O desenvolvimento do turismo e a (re) construção do carnaval

No documento O carnaval de Ouro Preto: mercado e tradição (1980-2011) (páginas 80-96)

Para compreendermos o incentivo ao desenvolvimento do turismo em Ouro Preto e sua relação com o carnaval torna-se importante contextualizar o lugar que o turismo ocupava (ou que buscava ocupar) no cenário brasileiro e mineiro.

A constatação do incentivo ao desenvolvimento do setor turístico no Brasil, em Minas Gerais e, especialmente, em Ouro Preto no período da pesquisa, tornou-se um fator de

150

grande importância para se pensar a construção de um mercado da festa na cidade e de um imaginário sobre o seu carnaval.

Segundo as fontes consultadas, uma das grandes possibilidades de desenvolvimento econômico para o Brasil nos anos 1980 era o turismo. Em uma das reportagens do jornal Estado de Minas, fica claro o grau de importância que vinha sendo atribuído a esse setor: “A partir de 1974, o turismo caracterizou-se, no contexto mundial, como a atividade econômica mais rentável após o petróleo, superando a indústria do aço, dos armamentos e do automóvel, que eram as mais poderosas do planeta” 151.

Duarte (2009, p.78) observa que a indústria turística mundial se desenvolveu, de forma galopante, a partir dos anos sessenta do século passado, por meio das novas tecnologias e do incremento de conquistas sociais que “vieram a criar uma série de condições, tais como, facilidade de deslocamento, tempo livre e existência de uma classe média com poder aquisitivo [...]”. A autora associa esses fatores a um aumento massivo da riqueza e da renda disponível com a “mudança nos estilos de vida e nos comportamentos” (p.40), ressaltando que o setor turístico, em um primeiro momento, deu-se “de forma massiva nos países industrializados e mais ricos, por razões óbvias” (p.41). Demonstra, ainda, o grande crescimento do setor turístico no mundo inteiro entre 1960 e 1994, um período em que grande parte da temporalidade dessa pesquisa se insere. Utilizando de informações da Organização Mundial do Turismo (OMT), destaca que, nesse período, a chegada de turistas no mundo todo aumentou quase 800 por cento, passando de 69 milhões em 1960 a 537,4 milhões em 1994.

Esse reconhecimento, de certo modo, justificava a necessidade do Brasil em aumentar os investimentos nesse setor, apelando, principalmente, ao turista estrangeiro, que, segundo as diversas reportagens sobre o assunto, era quem teria as melhores condições de movimentar a economia brasileira. Um desses fatores era a grande desvalorização do cruzeiro, moeda da época, em relação ao dólar. Uma reportagem do Jornal Estado de Minas aborda exatamente essa questão, ao noticiar uma campanha de uma empresa de aviação brasileira nos Estados Unidos: “Com um dólar, você compra quarenta e três notas de um cruzeiro. Já imaginou o que poderá fazer com esse dinheiro no Brasil”?152 Os estrangeiros eram, assim, anunciados como “um público diferenciado que tinha dinheiro e poderia contribuir para o desenvolvimento de nossa cultura” 153.

151

EMPRESA turística. Estado de Minas, Belo Horizonte, 04 jan. 1980. 14.979, Caderno de Turismo, p.4. 152

PARA atrair turistas, um Brasil diferente nos EUA. Estado de Minas, Belo Horizonte, 11 jan. 1980. 14.985, Caderno Pequenos Anúncios, p.4.

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Em outra reportagem, percebe-se esta relação entre a maxidesvalorização do cruzeiro e as propagandas de incentivo ao turismo estrangeiro, principal aspiração das campanhas que emergiam.

A inflação, que tantos malefícios causa à economia brasileira, em apenas um ponto poderá, paradoxalmente, contribuir para as soluções que o país espera este ano, a fim de se recompor financeira e economicamente. É que ela favorece o desenvolvimento do turismo estrangeiro, criando condições mais atraentes para os fluxos internacionais154.

Nesta, do mesmo jornal, intitulada “O turista deve ser tratado no país a pão-de- ló”, o então ministro da Indústria e do Comércio, Camilo Pena, afirmou que o pão-de-ló deveria, ainda, vir acompanhado de um tapete vermelho, porque o turista iria “ajudar no equilíbrio da balança de pagamentos do Brasil” 155.

