3 A ORIGEM DO EMBLEMA
3.3 O HUMANISMO E A GRAVURA
Como já explicamos anteriormente, o século XV foi o período em que ocorreu o entendimento e adesão do Humanismo por homens cultos e estudiosos. No século XVI, veio sua consolidação. Foi um despertar do interesse pelo homem como objeto de estudo e como ser que pensa e age, não vivendo mais exclusivamente de acordo com a vontade de Deus. No entanto, de forma alguma a religião foi deixada de lado; era um momento no qual se convergiam crenças com um novo pensamento lógico. Isto, em parte, proporcionado pelo estudo de clássicos latinos, assim como da literatura grega. Houve uma valorização da cultura universal convivendo simultaneamente com o pensamento medieval, que passou a ser observado de maneira mais crítica.
E a imprensa, a partir do invento da prensa tipo móvel de Johannes Gutenberg (1398- 1468), na Europa, teve papel fundamental nisso tudo29. A técnica mais utilizada para a produção de textos para este período foi a gravura, que não é apenas a denominação da técnica, mas também o nome da imagem produzida.
É feita de matriz de madeira ou metal, que recebe tinta30. O papel é pressionado sobre a matriz – alguns testes são feitos para depois haver a impressão definitiva. A partir da matriz podem-se tirar várias impressões, ou seja, a gravura era inovadora, pois permitia a reprodução; várias cópias formariam a tiragem. O artista assinava e enumerava cada uma. Sua impressão é uma reprodução invertida da matriz. A produção da gravura é um processo que se inicia no entalhe do artista na pedra ou madeira, passando pela combinação dos componentes para a tinta e sua aplicação, e sofre influência das condições com que o artista vai reproduzir a gravura e também do clima do local onde o trabalho é executado.
O ato de gravar pedras existe desde o homem pré-histórico, atingiu o antigo Egito e foi se modificando ao longo do tempo. Desde o século II, os chineses já se utilizavam da técnica de gravação, assim como o papel, elemento fundamental para a produção da gravura, é invenção chinesa. Isso possibilitou a reprodução em massa, ao contrário da pintura e escultura, que resultam numa única obra.
29 Na China, Bi Sheng já havia inventado o mesmo tipo de prensa no ano de 1040.
Foi através da chegada do papel à Europa que a gravura se desenvolveu, por conta da queda no custo da impressão. Árabes haviam capturado fabricantes chineses do material em 75131, e os instalaram em Samarcanda, cidade localizada no Uzbequistão, que já fora conquistada em 712 pelos árabes; e através da rota de caravanas entrou na Espanha e em meados do século XIV chegou à Itália. Anteriormente, a escrita e o desenho na Europa se limitavam ao uso de pergaminhos – suporte muito mais complicado de lidar, uma vez que se tratavam de folhas feitas a partir da pele de animais. Havia poucos livros deste material e todos eram de posse da Igreja. Somente quem fizesse parte teria acesso, ou seja, monges e padres eram os únicos que tinham algum contato com este tipo de cultura no período.
No final do século XIV, a gravura começou a aparecer na Europa. Antes só se conhecia a xilogravura, uma matriz de madeira que reproduzia o desenho em relevo, e tudo era feito com ela. Além disso, o uso desta técnica permitiu que os livros, que antes eram copiados a mão, passassem a ser reproduzidos em série; e este uso se ampliou por toda a Europa.
A partir do século XV, a gravura se consolidou na Europa: passou a ser usada na divulgação de imagens religiosas, na impressão de selos e baralhos, e na substituição de manuscritos, ampliando a divulgação do conhecimento. E na metade deste século, já ocorria o largo uso da gravação em metal. Com isso, surgia a prensa para a impressão da gravura, trabalho que inicialmente estava relacionado ao ofício do ourives.
No século XVI, a gravura em metal assumia seu posto de maior importância na Europa, pois permitia edições em maior quantidade e ainda melhor precisão no traço. Os primeiros gravadores não assinavam, nem enumeravam os trabalhos, por serem ourives de formação. Este período ainda contou com o alcance do Renascimento italiano na França, e com a contribuição da gravura para o registro do descobrimento do Novo Mundo por portugueses e espanhóis. A gravura era usada para documentar a fauna, a flora e a paisagem dos lugares desconhecidos.
