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O CONTEXTO DE EMPATIA NO PROCESSO JUDICIAL DE JOSEPH K

3. DIREITO E EMPATIA

4.3. O CONTEXTO DE EMPATIA NO PROCESSO JUDICIAL DE JOSEPH K

Os primeiros momentos da história de Joseph K. são marcados por condutas ina- dequadas no âmbito jurídico e que demonstram a violação de direitos individuais da persona- gem. Isto pode ser notado pela maneira com a qual Joseph K. foi abordado em sua casa pelos funcionários do tribunal e comunicado quanto a sua detenção. Ele não foi respeitado em seu domicílio, não foi informado dos motivos da presença inesperada dos funcionários, não soube quem eram as pessoas que o interrogavam (KAFKA, 2015).

As atitudes acima ferem direitos e garantias normatizadas no artigo 5º da consti- tuição de 1988. Em seu inciso XI, cita-se que “a casa é asilo inviolável do indivíduo, ninguém podendo penetrar sem o consentimento do morador […]” (BRASIL, 1988), fato que não ocor-

reu quando os funcionários do tribunal foram até a casa de Joseph K., já que ele foi repenti- namente surpreendido. Entrar em casa alheia ou em suas dependências ou nela permanecer de forma astuciosa ou sem a vontade do dono é crime de violação de domicílio, tipificado no Código Penal (CP), porém, não se constitui como tal quando ocorre durante o dia com obser- vância das formalidades legais, conforme o artigo 150, § 3º, inciso I deste Código (BRASIL, 1940). Entretanto, nenhuma formalidade foi respeitada no caso de Joseph K. Até mesmo a identificação dos agentes era desconhecida e tampouco foi apresentado a Joseph K. algum mandado de prisão ou de busca e apreensão (KAFKA, 2015) .

Por outro lado, entrar na casa de outrem sem a permissão do morador deixa de ser crime no momento em que algum delito está sendo praticado ou na iminência de o ser - tanto de dia quanto de noite - quando há algum desastre, para prestar socorro ou, durante o dia, por determinação judicial, nos termos do artigo 5º, inciso XI, da CRFB/88 e do artigo 150, § 3º, inciso II, do CP (BRASIL, 1988; BRASIL, 1940). Nesse sentido, vale lembrar que no capítu- lo final, Joseph K. recebeu novamente a visita não anunciada de dois desconhecidos enviados pelo tribunal, a qual aconteceu à noite, por volta das 21 horas, e sem que houvesse quaisquer das situações mencionadas (KAFKA, 2015).

Em que pese os absurdos presenciados em sua casa, Joseph K. parecia se envolver com as vontades dos vigias que lá estavam e reconhecer os direitos de inspeção por parte dos estranhos. “Joseph K. vai se embrenhando aos poucos nos meandros de sua culpa. Protesta, sim, mas de um modo que apenas parece dar razão à atitude ‘absurda’ dos outros. E assim cada vez mais intensamente” (KAFKA, 2015, p. 15). Joseph K. faz com que a própria culpa aflore e ao mesmo tempo a dúvida a respeito de si mesmo (KAFKA, 2015, p. 38). Nesse viés, nada no comportamento de Joseph K. ao longo da obra se apresentou determinado, mantendo- se sempre na parcialidade de seus sentimentos, absorvendo a dúvida e a culpa (KAFKA, 2015, p. 132).

Uma das características do comportamento empático é a capacidade de reconhecer que outra pessoa é a causa de uma ação, pensamento ou emoção (TOUSIGNANT; ÉUGENE; JACKSON, 2015, p. 7). Conseguir representar e relatar os próprios estados mentais, ou seja, ter autoconhecimento, é o que permitirá inferir o estado mental dos outros (FALCONE et al., 2008, p. 322). Assim, o sentimento de culpa experienciado por Joseph K. parece mostrar a ausência da capacidade de identificar vontades que lhe são legítimas, tal como ocorre diante das atitudes e desejos descabidos dos vigias e que foram aceitas por ele de forma a arrazoar tal tratamento.