Em uma grande quantidade de fontes com o mesmo conteúdo ficou clara a preocupação em se criar campanhas de promoção do Brasil no exterior, esquemas para fiscalizar hotéis brasileiros, a criação de seguros de viagem156 e outros incentivos, como a criação de linhas de créditos para financiar turistas americanos que desejassem visitar o Brasil, em esquemas de excursões157.

O incentivo ao turismo estava ligado, portanto, à necessidade de buscar novas formas de desenvolvimento para o país. Como já problematizado, o Brasil enfrentou uma grande crise econômica na década de 1980. No final da década de 1970, embora possuísse um dos maiores parques industriais dos países em desenvolvimento, o Brasil sofria com o impacto do aumento nos preços do petróleo, da aceleração nas taxas de juros internacionais e do lento crescimento das exportações mundiais. A dívida externa brasileira aumentava consideravelmente, tendo como uma das suas consequências principais, a elevação dos preços e uma inflação que perdurou por longos anos (LUNA; KLEIN, 2007).

Em muitas das fontes consultadas, era evidente a grande preocupação vivida pelo país nos anos 1980, em que praticamente todas as edições do jornal Estado de Minas, de circulação diária, abordavam essa temática. Anunciava-se o aumento dos preços,

154

FORÇA do turismo. Estado de Minas, Belo Horizonte, 22 jan. 1983. 15.808, Primeiro caderno, p. 4. 155

TURISTA deve ser tratado no Brasil a pão-de-ló. Estado de Minas, Belo Horizonte, 09 jan. 1980. 14.983, Caderno 2, p.4.

156

AGÊNCIAS de turismo já têm plano especial de seguro. Estado de Minas, Belo Horizonte, 23 jan. 1980.

14.995, p.13. 157

“A Embratur anunciou ontem uma linha de crédito de 50 milhões de dólares para financiar, a juros de 15,5 por cento ao ano , turistas norte-americanos que desejarem visitar o Brasil, com esquemas pré-estabelecidos de excursões.” In: PARA atrair turistas, um Brasil diferente nos EUA. Estado de Minas, Belo Horizonte, 11 jan. 1980. 14.985, p.4.

principalmente da indústria alimentícia, medidas políticas e econômicas para tentar frear a inflação a cada nova alta, como a tentativa de conscientizar a população em relação à necessidade de poupar: “Cada um deve olhar para si mesmo e ver se está fazendo tudo o que poderia fazer, cada um deve examinar suas despesas e ver onde pode economizar”, da mesma forma, “pessoas que gastam como se não houvesse amanhã devem adotar um novo comportamento” 158.

Segundo uma das edições do jornal Estado de Minas, a inflação no Rio de Janeiro em 1980 alcançou a taxa de 110,2 % - “a maior já verificada até hoje na história no país” 159. A mesma reportagem apontou como causas desse fato, a partir do Índice Geral de Preços (IGP) da Fundação Getúlio Vargas, fatores externos à economia nacional, entre as quais se destacava a forte elevação dos preços do petróleo.

Percebe-se, por meio das demais reportagens, que essa situação perpassava todo o país. Em uma das edições do ano de 1981 havia um balanço do ano anterior, em que se anunciava em Belo Horizonte, aumentos de alimentos de até 339%, como o caso do feijão, e observava-se que “comprar o mesmo produto pelo mesmo preço em dias diferentes foi quase impossível” 160.

Em outra matéria do mesmo jornal, pode-se perceber, com mais clareza, a situação econômica que o Brasil enfrentava no marco inicial dessa pesquisa:

Findou-se o ano de 1980 sem que a política econômica do Governo apresentasse resultado positivo em relação aos seus objetivos de combate à inflação e equilíbrio da Balança de Pagamentos. Os índices oficiais da inflação, até o findar do ano, calculado segundo o IGP, apresentaram um crescimento de 98,52% de janeiro a novembro, permitindo a antecipação de um percentual aproximado de 120% de

inflação anual, segundo as previsões do Departamento Econômico da Fiemg161.

Essa mesma reportagem também apontou o valor da dívida externa ao final desse mesmo ano, que chegava a 56 bilhões de cruzeiros, “apresentando um déficit na balança comercial de três bilhões de cruzeiros, 50% acima do limite máximo fixado pelas metas governamentais para este ano” 162.

158

A ÚNICA saída é produzir mais e poupar. Estado de Minas, Belo Horizonte, 25 jan. 1981. 15.305, Primeiro caderno, p. 6.

