3.1 DA INCAPACIDADE À ISONOMIA: A VIGÊNCIA DO CÓDIGO CIVIL DE
3.1.2 O Estatuto da Mulher Casada (Lei nº 4.121/62)
As modificações ocorridas no Código Civil de 1916 não foram introduzidas de forma fácil. Ao longo dos anos, foram editadas leis modificando um ou outro dispositivo, mas que em nada alteraram a inferior situação jurídica da mulher. Ainda, foram apresentados diversos anteprojetos para um novo código, inclusive elaborados por mulheres, os quais foram repetidamente rejeitados. Tais documentos, no entanto, tiveram sua parcela de contribuição para o resultado final da Lei 4.121, publicada em 27 de agosto de 1962, que ficou conhecida como Estatuto da Mulher Casada.
Embora ainda não tenha sido capaz de atingir a igualdade entre homem e mulher no âmbito do casamento, vez que ainda presa a certo conservadorismo, a lei introduziu alterações favoráveis às mulheres em relação à redação original do diploma civil, dando-lhes considerável liberdade em comparação com a situação preestabelecida.
A principal modificação realizada pelo Estatuto da Mulher Casada foi, sem dúvida, a supressão do inciso II do artigo 6º do código, com a retirada da mulher casada do rol dos relativamente incapazes. Muito embora tenham decorrido mais de 50 anos para a alteração de uma norma considerada por muitos injusta no momento em que foi votada84, fundamental e profunda foi a alteração.
Plenamente consagrada a capacidade feminina, a mulher tornou-se quase que completamente livre da autorização marital. Quase, pois uma falha do legislador manteve a necessidade da autorização para a prática de alguns atos, como os referentes a direitos reais sobre imóveis e obrigações que importassem consequências aos bens do casal. No entanto, exceto estes expressamente previstos em lei - além daqueles que o marido também não
83 RODRIGUES, Maria Alice. A Mulher no Espaço Privado: da incapacidade à igualdade de direitos. Rio de Janeiro: Renovar, 2003, p. 91-93.
84 BUENO, Ruth. Regime jurídico da mulher casada. 3 ed. revista e aumentada. Rio de Janeiro:
Forense, 1972, p. 15.
podia praticar sozinho, naturalmente -, a mulher passou a poder realizar todos os demais atos da vida civil sem qualquer tipo de outorga do marido.
As inovações abarcaram, ainda, o exercício de profissão pela mulher, que, a partir de então, passou a ser realizado de forma livre. Para Valdeana Vieira Casas Ferreira, tal disposição libertou o cônjuge do sexo feminino da incômoda situação gerada pela necessidade de autorização do marido para tal:
O novo diploma legal lhe tirara dos ombros o estigma da incapacidade relativa; seria pois um contra senso não lhe permitir o livre exercício da profissão. Não só um contra-senso, mas também imoral, pois, impedida de progredir economicamente, estaria impossibilitada de lutar pelo reconhecimento de seus direitos85
Por consequência, a lei previu que a mulher que auferisse rendimentos próprios tinha a obrigação de contribuir para as despesas comuns da família.
Embora ainda se encontrasse entre os deveres do marido prover a manutenção da família, tal disposição correspondeu ao reconhecimento da capacidade produtiva da mulher, estando em perfeita harmonia com o recém-conquistado direito de exercer livremente a profissão86.
Nos demais aspectos, contudo, as mudanças proporcionadas pelo estatuto da mulher casada foram mais tímidas.
A chefia da sociedade conjugal continuou a ser atribuída ao marido, estabelecendo-se, no entanto, que seria “exercida com a colaboração da mulher, no interesse comum do casal e dos filhos”. 87 Sílvio Rodrigues entendeu a regra como uma previsão de que a atividade do marido só seria lícita quando exercida tendo-se em vista o bem estar da família, de modo a garantir que as prerrogativas do varão não fossem utilizadas de forma abusiva.88
85 FERREIRA, Valdeana Vieira Casas. Op. cit., p.65.
86 Idem, p. 65.
87 “Art. 233. O marido é o chefe da sociedade conjugal, função que exerce com a colaboração da mulher, no interêsse comum do casal e dos filhos (arts. 240, 247 e 251). Compete-lhe:
I - A representação legal da família
II - a administração dos bens comuns e dos particulares da mulher que ao marido incumbir administrar, em virtude do regime matrimonial adotado, ou de pacto, antenupcial (arts. 178, § 9º, nº I, c, 274, 289, nº I e 311);
III - o direito de fixar o domicílio da família ressalvada a possibilidade de recorrer a mulher ao Juiz, no caso de deliberação que a prejudique;
IV - prover a manutenção da família, guardadas as disposições dos arts. 275 e 277.”
