PROFESSOR ALUNO
2.4. O Estudo do Meio: área integrada e integradora (programa)
Nos últimos anos, aquando do “25 de Abril” e da instauração da democracia, o nosso sistema de ensino sofreu profundas alterações e, com ele, os programas que orientavam as diferentes disciplinas e áreas disciplinares. Tal como refere Fonseca, citado por Roldão (1995), a Lei de Bases do Sistema Educativo (LBSE) de 1986 prescreve. como objetivo do Ensino Básico (art.º 7), o desenvolvimento global das crianças, a formação de cidadãos livres, críticos, reflexivos, civicamente responsáveis.
Genéricamente, define-se currículo como o ”conjunto de objetivos, contenidos, métodos pedagógicos y criterios de evaluación de cada uno de los niveles, etapas, ciclos, grados y modalidades del sistema educativo” (Arenal, 2010, p. 19). O que acontece na maioria das vezes é que, segundo Lopes e Macedo (2011), o currículo não passa de um puro e simples planeamento de caráter muito formal do ensino (currículo prescrito/proposto). No entanto, o currículo deve ser entendido como um conjunto de práticas efetivas dadas pelas práxis dos atores educacionais. Currículo, portanto, está relacionado com a vida no interior da sala de aula. Deste modo, os documentos curriculares tendem a ser apenas elementos estanques, que representam uma parte do processo de planeamento da ação pedagógica.
No currículo do 1.º CEB, a pertinência de uma área curricular em que se estuda “o meio” justifica-se, tal como refere Roldão (1995) e conforme consta dos objetivos ou textos introdutórios de quase todos os programas desta área, por contribuir para a consolidação da identidade pessoal e social, através do reforço de sentimentos de identificação e pertença que permitem à criança situar-se, reconhecer-se como sujeito
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inserido em diversos grupos sociais, das famílias às comunidades local e nacional, e mesmo, num sentido mais abrangente, na Europa e no Mundo.
O Estudo do Meio está na interseção de todas as áreas do currículo do 1.º CEB, e, como tal, propicia a articulação com outras áreas curriculares, como o Português e a Matemática, em que os alunos sentem mais dificuldades de aprendizagem. Como indica Lopes e Pontuschka (2009), o Estudo do Meio pode ser compreendido como uma área curricular que visa proporcionar, a alunos e professores, o contacto direto com uma determinada realidade. Com esta ideia, corrobora Roldão (2001), o conjunto de propostas curriculares corporizadas na área de Estudo do Meio articula-se com princípios importantes definidos nos objetivos da reforma curricular que, naquele tempo, estavam a ser implementados. A autora acrescenta ainda que uma das grandes potencialidades desta área disciplinar remete para a possibilidade de poder funcionar como eixo estruturador do currículo do 1.º CEB, oferecendo um conjunto de conteúdos temáticos que permitem, numa gestão bem organizada, articular de forma integrada as aprendizagens das restantes áreas disciplinares previstas no currículo deste nível de ensino.
Numa primeira análise do programa, detetamos que todos os blocos se intitulam “À Descoberta de…”, partindo-se do pressuposto que os alunos devem ter um papel ativo na construção das suas aprendizagens no âmbito desta área disciplinar. Roldão (1995) aponta para um trabalho com os alunos em que estes se envolvam em processos ativos de aprendizagem, assentes em metodologias de descoberta e apoiados em atividades intelectuais de construção do saber.
Assim, o programa do Estudo do Meio encontra-se organizado em seis grandes blocos temáticos:
à Descoberta de si mesmo;
à Descoberta dos outros e das instituições; à Descoberta do ambiente natural;
à Descoberta das Inter-relações entre os espaços; à Descoberta dos materiais e objetos;
à Descoberta das inter-relações entre a natureza e a sociedade.
Para cada um dos blocos temáticos são evidenciadas áreas de estudo, prevendo-se que a sua progressão seja feita de forma vertical ao longo de todo o 1.º CEB. Os conteúdos programáticos são apresentados em forma de objetivos comportamentais, ou seja, em forma do que se pretende que o aluno seja capaz de fazer.
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Por detrás desta intenção em que o aluno deve ser um agente ativo no seu processo de aprendizagem está uma teoria de aprendizagem de carácter construtivista em que se pressupõe que a aprendizagem é um processo de construção interativa em que o sujeito é o principal dirigente.
Um outro aspeto a considerar, quando analisamos o programa do Estudo do Meio, diz respeito à sua lógica interna de alargamento progressivo dos temas a abordar. Este facto assenta nas teorias piagetianas e defende que as crianças, no desenvolvimento das suas aprendizagens, devem partir do concreto e real que conhecem para realidades e conceitos mais abstratos. Segundo Roldão (1995), citando Piaget, a criança consegue elaborar hipóteses de que deduz implicações lógicas, mas apenas ao nível do concreto, isto é, com base em realidades observadas e, não ainda, a partir de hipóteses verbalizadas e abstratas – o que só conseguirá no estádio seguinte, com o domínio das operações formais – estádio operacional formal.
