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Umberto Eco

2. O contexto e os participantes

Este estudo realizou-se numa turma de História A de que a investigadora era professora e decorreu numa escola secundária com 3º ciclo da área suburbana da Grande Lisboa, adiante designada como Escola Verde, devido aos seus espaços ajardinados cuidados e agradáveis que, de alguma forma, fazem esquecer o desgaste das suas instalações.

Os participantes. A investigadora teve o cuidado de se distanciar do seu papel de professora para apreender melhor o significado das acções imediatas e dos pontos de vista dos participantes (Erickson, 1985). Assumiu uma abordagem de observadora participante activa (Postic e De Ketele, 1988), aproveitando a vantagem da proximidade com o objecto de estudo para melhor captar o fenómeno educativo no seu contexto, de forma a descrevê-lo ao exterior (Bogdan & Biklen, 1994; Flick, 2005), como se estivesse situada de fora (Postic e De Ketele, 1988).

Ciente de que a familiaridade com o contexto educativo tornava difícil observar tudo o que acontecia (Erickson, 1986), a investigadora convidou observadores externos à acção, para obter outros olhares sobre o objecto de estudo (Bogdan & Biklen, 1994; Flick, 2005). Os laços de amizade e de proximidade levaram-na a endereçar um convite a uma professora de História externa à escola – a Maria – e aos colegas do grupo de História da Escola Verde que leccionavam a disciplina de História A no ensino diurno. O facto da investigadora ter exercido dezassete dos seus vinte e seis anos de actividade profissional na Escola Verde facilitou o contacto com o Presidente do Conselho Executivo, a quem se apresentaram os objectivos da presente investigação. Nessa reunião, de carácter informal, salientou-se a necessidade e a importância da colaboração da turma de 12º ano e de alguns professores de História. O Presidente do Conselho Executivo não apresentou qualquer obstáculo ao desenvolvimento desta investigação, subordinando, no entanto, a participação dos professores à não sobreposição das observações com aulas, actividades de substituição ou outras tarefas prioritárias da escola.

Os convites foram aceites pela professora Maria e pelas professoras Cândida e a Laura, havendo um colega sem disponibilidade para participar na investigação. Estas professoras tinham uma experiência profissional superior a vinte e oito anos. A investigadora apresentou, então, de forma mais aprofundada, os objectivos do estudo esclarecendo as colegas de que se pretendiam obter versões diversas do desenrolar das aulas, para se poderem comparar e contrastar com as da investigadora (Erickson, 1986). Ainda assim, as colegas pediram alguma

orientação escrita sobre o assunto, antes das observações a efectuar tendo a investigadora criado uma lista de tópicos não estruturada (Flick, 2005), apresentada no Anexo B.

Apesar da boa vontade das professoras Cândida e da Laura em participar no estudo, a sua disponibilidade de horário e de calendário era reduzida, devido à sobrecarga de actividades dos professores, o que condicionou a escolha da turma onde se efectuou o estudo. Esta turma estava atribuída à investigadora (enquanto professora), desde o décimo ano de escolaridade, de acordo com o princípio de continuidade pedagógica, pelo que a investigadora conhecia os alunos com excepção de dois dos cinco alunos repetentes. As outras três alunas repetentes, já tinham sido anteriormente alunas desta professora entre o sétimo e o décimo anos.

A caracterização da turma (apresentada no Anexo C) foi feita a partir dos dados recolhidos no início do ano lectivo pela investigadora, na qualidade de directora de turma. Esta turma era constituída inicialmente por vinte alunos, tendo-se verificado as desistências de duas alunas estrangeiras, que nunca frequentaram as aulas (matricularam-se para obter o visto de residência), e de uma aluna que optou por ir frequentar um curso numa Escola Profissional, por lhe facilitar o acesso ao mercado de trabalho. Entre os dezassete alunos (onze raparigas e seis rapazes), que se mantiveram na turma até ao final, contavam-se três alunos estrangeiros: dois cabo-verdianos e uma brasileira. A média de idades na turma era de dezoito anos, havendo alunos entre os dezassete e os vinte anos. Por isso, havia 4 alunos encarregados de educação de si próprios mas, no geral, predominavam as mães como encarregadas de educação.

