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1 O PAPEL DA INFORMAÇÃO POLÍTICA PARA A DEMOCRACIA

1.4 Internet e política: desafios e possibilidades

1.4.2 O crescimento da internet e o perfil do internauta no Brasil

Podemos dizer que, como os outros meios comunicação, a Internet está sujeita a uma

variedade de interpretações. Primeiramente, a internet é uma rede de computadores, muito

extensa e descentralizada. Assim ela se estruturou, principalmente, por ter sido desenvolvida

numa perspectiva mais de cooperação e liberdade de informação, do que de competição e

direitos de propriedade. O número de usuários da internet, a nível mundial, também evoluiu

em ritmo semelhante. De acordo com relatório de junho de 2011 do International

Telecommunication Union (ITU, 2011). O gráfico mostra a evolução de usuários de internet

no mundo

13

:

As maiores proporções de não-usuários de computador e Internet encontram-se em

áreas rurais e na região Nordeste (CGI, 2011, p.151). Contudo, pode-se argumentar que o

panorama do acesso e utilização da internet no Brasil vem sendo modificado de modo

positivo. Pelos critérios da pesquisa Painel IBOPE/NetRatings (CETIG, 2012), percebe-se

que, em pouco mais de uma década, o número de usuários de internet “ativos”

14

que acessam

13 Fonte: ITU World Telecommunication/ICT Indicators database. Acesso em 07/08/2012

14 A pesquisa do IBOPE//NetRatings considera como internautas ativos pessoas que navegaram na internet através de

computadores no domicílio no mês da pesquisa. O tempo médio de uso do computador se refere ao número de horas

gasto por esses internautas navegando online durante o mês.

Gráfico 1 – Evolução do número de internautas no mundo

Fonte: ITU World Telecommunication

a rede em seus domicílios no Brasil aumentou mais de 700%, tendo aumentado ainda o tempo

de permanência on-line.

O relatório da pesquisa TIC Domicílios e TIC Empresas 2010, do Comitê Gestor da

Internet no Brasil – CGI (2011), também atestam o rápido crescimento do acesso dos cidadãos

brasileiros ao computador e à internet. Atualmente, no Brasil, 56% da população não possui

acesso ao computador. “Quando se consideram apenas as áreas urbanas do país, a redução da

brecha digital é ligeiramente maior, saindo de 59%, em 2008, para 51%, em 2010” (CGI,

2011, p.153). De modo geral, o panorama da exclusão digital vem sendo sensivelmente

modificado, desde quando o Comitê iniciou esse tipo de monitoramento, em 2005. Em 2010,

41% são usuários de internet – sendo que na região Sudeste, onde será realizada a pesquisa os

estudos de caso para essa dissertação, o percentual é ainda maior, 47%.

Observa ainda aumento do acesso à internet nos domicílios nas áreas urbanas, de 7%,

em relação à 2009. A frequência de uso da internet também está em tendência crescente,

saltando de 40%, em 2005, para 60%, em 2010 (CGI, 2011, p. 159). É relevante para o tema

discutido nesse trabalho a porcentagem de internautas brasileiros que utiliza a internet como

ferramenta de comunicação (94%) e, ainda, de vínculo, principalmente para enviar e receber

e-mails (80%) e mensagens instantâneas (74%), assim como sites de redes sociais

15

, ou de

relacionamento (70%.). Extremamente relevante para o presente estudo é a presença de

usuários do Twitter, que corresponde a 14% dos usuários de áreas urbanas, aproximadamente

15 Segundo outra pesquisa, divulgada pelo Internet World Stats, o Brasil registrou, em dezembro de 2011, cerca de 81,8

milhões de usuários de internet (42,2% da população). Dados divulgados em maio de 2012 registram 42,2 milhões de

usuários brasileiros no Facebook, 21,8% da população. Trata-se de aumento significativo em relação a dezembro de 2011,

quanto esse site registrava milhões de brasileiros. Mais informações em

http://www.internetworldstats.com/south.htm, acesso em 18/07/2012.

Gráfico 2 – Evolução do número de internautas e número médio de horas de acesso

Fonte: IBOPE/NetRatings

14,7 milhões de pessoas. (GCI, 2011, p.160-161). Segundo a pesquisa, 14% dos usuários

ainda utiliza cotidianamente ferramentas de vídeo, como o YouTube. Esses dados, somados à

tendência de queda de 6% na atualização de blogs e fotologs sugerem a consolidação de

mídias sociais mais recentes como o canal privilegiado para obtenção de informações e para

manifestação de opiniões por parte dos usuários brasileiros.