159

INFLAÇÃO é a maior da história. Estado de Minas, Belo Horizonte, 08 jan. 1981. 15.290, p.1. 160

PAGAMOS muito caro por tudo. E ficamos muito mais pobres. Estado de Minas, Belo Horizonte, 01 jan. 1981. 15.285, Primeiro caderno, p.5.

161

1981: só a vontade nacional será capaz de vencer crise econômica. Estado de Minas, Belo Horizonte, 04 jan. 1981. 15.287, Economia, p.1.

162

O próprio carnaval, como já mencionado no capítulo 1, parecia constituir-se em um momento de fuga para os problemas que a população brasileira enfrentava. Mesmo não compartilhando dessa perspectiva para a festa, ainda hoje perceptível, não se pode negar a existência desse discurso e, até mesmo, das diversas possibilidades de apropriação dos sujeitos por meio dele, já que a festa não se desconecta da vida cotidiana e de seus problemas, como bem lembra Brandão (1989). Nos dizeres a seguir, tem-se um parâmetro para compreender a relação entre o carnaval e a difícil realidade brasileira na época em questão:

Apesar das dificuldades trazidas pelo alto custo de vida, pela inflação galopante, pelos preços altos de tudo e sucessivos aumentos, a partir da gasolina, ainda há disposição do povo para a folia. O brasileiro não liga para essas coisas quando chega o reinado de Momo. O carnaval serve também para fazer esquecer as ‘agruras da vida’163.

Segundo Duarte (2009, p.230), nos últimos meses de 1982, o Brasil era agraciado com “a maior dívida externa do mundo, 87 milhões de dólares”, gerando altos níveis de instabilidade. No ano de 1984, o jornal Estado de Minas anunciava que o ano anterior entraria para a história econômica do país e seria lembrado como um dos mais difíceis já experimentados pela sociedade brasileira, devido “às indefinições de ordem econômica, sucessivas alterações da lei de salários, diferentes indexações, alterações tributárias, que foram uma norma geral164”.

É possível constatar, pelas fontes consultadas, que esses problemas, em maior ou menor grau, perpassaram toda a década de 1980 e, dentre as formas de recuperação da economia brasileira, o incentivo ao turismo vigorava como uma das principais estratégias de movimentação financeira: “No Brasil, a importância do turismo vem também crescendo aceleradamente e, por isso mesmo, a União e os Estados cuidaram de preparar-se para garantir o maior rendimento possível ao setor” 165.

Duarte (2009, p.371) aponta a década de setenta como período em que se desenvolveram no Brasil as “primeiras iniciativas governamentais de apoio e suporte às atividades turísticas”. Resultado de fatores circunstanciais, ocasionais e conjunturais para a autora, o desenvolvimento do setor não foi fruto de “uma política nacional de turismo, de um esforço organizado, planejado e sistematizado” (p.370). Ressalta, ainda, que o setor surgiu

163

FOLIA no interior começou ontem. Estado de Minas, Belo Horizonte, 21 fev. 1982. 15.586, Primeiro caderno, p.12.

164

O ANO de 1983 entrará para a história como o ano mais difícil do século. Estado de Minas, Belo Horizonte, 01 jan. 1984. 16.100, Primeiro caderno, p. 16.

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como alternativa viável e importante de “desenvolvimento, geração de emprego e riqueza” (p.373), assim como demonstraram as diversas reportagens, e aponta, a década de 1980, como período em que o turismo alcançou valores importantes, com iniciativas promocionais dos governos dos estados, favorecendo um “aumento significativo no fluxo turístico [...]” (p.374).

No ano de 1986, o jornal Estado de Minas chama atenção para o “boom” do turismo no país. Segundo a reportagem, o setor, denominado “indústria sem chaminés”, estava vivendo o período mais destacado de sua história, “mostrando um desenvolvimento extraordinário em todos os segmentos, como a construção de novos hotéis, reformas nos já existentes, surgimento de novas agências de viagens”, entre outras melhorias166.

Em 1987, o turismo foi anunciado pelo mesmo jornal como o setor econômico com a maior perspectiva de crescimento para os próximos anos no país167. Confirmando os investimentos nesse setor, outra reportagem destacou que o referido ano foi denominado oficialmente pelo governo como o “ano nacional do turismo” 168. Como estratégia publicitária, a Embratur vislumbrava conscientizar o brasileiro acerca dos benefícios derivados da atividade turística, já que este setor passou a ser anunciado como o quarto item da pauta de exportações169.