Quase todos os alunos moravam próximo da Escola Verde (apenas quatro residiam a mais de três quilómetros de distância), sendo a maior parte dos encarregados de educação trabalhadores na zona. Eram empregados nas áreas de serviços (funcionários administrativos, empregados de comércio e de serviços domésticos e de limpezas) e de produção (operários e construção civil). Esta distribuição de empregos poderia ser explicada por terem habilitações literárias inferiores ao 9º ano, pois apenas, cinco em trinta encarregados de educação, tinham o curso complementar dos liceus e só três tinham curso superior. Quase todos os alunos pertenciam a agregados familiares que se podiam caracterizar como de classe média baixa, havendo cinco alunos (os que viviam com a mãe e irmãos) que trabalhavam em part-time para ajudar nas despesas familiares. Ainda assim havia quinze alunos que pretendiam realizar uma formação superior e que eram apoiados nessa pretensão pelas suas famílias.

A maior parte dos alunos valorizava a formação escolar como meio de acesso a um futuro melhor. Apesar da média global da turma relativa ao 10º e 11º anos ser de 12 valores, havia uma grande heterogeneidade nos resultados.

No geral os alunos não desgostavam do ambiente escolar e apreciavam os professores justos, simpáticos, dinâmicos e motivadores da aprendizagem, que organizavam aulas com meios audio-visuais e/ou informáticos e que, após breves períodos de exposição, permitiam a participação individual e o trabalho em grupo. Essa estratégia era, em seu entender, facilitada pela boa relação existente entre os elementos da turma e tornava a aprendizagem mais profícua. As principais causas de insucesso apontadas pelos alunos referiam-se à falta de atenção/concentração nas aulas, aos fracos hábitos de estudo e à dificuldade de alguns conteúdos, que motivavam o seu desinteresse por algumas matérias. Assumiram ainda que as suas dificuldades de aprendizagem eram agravadas pela deficiente gestão do tempo, pois durante a semana apenas realizavam os trabalhos de casa e aos fins-de-semana só estudavam uma a duas horas, afirmando os três alunos com os piores resultados da turma, que só estudavam na véspera dos testes. Houve ainda quem referisse como causa de maus resultados escolares a fraca consolidação dos seus conhecimentos e a dificuldade de compreensão da informação nos manuais. Estes dados foram discutidos com os alunos (e com os pais e encarregados de educação), no início do ano, para se encontrar a melhor forma de potenciar o seu ritmo de trabalho para enfrentar as exigências do 12º ano e dos exames nacionais.

A relação de familiaridade existente entre a investigadora (enquanto professora e directora de turma) e a turma facilitou a sua adesão a este projecto de investigação (Postic e De Ketele, 1988). Quando este foi apresentado, logo em Novembro, alguns alunos manifestaram algum receio em relação à presença de estranhos durante as aulas observadas – o que fez lembrar o «efeito do observador» referido por Bogdan & Biklen (1994). A professora, enquanto investigadora, explicou que o objecto de observação era o ambiente e a dinâmica do processo de ensino/aprendizagem e não os conhecimentos dos alunos, o que os tranquilizou quanto à natureza da observação (Erickson, 1985). Usou-se ainda como argumento o facto de a turma ter, globalmente, um bom desempenho em aula.

Após a clarificação dos objectivos do estudo e dos processos a utilizar obteve-se o consenso necessário para a observação das aulas (Bogdan & Biklen, 1994; Flick, 2005). Envolveram-se ainda, de forma mais directa na investigação, seis alunos de quem se recolheram os elementos de avaliação e os pontos de vista sobre o fenómeno em estudo (Flick, 2005).

A natureza interpretativa desta abordagem implicou uma escolha criteriosa e intencional tendo-se seleccionado dois alunos com desempenhos fracos (o Rodrigo e a Ilda), dois com desempenhos intermédios (a Marisa e a Rosemary) e dois com bom desempenho (a Matilde e o Jorge). Esta selecção foi feita com base na média das suas classificações finais de 10º e 11º anos e do 1º período do 12º ano na disciplina de História (ver Quadro D).

