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Para pensar o passado nos documentos policiais e judiciais é importante teorizar o que é considerado crime. Primeiramente, é preciso demarcar que o conceito de crime é historicamente marcado por especificidades que dependem do contexto abordado. O ponto de partida para delinearmos a definição do que é considerada uma prática delituosa pode ser encontrada nas delimitações previstas na norma legal instituída, o Código Penal Brasileiro, de 1940. Em uma abordagem sociológica, Helena Machado (2008) define que o conceito de crime não é autoevidente, tornando necessário observar os elementos associados ao próprio código, como o relativismo cultural e histórico subjacente42. Machado busca inspiração em Émile Durkheim, e considera três elementos básicos para definir o crime: o primeiro, os danos, que remetem à natureza, dimensão e severidade dos prejuízos causados e a quem foi vítima; o segundo elemento, o consenso social acerca do impacto criado pela ocorrência do crime; e na terceira consideração, as respostas oficiais, que implicam a existência de legislação criminal e a efetivação do seu uso. Deste modo, na perspectiva sociológica, o crime transcende a visão estritamente jurídica, adentrando a construção social que não estará desassociada da formalidade da lei.

Machado advoga a necessidade de observar o crime para além da perspectiva jurídica-penal, descrevendo a respeito dos esforços na Sociologia em observá-lo como desvio, ampliando a perspectiva do que é crime. O conceito de desvio, para a autora, se assenta em dois pressupostos básicos: “(i) engloba comportamentos que violamas expectativas da maioria dos membros da sociedade;

e (ii) suscita reações negativas, considerando que é um ato que deve estar sujeito a _______________

41BARROS, José D’Assunção. O campo da História: especialidades e abordagens. Petrópolis, RJ:

Vozes, 2004.

42 MACHADO, Helena. Manual de Sociologia do Crime. Porto: Afrontamento, 2008.

sanções”43. A ideia de desvio consiste em romper a consideração do conceito estritamente jurídico de crime e alargar o foco de análise, exigindo observar as condições sociais e históricas da produção de indivíduos desviantes numa sociedade de controle.

O desvio é encarado como sendo um conflito com a lei, mas que ao examinar o que a lei considera como crime é necessário a análise das variações do espaço-tempo; neste sentido, estaremos encarando o crime como um problema social, ou seja, um desvio das expectativas socialmente criadas.

A historiadora portuguesa Maria João Vaz (2011) também considera que para pensar o conceito de crime é preciso primeiro observar as considerações deste fenômeno em períodos e espaços delimitados44. Compartilhando da ideia da autora, o crime consiste em uma ação ameaçadora dos ideais previstos em código e do equilíbrio que pretende firmar “do seu bem-estar, da sua tranquilidade e segurança e, por isso, concorda em reprimir, fazendo-as cair sob a alçada da lei criminal que se encontra em vigor”45. Uma vez que “(...) a lei criminal é seletiva, elaborada de acordo com os interesses e ideais defendidos pelo poder e pelos grupos socialmente dominantes, orientada para a obtenção de determinados objetivos, descurando ou ignorando outros”46, a autora também chama a atenção para pensar o crime para além da norma legal; as leis são produzidas por uma pequena e privilegiada parcela da sociedade e geralmente aplicadas em outra parcela menos favorecida.

Michel Foucault observa que a sociedade contemporânea é uma “sociedade disciplinar”47, emergida a partir do final do século XVIII, quando ocorreram em diversos países reformulações dos Códigos Penais. Essa reorganização dos códigos consistiu em uma resposta às necessidades de uma sociedade que estava crescendo e se tornando cada vez mais populosa e urbana com a consolidação do _______________

43 Ibidem, p.37.

44 VAZ, Maria João. Crime e sociedade. Portugal na segunda metade do século XIX. In: NUNES, Henrique Barreto; CAPELA, José Viriato. (Org.). Mundo Continuará a Girar. Prêmio Victor de Sá de História Contemporânea, 20 anos (1992-2011). 1.ed. Braga: Conselho Cultural da Universidade do Minho; Centro de Investigação Transdisciplinar, 2011.

45 Ibidem, p.12.

46 Ibidem, p.13.

47 A sociedade disciplinar descrita por Michel Foucault foi objeto de reflexão em algumas conferências que pode ser encontradas na obra A verdade e as formas jurídicas. “A formação da sociedade disciplinar pode ser caracterizada pelo aparecimento, no final do século XVIII e inicio do século XIX, de dois fatos, dois lados aparentemente contraditórios: a reforma, a reorganização do sistema judiciário e penal nos diferentes países da Europa e do mundo. Esta transformação não apresenta as mesmas formas, a mesma amplitude, a mesma cronologia nos diferentes países”. Cf. DELEUZE, Gilles. Foucault. 2.ed. Lisboa-Portugal. Ed Edições 70. 2005. p.79.

