4 – O DPDJB E SEUS PRODUTOS
4.2. O funcionamento do DPD
Um relatório escrito em 2006 pela chefe da Biblioteca do JB, Floripes Marinho, traz um organograma do Departamento de Pesquisa e Documentação do Jornal do Brasil em duas diferentes fases: a primeira vai de 1970 a meados de 1980 – momento em que o departamento perdeu uma de suas principais atribuições, a de produção de texto. A segunda, que pouco interessa a este trabalho, relata o organograma do DPD após a transferência da gestão do setor para dentro da Agência JB, quando teriam sido extintas as seções Índice e Recortes, as grandes inovações arquivísticas da imprensa brasileira dos anos 1960.
O primeiro esquema de organização teria surgido no JB pós-65 e se consolidado com a transferência da sede do jornal para a Avenida Brasil, onde foi arquitetada uma estrutura especial para abrigar o DPD com tudo o que continha. Naquele prédio, o setor se localizava em cerca de 100 m² de área, um andar acima da redação. Sua disposição naquele espaço se dava da seguinte forma: existia um salão de arquivos, com estantes deslizantes e armários de aço; outra área onde estavam localizadas as mesas dos pesquisadores e auxiliares dos cinco setores (Índice, Arquivo de Recortes, Arquivo Fotográfico, Atendimento Externo e Texto), “dando a impressão de que não havia setores distintos e sim um grande grupo de trabalho”, de acordo com um depoimento de Marinho15.
A biblioteca, segundo relatos, ocupava uma sala à parte, assim como a coleção de jornais antigos: o acervo bibliográfico ficava isolado para evitar furtos; assim como a coleção centenária, para evitar a deterioração do papel jornal. O cuidado com o acervo sempre foi um dos princípios básicos do DPD, desde o surgimento de seus primeiros traços, lá em 1962, com a criação do primeiro centro de referências bibliográficas, citado no capítulo 1.
As seções criadas na década de 1960 sob influência dos arquivos de pesquisa na revista Time & Life e do jornal The New York Times, como já foi mencionado, funcionavam, portanto, da seguinte forma:
a) Índice: abastecia o que era chamado de Memória do JB – diariamente, funcionários desta seção faziam a indexação do jornal. Tudo o que era publicado no dia era organizado como um livro, tendo os títulos de cada texto da edição listados num índice, que indicava o título, autor e página em que foi publicado. O índice tinha seu próprio coordenador e uma equipe de pessoas trabalhando sob seu comando, geralmente formadas em História. Todas estas funções, no entanto, só seriam consolidadas após a saída de Dines da redação, em 1974. O Índice funcionou até 1990, quando a diretoria do jornal promoveu uma demissão em massa para conter gastos16.
b) Recortes (ou documentação): uma seção de pastas temáticas onde se armazenavam diariamente as notícias mais importantes do dia, de acordo com o assunto. Esta seção se tornaria um centro de referência em organização de arquivos, sendo frequentemente visitada por estudantes de arquivologia e biblioteconomia nos anos que
15 Entrevista à autora. Rio de Janeiro, 06/5/2011. 16
Informação foi citada em duas diferentes entrevistas à autora, cedidas por Floripes Marinho e Fernando Albina Rosa, funcionários do departamento durante o período em questão.
se seguiram. Recortes servia como uma grande enciclopédia, com textos de revistas e jornais do Brasil inteiro. Se, por exemplo, um repórter chegasse à pesquisa precisando fazer uma matéria sobre a ponte Rio-Niterói, solicitava a pasta desta ponte e lá encontrava as principais notícias sobre ela desde meados da década de 196017, estando preparado para redigir o texto utilizando um pano de fundo histórico. Além disso, Recortes fornecia outros serviços ao jornal como efemérides, tabelas de índices e preços e obituário18. A equipe contava com um coordenador, pesquisadores e auxiliares (que faziam o trabalho de corte e cola do material).
Recortes seria extinto logo depois do Índice. Além da diminuição de gastos, a alegação da diretoria para que fosse posto fim ao trabalho neste braço do departamento teria sido a informatização da redação – segundo relatos de funcionários que trabalharam ali na década de 1990, a informação passada aos trabalhadores foi a de que a existência de um arquivo digital tornava desnecessário o arquivo físico. Como a informatização das redações coincidiu com o período de crise financeira do jornal, Recortes jamais sofreu um processo de digitalização e uma nova base de dados não conseguiu dar conta de toda a informação arquivada nos seus quase trinta anos de existência.
c) Arquivo fotográfico: responsável pelo tratamento do material fotográfico produzido no JB e pelas agências de notícia e sucursais do jornal. Ficavam armazenados neste arquivo todos os negativos do periódico desde 1962 – hoje, este é um dos maiores acervos particulares de negativos do período da ditadura militar, contendo, segundo dados do atual CPDoc JB, cerca de 9 milhões de negativos. As pastas temáticas deste setor foram organizadas de acordo com o mesmo princípio dos Recortes só que, em vez de texto, armazena-se ali imagens de arquivo – reveladas ou em contato, com a referência do negativo, para que este possa ser solicitado e enviado para o laboratório para ampliação no tamanho desejado para a página do jornal (as pastas temáticas ainda são utilizadas pela atual redação do JB)19.
d) Texto: com base nas informações das outras áreas, os repórteres e pesquisadores que trabalhavam nesta seção redigiam matérias de apoio ao noticiário e, no período recortado por este trabalho, projetos de longo prazo. Em um documento que
17 Exemplo dado pelo jornalista Roberto Quintaes em: “A pesquisa como apoio”. IN: Um jornal em debate III. Cadernos de Jornalismo e Comunicação, 1971, números 32/33. pp. 51-52.