88 RODRIGUES, Sílvio. Direito civil: direito de família. Vol. 6. 6 ed., revista e atualizada. São Paulo: Saraiva, 1978, p. 134-136.
Em realidade, a lei veio a reconhecer uma prática já existente, de participação da mulher nas decisões cotidianas da família, porém permaneceu a situação de hierarquia no código, renegando-se a esposa à função de colaboradora. Nesse contexto, não sofreram quaisquer alterações as regras que atribuíam ao varão a administração dos bens comuns e dos particulares da mulher, além da representação legal da família89. No mesmo sentido, era ainda do homem o direito de fixar o domicílio do casal, acrescentando-se a possibilidade da mulher recorrer ao Judiciário nos casos em que a deliberação do marido lhe trouxesse prejuízo.
A regra acerca do pátrio poder espelhou aquela referente à chefia da sociedade conjugal. Permaneceu nas mãos do marido o seu exercício, porém agora com a colaboração da esposa. No entanto, em caso de divergência entre os cônjuges, mais uma vez prevaleceria a decisão do pai, ressalvando-se o direito da mulher de recorrer ao juízo.
Em observância aos costumes da época, também foram mantidas as disposições acerca da obrigatoriedade de acrescer o sobrenome do marido, bem como a possibilidade de anulação do casamento pela defloração da mulher ignorada pelo marido.
Com efeito, os doutrinadores continuaram a defender a necessidade da chefia da sociedade conjugal pelo marido para fins de garantir a unidade da família, sob os mesmos argumentos de que nenhuma união poderia dispensar a existência de um responsável pela solução de eventuais divergências. Nesse sentido, afirmou Washington de Barros Monteiro:
Os direitos de ambos os cônjuges são exatamente os mesmos;
apenas por questão de unidade na direção de assuntos domésticos, indispensável à boa ordem familiar, entrega-se ao marido a autoridade dirigente, destinada a coibir discórdias que fatalmente surgiriam com a dualidade de orientações.90
Mais uma vez, portanto, falhou a doutrina em reconhecer que não havia, de fato, igualdade de direitos entre os cônjuges, esquecendo-se, ainda, de que
89 Sílvio Rodrigues considerava estranha a expressão “representação legal da família”, uma vez que esta não tinha personalidade jurídica. Assim sendo, entendia que tal regra devia ser entendida em sentido vulgar, para significar que o marido, através de suas ações, representava em face da sociedade a entidade natural composta por casal e filhos. (Idem).
90 MONTEIRO, Washington de Barros. O direito de família. 5 ed. São Paulo: Editora Saraiva, 1962, p. 114.
a harmonia da família deve estar baseada na colaboração entre os membros e nos laços de afeto que os unem, e não na solução das divergências pela simples palavra daquele que possui tal prerrogativa.
As normas acerca do fim do casamento e do desquite não foram alteradas pelo Estatuto da Mulher Casada. Por outro lado, a situação da mulher desquitada apresentou considerável melhora. Permaneceu a regra de que a guarda dos filhos menores seria exercida pelo cônjuge inocente, porém, caso ambos fossem considerados culpados pela separação, era da mãe o direito de ficar com a prole, caindo, portanto, a divisão dos filhos entre os genitores de acordo com o sexo. No mesmo sentido, caso a mulher contraísse outro matrimônio, conservaria o direito de ter consigo os menores, não lhe sendo retirado o exercício do pátrio poder, que não poderia sofrer intervenção do novo marido.
Em relação a esse tema, no entanto, exagerou Sílvio Rodrigues ao afirmar que a lei 4.121/62 “aumentou as vantagens que a mulher tinha sobre o marido”, de modo que, “a situação da mulher e do homem casados é de igualdade e as diferenças eventuais, porventura remanescentes, ou a beneficia, ou resultam de invencível imposição da natureza”.91
Não se nega que o Estatuto da Mulher Casada trouxe importantes alterações no que tange aos direitos da mulher. Entretanto, como demonstrado, a lei, ao dar dois passos rumo à igualdade, dava um atrás, apegando-se a certas ideias e tradições ultrapassadas, sempre renegando a esposa à condição de colaboradora e por vezes condicionando a defesa de seus direitos à procura do Judiciário, enquanto que as decisões do homem prevaleciam sem qualquer necessidade de confirmação externa. Não obstante, inegável a importância das alterações por ele realizadas na caminhada em busca da igualdade entre os cônjuges.