3.2 O Estado e a Segurança Pública
3.2.1 O Entendimento do conceito de Estado
3.2.1.1 O Estado Grego
Para muitos estudiosos, os antigos gregos foram, provavelmente, o povo mais politizado da História. Existe praticamente um consenso de que foi na região da antiga Hélade que o homem se debruçou pela primeira vez sobre o estudo da Política. O próprio termo “política” deriva do adjetivo grego politikós , que se refere aos assuntos relativos à polis ou cidade, ou seja às questões urbanas, civis, sociais e políticas (BOBBIO, 1983). O território habitado pelos gregos era, na verdade, fracionado em centenas de cidades autônomas e independentes umas das outras: as cidades-Estado ou polis. O fato de existirem diferentes tipos de polis era um convite para o pensamento a respeito da melhor forma de governo, que tanto marcou a filosofia grega e o próprio pensamento político ocidental até a Idade Moderna (BARKER, 1947).
A estrutura social das cidades Estado era composta por uma classe de cidadãos que detinha o poder político e econômico, sendo a cidadania considerada hereditária e algo que devia ser compartilhado; outra classe era representada pelos estrangeiros livres, que não possuíam direitos políticos, mas podiam exercer atividades econômicas; e uma terceira classe era composta pelos escravos privados, de todos os direitos. A teoria política grega via como natural a existência de escravos, pois neles repousavam as atividades econômicas, predominantemente agrárias (SABINE, 1961).
O conceito grego de cidadania considerava o seu exercício como uma atividade elevadíssima e realmente obrigatória para todos os cidadãos. Ela consistia, basicamente na efetiva participação nos assuntos políticos da cidade. Segundo Aristóteles, ser cidadão significava possuir integração social, cumprir deveres e usufruir dos direitos previstos em leis e nos costumes da sociedade da época (DUROZOI E ROUSSEL, 1990). Segundo ainda a concepção aristotélica, o ser humano é, por natureza, um animal político e, por conseqüência, sua participação nos assuntos de sua cidade é uma ação natural de todo ser humano.
Por outro lado, a obra de Platão elevou o nível da reflexão política grega e se apresentou como um verdadeiro roteiro para o que pode ser considerado um bom governo. O Estado descrito em “A República” é apenas uma utopia que consistiria em algo não corrompido, em que os melhores e mais sábios homens governariam, (A concepção de que o mais sábio deve ser o governante foi extraída de Sócrates) Platão polemiza com a concepção sofista de justiça em que é justo que o mais forte domine o mais fraco. Ele dá ao seu Estado um sentido coletivista bem diverso do sentido do individualismo sofista, cabendo ao governante sacrificar seus fins pessoais em nome da satisfação dos interesses gerais da coletividade. Platão considerava ter chegado ao modelo de Estado que permitiria a cada cidadão uma boa vida, ou vida justa, em que cada um exerceria seus direitos e deveres em conformidade com suas aptidões. Isso seria justificado pela concepção platônica de política: - “toda forma de política que pretenda ser autêntica deve ter como objetivo o bem (espiritual) do homem” (REALE, 1980). Platão admitia, ainda, que todos os Estados são corruptos, em maior ou menor grau e analisava os Estados que conhecia como corrupções do Estado ideal.
Segundo Straus (1987), Platão, em seu livro sobre legislação, conclui que o melhor regime político exeqüível seria o de uma Constituição, um misto entre a monarquia e a democracia, tirando da primeira a autoridade e a sabedoria e, da segunda, a liberdade (evitando o igualitarismo absoluto). Assim, autoridade, sabedoria e liberdade deveriam ser mescladas de forma, a garantir o melhor governo possível.
Platão se mostrava um teórico político clássico por excelência, bastante voltado para a noção de política como reino da ética e da moralidade.
Para Cole (1982), enquanto Platão se empenhava em construir uma república ideal apenas com o pensamento, e em descobrir e satisfazer as necessidades reais do espírito humano, Aristóteles se preocupava em escolher a melhor dentre as formas e métodos usuais de governo. Para Aristóteles, a política seria a ciência prática por excelência.
Para Mayer (1982), é importante destacar que Aristóteles construiu sua teoria política com base na refutação de Platão, criticando a abolição da propriedade privada e da família preconizados por Platão.
A teoria política de Aristóteles tinha como tarefa fundamental a busca da melhor forma de Estado na realidade que observava. Também para ele não havia diferença entre a política e a ética. Sua concepção de Estado ideal é baseada, principalmente, na moral, e exige a população na medida justa, ou seja, nem numerosa nem diminuta; território com dimensões que lhe permitam produzir o essencial para a vida, evitando o desperdício; cidadãos livres, educados e que respeitem as leis; funções econômicas, sociais, e militares distribuídas entre as diferentes pessoas de acordo a dimensão temporal; virtude ensinada por meio da educação fornecida pelo Estado, como algo natural e inerente a todos os cidadãos.
Aristóteles baseava sua ordem política na família (MAYER, 1985; REALE, 1993), pois ela é o núcleo original da cidade, sendo que esta reproduz em escala ampliada as relações entre os familiares. Da mesma forma que Platão, chegou a uma tipologia de seis formas de governo, baseada nas formas pelas quais o poder soberano é exercido, seja por um só homem, por alguns homens, ou pela maioria dos homens. Como cada forma de governo pode ser exercida de maneira correta ou incorreta, Aristóteles chegou a uma posição bem semelhante à de Platão; ou seja, o governo exercido por uma só pessoa pode ser, quando corretamente exercido, uma monarquia, ou se exercido de forma incorreta, uma tirania; o governo de alguns pode ser uma aristocracia, quando exercido de forma correta, ou uma oligarquia, quando exercido de forma incorreta; o governo da maioria pode ser a politia (democracia, no conceito moderno) como forma correta, e a democracia (anarquia no conceito moderno) ou demagogia, que é o exercício incorreto do governo de muitos. Mas Aristóteles, ao contrário de Platão, considerava que as três formas corretas de governo são naturais e justas, não havendo uma melhor forma de governo. Para Aristóteles, a monarquia seria a melhor forma de governo se existisse, na cidade, um só homem, de sabedoria e justiça excepcionais. Havendo um grupo de homens com essas mesmas características, a melhor forma seria a aristocracia. Com seu senso de realismo, e admitindo que todas essas condições anteriormente descritas raramente se verificavam, preferia considerar a politia a forma de governo mais adequada as cidades gregas.
Para Reale (1993), a politia é, também, a forma mais estável de governo, pois se fundamenta sob o estrato médio da população.
O governante ideal na teoria política aristotélica não era o filósofo puro e simples, mas o filósofo das ciências práticas, o político amadurecido pela experiência e dotado de prudência (MORRAL, 1985).