Graças ao rio Reno, estabeleceu-se um amplo contato entre países como França, Itália e Alemanha com a circulação de comerciantes, religiosos, estudantes e artistas de vários locais. Além disso, era um momento em que a Alemanha estava em seu auge na produção
31 Batalha de Talas, ocorrida às margens do rio de mesmo nome, localizado na Ásia Central, onde hoje é o Quirguistão. Nesta batalha, travada entre árabes aliados a turcos contra os chineses, o objetivo era o domínio da Ásia Central, tendo os chineses sido derrotados pelo exército do Califado Abássida. Cf. ZONGZHENG, Xue.
Anxi and Beiting Protectorates: A Research on Frontier Policy in Tang Dynasty's Western Boundary. Harbin:
gráfica, com o centro em Nuremberg, e recebendo de maneira gradual a manifestação cultural do Renascimento vindo da Itália. Eram criadas as primeiras universidades e tinha início a Reforma protestante de Lutero (1483-1546), que se aproveitou amplamente da reprodução gráfica para a sua divulgação de ideias, como uma espécie de propaganda.
Além disso, foi em terras renanas que a imprensa consolidou sua forma para depois difundir-se para o mundo. Os livros eram fabricados na Renânia, que também recepcionava obras oriundas de Veneza, Basileia e Colônia. Por determinado tempo, o mercado intelectual do mundo estava dominado por renanos, graças a sua estratégica localização que recebia ideias e influências de todos os lugares, contribuindo para uma difusão ainda maior do humanismo e do Renascimento.
Importantes figuras da região foram grandes contribuintes para essa difusão. Johann Amerbach (1440-1513), impressor na Basileia e amigo de Erasmo, recebia lições de Alciato, que já era considerado uma referência. Assim como Albrecht Dürer e Chonrad Peutinger que também se inspiraram no Humanismo italiano e o levaram para seu país.
Dürer era o grande nome entre os gravadores da época. Nascido em Nuremberg (1471- 1528), ele também foi o mais notável pintor e teórico do Renascimento alemão. Trabalhou com as mais diversas técnicas de gravação: madeira, metal, experimentou o buril (gravar diretamente no metal, com um instrumento cortante de mesmo nome, cuja ponta tem formato de losango), ponta-seca e água-forte. Estabeleceu relações com personagens importantes da época, como os artistas Leonardo da Vinci (1452-1519) e Rafael (1483-1520), além de Erasmo. Sua gama de trabalho foi bastante ampla, dentre entalhes, autorretratos, retratos, aquarelas e xilogravuras. Adicionalmente, muitos de seus trabalhos eram de cunho alegórico, tornando-se objetos de estudos e interpretações, como sua obra Melencolia I (1514).
Ele foi considerado o grande responsável pela introdução de motivos clássicos extraídos de artistas italianos para a arte no norte. Dürer iria seguir a carreira de ourives, como seu avô e seu pai, mas seu talento para o desenho e as artes acabou se sobressaindo, o que o fez tornar-se aprendiz aos quinze anos de Michael Wohlgemut (1434-1519), pintor e impressor dono de um ateliê em Nuremberg. Ao longo de sua vida, ele estudou em outros lugares, passando por Frankfurt; Países Baixos; Estrasburgo, onde aprimorou a técnica da escultura; Basileia; provavelmente passou por Mântua e Pádua; e Veneza, onde pôde estudar o que havia de mais avançado sobre a arte e que, evidentemente, causou uma efetiva influência em seu trabalho.
Apadrinhado pelo Sacro Imperador Romano Maximiliano I de Habsburgo em 1512, Dürer fez um grandioso trabalho baseado numa tradução dos Hieroglyphica de Horapolo: o já
mencionado Arco do Triunfo impresso a partir de 192 blocos. Ele ainda produziu outros trabalhos para o imperador, incluindo retratos. Com a morte de seu patrono, Dürer viajou pelo Reno até Colônia e Antuérpia, onde produziu muitas outras obras. Ele também sofreu forte influência dos textos de Lutero, embora não se saiba se, de fato, ele abandonou a Igreja Católica. Em seus trabalhos finais, dos quais muitos foram religiosos e retratos, inclui-se um de Erasmo.