Um aspecto interessante da utilização da internet é que um internauta raramente faz

um uso da internet exatamente igual a outro. De fato, os modos de acesso a conteúdos por

parte dos internautas – com uma liberdade muito maior de navegação se comparada, por

exemplo, à televisão – ao passo em que não se diferem tanto assim da forma como as pessoas

buscam informação nos meios de comunicação tradicionais, acabam por se complexificar na

internet. No que diz respeito à circulação de informação política na internet, Alessandra Aldé

propõe uma releitura de perfis identificados de consumo de informação política (ALDÉ,

2001), situando-os à nova realidade da circulação da informação online. Investigando o

discurso de cidadãos a partir da realização de grupos focais realizados em 5 capitais

brasileiras, a autora ressalta que os usuários não especializados de internet – ou seja, que a

utilizam principalmente para fins recreativos, em diferenciação a “usuários profissionais”, tais

como blogueiros, jornalistas e pesquisadores – podem ser classificados quanto a formas

típicas de acesso à internet, “que incidem sobre a busca e interpretação de informação e

opinião política presentes na rede” (ALDÉ, 2012, p. 372).

Segundo Aldé, o internauta casual em geral utiliza a ferramenta para contato com

pessoas conhecidas, seja por e-mail, mensagens instantâneas ou sites de redes sociais, assim

como obter informação de forma rápida e direta sobre temas variados. Apesar de grande parte

utilizar a internet com relativa frequência, em geral são usuários para os quais a informação

política chega de forma indireta, seja pelo hábito de acessar portais de notícias, de redes

sociais, mecanismos de busca, dentre outros, cabendo ressaltar ainda a importância da

reverberação de informações e opiniões oriundas de outros meios de comunicação, como

televisão, rádio e jornais (ALDÉ, 2011, p. 7-8).

A plasticidade e variedade da internet permitem um uso intenso por pessoas com demandas e

interesses diferentes, reforçando tendências e atitudes. Assim, as categorias principais

desenvolvidas anteriormente (ávidos, assíduos, consumidores de escândalos e mesmo

frustrados) se sustentam, indicando o peso das atitudes e predisposições nas possibilidades de

uso da tecnologia (ALDÉ, 2012, p. 374).

Assim, Aldé (2012) identifica cinco perfis para consumo de informação política na

internet. Os “ávidos”, que tendem a buscar ativamente a informação, tem a oportunidade de

acessar uma infinidade de conteúdos, em uma diversidade de versões, fontes e formatos,

muitas vezes preferindo a internet como possibilidade de se aprofundar de uma forma que não

é possível nos meios de comunicação de massa tradicionais. Esse tipo de usuário tende a ser

hiperconectado, sendo predisposto a participar de várias redes sociais, comentando e

compartilhando conteúdos, e tendo a possibilidade de tornarem-se emissores. Já para os

“assíduos”, a predileção por hábitos consolidados de consumo da informação acaba limitando

o número de fontes de informação e limitando a procura por novas versões e opiniões, muitas

vezes com maior predileção por portais de notícias, pela sua credibilidade jornalística.

Aldé descreve ainda os “trenders”, internautas cujos hábitos estão relacionados a

modismos em relação ao consumo de informação, estando sempre atentos a “ondas” e

conteúdos que circulam de forma viral. Geralmente, tendem a aderir a opiniões e explicações

políticas majoritárias, que se popularizam nas redes de comunicação, especialmente os

escândalos e polêmicas, sendo ao mesmo tempo seguidores e alimentadores de tendências

(ALDÉ, 2012, p. 382). A autora descreve ainda os “frustrados”, internautas que,

constantemente insatisfeitos com a circulação da informação nos meios de comunicação de

massa, podem trazer esse ceticismo para a rede, principalmente no que diz respeito à

desconfiança em relação à credibilidade das fontes de informação. Contudo, as possiblidades

de buscar informações na internet podem favorecer uma mudança de perfil para ávido.

Os “desinformados”, internautas que não se interessam minimamente pelo conteúdo

informativo ou as possibilidade de acesso a uma diversidade de conteúdos. Aldé (2012) reflete

que com a internet é mais difícil que o usuário não seja impactado por nenhum tipo de

informação, mesmo que seja o assunto do momento, sendo o internauta desinteressado, em

tese, menos desinformado do que no ambiente pré-internet.