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1. O corso europeu no Mediterrâneo

1.2. O corso e o contra-corso da Ordem de Malta

A importância da Ordem de Malta para entender a actividade corsária em todo o ponente mediterrânico, nomeadamente no período abrangido pelo arco temporal deste trabalho, é fundamental. Para analisar a prática do corso pela Ordem, na segunda metade do século XVIII, é necessária uma breve digressão por um tempo mais recuado em que, à luz da rivalidade entre o Islão e a Cristandade, a actividade corsária alicerçou os seus fundamentos ideológicos. Os principais alvos escolhidos pelo corso da Ordem foram num primeiro período as lucrativas rotas do Levante e, depois, já na segunda metade de Setecentos, obedecendo a uma conjugação de interesses com o reino francês, as rotas magrebinas e aquela que era a principal oponente das potências europeias, a regência de Argel.

O grande historiador da ilha de Malta e da sua Ordem, Alain Blondy, no livro

Chrétiens et Ottomans de Malte et d’ailleurs, mais propriamente no seu Capítulo 36 “Les

Nouvelles données géopolitiques en Méditerranée après Lepante”, faz uso de uma imagem

pouco académica. Exemplificando a mudança geoestratégica ocorrida no Mediterrâneo após Lepanto, Blondy, depois de afirmar que em seis anos, de 1565 a 1571, a situação neste mar interior se tinha completamente alterado, avança sem hesitar para uma ousada metáfora, proclamando que a vitória da Cristandade em Lepanto, em 1571, não foi mais que a transformação do ensaio obtido no confronto com as forças turcas no Grande Cerco de Malta de 1565.

A situação de conflito vivida no Mediterrâneo na primeira metade do século XVI tinha menos a ver com os Turcos do que com os novos poderes que emergiam no Magrebe. Na realidade a zona mais crítica do mare nostrum era agora a sua bacia ocidental. A

expedição punitiva da Santa Liga a Lepanto tinha atingido os otomanos numa das suas principais zonas de influência, o Levante grego43.

Toda a conjuntura que a Ordem de Malta, a sua marinha e o seu corso, vão enfrentar durante a segunda metade do século XVIII, ressentiu-se inevitavelmente da situação vivida em função do resultado desses dois importantes acontecimentos que marcaram de forma indelével a segunda metade do século XVI. No ocidente mediterrânico, mais propriamente no Magrebe, a derrota de Lepanto contribuiu para distender as ligações que no início as regências, por razões meramente circunstanciais, tinham estabelecido com o Império Otomano. Estas nos séculos XVI e XVII foram uma experiência única da implantação de um novo poder despótico, dependente de uma recém-chegada aristocracia militar turca ao espaço norte-africano.

Todavia, as semelhanças entre as três novas regências ficaram-se somente pela sua

submissão a esta “aristocracia” de segunda classe44. Enquanto Tunes apostou na abertura ao comércio francês e se transformou num entreposto essencial às relações comerciais entre as duas margens do Mediterrâneo, Argel e Trípoli tomaram um outro caminho, talvez mais discutível, relacionado com a prática do corso, assente numa particular conjuntura interna à qual não foi de forma alguma estranha a pressão das potências europeias.

Depois de Lepanto, a dicotomia simplista a que se tinha reduzido o conflito entre dois blocos após a queda de Constantinopla, ignorando as redes entretecidas por todo o Mediterrâneo, deu lugar a uma análise mais serena. Com a vitória da Cristandade no Grande Cerco de Malta que a derrota da marinha otomana no Levante sedimentou, o conflito entre estes dois blocos confessionais, cedeu, paulatinamente, lugar a relações de alguma normalidade entre as religiões do espaço mediterrânico que mesmo nos períodos em que este 43Alain Blondy, Chrétiens et Ottomans de Malte et d’ailleurs, p. 613.