Quadro D – As médias de História A dos alunos seleccionados

Aluno/a 10º ano 11º ano 12º ano (1º P) Média

Rodrigo 10 10 10 10 Ilda 12 12 9 11 Marisa 12 13 13 12,7 Rosemary 11 14 15 13,3 Matilde 15 15 16 15,3 Jorge 13 17 17 15,6

Participaram, assim, neste estudo, para além da investigadora, uma turma de 12º ano, duas professoras observadoras da Escola e uma professora externa à Escola. Todos os participantes foram identificados por nomes fictícios (respeitando-se o sexo) e usou-se a garantia de anonimato como forma de não invadir a sua privacidade (Stake, 1994) e de salvaguardar a confidencialidade das suas informações (Lessard-Hébert et al., 1994).

A Escola Verde. Os dados de caracterização da Escola foram disponibilizados pelo Presidente do Conselho Executivo. Esses dados foram recolhidos e tratados pela equipa de auto- avaliação para apresentar no processo de avaliação externa em que a Escola esteve envolvida.

A Escola Verde está situada numa zona residencial de vivendas, envolvida por prédios habitacionais e serve ainda um bairro onde predominam residentes oriundos dos PALOP’s. Estas famílias tendem a receber familiares e conhecidos, que vêm tentar a sua sorte como imigrantes, o que tem provocado um aumento significativo de alunos estrangeiros na Escola. Apesar dos alunos africanos serem maioritários, existem também alunos brasileiros, chineses e alguns originários dos países do Leste. No ano lectivo correspondente a esta investigação (2007/2008) havia 41% de alunos estrangeiros no Ensino Básico e 14% no Ensino Secundário. Muitos dos alunos que se matricularam no Ensino Secundário, visavam apenas obter a autorização de residência abandonando depois a Escola para ir trabalhar.

Nesse ano lectivo a população escolar era constituída por 1931 alunos, 221 professores, 1 orientador escolar, 1 psicólogo, 16 funcionários administrativos e 40 auxiliares de acção educativa. O corpo docente contava com 148 professores do quadro de nomeação definitiva, tendo a esmagadora maioria mais de dez anos de serviço, o que evidencia uma certa estabilidade. O universo de alunos diurnos era constituído por 16 turmas do Ensino Básico, 24 do Ensino Secundário (das quais 2 a frequentar o 12º ano de História), 11 de Cursos de Educação e Formação (CEF), 7 do Ensino Profissional, 11 num pólo de formação escolar (em instalações exteriores à Escola) e um Centro de Novas Oportunidades (CNO). No ensino nocturno havia 25 turmas do Ensino Recorrente (Básico e Secundário), 7 de formação extra-escolar e 9 de

Educação e Formação de Adultos (EFA). A variedade da oferta educativa da Escola e as necessidades da formação profissional implicaram o estabelecimento de várias parcerias com empresas da região para assegurar a realização de estágios.

As metas do Projecto Educativo reflectiam a diversidade da oferta formativa da escola e defendiam “a educação para todos, ao longo da vida”, “a contextualização pedagógica do currículo” e “a autonomia escolar.” A ênfase posta no cumprimento dos programas disciplinares tentava responder ao problema do insucesso, muito significativo, no Ensino Básico. As causas deste insucesso (segundo o estudo da equipa de auto-avaliação da Escola Verde) podiam estar relacionadas com o facto de a maior parte dos alunos ter uma imagem pouco positiva do papel da escola, enquanto instituição formadora, e de procederem de famílias com baixo nível económico e cultural, detendo poucas habilitações escolares. Tal situação tenderia a condicionar, regra geral, as vivências e expectativas dos alunos. Havia, no entanto, um grupo de alunos com expectativas de futuro mais elevadas, provenientes quase sempre de famílias com rendimentos superiores e que valorizavam a escola.

A Escola Verde dinamizou, nesse ano lectivo, várias actividades culturais e desportivas (entre as quais se contaram as visitas de estudo) contando-se com o apoio da Câmara Municipal e da Junta de Freguesia para a sua realização e, em alguns casos, com o contributo da Associação de Pais. Algumas destas actividades, divulgadas pelo Jornal, foram da responsabilidade directa dos grupos disciplinares e outras dos oito clubes existentes e reflectiam o fenómeno crescente de multiculturalidade na Escola.