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o Coronel e o operário

No documento Pau de arara (páginas 93-97)

NOTAS

4. o Coronel e o operário

em volta das cabeças de alguns fotografados se desenha um círculo negro.

São as cabeças dos dirigentes estudantis que presidiam a passeata: o jovem gordo e simpático Wladimir Palmeira, o atlético Franklin Martins e elinor Brito, líderes dos estudantes que reivindicam a reabertura dos restaurantes universitários, fe-chados pelo governo. A caçada a esses líderes será a próxima tarefa da ditadura.

desse modo, eliminava-se uma das maiores garantias do trabalhador brasileiro, instituída ainda na época do primeiro governo do presidente Getú-lio Vargas: a estabilidade do empregado depois de um ano de trabalho e sua garantia total no emprego depois de dez anos.

A política de congelamento salarial provocou uma tragédia nas famílias dos trabalhadores. em 1968, o salário médio de cerca de 10 milhões de traba-lhadores urbanos havia perdido entre 30% e 45% de seu poder aquisitivo, em comparação com 1964. A família típica de um trabalhador teve que colocar mais um de seus membros no mercado de trabalho, retirando o filho ou a filha mais velha da escola. A “lei do Fundo de Garantia”, que já tinha um ano de vida, se tornaria também um instrumento de alteração das estruturas de emprego: o trabalhador demitido encontrava outro emprego com salário mais baixo, nunca mais alto. Assim, as empresas foram se livrando de seus traba-lhadores estáveis (registrados antes da vigência da lei do “Fundo”), tornando seu salário cada vez menor. No novo emprego, o trabalhador tinha que aceitar – como determinava a nova lei – o “fundo”24.

As greves contra a redução salarial começaram em abril de 1968: 15 mil trabalhadores de 19 empresas metalúrgicas paralisaram o trabalho na cidade de Belo horizonte, exigindo 25% de aumento salarial e estabilidade no trabalho. A mobilização operária foi realizada em grupos de cinco traba-lhadores e fora das sedes dos sindicatos, que estavam infestadas de agentes policiais. A greve é quase espontânea e o ministro Passarinho se assusta:

toma um avião para Belo horizonte. é o primeiro encontro do coronel com os trabalhadores em greve:

o ministro chegou muito sereno, foi até a cidade industrial para ver como es-tavam as coisas e depois quis conversar com os trabalhadores. explicou que não estava ali para ameaçar ninguém, mas sim para conversar: “Se vocês estão pensando em fazer a contrarrevolução, estão muito enganados. Vocês são a parte mais fraca da história”. exigiu “respeito às leis” e prometeu o reajuste imediato de 10% e mais 8%, posteriormente, para julho próximo.” Não sou demagogo! – gritou irritado.

um trabalhador lhe respondeu: “o poder militar, e o ministro pertence a ele, quando deseja uma coisa não necessita de projetos de lei; decreta ime-diatamente. Por que não fazer um decreto em nome da Revolução para que nos escutem?”25

Passarinho tenta dialogar com os líderes sindicais em segredo. um deles, uma mulher, Maria Imaculada da Conceição, é secretária do Sindica-to de Metalúrgicos.

A secretária do Sindicato, Srtª Maria da Conceição Imaculada, não apareceu na entidade desde que os policiais do doPS passaram a exigir identidade de todas as mulheres que deixavam o prédio de número 570 da Rua Bahia. o presiden-te Antônio Santana Barcelos afirma que “ela está descansando um pouco, pois ficou muitas horas sem dormir durante a greve”26.

o ministro Passarinho desiste, mas não esquece o nome de Maria Imaculada. À noite fala em uma cadeia de televisão e ameaça os trabalha-dores com a lei de Segurança Nacional. Contudo, autoriza os patrões a con-ceder um pequeno aumento prometendo-lhes, em troca, “fazer uma limpeza, quando a classe operária esteja desmobilizada”.

Centenas de trabalhadores são demitidos ao retornar para o trabalho. A

“limpeza” é geral em todas as fábricas e atinge, inclusive, alguns velhos traba-lhadores contratados sob o regime da lei anterior, mas já desnecessários para os patrões. Passarinho estreava a tática de repressão a posteriori, que passaria a usar, alternando-a com a já tradicional repressão preventiva.

em outubro, recomeçam as greves em Belo horizonte: oito mil bancá-rios e seis mil metalúrgicos. o ministro Passarinho age com mais experiência:

As fábricas foram ocupadas pela polícia da ditadura e aqui, na fábrica Mannes-mann, houve tiros, emboscadas, bombas ao amanhecer do dia 1 de outubro, e depois continuamos trabalhando com fuzis apontados às nossas costas. Mais de cinquenta companheiros foram presos durante a greve e ainda estão na prisão.

