Deuses estrangeiros
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Ao contrário, os túmulos continham representações em grande escala de Akhenaten, freqüentemente acompanhado por Nefertiti, e das atividades dele102 103. À s vezes, as filhas de Akhenaten e Nefertiti eram retratadas com eles. Invariavelmente Aten estava no alto da cena, com seus raios descendentes, alguns terminando em mãos humanas oferecendo vida imortal ao casal real/divmo (fig. 51).
Esse tipo de retrato íntimo da família real não tinha precedentes. Mas no caso de Akhenaten ocorria não só em túmulos como também nas paredes de templos e no exterior de edifícios públicos, como também em altares domésticos. A iconografia nesse tipo de superfícies antes focalizava somente as divindades ou o rei, ou sua relação mútua. Na religião de Akhenaten, cenas retratando a atividade mtensamente pessoal da família real e mostrando a sua proximidade com a divindade parecem ter substi tuído os mitos e histórias dos deuses encontrados na religião do passado do Egito. Cenas desse tipo serviam para antropomoi fizar o poder supremo, a divindade abstrata, Aten. Elas ofereciam ao povo acesso a Aten e uma compreensão dele. Somente por meio do rei a relação de um indivíduo com a divindade poderia ser estabelecida.
A s cenas familiares reforçavam a relação do rei com deus. O conceito de proximidade entre o real e o divino certamente não era uma inovação. O mesmo foi apresentado em textos e cenas funerárias ao longo de toda a história do Egito. Akhenaten, porém, estendeu esse conceito a todos os tipos de textos e iconografia. Os ensinamentos e hinos de Akhenaten, juntamente com seu conceito de “família divina”, representavam e explica vam a mter-relação entre o rei vivo, Aten, e o cosmos 3. Os escritos de Akhenaten retratavam Aten como o deus criador e identificavam o rei com ele. Assim como Aten, Akhenaten era um deus criador. Assim como Aten, Akhenaten renascia todos os dias e desta forma tornava-se parte do cosmos. Mas somente Akhenaten era acessível tanto ao indivíduo na terra
102 A importância cie Nefertiti, a esposa de Akhenaten, não deve ser subestimada, e ela também podia ser invocada. V ide Redford, Akhenaten, págs. 78-82, e Emma Brunner- Traut, “Nofretete”, LÁ 4:5 19-2 I.
103 Jan Assmann, “Die ‘loyalistische Lehre’ Echnatons”, SAK 8 (19 80): 1-32. Vide também as referências, no mesmo livro, a outros trabalhos importantes.
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quanto ao deus nos céus, e esse sistema, que certamente parecia lógico ao rei, era a ordem correta do universo. Era m a a t .
De muitas maneiras, os conceitos e a iconografia promovidos durante o reino de Akhenaten eram variações sobre idéias tradicionais, e seu desenvolvimento pode até ter tido uma certa lógica. Ainda assim, apesar do aparente cuidado com que o programa de transição foi planejado, e apesar da maneira meticulosa e coerente com que foi levado a cabo, os conceitos e a iconografia de Akhenaten não criaram raízes.
Pode-se sugerir muitas razões para o malogro das novas doutrinas, porém, basicamente, está a incapacidade que os indivíduos tinham de obter acesso direto ao(s) deus(es) de sua escolha e a necessidade de cultuar a nova divindade por meio do rei. Não há dúvida de que o povo reagia de maneira negativa a essa religião que o privava tanto das divindades crônicas quanto dos meios para adquirir uma vida após a morte pessoal/individual e a imortalidade. As pessoas, aparentemente, achavam difícil adaptar-se aos novos dogmas que não lhes diziam respeito diretamente e estavam tão centrados na divindade do rei. Além disso, a religião tradicional enfatizava os contrastes fortes e delineava claramente a luz e a escuridão, o bem e o mal, a vida e a morte, o positivo e o negativo. A teologia de Akhenaten praticamente negava a escuridão, o mal, a morte e o negativo. Enfatizava o aspecto positivo da vida. Uma vez que só um deus, Aten, existia, ele não poderia ser comparado e necessariamente tinha que ser positivo. Dessa maneira, a religião de Akhenaten enfatizava a vida, o renascimento cíclico diário, a bondade, a ordem e o sol. O mundo inferior, com seus perigos, demônios e doze horas de trevas não tinha lugar nos conceitos da nova religião. Nem o tinham a doença e a corrupção. Na religião tradicional, esses aspectos negativos simbolizavam as realidades desta vida e os temores relativos à próxima. Somente por meio de seu reconhecimento é que eles poderiam ser derrotados. Os mitos, símbolos e textos complexos da tradição ocupavam-se desses problemas e perigos. No lugar de tais mitos e símbolos, a religião monoteísta de Akhenaten oferecia uma fé quase simplista no positivo. Nessa visão, nem a nova religião nem o seu deus tinham um rival capaz de criar conflito.
Aparentemente, mesmo aqueles que acompanhavam Akhenaten para a cidade de Akhetaten não seguiam os seus ensinamentos completamente.
Escavações de residências privadas encontraram amuletos e outras imagens do panteão tradicional104. Estes achados indicam que as pessoas, ao menos em particular, retinham crenças tradicionais. Efetivamente, talvez algumas delas até mesmo se rissem da “família divina”, pois os arqueólogos encon traram grupos de estatuetas de macacos que pareciam satirizar as repre sentações das atividades pessoais de Akhenaten e sua família, que domina vam a iconografia oficial105.
A s pessoas certamente sentiram de maneira profunda a perda de seus deuses e doutrinas. Além disso, agora estavam privadas também da monarquia tradicional e da organização clerical que governara o país por milênios a fio. O que lhes era oferecido agora era um rei divino vivo, que renascia diariamente com o sol, que era um com Aten e com o cosmos, que era o centro e o mediador de tudo, a ordem e a vida. Essa substituição, porém, não foi aceitável para eles. A morte era excessivamente aparente e real, e as pessoas viam que o divino rei vivo também era mortal. Mas a morte era uma realidade que não tinha nenhum papel na nova teologia. Quando Akhenaten, o elo vivo com o poder supremo, deixou de existir, a nova religião não pôde sobreviver.
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104 Para referências a trabalhos sobre esse assunto, vide Redford, Akhenaten, págs. 242-43. 105 Silverman, “W it and Humor”, in E gypt’s Golden Age, págs. 280-81 (figs. 385, 386).