Enquanto dialogavam com Joseph K. em sua residência, os vigias relataram que o tribunal para o qual trabalhavam instruía-se com cuidado acerca dos motivos da detenção an- tes de decretá-la, tal como estava ocorrendo perante Joseph K. Falaram que esta repartição não se “dignaria a procurar a culpa na população”, mas era atraída pela culpa, nos termos da lei, por isso não haveria engano (KAFKA, 2015, p. 20). A dignidade é considerada valor constitucional supremo, neste sentido, a normatização do princípio da dignidade da pessoa humana não significa que a pessoa é um reflexo da ordem jurídica, mas, sim, deve constituir o seu objetivo, sendo que na relação entre o indivíduo e o estado deve haver sempre uma pre- sunção a favor do ser humano e de sua personalidade (NOVELINO, 2015, p. 293).

Em relação à consideração de “atração da lei pela culpa” feita pelos funcionários, Joseph K. disse que não tinha conhecimento e que isto parecia existir somente nas ideias dos vigias, o que demonstrou sua tentativa de adentrar nos pensamentos deles ou convencê-los a seu favor (KAFKA, 2015, p. 20). A empatia, em seu componente cognitivo, caracteriza-se pela capacidade de inferir os sentimentos e pensamentos de outra pessoa, sem necessariamen- te experimentá-los (FALCONE et al., 2008, p. 322).

Joseph K. prosseguia com suas indagações e os vigias se manifestavam no sentido de desconhecerem os motivos de seu processo, ao mesmo tempo em que minimizavam o sen- timento de sua inocência (KAFKA, 2015, p. 26). A empatia é pré-condição para compreender a preocupação sentida pelo outro. Tentar normalizar o sentimento alheio é uma estratégia de comportamento empático, já que procura dar legitimidade ao que o outro sente, buscando entender os motivos e efeitos de determinado acontecimento e não os desconsiderar, tampou- co minimizar ou julgar a causa do problema (MICELI; MANCINI; MENNA, 2009, p. 351).

Ainda, os vigias recomendaram que Joseph K. fosse mais reservado em sua fala, já que muito do que disse não havia sido favorável a ele (KAFKA, 2015, p. 26). Ressalta-se que a presunção da inocência é instrumento de proteção da liberdade, a fim de evitar juízos condenatórios precipitados, protegendo pessoas potencialmente culpáveis contra excesso de autoridades públicas (NOVELINO, 2015, p. 455), garantia expressa no artigo 5º, LVII, da CRFB/88. Neste contexto, o inciso LXII do mesmo artigo, refere-se ao princípio da não au- toincriminação, o qual atinge não somente o preso, mas qualquer pessoa que esteja na condi- ção de testemunha, indiciado ou réu, os quais têm direito ao silêncio, cabendo à autoridade responsável o dever de fornecer esta informação (NOVELINO, 2015, p. 465).

O pensamento de Joseph K. era de que ele vivia em um estado de direito no qual imperava a paz e todas as leis seguiam vigorando, portanto, surpreendia-se ao tentar descobrir quem poderia ter ousado desrespeitá-lo em sua própria moradia. Vale entender que o estado

de direito é pautado por leis criadas e cumpridas pelo próprio estado, conforme ocorre em uma ditadura militar quando, a exemplo, o governante dispõe de instrumentos como o decre- to-lei para governar, mesmo sem a aprovação do Congresso Nacional (LEITE, 2018). Entre- tanto, o estado de direito, junto a sua ideia de “império da lei”, transformou-se ao longo da história e, a fim de salientar a mudança do paradigma de estado, passou a ter na supremacia da constituição sua característica nuclear, no que se denominou estado constitucional demo- crático (NOVELINO, 2015, p. 287).

