2.3. Soberania e integração regional
2.3.2. O direito comunitário como via de consenso
A
Carta
dos
Direitos
Fundamentais
da
União
Européia deixa assente, em seu preâmbulo, de forma sintética, o ideário que
subsidiou a formação da União Européia. Em trecho, observamos:
Os povos da Europa, estabelecendo entre si uma união cada vez mais estreita, decidiram partilhar um futuro de paz, assente em valores
115 BORGES, José Souto Maior. Curso de Direito Comunitário, 2005, p. 67-68. Ainda o autor: Aqui,
como no demais, tudo conflui para a unidade, como um eco tardio da lição pré-socrática de HERÁCLITO (“Tudo é um”). Tudo converge para a unidade, na vida da ciência, como na dos povos. Já se fala numa Europa Federal. Não será despropositado, nem contra-significativo, cogitar-se da hipótese de um governo mundial – embora em futuro ainda muito distante. EINSTEN já o preconizava no seu tempo. Não lhe foi possível, porém, testemunhar o fenômeno comunitário, no seu acelerado nível atual de expansão, como uma etapa intermediária, antecedente talvez) ao do preconizado governo mundial. Mas EINSTEIN era um gênio e por isso mesmo contemporâneo do futuro. Viu muito à frente do seu tempo e entretanto não presenciou o estágio por suposto intermediário das organizações internacionais paraestatais (comunitárias). A sua visão política era uma antevisão do distante e hipotético futuro. Por isso ele foi em vida tão incompreendido. Mas um cientista que é compreendido pela sua contemporaneidade não é a rigor um gênio. VILLA- LOBOS dizia compor suas músicas como quem escreve cartas para o futuro. O passado é um prognóstico do futuro (Presidente JOHN KENNEDY). Por isso diz-se que o político convencional tem os olhos nas próximas eleições, mas os estadistas, os que generosamente sonharam a eclosão da integração comunitária, como JEAN MONET, têm os olhos nas futuras gerações. Nesse campo efetivamente só os visionários são objetivos. Mas só os ingênuos negam o caráter expansivo e irreversível da globalização tecnológica. E o fazem com base em posição ideológica – a ideologia do nacionalismo e seu consectário, a soberania estatal isolacionista. Erguer barricadas contra a globalização é metodologia de ação política, além de equivocada, ineficaz (p. 68).
comuns. Consciente do seu patrimônio espiritual e moral, a União baseia-se nos valores indivisíveis e universais da dignidade do ser humano, da liberdade, da igualdade e da solidariedade; assenta nos princípios da democracia e do Estado de Direito. Ao instituir a cidadania da União e ao criar um espaço de liberdade, de segurança e de justiça, coloca o ser humano no cerne da sua acção.
Ademais, a Carta conclama aos membros da União para o
desenvolvimento desses valores comuns com respeito à diversidade das culturas
e das tradições dos povos da Europa; reconhece a identidade nacional dos
Estados-membros, e busca conferir maior visibilidade aos direitos fundamentais à
luz da evolução da sociedade, do progresso social e da evolução científica e
tecnológica.
Segundo Ataliba Nogueira:
o fim do Estado consiste na prosperidade pública, na sufficientia vitae necessária a cada um para atingir a perfeição física, intelectual e moral, correspondendo às necessidades e às deficiências naturais mais profundas, que não podem ser satisfeitas nem pelo indivíduo só, nem pela família isolada, nem por grupos sociais solitários116.
Deduz-se, então, em forma ampliada, o espírito comunitário
europeu.
Ao recorrer às raízes históricas do consenso europeu, verifica-se um
transpasse do individualismo estatal para a formação de uma comunidade de
cultura e de civilização, ou mesmo a unidade espiritual em que a Europa viria a se
exprimir, superando a falta de unidade geográfica e a diversidade de povos que
nela se instalaram. Neste sentido, ao apontar correntes decisivas que
percorreram o que se convencionou denominar de civilização européia, vimos a
essência resultante da amálgama da tradição cultural da antiguidade greco-
romana e do cristianismo, do mundo mediterrâneo e dos povos germânicos
117.
A Europa soube construir no século XIX, por sobre as fronteiras erguidas no decurso de um milênio e através de freqüentes congressos políticos e conferências técnicas, um espírito de entendimento, de cooperação efectiva e de enriquecimento mútuo que proporcionou ao Velho Continente um século de paz e de enorme desenvolvimento econômico, técnico e cultural. [...] A guerra de 1914-1918 viria, tragicamente, impor uma interrupção brutal e sangrenta nos esforços, até aí bem sucedidos, no sentido do estreitamento da cooperação européia118.
Quando a Segunda Guerra Mundial chega a termo, a Europa
encontra-se dizimada, um campo de ruínas, devastada economicamente e
dividida por ódios e ressentimentos. A palavra de ordem passa a ser “Reconstruir
a Europa” e, para tanto, são resgatados antigos precursores
119do anseio de
unidade européia que ultimaram no célebre discurso de Winston Churchill,
117 Dados extraídos da obra de João Mota de Campos e João Luiz Mota de Campos, Manual de
direito comunitário, 2004, p. 22-23. Os autores: ao apontar as correntes decisivas que percorreram a civilização ocidental, DIDER LAZARD, (in „L‟Occidente – quel Occidente‟), esquecendo embora o contributo do germanismo, escreve: “Hoje, as três correntes estão mais visíveis do que nunca: o nosso individualismo radical é ateniense; as nossas leis e as nossas instituições, impregnadas de espírito aristocrático, são romanas; a nossa paixão da justiça social é cristã” (p. 23).