Apesar da autora defender que os alunos devem ser envolvidos ativamente no seu processo de aprendizagem, não quer com isto dizer que os alunos só deverão vivenciar tarefas práticas e manipular objetos. Uma aprendizagem ativa, pressupõe antes, como refere Roldão (2001), desencadear e desenvolver processos mentais ativos, em que o sujeito se envolve, pondo em ação os seus mecanismos cognitivos e afetivos na aquisição ou construção de novos saberes.
Existem diversos tipos de atividades em que o aluno participa ativamente, nomeadamente uma atividade experimental, a exploração do meio que o envolve, a visualização de um filme ou, até mesmo, a recolha de informação que é transmitida a partir de uma aula expositiva. No fundo, o importante é que se criem condições para que o aluno esteja focado de modo a construir novos conhecimentos, interligando-os e relacionando-os com conhecimentos que possui à priori.
Importa salientar que este tipo de abordagem assenta numa prática pedagógica em que existe um currículo aberto e, por isso, passível de ser ajustado e reorganizado perante o contexto e as necessidades sentidas. Neste sentido apontam as palavras de Lopes e Pontuschka (2009) para quem é importante considerar que esta prática pedagógica encontra plena expressão no interior de uma teoria curricular aberta na qual o trabalho educativo das escolas não seja regulado, externamente, por um sistema de avaliação homogeneizador e homogeneizante. Porém, importa sublinhar que esta prática pode não estar totalmente assente num currículo aberto, reconhecendo que há uma intencionalidade e, inevitavelmente, um conjunto de conteúdos do currículo que são abordados.
Ao analisarmos o programa do Estudo do Meio 1.º CEB, percebemos que nos princípios orientadores desta área há uma orientação implícita que aponta para uma
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conceção e prática de integração curricular. Segundo o ME (2001), o Estudo do Meio é apresentado como uma área para a qual concorrem conceitos e métodos de várias disciplinas científicas. Por outro lado, o Estudo do Meio está na interseção de todas as outras áreas do Programa, podendo ser motivo e motor para aprendizagens nas diversas áreas do currículo.
Se analisarmos detalhada e cuidadosamente os princípios orientadores do Estudo do Meio, eles apontam não só para uma área que é naturalmente integradora e facilitadora de uma abordagem globalizante do currículo do 1.º CEB, como implicitamente aponta para práticas de ensino integradas. Cabe ao professor a responsabilidade de orientar as suas aulas nesta perspetiva.
Ao analisar os objetivos gerais da área do Estudo do Meio, estes têm explícitos conteúdos das outras áreas disciplinares, quando refere, por exemplo, que os alunos deverão selecionar informação (Português), utilizar diversas formas de recolha e tratamento de dados, como inquéritos, gráficos e tabelas (Matemática).
É ainda de referir que a própria estrutura curricular do ensino básico salienta que o sentido integrador do currículo não se evidencia apenas no plano vertical, mas também, de forma não menos relevante, na articulação horizontal das suas componentes – atividades, áreas disciplinares e disciplinas. Pretende-se que estas se organizem de modo a facultar a síntese das aquisições parcelares do processo educativo, convergindo na construção de aprendizagens significativas, globalizantes e, sempre que possível, radicadas na realidade concreta (ME, 2001). Deste modo, há que ter em conta que o Programa do Estudo do Meio deverá ser reconstruído numa articulação horizontal dos conteúdos, ou seja, devem combinar-se conteúdos de um mesmo nível de ensino, o que implica integrar conhecimentos e competências inerentes às diferentes áreas do currículo.
Sendo o Estudo do Meio uma área que potencia a integração curricular nas salas de aula do 1.º CEB, os seus temas, objetivos e conteúdos de índole muito variada permitem que se organizem, dando origem a temas aglutinadores que podem funcionar como base de aprendizagens das várias áreas do currículo, proporcionando diversas oportunidades aos alunos ao nível das aprendizagens:
compreensão das interligações entre as diversas áreas do saber para a compreensão de um tema em estudo;
desenvolvimento de diversas competências em torno de assuntos em estudo;
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No entanto, não se compreende esta imensa potencialidade do Estudo do Meio se não evidenciarmos que essa “natural” disponibilidade para ser integradora de todo o currículo emerge das suas características de área disciplinar integrada, para onde convergem as várias disciplinas das Ciências Sociais (História, Geografia e Sociologia...) e das Ciências da Natureza (Botânica e Zoologia...). Dito de outro modo, é a sua natureza totalizante e integrada para compreender o mundo que rodeia o sujeito, que lhe confere as condições para se constituir como polo aglutinador das aprendizagens numa perspetiva globalizante e integradora.
Para finalizar, importa salientar que o programa do Estudo do Meio, enquanto área assumidamente integrada e integradora das aprendizagens, assume-se como uma proposta flexível, adaptável e mutável, que pode ser sujeita a diversas formas de organização, em função das características do contexto em que se desenrola o processo de ensino e aprendizagem. Assim, em última análise, o trabalho realizado a partir do programa do Estudo do Meio dependerá do papel do professor na sua sala de aula, enquanto responsável e gestor do currículo.