Interessante o fato de o juiz de instrução ter iniciado o inquérito em tom de cons- tatação (KAFKA, 2015, p. 56-57). A partir desta observação, vale destacar que a própria lei indica reconhecer que a dificuldade de julgar não consiste em encontrar a conclusão, pois às vezes sucede que o juiz, ao elaborar a sentença, primeiro encontra o dispositivo e depois as premissas que o justificam. Esta inversão da lógica parece ser aconselhada oficialmente ao juiz por certos preceitos judiciários, o que não quer dizer que a parte dispositiva seja dita ao acaso e que a fundamentação tenha apenas o fim de aparecer como resultado de rigoroso raci- ocínio. Apenas se quer mostrar que, ao julgar, a intuição e o sentimento têm frequentemente maior lugar do que a princípio aparenta. “Não foi sem razão que alguém disse que sentença derivava de sentir” (CALAMANDREI, 2013, p. 126).

Joseph K. relatou durante o inquérito, ao juiz e a todos que se encontravam no tri- bunal, que o que lhe aconteceu era apenas um caso particular que ele não levava muito a sério e não considerava importante, porém, simbolizava um processo conduzido da mesma forma contra muitos e por isso ele estava lá; por todos, não por ele (KAFKA, 2015, p. 60). Joseph K. parecia não estar esclarecido do motivo de estar presente naquele inquérito, como se sua fun- ção fosse defender casos alheios, sem que ele estivesse sujeito a julgamento, ou seja, demons- trava equívoco quanto ao que lhe pertencia naquela situação, traduzindo sua dificuldade em empatizar e reconhecer seus problemas. Não era capaz de representar e relatar o próprio esta- do mental (FALCONE et al., 2008, p. 322). Juridicamente, agia contrário à norma, já que, salvo exceção, a qual não ocorria em seu caso, “ninguém pode pleitear direito alheio em nome próprio”, de acordo com o artigo 18 do CPC (BRASIL, 2015).

Para Joseph K. bastava que a coletividade começasse a pensar acerca de seu pro- cesso e talvez algum dos demais casos semelhantes pudessem ser ganhos por meio de argu- mentos, afinal, sua intenção era a de que houvesse discussões públicas de um assunto que interessava a todos (KAFKA, 2015, p. 60). Nessa medida, a ética do discurso se apoia exclu- sivamente em reconstruções hipotéticas, para as quais se procura explicações plausíveis, mas, além disso, está aberta a outras teorias morais concordantes. Ela não dá nenhuma orientação

conteudística, mas um procedimento repleto de pressupostos que deve garantir a imparciali- dade na formação do juízo (HABERMAS, 1989, p. 143, 148). Ainda, a interpretação jurídica do assunto em debate, se tornaria uma instância de esforço contra as injustiças e as hierarquias naturalizadas na cultura e na tradição. Não se trata simplesmente de se apropriar da moralida- de sem submetê-la a uma crítica, mas utilizar-se da hermenêutica constitucional para recons- truir as tradições, as quais deveriam ser vistas sob a luz da razão pública (OLIVEIRA, 2014, p. 801).

Outrossim, as convicções produzidas através do discurso e compartilhadas inter- subjetivamente possuem também uma força motivadora. Mesmo que essa força seja pequena, derivada dos bons argumentos, pode-se afirmar que o uso público de liberdades comunicati- vas é um gerador de potenciais de poder. Para Hannah Arendt, o poder surge entre os homens quando agem em conjunto, desaparecendo assim que eles se espalham (HABERMAS, 2003, p. 186).

Ao realizar o seu discurso no local proposto para o inquérito, Joseph K. parou sua fala e olhou para o juiz de instrução, momento em que percebeu que ele tinha feito um sinal de forma sigilosa a alguém da plateia (KAFKA, 2015, p. 61). O princípio da imparcialidade do juiz decorre da constituição ao vedar o juízo ou tribunal de exceção, na forma do artigo 5º, XXXVII, garantindo que o processo e a sentença sejam conduzidos pela autoridade compe- tente que sempre será determinada por regras estabelecidas anteriormente ao fato sob julga- mento, como se percebe da leitura do artigo 5º, LIII, CRFB/88. Calamandrei (2013) esclarece que a imparcialidade, virtude suprema do juiz, é a resultante psicológica de duas parcialidades que se combatem. Não devem os defensores melindrar-se se o juiz não parecer escutar com atenção seus discursos em audiência. Antes de pronunciar sua sentença, o juiz deve escutar a discussão de seus contraditores que se agitam em sua consciência (CALAMANDREI, 2013, p. 49).

