Na concepção bakhtiniana (1988), cronotopo é uma categoria responsável por evidenciar a relação tempo-espaço como construção axiológica de um ser imerso em interações heterogêneas, complexas e valoradas. Essa categoria é essencial para o desenvolvimento das cenas na arte – seja na literatura, seja no cinema – uma vez que ela é o centro da concretização figurativa, fazendo com que os enunciados e as imagens não sejam meros construtos, mas adquiram valor ao orbitarem em um cronotopo, no qual se enchem de “carne e sangue”
(BAKHTIN, 1988) e, portanto, iniciam seu caráter imagístico dentro do mundo da arte, já que tais enunciados, mais do que estruturas ou exoesqueletos, estão recheados de valor, questão e composição axiológica. Desse modo, essa categoria pode ser entendida para além de um simples plano de fundo ou contexto, compreendendo-se a fundamental relação entre espaço e tempo em que um ser (ou personagem) está situado, de modo a, combinado aos enunciados que forma, compilar ações valoradas, situadas e relacionadas a um determinado tempo que corre e um espaço que se ocupa.
Em seus estudos sobre o cronotopo e, especialmente, na sua dedicação ao estudo dessa categoria, a partir dos romances do autor alemão Goethe, fica evidente para Bakhtin (1988) uma relação estreita entre o cronotopo e a identidade. Na perspectiva do autor, os sujeitos passam por um processo de crescimento genuíno, assim suas identidades devem desenvolver- se e eles devem ser capazes de desenvolvê-la. A identidade, pois, não se limita a desdobrar ou revelar o que, de certo modo, sempre esteve presente (MORSON e EMERSON, 2008). A identidade vista dessa forma concreta e acabada foi muito comum em inúmeros mitos e epopeias dos heróis gregos, porquanto estes, mesmo com o decorrer do tempo e passando por determinados espaços, em nada alteraram seus pensamentos, suas visões e seus modos, uma vez que esse herói sempre pareceu completo e em uma jornada linear até alcançar seus objetivos. Bakhtin, então, percebe algumas mudanças nesse paradigma ao se debruçar sobre certos romances de Goethe categorizados pelo teórico como Bildungsroman40. Nesse tipo de
romance, as personagens não possuem identidades fixas, mas parecem sempre em construção ao longo do tempo transcorrido na trama em decorrência das experiências vividas. Essa hipótese é reforçada por outro ponto elencado por Bakhtin (2018) que diz respeito ao fato de esse crescimento genuíno significar, também, que os processos de edificação identitária podem ser explicados pela atuação de forças impessoais – as forças verbo-ideológicas, por exemplo –, e não por leis causais mecânicas, nem por qualquer razão determinista. Fica evidente, então, a formação das identidades dos sujeitos a partir de um processo de interação do “eu” com o mundo, na qual o resultado dessas interações molda essa faceta de identidade. Por fim, fica evidente a relação desse processo com o devir41, o qual estará presente no pensamento final
sobre essa questão, no qual Bakhtin (2008) afirma ser essencial o devir individual e histórico,
40 A palavra alemã tem origem na junção dos termos “roman” (romance) e “Bildung” (formação), conceito
filosófico que diz respeito à construção interna. Em resumo, o gênero é caracterizado como de formação por conter protagonistas que sofrem mutações identitárias ao decorrer do tempo na narrativa.
41 Bakhtin (2008) usa o conceito de devir de Kant, o qual diz respeito a uma espécie de fluxo permanente que cria,
posto que não são versões um do outro, nem tampouco independentes. Antes, são relacionados, já que o crescimento individual não ocorre sozinho, e sim moldado pela história e pelas forças sociais, as quais são muito mais do que meros planos de fundo.
