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2. RESPONSABILIDADE CIVIL AMBIENTAL DO ESTADO ​

2.1. O Estado e o poder-dever de tutela do meio ambiente ​

Falar em meio ambiente ecologicamente equilibrado nos leva a uma série de questões. As primeiras, já tratadas neste trabalho, referem-se às noções de bem ambiental e titularidade. O bem ambiental é de ser compreendido em sentido amplo, incluindo-se o patrimônio natural, artificial e cultural, a titularidade desse bem, por sua vez, é difusa, sendo impossível

determinar seus sujeitos de direito vez que toda a coletividade - e também as futuras gerações, como bem diz a Constituição Federal - é que o arremata. O Estado e a sociedade estão incumbidos da tutela do bem ambiental, decorrendo daí uma série de deveres.

De acordo com Leite (1999, p. 7-16), o avanço tecnológico e industrial levou à tomada de consciência acerca da crise ambiental. A nova configuração da sociedade, marcada por desigualdades sociais e degradação ambiental, suscita uma mudança na configuração do Estado para um Estado de direito do ambiente, fundado em preceitos tais como a equidade intergeracional, e pautado em uma visão menos antropocentrista, propondo-se mudanças na forma de desenvolvimento econômico por meio de uma reformulação que observe o uso racional e solidário do meio ambiente.

A sociedade de hoje, como observa Braga Netto (2019, p. 350), não se satisfaz com a perda irreversível de riquezas ambientais em troca de meras indenizações pecuniárias. Ademais, entendemos que nunca é cedo relembrar que a indenização do dano ambiental, em pecúnia, está longe de ser preferível à recomposição do dano com o restabelecimento das condições ambientais degradadas e, antes ainda de se pensar em uma restauração ambiental, cabe-nos priorizar o impedimento do dano, pois o retorno ao ​status quo ante a perpetuação da degradação é quase uma ficção quando tratamos de danos ambientais, haja vista que as alterações do equilíbrio ecológico raramente podem ser desfeitas em sua totalidade.

A Constituição Federal, por seu art. 225, ​caput​, trouxe uma disposição que demonstrou “um salto de Estado tradicional de direito para um Estado atento às necessidades de preservar o meio ambiente para as gerações futuras, como direito e dever de todos”, cabendo ao Estado, sem espaço para discussão, entre tantas outras funções, proteger e defender o meio ambiente, além de promover a educação ambie ​ntal e criar espaços de proteção, a exemplo das Unidades de Conservação (Leite, p. 18 e 21).

Nos deparamos, assim, com uma constante ampliação das tarefas e funções estatais, de modo que ao Estado cabe fundamentar suas ações e omissões em observação aos preceitos constitucionais, em especial seus valores humanistas. Isto traz implicações diretas na responsabilidade civil do Estado. O princípio da proteção lhe confere novos contornos, de modo que a função preventiva da responsabilidade cuida-se agora de um dever de agir atribuído ao Estado (Braga Netto, 2019, p. 89).

Uma vez que o Estado está obrigado a fundamentar suas ações e omissões, lhe caberá não apenas se abster de agredir direitos fundamentais, mas também impedir a ocorrência de

agressões oriundas de outros atores sociais. Dessa forma, o dever do Estado de proteger, de maneira ativa e preventivamente, os direitos fundamentais contra ameaças e agressões não se cumpre mediante a adoção de simples postura de abstenção, de não interferência estatal. O que se requer, atualmente, é que o Estado adote uma postura ativa, voltada à defesa e proteção dos direitos (ibidem, p. 90).

Chamamos de função negativa aquela referente ao dever de não agressão dos direitos fundamentais por parte do Estado, também denominada função “clássica”. Associada a tal dever de não infringência, há uma outra dimensão, dita positiva dos direitos fundamentais, o que significa que o Estado não deve apenas respeitá-los, mas também efetivamente protegê-los, sendo que a abstenção ao cumprimento desse dever positivo tem o condão de implicar na responsabilização do Estado (ibidem, p. 91).

Dessa forma, o dever de proteção ambiental constitucionalmente determinado afasta qualquer faculdade do Estado, pois o mesmo está explicitamente obrigado a defender e preservar o meio meio ambiente (ibidem, p. 336).

Referido dever é tão significativo que a omissão em seu cumprimento autoriza a judicialização. Steigleder (2002, p. 132-140), escrevendo sobre a discricionariedade administrativa e o dever de proteção do meio ambiente, entende que em caso de omissão estatal quanto ao combate da degradação ambiental é cabível a intervenção judicial para fazer suprir a conduta omissiva, sem que isso implique em invasão do Poder Judiciário no Executivo, não havendo violação ao princípio da separação dos poderes. Aduz a autora que, na hipótese, compete ao Judiciário salvaguardar os direitos fundamentais, impondo a execução dos deveres estabelecidos pela Constituição Federal e leis infraconstitucionais.

A autora conclui que a finalidade do art. 225 da Constituição é a garantia de um direito fundamental e que Estado está vinculado à observância de tal finalidade, portanto, uma vez havendo inércia do Poder Público ou este vindo a adotar medidas insuficientes para a proteção ambiental, caberá a intervenção judicial no sentido de compelir o Executivo a agir, sem, todavia, lhe determinar como. A autora explica que requerer a condenação em obrigações de fazer, por exemplo, seria caso de violação ao princípio da separação dos poderes pois ao Executivo cabe adotar a medida que entender mais adequada para o caso concreto.

De toda sorte, o cerne da judicialização em face da omissão estatal reside no direito fundamental ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. Na falta de cumprimento do dever de proteção, recorrer ao judiciário é medida pela qual se pode compelir o Estado a agir,

adotando a medida que entender mais adequada para suprimir a omissão e efetivar o dever de tutela ambiental que lhe cabe.

O Estado, ao mesmo passo que a sociedade, acha-se obrigado a defender o meio ambiente. Em sendo o Estado aquele que detém maior poder político e maiores recursos, esse dever de proteção consequentemente lhe é atribuído com maior peso, cabendo-lhe assumir a linha de frente na defesa ambiental. Os princípios da precaução e prevenção são instrumentos basilares pelos quais o Estado exerce esse poder-dever, contudo não se bastam sozinhos diante da sociedade de riscos e suas incontáveis incertezas, de modo que ao Poder Público cabe a adoção de uma postura ainda mais ativa e, frisa-se, efetiva da tutela ambiental.