É relevante citar que quando Joseph K. foi até o tribunal, verificou que as instala- ções eram cinzentas e mal construídas, não havia conforto algum ao público que era recebido, tampouco qualquer forma de acolhimento. Não se dava atenção ao público naquele ambiente (KAFKA, 2015, p. 81), do que se depreendeu a falta de comportamento pró-social do estado, já que não se mostravam atitudes e emoções positivas direcionadas aos outros. Nesse aspecto, indivíduos que apresentam níveis elevados de medidas de pró-sociabilidade, como a empatia, são mais propensos a exibirem comportamentos pró-sociais. O desenvolvimento desses com- portamentos é caracterizado pela resiliência nas crianças, ações conscientes, emoções empáti-

cas, sensibilidade moral e julgamento moral (ISRAEL; HASENFRATZ; KNAFO-NOAM, 2015, p. 56).

Em conversa entre Joseph K. e seu tio, este se preocupa com o nome que a família tem a zelar, indicando Joseph K. como uma honra para todos e, por isso não podia tornar-se uma vergonha. Apontou seu desagrado com sua postura, pois estava cabisbaixo e não parecia se comportar como um acusado inocente (KAFKA, 2015, p. 116). No estudo da empatia, as estratégias de conforto, ou seja, de responder ao que se ouve, podem se classificar em mais ou menos sofisticadas, embora seja amplo o rol de comportamentos frente ao que as pessoas per- cebem e são afetadas por estas estratégias, as quais podem ser verbais e não-verbais (BUR- LESON, 2009, p. 135-137). Ademais, inúmeras são as nuances do nosso sentimento para a indiferença, o desprezo, a malevolência, a satisfação, o reconhecimento, o encorajamento, o conforto etc. (HABERMAS, 1989, p. 66). No caso em tela, não houve empatia do tio em rela- ção a Joseph K., uma vez que sua abordagem se direcionou ao fato que o preocupou e diante do qual relatou sua opinião negativa, sem dar razão ao sentimento vivido por Joseph K. (BURLESON, 2009, p. 135-137).

O processo ao qual Joseph K. foi submetido, assim como os demais processos em trâmite naquele tribunal, não era público, pois a lei assim recomendava, salvo se o tribunal considerasse necessário. Em virtude disso, os autos, principalmente o de acusação, não eram acessíveis tanto ao acusado, quanto à sua defesa, impossibilitando saber contra o que a pri- meira petição deveria ser dirigida. Aliás, a defesa não possuía previsão legal e era apenas tole- rada (KAFKA, 2015, p. 139). É evidente neste processo a violação do princípio constitucional do contraditório e da ampla defesa estabelecido no artigo 5º, LV, CRFB/88. Além disso, “a lei só poderá restringir a publicidade dos atos processuais quando a defesa da intimidade ou o interesse social o exigirem” (art. 5º, LX, CRFB/88), situações que não se mostraram a fim de que o processo não se tornasse público.

A norma, para ser válida, deve preencher a condição de que as suas consequências e efeitos resultem em sua observância universal, satisfazendo o interesse de todos os indiví- duos. Com base nesta universalização, vê-se que questões prático-morais podem ser decididas com base em razões, do que se depreende que os juízos morais têm conteúdo cognitivo e não se limitam a exprimir atitudes afetivas (HABERMAS, 1983, p. 147).

É perceptível que os funcionários do tribunal não possuem conexão com a popu- lação e isto se torna acentuadamente compreensível durante a conversa de Joseph K. com seu advogado. Os funcionários eram “suscetíveis e nervosos” e mantinham-se rigidamente norte- ados pela lei ao mesmo tempo em que perdiam a orientação sobre suas tarefas, faltando a eles

“o senso acertado para as reações humanas” (KAFKA, 2015, p. 142 e 143). Este fato, por conseguinte, revela a ausência de empatia por parte de tais pessoas, em consonância com a definição do termo, já que não apresentam reciprocidade frente a reações afetivas, tampouco aos argumentos trazidos pela população, a qual está em uma situação vulnerável e chega até eles em busca de auxílio e compreensão (MESQUISTA; DUARTE, 2010). Importante refletir que àqueles que ignoram as coisas que devem fazer ou se abster, comentem um tipo de erro que os tornam injustos e, geralmente, maus (ARISTÓTELES, 2015, p. 64).

