• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO IV A LETALIDADE ATIVIDADADE POLICIAL :

4.1. O CONTEXTO DE RISCO DE HOMICÍDIOS NA ATIVIDADE

Como ponto de partida para a abordagem do contexto de risco da atividade policial militar na Bahia, apresento alguns dados sobre os efeitos da violência criminal no Brasil, Bahia e Salvador. Assim, no nível nacional, pelas estatísticas oficiais do Ministério da Saúde (FUNASA, 2000), em 1997, as mais atuais até a época desta pesquisa, aconteceram 119.435 óbitos por causas externas, sendo 40.478 homicídios, numa proporção de 33% dos óbitos violentos. Com um índice de 25,36 óbitos de mortalidade violenta intencional por cem mil habitantes, o Brasil pode ser visto como um país com alto grau de violência.

32 Essa expressão aparecerá entre aspas devido à divergência conceitual das suas categorias entre os órgãos e, internamente, nas polícias.

ou 1.983 óbitos. O coeficiente de mortalidade por homicídios foi de 15,60 por cem mil habitantes, ocupando o estado a décima sétima posição entre as unidades federadas. Quanto a Salvador, esta parece estar com índices ascendentes de homicídios, como revelam os dados. Assim, entre 1991 (41%) e 1994 (43%) houve um aumento de dois pontos percentuais nas ocorrências de homicídios nesta cidade, o mesmo acontecendo relativamente ao ano de 1997 (45%), segundo séries históricas apresentadas na fonte acima mencionada. Entretanto, vale transcrever trecho da apresentação do documento citado: “chama a atenção o baixo valor do coeficiente de Salvador sugerindo problemas de preenchimento e/ou de codificação” (FUNASA, 2000: 112).

Os dados oficiais do Ministério da Justiça sobre homicídios são atualizados até 2000, mas apresentam uma desvantagem porque são divulgados apenas os relativos aos homicídios dolosos (intencionais) das unidades federadas, sendo, ainda assim, úteis para contextualizar a situação mais recente da Bahia no Brasil. Em 2000, no Brasil33, o coeficiente de homicídios dolosos foi de 22,3 por cem mil habitantes (37.980 óbitos), taxa semelhante à do ano anterior com 22,7 por cem mil habitantes. A posição relativa da Bahia em 1999 era a 19o, com um coeficiente de homicídios dolosos de 14,3 por cem mil habitantes (1.857 óbitos). Em 2000, houve um crescimento das ocorrências no estado, com o coeficiente de homicídios dolosos passando para 17,5 por cem mil habitantes (2.283 homicídios), o que fez a Bahia passa a ocupar a 16o posição.

Os dados oficiais da Secretaria de Segurança Pública, desagregados por tipo penal, ou seja, homicídio doloso e culposo e tentativa de homicídio, na Bahia e macrorregiões podem ser observados no Quadro 7, o qual evidencia ainda que, entre todas as pessoas que foram objeto da violência de outra, aproximadamente 45% morreram. A distribuição, no estado, apresenta uma diferença entre RMS e interior para uma população e efetivo da PM BA equivalentes. Contudo, assinalo que as pequenas cidades do interior onde vêm ocorrendo roubos a banco por grupos de assaltantes dispõem de pequeno efetivo de policiais, o que tem representado risco.

33 Em 1998, nos Estados Unidos, a taxa de homicídios era de 6,5 por cem mil habitantes; na Alemanha, era de 2,5 por cem mil (SOARES, 2000a).

Ano Região Tipo penal Total Homicídio Tentativa de homicídio Doloso Culposo 1998 Estado 1955 402 2020 4377 Salvador 708 58 800 1566 RMS 210 26 225 461 Interior 1037 318 995 2350 1999 Estado 1857 518 2864 5239 Salvador 590 54 877 1521 RMS 198 9 257 464 Interior 1069 455 1730 3254 2000 Estado 2273 298 3022 5593 Salvador 645 21 782 1448 RMS 157 8 193 358 Interior 1471 269 2047 3787 2001 Estado 2439 87 3272 5798 Salvador 720 7 859 1586 RMS 173 5 151 329 Interior 1546 75 2262 3883 Total 8.524 1.305 11.178 21.007

Fonte: Polícia Civil Bahia- SSP-BA

Pode-se observar ainda, neste quadro, a série histórica relativa as macrorregiões, interior, capital e RMS, o que permite avaliar a dinâmica da produção da violência no estado. Chama a atenção nos anos 1998, 1999 e 2000 o grande número de homicídios culposos (ou não- intencionais estando incluídos aí as “intervenções legais”) no interior no estado da Bahia, sobretudo no interior, o que demandaria análise mais aprofundada, uma vez que esse número decresce subitamente, em 2001: de 402 homicídios, no estado, em 1998, passa-se a 87 em 2001.

