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3.2 O Estado e a Segurança Pública

3.2.1 O Entendimento do conceito de Estado

3.2.1.2 O Estado Romano

O mundo romano não produziu, em termos de especulação política, nenhum pensador do porte de Platão ou de Aristóteles, mas deixou uma grande contribuição para a história da reflexão política ocidental: o Direito, sobretudo nas concepções de soberania do Estado, das monarquias absoluta e constitucional, o Direito internacional. Ademais, deve-se ao Direito Romano a concepção juridicista segundo a qual “o Estado é uma criatura do direito e não se deve estudá-lo com fato ecológico ou ético, mas sim em termos de competência jurídica e de direitos” (SABINE 1992).

Mayer (1985) indica que a grande diferença entre os mundos romano e grego é que, ao contrário das polis helênicas, as cidades romanas, contaminadas pela filosofia estóica, possuíam uma consciência universal, ou seja, sabiam-se partes de um império que se pretendia universal e totalmente diverso da tradição grega voltada para as polis atomizadas.

Segundo Sabine (1992), os estóicos falavam de uma comunidade moral e espiritual que incluía todos os povos, comunidade essa que era impulsionada pela razão, o elemento que inspirava os homens a viverem em comunidade ou associação. Dessa forma, existindo apenas uma razão, somente poderia existir uma lei, um Direito e um Estado. Ainda assim, o homem estaria sujeito a dois tipos de leis e de Direito: a lei da “cidade universal” e a lei da razão e do costume.

Políbio, um dos grandes pensadores romanos, desenvolveu uma teoria das formas de governo em que a Constituição de um Estado era considerada a principal causa de sucesso, em termos da conquista de um império universal (BOBBIO, 1976). Segundo sua teoria, haveria sete formas de governo; três boas (reino, aristocracia e democracia) e três ruins (tirania, oligarquia e oclocracia, ou governo da plebe ou massa), que se desenvolveriam em um ciclo histórico. O ciclo polibiano seria uma alternância de governos bons e maus, em um processo descontínuo, que levaria a oclocracia de volta ao reino, já que Políbio era um fatalista, que admitia a corrupção humana como latente. Para Sabine (1992), o maior mérito de Políbio, em termos de contribuição para a teoria da forma mista de governo, encontra-se na idéia do ciclo

convertido em lei histórica, e no governo misto fundado sobre o equilíbrio de poderes políticos, não no equilíbrio de classes sociais, como afirmou Aristóteles.

Dentre os estóicos ulteriores, apenas Marco Túlio Cícero chegou a elaborar uma teoria política. Segundo Sabine (1992), as bases do pensamento político dele são o governo misto e o ciclo de formas de governo e, apesar de não representarem grande originalidade, sua ampla difusão influenciou escritos futuros, inclusive os de Santo Agostinho.

Segundo Straus (1993), Cícero considerava que a virtude só existiria quando utilizada em sua totalidade por meio de uma vida política, do governo do Estado. Surgia, assim, o conceito tipicamente clássico de estadista, ou seja, de alguém que poderia ser considerado o mais virtuoso e o mais sábio dentre os homens. Cícero admitia três boas formas de governo: a monarquia, a aristocracia e a democracia e segundo Sabine (1992), três são os princípios gerais do Estado que ele propunha: a) a autoridade do Estado emana do povo; b) o poder político é o poder do povo; c) o Estado e o direito estão sujeitos à vontade de Deus.

Outro pensador romano foi Sêneca, que não formulou idéias sobre as formas de governo pois acreditava que nenhuma delas era boa. A base de seus pensamentos políticos estava centrada em determinar quem devia governar. Para ele, a República era antes uma associação moral que um Estado; o governo surgiu quando os homens se tornaram egoístas e idealizaram a propriedade privada, tornando-se corruptos após terem vivido uma idade do ouro. Sêneca, na verdade, formulou os princípios básicos da filosofia política cristã da Idade Média. Segundo Sabine (1992), a idéia que Sêneca fazia de Estado como uma associação artificial mudou totalmente a direção do pensamento político.

Quando o cristianismo foi adotado pelo Império Romana, de pronto se operou uma mudança no Estado, através da celebração de um compromisso principal entre Igreja e Estado em que a concepção de monarca divinizado fora abandonada e o governante obrigado a admitir uma autoridade religiosa secular, independentemente de valor superior. Era necessária, portanto, a elaboração de uma teoria das relações entre a Igreja e o Estado.

O principal pensador cristão desse período foi Santo Agostinho. Em sua obra “Cidade de Deus” ele debate a idéia de que o homem possui dupla natureza: o espírito, pelo qual ele é cidadão da Cidade de Deus, e o corpo, que o torna cidadão de uma cidade terrena. A distinção entre o terreno e o espiritual é a chave para a compreensão da história da humanidade, que, segundo ele, é eternamente dominada pela luta entre os interesse das duas partes. Ele fala ainda da dupla natureza das leis, pois há uma lei divina, eterna e imutável, e uma lei terrena, que é mutável e imperfeita. Assim, se todos os homens fossem bons e justos, o melhor regime de governo seria a democracia. Já que isso não ocorre, segundo Santo

Agostinho, a lei mais justa é aquela que proclama como governante o homem mais justo. Sendo a lei terrena temporal e imperfeita, incapaz de garantir que os homens possam viver de forma justa, a presença da lei divina é fundamental para a vida humana.

Sabine (1992) afirma que Santo Agostinho não conseguiu elaborar uma teoria da relação da Igreja e o Estado terreno, mas apenas demonstrou que um Estado justo é aquele em que predomina a verdadeira fé cristã e a religião é apoiada pela lei e pela autoridade. A influência das idéias e pensamentos de Santo Agostinho foi fundamental para consolidar a grande mudança da teoria política provocada pelo cristianismo.

Voegelin (1982), retratando essa marcante influência, afirmou que o destino espiritual do homem, no sentido cristão, não pode ser representado na terra pela organização do poder de uma sociedade política, e sim pela Igreja. A esfera do poder é, assim, radicalmente desdivinizada e se torna, segundo suas idéias, temporal.