Esses três pontos são essenciais para que se compreenda os sujeitos como historicizados, genuínos e, sobretudo, participantes de um complexo circuito de interação que molda suas vivências e questões axiológicas. Daí a importância da percepção de Bakhtin ao compreender a poderosa relação entre o tempo e o espaço, afinal, essa interação entre os dois polos é constitutiva das interações dos sujeitos, tendo em vista ela não ser externa a ele, mas constitutiva desse, no qual opera singularizando os momentos históricos e sendo decisivo para a construção de gêneros discursivos e, por consequência, de enunciados. Isso quer dizer que “o homem se constitui como heterocronotópico, uma vez que diferentes imagens de si são reveladas nos diferentes cronotopos que lhe são constituintes e que são construídos por ele” (CASADO ALVES, 2012, p. 313). Dessa maneira, é possível compreender que os sujeitos se revelam a partir das diferentes situações de interação, as quais estão situadas espaço-temporalmente. Entender as ações e formações de linguagem dos seres requer, portanto, um olhar cuidadoso para o recorte espaço-temporal no qual estão situados, a fim de compreender, de forma mais pungente, as superestruturas que estão edificadas nessa identidade aparente revelada por meio da linguagem.
No seu estudo sobre o cronotopo, Bakhtin (1988) elenca alguns tipos de cronotopos, como o idílico-cíclico. Esse cronotopo é representado pela consequência da passagem dos anos e como sendo uma representação da progressão da infância para a juventude, a maturidade e a velhice. Ele é dito cíclico porque se repete em cada vida, independentemente de onde e de quando a vida do sujeito se desenvolve. Nesse cronotopo, há uma certa falta de percepção do devir histórico, se compararmos ao devir individual. Isso porque o crescimento faz parte do ciclo da vida e, por consequência, esse cronotopo se repetirá naturalmente para todos os sujeitos que se mantenham vivos ao longo do ciclo natural da vida. Assim como no caso do herói grego, citado anteriormente, nesse cronotopo, a identidade do herói não sofre com o passar do tempo e dos locais em que circula, em virtude de sua identidade já se encontrar praticamente acabada e é o seu percurso, mais do que seus dilemas e suas reflexões pessoais, que importa mais para a construção da sua identidade. A sua jornada heroica é que o define.
Dessa maneira, é possível perceber, a partir da jornada do herói descrita por Campbell (2007), que o herói – sobretudo o grego, originado nas epopeias e mitos – tem sido convidado nos escritos literários a se lançar em aventuras que parecem chamá-lo. Essas aventuras, ao
serem contadas em praça pública, demonstravam a bravura dos sujeitos, a força de heróis que representavam determinadas nações e passavam, ainda que despercebidos, diversos valores sociais a seres seguidos ou repudiados. Nesse interim, o nosso objetivo está em centrar o olhar na personagem principal dessa aventura – o herói –, que, no caso das produções mitológicas, parece seguir o paradigma construído por Campbell (2007) de maneira singular.
Figura 2 – O diagrama da jornada do herói
Fonte: Campbell (2007). Disponível em: <http://www.sistemico.com.br/2016/05/16/homem-mitologico-homem- sistemico/>. Acesso em: 7 ago. 2019.
O diagrama da jornada do herói (Figura 2) é extremamente conhecido e pode ser utilizado para descrever o percurso seguido por diversos heróis da literatura ocidental e oriental – como fez Campbell (2007) ao longo da sua obra. No entanto, esse diagrama se mostra problemático ao se levar em conta o percurso das personagens principais – ou heroicas – do Young Adult, por exemplo. A explicação para isso é muito simples e pode ser vista nas próprias discussões de Bakhtin.
Nesse tempo nada muda: o mundo permanece o mesmo; em termos biográficos, a vida dos heróis também não muda, seus sentimentos permanecem igualmente inalterados, nesse tempo tampouco as pessoas envelhecem. Esse tempo vazio não deixa vestígio em lugar algum, nenhum sinal conservado do seu curso. Trata-se, repetimos, de um hiato extratemporal, surgido entre dois momentos de uma série temporal real, neste caso, da série biográfica. (BAKHTIN, 2018, p. 21).
Ao seguir o que assevera o autor, é notória uma jornada heroica que pouco ou nada sofre interferência do tempo e espaço, uma vez que esses são minimizados da narrativa a fim de se priorizar o percurso do herói. É exatamente a sua caminhada pelos elementos propostos por Campbell (2007) que constrói a sua estrutura e identidade. Tal identidade, então, pode ser vista como acabada desde o início da jornada desse ser, visto que, antes de percorrer sua jornada, uma profecia tende a assegurar o que vai se seguir ao longo da narrativa e, ao terminá-la, o herói consegue voltar à situação inicial e percorrer os dias que lhe restam como se nada tivesse acontecido. O herói grego não lida com o acaso, tudo está escrito, e ele precisa apenas percorrer o seu destino.