O Quadro 8 apresenta uma síntese do anterior. Nele pode ser visualizado com mais clareza o número total de homicídios relativamente ao total de pessoas que sofreram lesões corporais, observando-se uma tendência ascendente de agressões e mortes, mas pode ser verificado, sobretudo a brusca queda dos crimes culposos, em inteiro desacordo com o cenário geral de violência.

Ano Tentativa Total Doloso Culposo Total

1988 1.955 402 2.357 2.020 4.377

1999 1.857 518 2.375 2.864 5.239

2000 2.273 298 2.571 3.022 5.593

2001 2.439 87 2.526 3.272 5.798

Total 8.524 1.305 9.829 11.178 21.007

Fonte: Polícia Civil Bahia - SSP BA, elaboração própria.

Ainda com relação aos homicídios em Salvador e Região Metropolitana, destaco os estudos do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (ISC) para os anos de 1991 e 1994, realizados pelo CEDEC (1997) e por Souza (2000), os quais primam pela rigorosa metodologia, tendo analisado documentos da medicina legal, polícia civil e atestados de óbitos, e ainda o de Ribeiro (2000), por apresentarem dados desagregados sobre homicídios, indicando as mortes provocadas por policiais. Dessa forma, puderam ser comparados aos dados oficiais que levantei na PM BA.

Nos estudos realizados pelo ISC, as mortes listadas sob a denominação “intervenções legais” englobam todas aquelas provocadas por policiais, registradas nos documentos primários, sem ser feita a desagregação “em serviço ou fora de serviço”. Os anos analisados foram 1991 e 1994, e com base nos dados colhidos para esses períodos realizaram-se diversos estudos, inclusive o Mapa de Risco da Violência em Salvador (CEDEC, 1997). Segundo essa fonte, no ano de 1991 ocorreram 1.618 óbitos por causas externas, equivalendo a 15% dos 10.771 óbitos ocorridos na cidade. Os homicídios fizeram 672 vítimas (41,5%) e foram a principal causa de mortes violentas, com um coeficiente de homicídios de 32,4 por cem mil habitantes. Em 1994, houve um acréscimo nos óbitos anuais para 11.106, nos quais 1.694 mortes foram provocadas por causas externas, também 15% do total, como três anos antes. Em 1994, houve um aumento nos homicídios em geral, que de 41,5% do total de mortes causas externas, em 1991, passou para 43,3%, ou seja, 734 óbitos, com uma mortalidade proporcional constante de 32 por cem mil (CEDEC, 1997:5).

Nessa série histórica de 1991 a 1994, outra variável importante para o estudo ora apresentado foi à distribuição espacial dos homicídios, aspecto que observei de modo particular, como registrado no capítulo 2. As séries em questão evidenciam uma concentração de homicídios nas áreas com condições de vida mais desfavoráveis ou nos bairros caracterizados pela

por habitante e, na sua maioria, por se situarem distantes do centro da cidade e /ou da orla oceânica. Por sua vez, nos bairros em que se encontram os moradores de alta e média renda, centrais e/ou da orla oceânica, foram baixos os registros de homicídios, havendo até locais em que não se verificou nenhuma ocorrência desse tipo (CEDEC, 1997)35.

O estudo de Souza (2000) foi importante para os objetivos deste capítulo por que aí são desagregados os homicídios, verificando-se quais aqueles originários de intervenções policiais. Seus resultados revelaram que, em Salvador, dentre os 637 homicídios ocorridos em 1991, as mortes por "intervenções legais" foram 117 (17,4% dos homicídios). Em 1994, ocorreram 734 homicídios na cidade, das quais 97 (13,2%) foram provocadas por policiais. Esses dois anos totalizam 214 mortes provocadas por policiais (média de 1,8 mortes por semana) correspondendo a 15,2% dos 1.406 homicídios analisados (média de 13,5 mortes por semana). As principais causas foram a arma de fogo (85%), seguida de acidente não- especificado, com objeto penetrante, cortante ou perfurante, fratura por causa não- especificada e procedimentos não-identificados (SOUZA, 2000).