44 Existem, na documentação portuguesa, algumas referências a esta tropa de elite existente na Regência. Gerardo José de Sousa Bitancourt, antigo cativo, um dos muitos aventureiros que transitava entre as duas margens do Mediterrâneo, tirando partido da porosidade das suas fronteiras, legou-nos esta descrição enviada a Jacques Filipe de Landerset: “A todos consta o modo de governo constituicoens, e melicia de Argel. Cada anno se fazem recultas nas provincias do Gram Senhor; sendo a mayor parte destes pastores, almuqureves, e mariolas. logo que chegam se lhe asigna huma mui limitada paga, e sirvem de soldados en terra i mar. e por sua antiguidade merecimento e procteçam, vão subindo as mayores cargas da Regencia, athe que chegão a ser governadores, generais, ministros, e dei. os mais delles não sabem ler; alguns aprendem quando estam nos empleos, são muito ignorantes, esta os faz grandes maliciozos a que naturalmente são inclinados, a fortuna das suas piratarias, e vitorias. as naçoens da Europa que anciozamente buscam sua amizade, sacrificando interezes com somiçoens reverentes; os faz soberbos demaneira a se creyrem Invenciveis de todas as naçoens do Mundo. (AHU, Fundo do Norte de África, Cx. 396, Instruções enviadas por Gerardo José de Sousa Bitancourt a Jacques Filipe de Landerset e remetidas por este a Martinho de Melo e Castro, 3 de Maio de 1786).

foi mais agudo nunca cessaram de existir. Assistiu-se em finais do século XVI à reactivação dos terminais urbanos das redes mediterrânicas: os portos do Levante e do Egipto centros de chegada das caravanas da Ásia e do Extremo-Oriente; Tunes, Trípoli e Argel, locais de comércio das caravanas da África subsariana; mas também, do lado europeu, de Veneza, Marselha, Barcelona, Nápoles, Livorno e Trieste.

Com o fim do antagonismo entre Habsburgos e Otomanos, o mapa do Mediterrâneo alargou-se, e a sua zona central assumiu um papel de verdadeira importância na ligação entre o Levante e o Ponente. Malta passou a desempenhar a função de placa giratória das novas rotas marítimas. Frequentada por navios que, afastando-se da protecção que lhes era dada pelo tráfico de cabotagem, demandavam novas e mais lucrativas rotas de navegação, a Ilha dos Cavaleiros ergueu-se como ponto fundamental para as trocas entre a Cristandade e o Islão. Quanto às regências magrebinas, excepção feita a Tunes, elas não se coibiram de entrar no jogo, mas face aos condicionalismos que lhes foram impostos pelas potências europeias, cedo deixaram o papel de agentes económicos às populações submetidas habitando o seu espaço geográfico, judeus, cristãos, gregos e arménios45.

Deve reanalisar-se com algum cuidado um dos mitos ligados ao corso cristão no Mediterrâneo relacionado com o exercício do contra-corso defensivo atingindo os navios de Argel, Tunes e Trípoli. Não é possível relegar para segundo plano a experiência que os Cavaleiros Hospitalários, estacionados em Rodes, situada estrategicamente junto às rotas que conduziam aos grandes empórios do Levante, já possuíam46. É verdade que a Ordem após ter sido expulsa desse local no ano de 1522, se remeteu durante todo o século XVI a uma atitude defensiva. Empobrecidos pela perda de rendimentos que lhes chegavam dos seus senhorios em Inglaterra e no Norte da Alemanha, o que deixou de acontecer na sequência da Reforma, os Cavaleiros Hospitalários consagraram todas as suas forças à defesa de Malta que desempenhava agora o papel de baluarte da Cristandade e cuja acção em 1565 foi decisiva para o golpe que pôs fim às ambições otomanas de expansão em direcção ao ocidente mediterrânico.

De facto, foi somente depois de 1571, a partir da década de oitenta do século XVI, que o corso de Malta adquiriu a sua real dimensão. Por outro lado para que possamos 45Alain Blondy, op. cit., p. 623.

46Michel Fontenay, «Les chevaliers de Malte dans le «corso» mediterraneen au XVIIe siècle», in Las ordenes

considerar o corso cristão, originário da nova base dos Hospitalários no centro do Mediterrâneo, como um verdadeiro contra-corso era necessário que as suas actividades tivessem privilegiado exclusivamente objectivos militares, situando-se estes num espaço geográfico compreendido pela bacia ocidental do Mediterrâneo. A realidade porém é que estudos levados a cabo por renomados especialistas, como foi o caso de Michel Fontenay, levam-nos a considerar que o corso maltês, face à reduzida rentabilidade das presas magrebinas, mudou-se para outras paragens mais a Oriente, a cuja atracção e proveito não conseguiu resistir, transformando a sua natureza mais relacionada com um contra-corso defensivo para o exercício definitivo do corso predador ou “contra-corso ofensivo”.