Em Minas Gerais, a preocupação com o turismo enquanto possibilidade de desenvolvimento econômico também crescia, agravada pelo fato desse estado ainda ter uma política nesse setor bem deficitária em relação a outros estados brasileiros. Percebe-se, pelas fontes, certo desespero pela busca tardia do que era visto como um desperdício de seu potencial turístico, relacionado, principalmente, às cidades históricas e ao Circuito das águas, como demonstrado na reportagem abaixo:

Minas Gerais concentrou-se, no último decênio, no desenvolvimento do setor secundário de sua economia, devendo agora investir no plano terciário, no qual o turismo aparece como uma das áreas mais propícias a um retorno imediato, tornando-se fator de dinamização socioeconômico. Mas o governo mineiro parece ainda não acreditar no turismo, apesar do extraordinário potencial do Estado, com suas cidades históricas e estâncias hidrominerais, pioneiras da indústria turística no Brasil. É lamentável que assim se proceda, quando o país precisa de divisas e o turismo interno e externo, calcado nos atrativos mineiros, pode contribuir de forma

marcante para o reforço do erário estadual do Brasil170.

166

TURISMO em alta. Estado de Minas, Belo Horizonte, 08 fev. 1986. 16.688, Primeiro caderno, p.2. 167

A PARTICIPAÇÃO do turismo no PIB do Brasil. Estado de Minas, Belo Horizonte, 06 mar. 1987. 16.991, Caderno Turismo, p.3.

168

87: ano nacional do turismo. Estado de Minas, Belo Horizonte, 03 jan.1987. 16.942, Caderno Turismo. 169

A PROGRAMAÇÃO do ano nacional do turismo. Estado de Minas, Belo Horizonte, 07 fev. 1987. 16. 970, Caderno Turismo, p.2.

170

Um exemplo desse fato é a tardia criação da Turminas em 1980, uma empresa pública vinculada à Secretaria de Estado da Indústria, do Comércio e do Turismo, destinada exclusivamente a “incrementar as ações de turismo em todo o território mineiro” 171. O jornal Estado de Minas deixa claro que Minas Gerais era, até então, um dos poucos estados que não possuía um órgão para cuidar exclusivamente do turismo.

Esperava-se que o setor, dirigido por uma empresa pública, fosse capaz de criar, efetivamente, nas cidades chamadas polos turísticos, uma infraestrutura capaz de levar e reter o turista, já que um dos maiores problemas encontrados por alguns operadores de turismo, segundo pesquisas publicadas no jornal, era a sua situação precária de algumas cidades em relação a hotéis, restaurantes, guias turísticos, etc. Assim, dotar o Estado “de estrutura capaz de explorar, com eficiência e flexibilidade, as grandes possibilidades do setor172” era a principal função. Porém, somado ao atraso da criação da Turminas, outros problemas foram detectados, como o pequeno capital destinado à empresa, muito menor do que o investimento de outros estados brasileiros173.

No ano de 1983, as reportagens demonstraram possíveis avanços da indústria turística no cenário mineiro, o que também contribui para pensar o momento de transformações vivido por Ouro Preto.

Quanto a Minas Gerais, a indústria turística vem se tornando uma realidade, e é fundamental que tanto o governo do Estado quanto a Embratur não hesitem em investir no aprimoramento da infraestrutura mineira, de modo a que os fluxos internacionais aumentem sua presença nos polos formados pelas cidades históricas, grutas, rios e estâncias climáticas174.

Na citação acima, ressalta-se o início da década de 1980 como fundamental para o desenvolvimento do turismo mineiro, como também foi demonstrado em outras reportagens de mesma época que noticiavam a criação da Turminas. Da mesma forma, percebe-se, também, a valorização crescente das cidades históricas como polos de investimento nesse setor.

Em 1985, foi lançada em Belo Horizonte a campanha “Minas de Emoções Gerais”. Com o apoio da Embratur, a iniciativa tinha a finalidade de promover o turismo no

171

ADETUR vira Turminas, empresa para ativar o turismo com força nova. Estado de Minas, Belo Horizonte, 04 jan. 1980. 14.979, Caderno de Turismo, p. 3.

172

EMPRESA turística. Estado de Minas, Belo Horizonte, 04 jan. 1980. 14.979, Caderno de Turismo, p.4. 173

Idem.

