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Enquadramento Teórico

2. Experiências de Aprendizagem Significativas

2.2 O Desenvolvimento Proximal de Lev Vygotsk

Na nossa procura pelo método mais adequado para responder às questões do ensino e da aprendizagem, depara-se-nos, de forma incontornável, a abordagem de Lev Vygotsky e discípulos que deram continuidade à sua obra inacabada29, nomeadamente o seu conceito de zona de desenvolvimento proximal (ZDP). Partindo da questão de “[...] como uma pessoa pode interiorizar os conteúdos e as ferramentas psicológicas de sua cultura, como ocorre essa transição do interpessoal ao intrapessoal.”30

, o autor vai desenvolver o já referido conceito, definindo uma zona onde funciona uma estrutura de apoio criada por terceiros e pelas ferramentas culturais apropriadas a uma dada situação, que vai permitir ao indivíduo ultrapassar as suas competências atuais.

29 Destacam-se, nomeadamente, Luria, Leontiev, Zaporozhets, Levina, Elkonin e Galperin, que desenvolveram as conceções de Vygotsky, constituindo um dos mais importantes aportes da chamada escola de psicologia soviética.

30

Cf. César Coll, Álvaro Marchesi, Jesús Palácios & colaboradores, Desenvolvimento Psicológico e Educação–Psicologia da Educação Escolar, 2º volume, Ed. Artmed, Porto Alegre, 2004, p.99.

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É aqui que surge a figura do professor, como um fornecedor da estrutura de apoio e das ferramentas culturais apropriadas aos alunos, gerindo as trocas entre pares, dando sentido ou situando as intervenções dos discentes, na sua caminhada em direção à obtenção do máximo potencial.

É um professor que combate pela autorregulação e, consequentemente pela autossuficiência dos seus alunos, imprescindível para a construção da autonomia e do espírito crítico do estudante.

Vygotsky propõe-nos a existência de duas abordagens conceptuais distintas: a que provém do conhecimento científico, transmitidos pelo ensino formal, baseado em sistemas culturais, e a que provém da integração do sujeito em atividades da vida quotidiana. Estas duas abordagens, de trajetórias contrárias, confluem no potencial do sujeito: a abordagem científica transmitida oralmente, de início abstrata, vai-se aprofundando e adquirindo sentido real através dos objetos e eventos do quotidiano; a abordagem prática vai adquirindo progressivamente uma abstração semelhante à da científica, integrando-se no conhecimento formal do sujeito.

O percurso que o aluno tem de seguir para atingir o seu máximo potencial, é a ZDP, o resultado da diferença entre o potencial de desenvolvimento de um indivíduo e o seu desenvolvimento real num determinado momento.

Bárbara Rogoff31 retomou e ampliou na sua investigação o conceito de ZDP, integrando-o no que denominou participação guiada, abordagem de bastante interesse para o contexto escolar.

“A aprendizagem escolar é um fenómeno comunitário, no qual alunos e alunas aprendem graças à sua participação nas atividades desenvolvidas em comunidades de alunos, atividades que estão conectadas com as práticas de sua comunidade e com a sua história. Nos processos que ocorrem quando crianças e adultos realizam juntos tais atividades, as crianças adquirem formas mais maduras de participação na sociedade graças à assistência direta que

31 Professora da Universidade de Santa Cruz, a sua linha de investigação tem-se centrado na compreensão e comunicação dos diferentes eixos de aprendizagem interculturais, através de uma perspetiva antropológica e psicológica, com base na teoria de Vygotsky, expressa na sua obra, A Natureza Cultural do Desenvolvimento Humano (2003).

Página 39 recebem dos adultos ou de outras crianças.”32

Este desenrolar da participação guiada, traduz-se em duas vertentes: por um lado, os adultos e os pares apoiam, estimulam e organizam as tarefas de forma que a criança possa realizar a parte que lhe é acessível, ou seja, são construídas pontes de acesso do nível de compreensão e de habilidade da criança a níveis mais complexos; por outro lado, os adultos e outras crianças vão organizar a participação em termos dinâmicos, ajustando-se às condições daquele momento, ou seja, decorrendo do aumento da responsabilidade e da autonomia do aluno, o controlo da tarefa é progressivamente transferido do professor para ele.

É com o conjunto de princípios e práticas educativas de natureza inovadora que surge nos finais do século XIX, designado por Escola Nova ou Educação Nova, que o paradigma da aprendizagem se passa a centrar no aluno, agora alvo de todas as atenções, cuidados e preocupações.

A nova pedagogia vai, progressivamente, recebendo contributos de pedagogos da época, criando um clima de renovação no modo de encarar a educação. O foco desloca-se do mestre para o aprendiz, que assume o papel de personagem central e maior responsável pela aprendizagem própria. O mestre ou professor, secundariza-se, assumindo a tarefa de “facilitador” da aprendizagem, um explicador dos objetivos dos programas, a quem cabe desenhar formas para alcançar as necessidades cognitivas da turma. O novo professor, é um dinamizador e coordenador das tarefas dos alunos, dando-lhes a cada momento o respetivo feedback, fomentando o trabalho de grupo colaborativo e minimizando o espírito competitivo. Pretende-se atingir um clima de interajuda na turma e um resultado superior à soma das contribuições de cada aluno: “A Educação Nova prepara na criança, não só o futuro cidadão capaz de cumprir os seus deveres para com aqueles com quem lida mais de perto, para com o seu país e para com a Humanidade em geral, mas também o ser humano consciente da sua dignidade de homem”33

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Cf. César Coll, Álvaro Marchesi, Jesús Palácios & colaboradores, op. cit., p. 101.

33 Álvaro Viana de Lemos, O moderno movimento internacional em volta do ensino e da educação, Arquivo Pedagógico, vol. III, 1930, p. 38, in Joaquim Pintassilgo, República e Formação de Cidadãos – A Educação Cívica nas Escolas Primárias da Primeira República Portuguesa, Edições Colibri, Lisboa, p.227.

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