Para compreender esta mudança é absolutamente necessário conhecer os meios navais que a Ordem possuía para sustentar a sua principal função que, segundo ela própria, era a de combater os inimigos da Cristandade. Esta possuía uma esquadra composta por galés reputadas como as melhores construídas e aparelhadas em todo o Mediterrâneo e que atingiram o número de oito entre os anos de 1685 e 1690. A estas embarcações somavam-se naturalmente vários tipos de navios, o que lhes permitia estender o seu cruzeiro a outras estações do ano menos propícias para a prática do corso.

As galés da Ordem tinham a seu cargo fundamentalmente três tipos de atribuições: a primeira ligava-se ao policiamento marítimo, por um período de duas a três semanas, geralmente a solicitação dos vice-reis da Sicília e de Nápoles, em que patrulhavam a zona geográfica abrangida pelo canal de Malta, as águas em redor da Sicília, ou o mar Tirreno, chegando à Sardenha, podendo também atingir o sul da Península Itálica, até à entrada do Adriático; a segunda consistia em pôr à disposição de uma qualquer armada cristã, geralmente da França ou de Espanha, para um cruzeiro a efectuar em conjunto, o seu poder naval, quer no quadro de um hipotético ataque às regências magrebinas, quer, como foi o caso, no âmbito das guerras turco-venezianas de finais do século XVIII; por fim, o que era mais frequente,

corseggiare a danno d’infideli e exercer a guerra de corso contra as costas e comércio

muçulmanos em todo o Mediterrâneo.

Aos navios da Ordem juntavam-se os dos armadores privados, armados sob pavilhão de Malta, segundo regulamentação de 1605 que haveria de se manter até 1798. A estes homens de negócio era entregue pelo Grão-Mestre uma carta patente, ad piraticam

exerçandam, válida somente para uma viagem, com a faculdade e licença de poderem fazer a

de respeitarem bens e pessoas cristãs, remetendo para o Tesouro da Ordem um décimo do valor das presas47.

O sucesso que resultou da atribuição destas cartas patentes nas primeiras décadas do século XVII (1600-1624) pode ser aquilatado pelo seu número. Foram emitidas 280, abrangendo 350 embarcações, o que redundou numa média mensal de 14 navios corsários48. Depois de uma leve inflexão do quantitativo de licenças, ainda no segundo quartel do mesmo século, a Ordem acabou por admitir o alargamento do período de validade das cartas patentes para cinco anos. Na sequência das guerras no Levante grego e do recrudescimento do corso cristão por todo o Mediterrâneo, assistiu-se em Malta a uma corrida ao armamento de navios que atingiu o seu auge entre os anos de 1660 e 1675.

O Levante, se atendermos aos registos de presas da Ordem, foi durante a centúria de Seiscentos o local privilegiado para a actuação dos corsários de Malta. Duas zonas geográficas se apresentaram como opção ao corso maltês: a “Barbaria” e o Levante que correspondiam a dois tipos de armamento e de actuação muito diferentes, tanto em direito como de facto. Em direito, porque as patentes emitidas pelo Grão-Mestre permitiam o exercício do corso quer per la parti di Levante e Barbaria, quer apenas para a “Barbaria”, interditando na concessão para esta última a passagem para além de Ra’s al Hilãl, a oeste de Darnah, na Cirenaica. De facto, porque esta distinção jurídica foi imposta por motivos práticos, que se prendiam com a necessidade de não permitir que forças ou embarcações deficientemente aparelhadas se pudessem aventurar nos mares levantinos.

Nas costas do Magrebe, a “Barbaria” das fontes maltesas e europeias, o corso podia ser praticado de forma quase artesanal, a bordo de embarcações de reduzida tonelagem, fazendo dois cruzeiros anuais e regressando facilmente a La Valleta para aprovisionamento e refresco das tripulações. Por outro lado, o corso levantino exigia tripulações numerosas e embarcações já de alguma dimensão, capazes de afrontar os rigores do Inverno e a oposição da marinha de guerra da Sublime Porta49. Qualquer destas duas distinções não deverá no entanto fazer esquecer a preocupação que a historiografia tem sublinhado com a segurança

47

Idem, art. cit., p. 373.

48Estes números foram extraídos dos Libri bullarum da Ordem de Malta frequentemente citados por Michel Fontenay in «Les Chevaliers de Malte dans le «corso» mediterraneen au XVIIe siècle», p. 377.

dos investimentos para ter acesso às ricas rotas levantinas. O continuado insucesso de alguns deles teria inevitavelmente grande repercussão na economia da Ilha.

QUADRO I