Vale observar que os funcionários tinham comportamentos infantis e trabalhavam contra quem lhes importunava para, depois, na maioria das vezes, e sem nenhuma razão, re- conciliarem-se. Pareciam apropriarem-se de uma espécie de funcionalismo vingativo (KAF- KA, 2015, p. 145). A partir do estudo da empatia, sabe-se que a regulação das emoções de- manda alta função cognitiva, a qual é sustentada por conexões cerebrais (pré-frontais) que se estabelecem até a adolescência e vida adulta (TOUSIGNANT; EUGÈNE; JACKSON, 2015, p. 6). Os problemas de interação colocam-se inicialmente no interior da esfera da ciência, da moral, neste sentido, as interpretações cognitivas, as expectativas morais, as expressões e as valorações, têm que se interpenetrarem (HABERMAS, 1983, p. 32).

Joseph K., ao ser abordado em sua residência novamente, parecia saber que o des- tino daqueles dois desconhecidos era ele próprio e aceitou passivamente ser conduzido até a pedreira para ser assassinado. No trajeto, pareceu determinado a evitar qualquer perturbação de seu veredicto. “É a inexorabilidade, presente em tantas obras de Kafka” (KAFKA, 2015, p. 259). Joseph K. demonstra, desde o início até o fim de seu processo, a assunção de sua culpa, de maneira que não se dedica a provar sua inocência, tal como se tudo já estivesse pré- determinado, fosse inflexível e não pudesse até mesmo ser amenizado, congruente, segundo Falcone et al. (2008, p. 323), com a ausência de autoconhecimento junto a dificuldade de dis- tinguir o que lhe pertence, características que se encontram no comportamento empático.

A distinção entre as formas pelas quais a empatia pode ser interpretada e expressa são muitas vezes de difícil percepção. Comumente, as experiências empáticas são provenien- tes da convivência familiar, todavia, esta familiaridade não deve fazer com que ela se encon- tre diante de nós sem a devida significância. Nessa perspectiva, o processo pelo qual se per- mite a alguém conhecer o estado interno de outro e, por conseguinte, motivar-se a responder com sensibilidade e cuidado, é de enorme importância para a nossa vida em sociedade. Al- guns filósofos, tais como David Hume, sugeriram que este comportamento é a base da per- cepção e interação social (DECETY; ICKES, 2009, p. 11).

No que tange a conceituação descrita da empatia e o modo de agir de Joseph K., pode-se notar que durante toda a narrativa ele interage com os demais personagens posicio- nando-se como culpado, sem tampouco entender as razões desta culpa. Vê-se que K. desco- nhece os próprios motivos, sejam pessoais ou profissionais, que o levam às suas realidades, ou seja, sua vida é traçada por vontades alheias. Por outro lado, ele percebe o descaso com que o público é tratado no tribunal e, por vezes, demonstra sua preocupação diante dessa situ- ação, manifestando-se em prol do direito dos outros (KAFKA, 2015).

As emoções influenciam a cognição e por conseguinte a maneira de pensar das pessoas. Desta forma, estados emocionais conduzem a diferentes focos de atenção e significa- dos que se depreendem frente ao que se observa, bem como participam da seleção de detalhes que se mantêm na memória. Nessa acepção, emoções podem influir em julgamentos, a partir do momento em que afetam as estratégias pelas quais as pessoas processam as informações ou conduzem a avaliação de fatos a uma direção particular (BANDES, 2015, p. 463). No proces- so vivenciado por K., verifica-se que ele está sujeito a arbitrariedades provenientes das perso- nagens do tribunal, tal como o juiz que conduz o primeiro inquérito, mostrando a existência de atitudes parciais que não ponderam o curso de seu processo (KAFKA, 2015).

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