18 Informação retirada de um documento interno sobre a organização do jornal, redigido durante a década
de 1980 por funcionários da Pesquisa. O documento se encontra na pasta “JB – História”, do acervo de recortes, no Centro de Pesquisa e Documentação do Jornal do Brasil.
relata o funcionamento do jornal, escrito pela Pesquisa nos anos 1980 (hoje indexado na pasta “JB- História”, do acervo de Recortes), o trabalho de texto da Pesquisa para outras editorias era relatado como:
O trabalho da Pesquisa para as outras editorias pode ser o fornecimento puro e simples de uma informação (por exemplo: que Estado brasileiro tem a área do Chile?) ou a elaboração de textos background para qualquer tipo de noticiário (por exemplo: ante um golpe de Estado no Afeganistão – onde fica o país, quais os seus recursos econômicos e as forças políticas locais?). Para realizar a tarefa, a Pesquisa utiliza mais de cem periódicos nacionais e estrangeiros, recortes arquivados em mais de 17 mil pastas, livros e ainda o Índice do próprio jornal.”
O trabalho dos quatro setores unidos movia as engrenagens da editoria, que, “era a primeira a abrir e a última a fechar”, de acordo com depoimento de Fernando Albina Rosa – que trabalhou no Acervo Fotográfico desde meados dos anos 1970 até 2006. Em depoimento à autora em maio de 2011, conta que o funcionamento do arquivo era ditado pelo ritmo da redação. Enquanto houvesse repórteres trabalhando nas notícias, precisava haver movimento no DPD – a qualquer hora poderia chegar um pedido urgente, como a notícia do falecimento de alguém importante. Nestes casos, a Pesquisa entrava em ação e, por meio de uma investigação nas pastas temáticas de imagem e texto, levantava o que se considerava de maior importância sobre aquela pessoa, podendo produzir um texto biográfico que seria publicado junto com a notícia no dia seguinte. Em alguns casos (principalmente quando se parou de ter uma equipe de repórteres na Pesquisa), o jornalista responsável pela pauta direcionava-se ao arquivo, de onde colhia as informações separadas pelos colegas. Trabalharam como produtores (ou editores) de texto no DPD no período recortado por este trabalho: Fernando Gabeira, Roberto Quintaes, Murilo Felisberto, Nonnato Massom, Roberto Machado, Beluco Marra, Raul Riff, entre outros.
A interação entre redação e arquivo é bem explicitada no trecho a seguir de um texto publicado nos “Cadernos de Jornalismo” (já “Cadernos de Jornalismo e Comunicação”) pelo então chefe do DPD, Roberto Quintaes, em 1971:
Ao voltar de um estágio nos Estados Unidos, o Secretário de Texto, Sérgio Noronha, revelou que os repórteres do NY Times jamais saem à rua sem passar antes pela Pesquisa, onde estudam o assunto que lhes foi dado como tarefa. (...) Um conjunto de falhas pode ser evitado se a Pesquisa for consultada. (...) Tenho certeza de que a
Pesquisa tem muito a dar às matérias dos repórteres do JB. Mas é preciso advertir os repórteres de que nem sempre eles obterão dados que procuram anunciando apenas o título geral de suas tarefas. Não basta pedir a pasta Ponte Rio-Niterói. A documentação deve ser informada do ângulo da matéria, deve conhecer o tom do texto. Às vezes o que se procura está em outra pasta ou em outro livro de referência. É preciso ganhar tempo e trabalhar em conjunto. É importante ainda lembrar aos repórteres que, além da documentação, a pesquisa pode auxiliá-los através do índice JB, que é a reunião, com tratamento científico, de todo o material publicado no jornal. Nem sempre o que sai no JB vai para a pasta, porque o índice permite que, com extrema facilidade, se localize o texto desejado20.
A passagem ilustra a preocupação que se tinha nos primeiros anos de funcionamento do departamento com a melhor forma de auxiliar o repórter em suas tarefas diárias, neste momento em que o jornalismo ganhava novos rumos e ia se profissionalizando. A forma crítica de pensamento sobre a imprensa no JB daquele período marcou não só a relação entre as editorias do jornal, como também a relação da redação com o exterior. Isso fica claro com o conteúdo dos produtos do DPD: para além da informação diária, havia a interpretação da notícia e a sua discussão, principalmente no que era produzido a longo prazo.