O mesmo estudo de Souza correlaciona as vítimas dos policiais por locais de moradia (não de ocorrência) e indica maior vitimização dos moradores de bairros com piores condições de vida. O perfil das vítimas civis era, predominantemente, composto de pessoas do sexo masculino, jovens (15-29 anos), mulatas ou negras, de primeiro grau incompleto, de estudantes sem qualificação profissional, residentes em bairros com baixo capital econômico

34 A Bahia é o estado com a terceira pior distribuição de renda do Brasil, com os 10% mais ricos detendo 52% da renda, enquanto os 40% mais pobres detêm 7,13% (PINHEIRO et. al. , 1999:22). A distribuição dos homicídios parece seguir a linha da distribuição territorial da cidade que tem uma singularidade quanto à ocupação do solo: somente 12% das residências têm renda acima de 5 salários mínimos, considerada alta; 16% das residências apresentam renda média entre 2 a 5 salários mínimos; e em 52% das residências a renda é menor que 2 salários mínimos (NORONHA, 2000: 52).

35 Essa distribuição espacial demanda outros estudos, valendo destacar-se que não se estabelece aqui uma associação entre pobreza e criminalidade dos moradores como vítimas e como agentes. Um estudo de conglomerados visou identificar a análise espacial de homicídios ocorridos em Belo Horizonte, registrados pela PM MG, de 1995 a 1999. Beato Filho et al. (1999) afirmaram que, considerando todas as regiões da cidade, apenas 10 delas apresentavam um risco maior de homicídios, concentradas em favelas, num universo de 240 bairros e 85 favelas. Os autores concluíram que não são as condições sociais e econômicas per si responsáveis pelos conglomerados de homicídios, mas o fato de essas 10 regiões serem controladas pelo tráfico de drogas, ou seja, a violência estaria associada a esse comércio.

de participação de cada um.

Tabela 2 – Homicídios provocados ou não por policiais militares em Salvador, 1991/ 1994.

Ano

Homicídios

Proporção(2)/(1) (%) Geral(1) Por policiais(2)

1991 672 117 17,4

1994 734 97 13,2

Total 1406 214 15,2

Fonte: Souza, 2000 / ISC/ UFBA - elaboração própria.

Ribeiro (2000), outro autor que também desagrega os homicídios segundo os agentes, levantou seus dados na mídia escrita na Bahia, entre 1996-1999. De acordo com esse autor, ocorreram 4.248 assassinatos (média de 20,4 por semana) na Região Metropolitana de Salvador, de 1996 até 1999. Em Salvador, foram 3. 369 homicídios (média de 16,1 por semana), os quais ocorreram em 214 diferentes bairros, sendo que 177 desses crimes foram noticiados sem a identificação de local.

Conforme Ribeiro, com relação à autoria dos homicídios na RMS, 2.983 destes foram noticiados com a indicação do responsável pelo crime, pessoas da população em geral, ou não tiveram tal indicação, mencionando-se apenas a ocorrência da morte, comprovadamente por agressão. Os registros indicam que os jornais identificaram autores para 1.264 mortes, sendo que, destas, 332 (7,8%) foram atribuídas a grupos de extermínio ou “justiceiros”. Ressalte-se que Ribeiro menciona a presença de alguns policiais militares e civis nessa atividade ilegal. Os jornais, ainda segundo esse autor, atribuíram diretamente aos policiais, dentro e fora de serviço, cerca de 623 mortes (14,7% do total dos óbitos), com uma média semanal de 2,1 mortes (Tabela 3).

36 O que se observa em todos esses números é que parece existir uma regularidade quanto à vulnerabilidade do espaço geográfico, sendo as práticas sociais em cada região da cidade um importante fator na modulação das ações policiais (PAES MACHADO et. al., 1997, NORONHA, 1999, GABALDÓN et. al. 2000b), e também na lógica institucional, como se pode inferir pela distribuição desigual do efetivo na cidade.

Ocorrências Total Média Diária Semanal Homicídios 4.248 2,9 20,4 Sem autoria 2.983 2,0 14,3 Extermínio 332 0,2 1,5 Policial 623 0,4 2,9

Fonte: Ribeiro (2000), elaboração própria.

Documentos relacionados