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O Consumo no Cotidiano: sentimentos despertados

6. PERFIL DOS IDOSOS PARTICIPANTES DA PESQUISA

7.1 CATEGORIA 1 O CONSUMO NO COTIDIANO: cenário para pensar sobre

7.1.2 O Consumo no Cotidiano: sentimentos despertados

Um elemento que aguça os desejos de consumo está relacionado às formas de abordagens das vendas por meio da publicidade. Tendo em vista a intencionalidade do encontro, de analisar algumas abordagens publicitárias e dialogar com os idosos sobre os sentimentos despertados e possíveis efeitos sobre o comportamento de consumo, foi proposta a visualização de um vídeo52 e diálogo nos grupos. Foram destacados relatos que mostram as impressões dos

participantes e as reflexões coletivas sobre o tema do consumo motivado pela sedução da publicidade. Os fragmentos dos relatos foram motivados pelo questionamento: alguém de vocês já vivenciou ou conheceu alguém que passou por uma situação parecida com a da Judith53?

16 IGS: Eu já passei. Fui convidada para um coquetel de um empreendimento. É aquelas coisas, não te deixam pensar... Passam champanhe... Eu e a minha tia assinamos um contrato. Passaríamos quatro dias num resort, assinamos o contrato... Mas quando eu cheguei em casa, li melhor e vi que era em dólar. 17 LGS: Me aconteceu quase igual. Eu e meu marido deixamos um cheque na compra de um apartamento. Eles falavam muito e eu tomava champanhe... No dia seguinte ele se deu conta do condomínio. Então ele voltou, mas não queriam devolver.

18Pesquisadora: Como vocês se sentiram quando foram convidadas? 19LGS: Me achei o máximo. Uma rainha ((frase exclamativa)).

20RGS: É a forma de convencimento. Tu vai comprar um sapato... Fica olhando... Eles querem te empurrar.

21LGS: Todos passamos por isso. A gente se enxerga nisso tudo ((frase exclamativa)). Fragmentos de relatos do encontro 1 de sexta-feira.

52 “Duas vezes Judith”. Disponível em:< https://cidadaniafinanceira.bcb.gov.br/>. Acesso em: agosto de 2018. 53 Judith é a personagem central do vídeo.

Os relatos exemplificam como relação com o consumo é atravessada por sentimentos que se misturam ao imaginário. Nas falas é possível observar o dilema entre o deixar-se levar pelo impulso, a sedução pelo luxo, a valorização pelo dinheiro e a racionalidade (16, 17). Nos relatos é possível perceber o encantamento pela possibilidade de desfrutar do luxo, do prazer em ter recebido o convite para desfrutar do resort, todos eventos de venda elitizados. Lipovetsky (2006) observa que a democratização do conforto e do prazer diluem as fronteiras entre a tradicional oposição de gostos e necessidades próprios das classes operárias e das classes mais favorecidas. O autor aponta que na sociedade democrática de consumo cada um tende a almejar o que há de melhor e de mais belo, contemplando produtos de luxo e de qualidade antes somente acessível à elite.

As estratégias de marketing em vendas utilizam-se de recursos para agregar sentimentos de valor aos produtos, de modo que a mercadoria seja atraente e agradável para despertar a atenção e a demanda dos fregueses (BAUMAN, 2008). Nos relatos, as abordagens de venda lidavam com os sentimentos e o imaginário fazendo com que os potenciais compradores se sentissem prestigiados (19). A forma de convencimento seja pela sedução ou pela pressão, fala (20) mostram as situações vivenciadas no dia a dia, mas, que muitas vezes, ficam embaraçadas pela rotina do cotidiano (21).

A socialização das experiências, a partir das situações observadas no vídeo, desencadearam diálogos importantes sobre os sentimentos despertados nas situações de consumo. Parte-se do fictício (vídeo) para a realidade (depoimentos) o que concretiza a necessidade de abordagem do consumo como parte da educação financeira. Ao debaterem o vídeo com base nas suas experiências, as idosas significaram suas vivências e provocaram reflexões entre seus pares. Nesse aspecto, Labelle (1998) observa que a reflexão partilhada em uma comunicação interpessoal educativa permite, na pessoa em interação, uma clarificação e uma integração de conhecimentos. Ao colocarem que as estratégias de venda são formas de convencimento (20) e que se enxergam nessa representação (21), as idosas resgatam a realidade para refletir sobre ela.

Pela experiência torna-se possível realizar aprendizagens, as situações vivenciadas possibilitaram pensar sobre a realidade. Chamar atenção para formas de abordagens publicitárias aguça a percepção e promove espaços de reflexão. Chama-se, assim, a atenção para que outras experiências, como as mencionadas, sejam percebidas. Tal ato implica em que seja ultrapassada a esfera espontânea de apreensão da realidade, para se chegar a uma esfera crítica na qual a realidade se dá como objeto de conhecimento e na qual as pessoas assumem uma posição epistemológica (FREIRE, 2001).

No diálogo abaixo, sobre as compras motivadas por impulso, uma idosa do grupo focal de quarta-feira relata ao colegas a sua experiência de consumo e os sentimentos despertados posteriormente.