Capitalismo, criando elementos para a mudança das práticas jurídicas coercitivas de mecanismos mais complexos. A punição dos crimes com castigos corporais e dos suplícios como espetacularização, ocorridos até o século XVIII, sofreram mudanças para punições mais sutis e de pouca exposição do corpo, como a privação da liberdade. Neste sentido, os corpos deveriam obedecer a uma nova ordem produtivista e uma estrutura de estratégias se fortifica em controlar, vigiar e, se necessário, julgar e punir os desviantes improdutivos e transgressores. Com efeito, a lei que define o que é crime tem uma utilidade social e “se torna um instrumento de poder das classes ricas sobre as classes pobres, das classes que exploram sobre as classes exploradas, o que confere uma nova polaridade política e social a essas instancias de controle”48.

Retomando as propostas de conceituação de crime em Vaz e Machado, atrelado à reflexão de Foucault, ao pensar um novo modelo de sociedade ligada às reorganizações penais, as leis enquanto construtos históricos delimitam além de normas, mas de comportamentos ditados. O crime como desvio da norma ou conflito com o aparato legal jurídico penal implica considerarmos quem comete crime e como se desenrolam os procedimentos de julgamento. Além do mais, observar os mecanismos de controle se torna viabilizado por aquilo que do próprio controle escapa e se torna registrado como crime em documentos policiais e judiciais, tendo para o estudo histórico uma maior aproximação da dinâmica social vivenciada, das classes menos privilegiadas e mais atravessadas pelo poder do Estado.

O poder como uma variável é compreendido, também, a partir da perspectiva de Michel Foucault. Gilles Deleuze (2005), a propósito da manifestação de poder elaborada por Foucault, menciona como sendo operatório em estratégias de manobras, táticas e técnicas não homogêneas. A partir disso, o poder não possui uma fonte ou local privilegiado, mas se encontra em pontos difusos em relações desiguais e móveis. A proposição do poder em Foucault não nega a concepção de classe e das lutas, mas reconfigura a dinâmica interpretativa, considerando os sujeitos inseridos nas relações sociais como atravessados pelo poder em uma lógica capilar e dispersa. Na obra História da Sexualidade I: Vontade de Saber, Foucault descreve detidamente o poder, priorizando a sexualidade em sua análise e os efeitos das estratégias da sociedade disciplinar que emergiu na modernidade. Como _______________

48 Idem. 1996, p.94.

em suas palavras: “o poder não é uma instituição nem uma estrutura, não é uma certa potência de que alguns sejam dotados: é o nome dado a uma situação estratégica complexa numa sociedade determinada”49. As sociedades disciplinares são mecanismos de poder exercido pelo Estado por meio de estratégias complexas do controle social. “As técnicas disciplinares formam outros tantos seguimentos que se articulam uns aos outros, e pelos os quais os indivíduos de uma massa passam ou permanecem de corpo e alma (família, escola caserna, fábrica ou prisão)”50.

Constata-se, de acordo com a visão de Foucault, a inexistência sinonímica entre Estado e poder, evidenciando o conflito no centro do dinamismo social.

Distinguem-se assim as transformações que o Estado buscou instituir no conjunto de regimes políticos através de procedimentos técnicos do controle de gestos, atitudes, locais de circulação, comportamentos, hábitos e discursos, para com a mecânica estratégica do poder que opera de forma incontrolada na recepção social, que nem sempre obedecerá à regra legal, configurando assim a emergência do ato criminoso.

Os códigos de lei podem ser assim interpretados como postulados do poder legal do Estado que foram constituídos historicamente, e que funcionam como veículo estratégico na tentativa de dominação e controle ao delimitar leis. A compreensão do poder como uma estratégia proporciona entender que a definição de crime compreende relações de poderes que privilegiam quem está em condições de privilégio. Além disso, o poder se manifestará em redes difusas na dinâmica social, em que, em muitas situações, o crime também é interpretado como uma ação de poder sobre outra pessoa. A relação de poder estará presente em atritos entre pessoas na rua ou em local comercial, entre vizinhos e no meio jurídico, mas a definição do que é considerado crime consiste na legitimação do Estado em instituir um saber de certa prática como transgressora.

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49 Idem. 2018, p.101.

50 DELEUZE, Gilles. Foucault. 2.ed. Lisboa-Portugal: Ed Edições 70. 2005. p.44.