Seguindo a linha de raciocínio elaborada acima, optamos por amparar este estudo no Paradigma Indiciário proposto por Carlo Ginzburg (1991), no qual o autor
ressalta a pertinência de trabalhar [...] com um novo método interpretativo centrado nos resíduos, nos dados marginais que possam, eventualmente, ser considerados reveladores. O [pesquisador] poderia, nessa perspectiva, operar com pistas, sintomas e indícios, e não apenas com fatos explícitos. Essas pistas permitiriam até captar aspectos da realidade, inatingíveis através das formas clássicas de investigação. (SUASSUNA, 2008, p. 363).
A partir dessa perspectiva, é evidente a possibilidade de se observar pormenores, questões que, para outros paradigmas, seriam consideradas meros detalhes ou dados não significativos que podem ser, aqui, essenciais para se compreender variantes e aspectos enunciativos que oferecem olhares outros para as práticas em análise. Por exemplo, ficará evidente que os heróis do YA não se enquadram completamente na jornada de Campbell (2007), e ao invés de ser um dado problemático para a pesquisa, é, na verdade, a fonte de explicações para especificar a historicidade dos heróis ali representados e como eles se aproximam das percepções de mudança identitária que se gestavam nas discussões bakhtinianas. Por isso mesmo, esse método permite lidar mais com diferenças do que com similaridades, com anormalidades mais do que com normalidades (SUASSUNA, 2008), fazendo com que o pesquisador vá efetivamente à procura de evidências para construir seu quadro teórico em vez de simplesmente buscar explicações para teorias já existentes e constantemente reafirmadas. Tal processo visita o já dito e propõe diálogos outros sobre diversos fenômenos, propiciando novas inteligibilidades e novos enunciados no infinito elo discursivo, tornando o método coerente com o dialógico de Bakhtin e promovendo um olhar mais ético e contemplativo para as diferenças advindas do Sul, de modo a estar também em paralelo com a Linguística Aplicada.
Além disso, paralelamente ao Paradigma Indiciário, utilizamos aqui a noção teórico- metodológica do cotejamento dialógico.
Cotejar é produzir uma unidade de duas vidas diferentes, no ato responsável. Reside aqui o eixo fundamental da possibilidade do cotejo. Ser uma existência única, diferente, mas não-indiferente. A existência única não é construção própria, mas é concessão do outro. Ela é doação. Minha vida é minha porque me foi doada pelo outro. ‘A vida é dialógica por natureza’, afirma Bakhtin. Esse é o fundamento. Aqui está a raiz fundamental. Sem a relação, sem a dialogia, sem o cotejo que se dá na unidade do ato responsável não há vida, não há vivência, não há existência. Qualquer sentido tem nessa interação sua origem. O sentido não vem de uma descoberta, de uma heurística, de uma visão pessoal, de um desejo meu. O sentido vem da resposta à pergunta, vem da afirmação responsável, vem do encontro de palavras e de vidas. Cotejar se dá nesse meio, entre duas existências que não são indiferentes, mesmo diferentes. E ainda bem que são diferentes. A diferença é necessária. ‘A diferença identifica’. A indiferença é seu mal. A unidade que se dá no ato responsável é criador de vida. (MIOTELLO, 2017, p. 96-97).
O cotejamento dialógico consiste na recuperação dos ecos dialógicos existentes entre todos os artefatos de linguagem que, compostos por signos ideológicos, compartilham diversas relações com seus outros. Assim, é possível compreender esse processo como a tentativa de construir inteligibilidade para os sentidos das práticas discursivas a partir dos elos que elas constroem com outros discursos sociais, já que é exatamente nesse diálogo entre os discursos, os atos e as práticas que são construídos e negociados os sentidos; logo, se quisermos entender dada prática discursiva, precisamos compreender o jogo dialógico no qual ela se situa. Isso é possível a partir do comportamento indisciplinar da Linguística Aplicada (MOITA LOPES, 2006), em que, entre outras características, a área goza do privilégio de se situar entre fronteiras, ampliando seus limites ao trazer estudos de outras áreas que se debruçam sobre as práticas sociais do sujeito para entender as implicações dessas questões na produção da linguagem. Só uma visão que considere os sujeitos para além do seu corpo pesado e leve em consideração sua situacionalidade social é capaz de revelar os ecos dialógicos de suas práticas. Ignorar esses aspectos é condenar uma pesquisa a tratar seus sujeitos como se estivessem em um vácuo social e, portanto, a representação deles seria destoante da realidade.