22CGQ: Eu comprei os três pares pra preencher o vazio ((do armário com os calçados que havia doado))… Que que acontece, daí meu filho diz assim “mãe, domingo vou almoçar lá”, mas agora não vai poder, eu não vou poder e eu digo que não vou tá em casa. Então vou reduzindo as visitas. Aí depois eu fico de consciência pesada, eu digo, que perda ((frase exclamativa)), eu podia tá com o guri, mas como é que eu comprei tudo isso aqui, como é que eu vou gastar lá no supermercado? Não posso, porque tu vai no super, menos de cem reais tu não gasta.

23UGQ: A gente faz o curso… Faz economia, mas aí vai lá e gasta em outras coisas, mas ao mesmo tempo, a gente se arrepende e pensa: por que eu fiz isso?

24ZGQ: Até porque quer queira, quer não queira uma hora todo mundo compra. Por mais cuidadoso. 25Pesquisadora: Não tem certo ou errado. A nossa discussão sobre o impulso relacionado a comprar é para a gente refletir sobre as nossas vidas. Tentar construir o hábito de lembrar de se perguntar antes de comprar.

26UGQ: Agora eu estou cuidando mais isso, porque às vezes eu faço assim “UGQ tu vai precisar disso?” Eu tenho feito isso lá na Renner também… Faço um tour, vou lá, pago e olho tudo. Aí vou pegar “UGT, tu precisa disso”?

27 CGQ: Eu não consigo. Tenho dificuldades, parece que tudo eu estou precisando sabe?

28ZGQ: Às vezes tu tá precisando mas quem sabe dá pra segurar um pouquinho também… Um mês, dois mês… sei lá, alguma coisa assim.

Fragmentos de relatos do encontro 1 de quarta-feira.

A situação relatada (22) evidencia os sentimentos de frustração por ter gasto mais do que poderia e ter de cortar despesas deixando de receber a família. Já, a fala de UGQ (23) se refere ao sentimento de arrependimento, mas também, mostra que o sentimento negativo pode suscitar uma forma de repensar as decisões de consumo. O relato (24) elucida a presença do consumo na vida das pessoas e coloca a percepção do idoso de que certos impulsos são parte dos hábitos de consumo de todos, mesmo para quem mantém seu orçamento controlado.

Os recortes dos trechos ajudam a exemplificar situações cotidianas enfrentadas e os sentimentos nelas implicados. A intervenção realizada pela mediadora busca chamar a atenção para o ato reflexivo antes da compra (25), como uma possibilidade de racionalizar sobre a ação. UGQ ao relatar sua experiência de como lida com o seu impulso por comprar supérfluos, sem se privar de realizar passeios às lojas, expõe aos colegas uma forma encontrada por ela para lidar com o impulso.

Percebe-se que a partir dos relatos da colega CGT, o grupo busca confortá-la e apresenta, através da fala de UGT (26) e ZGT (28), uma possibilidade viável de ação para o enfrentamento do impulso de comprar. Nesse aspecto, é possível afirmar que “toda relação com o outro é potencialmente educativa e de desenvolvimento” (LABELLE, 1998). Na relação com o outro a palavra é campo de desenvolvimento da autonomia dos adultos (DANIS; SOLAR

1998). À medida que o grupo se sente à vontade para relatar suas experiências, abre-se a oportunidade de trocas e de auxílio para uma reelaboração do pensar sobre ações.

Falar aos outros sobre nossas vivências é uma forma de elaborar o nosso pensamento. Pelo diálogo é possível pensar sobre o que verbalizamos e nos retornos do outro podemos resignificar às nossas compreensões. O que falamos também pode servir ao outro para que ele reflita e decida o que é válido para sua aprendizagem. Nesse sentido, pela mediação dialógica que aconteceu nas interações entre os grupos, as pessoas trouxeram pontos vista, crenças e valores que lhes permitiram relacionar o tema ao cotidiano. Esse movimento dialógico potencializa a mediação de si mesmo, permitindo que o sujeito se liberte da sua consciência ingênua e chegue a patamares de significação mais elaborados (SANCEVERINO, 2016). A superação de uma forma ingênua de perceber a realidade passa por patamares de desenvolvimento do pensamento e esse trânsito ocorre pelo desenvolvimento da capacidade de diálogo (KRONBAUER, 2016). Esse diálogo se dá com a sua realidade e com outras pessoas com as quais o sujeito se relaciona. Dessa forma, possibilitar espaços de interação grupal favorece trocas e descobertas. Conforme Freire (2011), nas relações do homem com a realidade e com os outros, pelos atos de criação, recriação e decisão vai ele dinamizando o seu mundo e dominando a realidade.

Ambos os grupos relataram fatos vivenciados que expressaram seus sentimentos e mostraram como consumir por impulso é comum, mas também, revelaram os efeitos de uma compra pouco planejada. Dessa forma, acredita-se que os idosos, a partir de suas vivências e conhecimentos já adquiridos ao longo da vida, tenham sido provocados, no encontro, a um processo de aperfeiçoamento e de construção novos conhecimentos que não se finaliza com o término da intervenção. Espera-se que tenha sido o início de um processo reflexivo para pensar sobre a realidade e o consumo como parte de um processo vivenciado no cotidiano. No entanto, tal processo é atravessado por fatores que envolvem aspectos emocionais, sociais, culturais e econômicos. Assim, cada vez mais torna-se importante compreender os fatores presentes nas relações de consumo, para além do simples desejo individual e da oferta de produtos que chama a consumir.

A próxima unidade de significado abordará as percepções dos idosos em relação à sociedade de consumo.