Muitos deles foram demitidos27.

os trabalhadores, contudo, obtêm uma vitória parcial, apesar das pri-sões e da ocupação militar de muitas fábricas. Alguns dos presos receberam um “tratamento especial” do ministro jarbas Passarinho. ênio Seabra, pre-sidente do Sindicato dos Metalúrgicos e Maria Imaculada da Conceição, já conhecidos pelo ministro, são procurados intensamente depois do retorno dos trabalhadores às fábricas. ênio é preso, libertado e novamente preso, de-mitido de seu emprego e, finalmente, torturado28.

Maria Imaculada da Conceição permaneceu incomunicável durante 60 dias, foi espancada e torturada barbaramente pela polícia política de Minas Gerais. em uma das salas do doPS, diante de outros presos políticos ameaça-dos por fuzis, praticaram um selvagem aborto em Maria Imaculada.

em pouco tempo, os generais aperfeiçoaram a repressão contra as greves operárias. depois da primeira paralisação dos trabalhadores em Belo horizon-te, puseram em prática um sistema muito simples para enfrentar a crescente mobilização operária, que continuou e aumentou durante todo o ano de 1968:

em cada um dos “pontos-chave” dos conflitos operários, nomearam um mili-tar ou um civil perfeitamente identificado com o sistema milimili-tar.

Quando, por exemplo, em 16 de julho de 1968, três mil operários da região industrial de osasco, na Grande São Paulo, declaram-se em greve e ocu-pam seis fábricas, o delegado regional do Trabalho, general Moacir Gaya, decla-ra a padecla-ralisação ilegal e imediatamente comunica o fato às tropas da força pú-blica do estado, à Polícia Federal e à Secretaria de Segurança Púpú-blica. As tropas ocupam osasco, detêm 61 operários, invadem o Sindicato dos Metalúrgicos e um ex-militar, assessor de Gaya, é nomeado interventor do sindicato29.

josé Ibraim, o jovem presidente do Sindicato dos Metalúrgicos, de ape-nas 23 anos de idade, dirige clandestinamente a greve. Procurado pela polícia, não é localizado naquela ocasião. os trabalhadores dão pouca importância às qualificações formais de paralisação não legal ou ilegal:

Nós, operários de osasco, estamos em greve […] A fome que ronda nossas ca-sas e o desemprego que nos atormenta têm que ter um fim. Chegou a hora de dizermos não à ditadura dos patrões. Chegou a hora da derrubada das leis de arrocho salarial, do Fundo de Garantia e da lei antigreve. Ao arrocho respon-demos com greve, ao Fundo de Garantia – greve. exigimos contrato coletivo. À lei antigreve – greve30.

o coronel Passarinho transfere-se de urgência a São Paulo para coman-dar pessoalmente a repressão. A ação policial-militar cresce. o ministro or-dena que os trabalhadores sejam buscados em suas próprias casas e tenta transformá-los em fura-greves. Nada consegue e ameaça com demissões mas-sivas, por outro lado, promete negociar, não castigar os grevistas e conceder progressivos aumentos.

“esta greve é ilegal e representa uma provocação [...]. Não me chamo Co-hen, mas tem gente que pensa que o Rio Tietê é o Rio Sena e que em São Paulo se fala francês”31. os jornais publicam com grandes caracteres as declarações do coronel Passarinho, que, ao mesmo tempo, aludia ao “Plano Cohen”, de 1937, e a Cohn-Bendit, um dos líderes da rebelião de maio, na França. Particularmente irritado em razão do apoio que os estudantes e a população de São Paulo pres-tavam aos grevistas, o ministro Passarinho reprime, por um lado, e promete soluções, por outro, tentando esvaziar o movimento. Finalmente o consegue. A greve é dissolvida. Regressa ao Rio de janeiro e no mês seguinte elabora rígidas normas para serem aplicadas a qualquer movimento grevista em qualquer parte do país: a) demissão por “justa causa”, sem pagamento de qualquer indenização a quem participar das paralisações; b) os dias de greve não serão pagos; c) en-quadramento dos grevistas com base na lei de Segurança Nacional.

em osasco, onde a situação aparentemente voltou à normalidade, não passa um dia sem que um pequeno grupo de operários não receba o aviso de demissão. Alguns quilômetros adiante, nos enormes quartéis de Quitaúna, onde se concentra o grosso das tropas do II exército (com sede em São Pau-lo), jovens oficiais, encolerizados pela ocupação das fábricas pelos operários, preparam listas de nomes dos “mais perigosos”, que serão castigados no “mo-mento propício”32. Para isso, é necessário impedir a mobilização da imprensa, da opinião pública, dos advogados e, assim, criar as condições para que a caçada seja proveitosa. em dezembro, todas essas condições estarão formal-mente reunidas.

No documento Pau de arara (páginas 93-97)