O esforço pela articulação das políticas sociais no território

No documento UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO CENTRO CIÊNCIAS SOCIAIS APLICADAS DEPARTAMENTO DE SERVIÇO SOCIAL (páginas 73-78)

4. POLÍTICAS PÚBLICAS PARA O DESENVOLVIMENTO DO NORDESTE

4.4. O P ROGRAMA DE I NFRAESTRUTURA E S ERVIÇOS NOS T ERRITÓRIOS R URAIS

4.4.1. O esforço pela articulação das políticas sociais no território

O conceito de território, na última década, foi incorporado na operacionalização das políticas sociais brasileira. Observa-se que o conceito de território nas políticas sociais brasileira é utilizado como instrumento de transferência dos serviços sociais (saúde, educação fundamental, habitação…) do âmbito do Governo Federal para os Estados e Municípios. Nas políticas para o rural, a noção de território aparece como pertinente ao planejamento de programas e ações em

conformidade com as potencialidades locais. Espera-se, desta forma, uma mudança de paradigmas nas políticas públicas para o rural: antes setoriais e centralizadas, agora, territoriais e descentralizadas.

No âmbito dessas transformações que, no ano de 2003, o A Política do Programa Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Territórios Rurais (PRONAT) é concebida pelo Estado brasileiro. Na concepção do programa o conceito de território tem caráter normativo-instrumental, cujo objetivo é a gestão e o planejamento institucional das políticas públicas voltadas para o rural.

Na perspectiva da política pública para o desenvolvimento rural na abordagem territorial, compreende-se que o território é o:

Espaço que sintetiza e materializa num determinado espaço geográfico um processo social, econômico, ecológico e cultural complexo, em interação com outros espaços diferenciados. O território não se limita a uma simples demarcação geográfica ou político-administrativa, traçada de forma mais ou menos arbitrária ou como reflexo de interesses políticos, mas só existe enquanto articulação e relação com outros espaços ou formações socioculturais (BUARQUE, apud MDA, 2005, p. 11).

Com fins de operacionalização da proposta de política de desenvolvimento rural, o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), através da Secretaria de Desenvolvimento Territorial (STD) estabelece cento e sessenta e quatro (164) territórios rurais no Brasil, que serão lócus de suas políticas públicas. Segundo o MDA (2005, p. 05), as políticas e programas para o desenvolvimento rural atuam de modo a objetivar

[…] a melhoria contínua da qualidade de vida do conjunto da população do território, não apenas de parte dela. Portanto, é indispensável que haja uma forte articulação de políticas públicas entre si, nos diversos níveis de governo, com as iniciativas da sociedade, do setor privado dos diversos ramos de atividades.

Tais ponderações requerem avaliações sobre o conceito de território para o desenvolvimento rural. Diante da definição estatal do que seja território questiona-se que tipo de desenvolvimento rural o Estado se propõem fazer frente as diversidades que compõem um território, ou uma dada localidade que o compõe.

Considera-se, nestas reflexões, que as políticas públicas sociais brasileiras contemporâneas, em sua maioria, vêm apresentando características comuns: a descentralização, a focalização, o gerencialismo e a territorialização. Se, de um lado, algumas destas características relacionam-se à conquistas realizadas pela trabalhadora classe durante; por outro, apontam para reconfiguração do Estado brasileiro, em consonância com dinâmica global onde prevalece a consolidação de um Estado pós-fordista, cujo principal traço é a organização, em nível global, do processo produtivo, considerando o domínio sobre áreas estratégicas para a acumulação do capital (HIRSCH, 2010).

Desta forma, esta política brasileira organiza-se de forma tal que se tente minimizar as contradições existentes entre o movimento do capital global e a forma de organização política do Estado brasileiro, considerando como marco histórico deste contexto a Constituição de 1988. Neste cenário, as conquistas e avanços trazidos pelo documento, vão se transformando, ao longo dos anos de 1990 e 2000, em elementos contributivos para a consolidação de um Estado de caráter gerencial no Brasil.