Retornando aos cronotopos, Bakhtin (2008) elenca uma série de outros exemplos, sobretudo alguns muito específicos que aparecerão em certos romances, como o próprio Bildungsroman. Apesar disso, é relevante o quanto a questão do ciclo natural da vida parece fazer parte de todos eles, visto que, à medida que crescem, os sujeitos vão tendo acesso a mais conhecimentos, oportunidades de interação e novas experiências, resultando na entrada em novos cronotopos e mudando a si mesmo – em forma de identidade – por meio da
experimentação do mundo. As narrativas contemporâneas – seja na literatura, seja nos filmes ou nas séries – assumem um caráter de emergência (BAKHTIN, 1988), no qual, segundo apontamentos de Morson e Emerson (2008, p. 425), seus divulgadores,
o herói e a imagem do herói mudam, tornam-se, desenvolvem-se; além do mais, essas mudanças no próprio herói (em oposição às mudanças que meramente alteram o estatuto do herói) ‘adquirem significação de enredo, e com isso o enredo inteiro do romance é reinterpretado e reconstruído’. Tais romances são sobre o modo como as pessoas desenvolvem sua identidade, de preferência a apenas revelá-la. A enteléquia já não prescreve a identidade. Em vez disso, ‘o tempo é introduzido numa pessoa, entra em sua própria imagem, mudando fundamentalmente o significado de todos os aspectos de seu destino e de sua vida’.
A partir desse entendimento, no qual o herói contemporâneo não é um ser imutável, transforma-se mediante as interações com o mundo e está inserido em algo muito além do que mero contexto – encontra-se em um fluxo cronotópico em que espaço e tempo lhe constituem –, é evidente uma visão cronotópica em que esse herói emerge juntamente com o mundo e reflete a emergência histórica do próprio mundo (BAKHTIN, 1988). Desse modo, no processo de vivência desse herói, ele estará saturado de tempo histórico, mas este conservará sua iniciativa, sua criatividade e seu pensamento de ação, não sendo mero produto de seu tempo.
Portanto, “a força organizadora detida pelo futuro é, pois, extremamente grande” (BAKHTIN, 1988, 135). Com futuro, Bakhtin se refere a algo não simplesmente biográfico ou utópico (MORSON e EMERSON, 2008), mas a “novos tipos de caráter e identidade que emergem juntamente com o mundo e a forma de emergência desse mundo” (MORSON e EMERSON, 2008, 320). Nesse ponto, “os problemas da realidade e o potencial humano, os problemas da liberdade e da necessidade, e o problema da iniciativa criadora alcançam sua altura máxima” (BAKHTIN, 1988, 137). Dessarte, a ideia inicial de um cronotopo idílico- cíclico se apresenta para algo maior, não apenas focado no crescimento natural do sujeito mas também na sua relação com seu tempo e espaço e como isso afeta seu processo identitário à medida que fornece algo além do nascer, crescer, desenvolver-se e, ao fim, morrer. É a partir dos heróis de Goethe que Bakhtin percebe sujeitos que não mais se orientam por um circuito automatizado e de poucas possibilidades. Fausto, Wether, Wilhelm Meister e muitos outros heróis fizeram com que Bakhtin enxergasse que esses seres, desde a época de Goethe, refratavam sujeitos do mundo da vida que não mais se encaixavam em modelos tradicionais de identidade. O cronotopo no qual esses personagens se situavam propiciavam mutações em suas jornadas de heróis a partir do tempo e do espaço em que ocupavam, de modo a permitir a corrosão dos modelos solidificados. Observando esses personagens clássicos da literatura
alemã, Bakhtin percebia, inocentemente, os efeitos de um tempo ainda em processo de fusão que, tempos depois, transformar-se-iam nos oceanos da modernidade. Os heróis estavam mudando porque refratavam sujeitos que também estavam mudando, sujeitos esses que não cabiam mais nas curtas e frágeis fronteiras de uma identidade sociológica e, tampouco, do iluminismo, mas que também, por princípios éticos, não podiam ser constituídos de meros fragmentos (HALL, 2015)42, e sim de uma série de elementos culturais e sociais que, ligados
