado em Copenhaga, a criação da União Marítima Internacional, uma aspiração que parecia caminhar em ritmo lento. Na reunião na capital portuguesa não terão sido alcançados avanços e o assunto foi remetido para o congresso seguinte, que deveria ter lugar em Liège, por ocasião da Exposição Universal que ali iria acontecer em 1905. Ainda no Congresso de Lisboa foi também aventada a hipótese de a reunião de 1906 vir a ser realizada em Milão, por ocasião da Exposição Universal que ali iria ter lugar.

A realidade, tal como neste momento é possível representá-la, é que a partir de 1904 se perdeu o rasto documental da Associação Marítima Internacional, não se tendo encontrado notícia de qualquer Congresso Marítimo depois daquele ano. Dos principais poderes europeus, apenas a França enviou uma delegação oficial ao Congresso de Lisboa, fazendo-se notar pela ausência Inglaterra, Alemanha e Rússia.

A Inglaterra, senhora indisputada dos mares, parecia não ter necessidade de se sentar à mesa com outros países que poderiam ambicionar, nas circunstâncias, serem tratados como seus pares. Nos princípios de Abril de 1904, mês anterior ao da realização do Congresso de Lisboa, a aproximação diplomática entre Inglaterra e França culminou no estabelecimento de um conjunto de acordos que ficou com o nome de “Entente Cordiale”,

195 Ibid., passim.

84 uma das alianças participantes na guerra europeia que se anunciava. De entre eles, com grande importância geopolítica e impacto a médio prazo, contava-se a concessão de liberdade de acção da Inglaterra no Egipto e da França em Marrocos, entendimentos que