Neste sentido, segundo Hirsch (2010, p. 225), “[…] a função do Estado de representar o terreno institucional para a formulação de políticas do capital diferencia-se em vários níveis, desde os regionais, que adquirem seu pleno significado, passando pelos nacionais até os inter e supranacionais”. Na presente discussão, considerar-se-á as políticas em níveis regionais e nacionais, tentando articulá-las ao movimento do capital global, que vem direcionando as decisões políticas de países periféricos e em desenvolvimento.

Segundo Harvey (2005), houve, no conjunto de processos de reestruturação produtiva, uma série de canais pelos quais se fizeram construir um arcabouço ideológico nas diversas instituições da sociedade civil que propiciou uma opinião favorável ao projeto neoliberal, sem que se fizesse sentir, de imediato, as consequências da escolha de tal projeto no cotidiano da classe trabalhadora. Neste contexto, ao longo de duas décadas na realidade brasileira, os avanços trazidos pela Constituição Federal de 1988, foram descaracterizados por este projeto ideológico. Tais descaracterizações se refletiram na implementação das políticas sociais, as quais, em seu caráter contraditório, procuram garantir os direitos sociais de modo seletivo à classe trabalhadora.

É no bojo deste processo que a reorganização do espacial do capital ocorre na contemporaneidade. É importante frisar que o avanço espacial do capital não é algo novo, ao contrário, é algo necessário ao seu processo de produção e reprodução (HARVEY, 2005). O que muda, são as formas de ‘apropriação’ do espaço a cada nova fase deste modo de produção. E é neste sentido, de compreender como, nas particularidades do Estado brasileiro, o capital reorganiza/desorganiza o seu espaço.

O espaço, para o desenvolvimento do sistema capitalista exerce um papel primordial. Durante muitos anos, tentou-se aniquilar a relação existente entre tempo-espaço no processo produtivo. No entanto, segundo Massey (2011, p. 26), não há como aniquilar o espaço pelo tempo, porque no desenvolvimento da técnica e da ciência, o que ocorre é diminuição do tempo (em virtude da tecnologia: “[…] o aumento na velocidade dos transportes e comunicações”, enquanto o espaço se expande (espaços virtuais e reais de “[…] relações/interações sociais, inclusive as de transportes e comunicação)”.

Para Harvey (2000), ainda que a dinâmica da acumulação capitalista tente superar a espacialidade através do tempo da diminuição do tempo por meio da tecnologia, a dimensão geográfica possui um papel relevante no processo de acumulação capitalista. Isso por que há uma necessidade constante de superação, frente às crises, para a garantia da reprodução do sistema econômico-político, sendo, para isso, necessários “ajustes espaciais” que possibilitem a continuidade do processo de acumulação.

Tais condições, dentro de Estado neoliberal, exigem uma reorganização interna e novos arranjos institucionais (HARVEY, 2005) que possibilitem a fluidez do capital dentro dessa dinâmica. E isto ocorre na contemporaneidade brasileira em seu processo de implementação das políticas sociais.

O que se verifica, no conjunto da implementação do conceito instrumentalizado da categoria território são implicações no processo de apropriação/reapropriação do espaço, agora, normatizado por uma séria de políticas públicas sociais que terão rebatimentos no cotidiano dos setores mais vulneráveis da população, no caso em tela, da população rural. Neste contexto, explicita-se a contradição desta Abordagem. Se por um lado busca considerar as particularidades de cada território, por outro, é marcado pela seletividade, ao conferir critérios que

determinam os recursos a um dado território, excluindo sujeitos sociais intraterritoriais. Isto porque, considerando as divergências conceituais-normativas do ‘território’ nas diversas políticas, há uma dificuldade em garantir uma ação intersetorial necessária ao acesso aos serviços básicos às populações rurais em sua heterogeneidade.

No âmbito das intervenções estatais é que se realiza o estudo ora apresentado. Buscando compreender como se concretiza tais ações, optou-se por um trabalho empírico, considerando a importância da das pessoas partícipes da construção da forma de implementação baseada numa abordagem territorial. A implementação da proposta territorial é apresentada no próximo capítulo, o qual busca, através da voz das pessoas que estão no processo de implementação da política de desenvolvimento territorial, uma análise da abordagem, tendo em vista sua dimensão intersetorial.

5. ZONA DA MATA SUL DE PERNAMBUCO – UM TERRITÓRIO EM

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