por relações de materialidade, constituíam uma identidade em constante acabamento; daí o termo identidade inacabada ser mais coerente para o pesquisador bakhtiniano, visto que lidamos com identidades materializadas no mundo, com signos identitários que são tatuados em caráter definitivo nos corpos (ainda que menos aparentes e escondidos) e com um sujeito que caminha e interage com o mundo, construindo acabamento e sendo acabado, de modo a dar início a uma jornada sem fim de construção de si mesmo. A identidade inacabada submete os sujeitos a um constante andar sobre o limiar de sua própria identidade. A coerência e a repetitividade é o objetivo, porém, as forças de tensão tendem a levar o homem para lá e para cá nessa corda bamba, que, ao atravessar o limiar delimitado, submete-se a transformações, grandes ou pequenas, a depender do quanto se escape (HAN, 2018).
Para muitos teóricos dos estudos culturais, a identidade do sujeito dito pós-moderno é uma sequência de fragmentos. O marxismo, que não trabalha com a ideia de fragmentos, teria uma solução para essa explicação. A identidade não é um conjunto de fragmentos os quais o sujeito pode aderir para si quando bem entender ou repulsar quando não for mais agradável, antes, a identidade é a linha coesiva que sutura os vários construtos identitários de um ser ao longo da sua trajetória no mundo da vida, sendo, pois, histórica – por colecionar diversos fragmentos que, em conjunto, compõem a materialidade da identidade –, responsiva – já que é responsabilidade do sujeito inscrever os signos que lhe compõem, ou decidir escondê-los – e inacabada – posto que essa linha coesiva percorre os caminhos do sujeito e dão coerência aos outros que o observam desde o momento de seu nascimento até o seu fim.
Ao discutir identidade inacabada, tentamos fazer brotar neste trabalho a urgência de uma dimensão dos estudos linguísticos de base marxista que se apropriem dos estudos sobre identidade a fim de construir inteligibilidade para uma categoria na qual ainda não se tem um acabamento nos estudos marxistas e, tampouco, nos estudos bakhtinianos, embora o teórico já tenha incessantemente ensaiado discussões que findam em questões identitárias.
42 Stuart Hall faz referência aos três tipos de identidade em sua obra A identidade Cultural na Pós-modernidade
Em linhas gerais, a identidade pode ser entendida como uma construção social responsável por demarcar quem somos, quem são os outros, quem são os iguais a nós e quem são os diferentes – além da gênese dessa diferença. Portanto, a identidade está relacionada a tópicos frequentes na contemporaneidade, como diversidade, desigualdade, conflitos, antagonismos e muitos outros. Nessa dimensão, é preciso compreender que identidade, diferença e alteridade se retroalimentam (CASTRO, 2019). A identidade adquire sentido e materialidade a partir da linguagem e dos sistemas simbólicos pelos quais ela ganha representação (WOODWARD, 2014). Não são abstrações que representam os burgueses, operários, héteros, homoafetivos, brancos, negros, padrões, descolados etc, mas os vestígios inscritos nos corpos dos sujeitos que performam essas identidades por meio de signos linguísticos. Assim, partindo desses exemplos, percebemos uma série de diferenças entre identidades que se relacionam, evidenciando o aspecto da diferença e da alteridade entranhado na questão identitária. Para além de binarismos, uma identidade está em relação com outras porque os sujeitos constroem seus campos discursivos, e nesses nem sempre há abertura para a livre circulação das identidades. Logo, mediante a linguagem, reconhece-se o outro, que pode ser igual ou diferente, e a partir dessa distinção é que se agrega sujeitos ou os exclui em determinados grupos, sejam pequenas comunidades, sejam sociedades consolidadas. Essa habilidade de perceber no outro similitudes ou antagonismos é propiciada exatamente pela