174

interior do estado mineiro, principalmente, nas cidades históricas e no circuito das águas175. Percebe-se também, em outras fontes, uma grande recorrência a esses dois polos como promotores de uma imagem de Minas Gerais que se objetivava vender, fato importante para pensarmos no desenvolvimento que o turismo ouro-pretano experimentaria.

A cidade também se tornou alvo de divulgação nacional no exterior, como demonstra outra campanha da Embratur do mesmo ano. Foram utilizados cinco pôsteres com enfoques diversificados sobre o país, tais como o Brasil colonial com a imagem da cidade de Ouro Preto, o carnaval carioca, as praias da Bahia, Foz do Iguaçu e a Amazônia: “os apelos que mais sensibilizam os turistas estrangeiros, segundo o presidente da Embratur, Hermógenes Ladeira”176.

Mas, a utilização de Ouro Preto como imagem publicitária para Minas Gerais e para o Brasil, nos anos 1980, não significa que o desenvolvimento do turismo na cidade era significativo nesse período. Como observou Brandão (1989) no livro “Cultura na rua”, publicado em 1989, o turismo não possuía muita representatividade econômica para o município que tinha, como atividades principais, a indústria do alumínio e a Universidade.

No entanto, o carnaval desempenhou importante função como forma de promover as cidades mineiras, à medida que estas também começavam a ser promovidas como destinos turísticos. No ano de 1980, já havia a preocupação em atender aos turistas que chegavam a Ouro Preto para participar da festa: “A secretaria de Turismo dará toda a orientação aos turistas, a fim de encaminhar os interessados às pousadas e hotéis, ou a uma das diversas repúblicas estudantis da cidade” 177.

No carnaval deste mesmo ano foi também anunciada a cobertura da festa pela televisão. O título de uma das reportagens do Estado de Minas, “Serão filmadas as festas do Momo em Ouro Preto”, demonstra grande probabilidade de este ser o primeiro ano em que isso ocorreu, ou pelo menos, de não ser um fato recorrente, verificado pelo aparente ineditismo contido na própria reportagem:

Jornalistas e cinegrafistas do Brasil e exterior preparam-se para fazer a cobertura do carnaval de Ouro Preto, considerado um dos mais animados e autênticos pela

175

MINAS de Emoções Gerais: a campanha turística mineira. Estado de Minas, Belo Horizonte, 21 fev. 1985. 14.450, Primeiro caderno, p.11.

176

PÔSTERS de Ouro Preto no exterior. Estado de Minas, Belo Horizonte, 11 jan. 1985. 16.417, Caderno Turismo, p.2.

177

OS LACAIOS, cem anos de animação em Ouro Preto. Estado de Minas, Belo Horizonte, 08 fev. 1980. 15.009, Caderno Turismo, p.8.

participação de muitos blocos populares e do tradicional clube dos lacaios, fundado

em 1867 pelos empregados do palácio do governador da província de Minas178.

A esta percepção soma-se o pouco enfoque na abordagem do carnaval ouro- pretano na época. O seu valor promocional somente começou a ser veiculado e estimulado nas páginas do jornal anos mais tarde, aliado a outras mudanças que se iniciariam.

Em 1983, a verba destinada à promoção do carnaval foi anunciada pelo Estado de Minas como mais de 10 vezes maior que no ano anterior179, sendo que, no ano de 1984, foi divulgado um aumento de 400% em relação a este ano. Como já mencionado, mais importante do que observar os valores em si devido às inconstâncias econômicas da época é atentar-se para os anúncios de aumento e da proporção que adquiriam. Estes fatores podem contribuir para a constatação do desenvolvimento de uma política mais forte voltada para o turismo e do reconhecimento progressivo da festa como um dos atrativos da cidade. O secretário de Turismo de Ouro Preto nesse período, Ângelo Oswaldo, afirmou na mesma reportagem que a festa “vem crescendo de ano para ano, recebendo milhares de turistas de todos os pontos do país e do exterior, que procuram justamente um carnaval mais autêntico, ligado às tradições dos festejos e à espontaneidade popular” 180.

Percebe-se nesta fala, além do claro exagero no anúncio do número de turistas contabilizados pelo prefeito, a propaganda do carnaval por meio de suas características tradicionais. Na manchete de uma reportagem de página inteira do Estado de Minas que destacou o carnaval ouro-pretano entre outros do estado ficou clara a associação entre

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