118 João Mota de Campos e João Luiz Mota de Campos, Manual de direito comunitário, 2004, p.
26-27.
119 A recriação da unidade européia constituíra sempre, ao longo dos séculos, um anseio comum a
homens fora do comum: alguns, como Napoleão e Hitler, tentaram-na pela força das armas; mas o desfechos das suas aventuras sangrentas comprovou que a Europa só se uniria pela força de vontades livres. Homens de letras, como Dante e Victor Hugo, emprestaram ao anseio um toque de poesia: quem melhor do que os poetas podem sentir e transmitir a sedução da idéia da unidade de uma Europa que antes de mais nada se revela por uma comunhão de cultura de que precisamente a poesia grega e latina é expressão cimeira? Economistas como BENTHAM e SAINT-SIMON, filósofos como KANT, pensadores políticos e homens de Estado, sempre, ao longo da história, interessaram-se pela idéia: em 1304, o jurista Pierre DUBOIS concebe, antes de qualquer outro, um projecto de „Estados Unidos da Europa”; e depois dele, Henrique IV da França e o Duque de SULLY, William PENN, o Abade da SAINT PIERRE (com o seu “Projecto de paz perpétua”), Jean- Jacques ROUSSEAU, SAINTA-SIMON e tantos outros lamentaram, de uma forma ou de outra, o fraccionamento da Europa, condenaram as rivalidades e guerras entre os seus povos e exprimiram, em termos maios ou menos abstractos, a sua visão de uma Europa uma. Dados extraídos da obra de João Mota de Campos e João Luiz Mota de Campos, Manual de direito comunitário, p. 29-30.
pronunciado na Universidade de Zurique em 19 de setembro de 1946, no qual
aponta a necessidade de organização do ocidente Europeu, face à Europa de
Leste que se fechara sobre si mesma e a exortação pela criação dos Estados
Unidos da Europa.
Com esse espírito, alude Paulo de Pitta e Cunha:
A formação de instituições supranacionais não se mostra frontalmente incompatível com a soberania nacional, nem afecta a dependência imediata dos Estados em relação ao direito das gentes. Mas há, sem dúvida, uma força dinâmica e um apelo poderoso no movimento europeu: a idéia de união da Europa é, em si mesma, uma inspiração criadora e exaltante – uma fonte de mística política120.
Por essas razões, resta claro que a soberania não mais é
compreendida em sentido absoluto, seus contornos são definidos pela ordem
jurídica internacional. O que ora se manifesta é a propensão a flexibilizar a
interpretação da noção de soberania pautada na busca de instrumentos que
facilitem a percepção do fenômeno comunitário. Em direito internacional, a
soberania é limitada e limitável pela lei internacional. Esta reflexão leva às raízes
da formação comunitária, bem como ao seu desenvolvimento e estruturação,
pautadas na
120 PITTA E CUNHA, Paulo de. Integração Européia: estudos de economia, política e direito
comunitário, 1986, p. 64. No tocante à formação das comunidades supranacionais européias e suas implicações quanto à soberania, Paulo de Pitta e Cunha aponta que “a concepção absolutista da soberania é inaceitável120, não só por não corresponder à realidade da vida dos Estados, como por estar na origem da anarquia e do caos nas relações internacionais; mas a idéia moderna de soberania entendida como a não cedência pelo Estado, em proveito de um poderio exterior, da sua capacidade de autodeterminação em matéria política, não pode ser afastada de ânimo leve. A soberania nacional não é um simples artifício formal, não é um anacronismo em pleno século XX. Se o dogma da soberania absoluta deve ser posto de lado sem hesitações, há que reconhecer e que aceitar a profunda diversidade dos povos europeus – a divergência de concepções políticas, a disparidade de culturas e de hábitos de vida, as diferenças de aspirações e tradições”.
delegação de poderes estatais soberanos à comunidade de Estados nacionais, que é dotada de organismos próprios típicos de um Estado soberano, ou seja, de Legislativo, Judiciário e Executivo comunitários, e independe, pois, dos critérios constitucionais dos Estados acerca da recepção do direito internacional tradicional em sua ordem jurídica interna121.
O Direito Comunitário rompe com a dicotomia monismo e dualismo
jurídico como teorias únicas para a determinação da relação entre a ordem
jurídica internacional e as ordens jurídicas estatais. Pelo primado do direito
comunitário, acentua-se a elevação de uma ordem jurídica que não se confunde
com as ordens constitucionais, nem tampouco as desprestigia da feita que sua
formação primeira é validada segundo os preceitos erigidos pela comunidade
nacional. Em consonância a este entendimento, Celso Ribeiro Bastos e André
Ramos Tavares antecipavam o projeto atual de Constituição Européia ao retratar:
tanto o fenômeno da integração regional, que está solapando os poderes absolutos dos atuais Estados, quanto o fenômeno da globalização, que determina uma produção cultural – e com ela, pois, também jurídica – comum, indicam o surgimento, num horizonte não muito distante, de diplomas normativos supranacionais, como produtos de uma federação de Estados e não de meros organismos internacionais, tal como ocorria até o momento122.
Deste modo, o Direito Comunitário surge como um gênero inédito,
de consenso entre países na formulação de compromissos internacionais – a
partir de tratados internacionais – mas que evoluíram com a criação de órgãos
121 BASTOS, Celso Ribeiro; TAVARES, André Ramos. As tendências do direito público, 2000, p.
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