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CAPÍTULO 3 – O CONTEXTO POLÍTICO BRITÂNICO E O FENÓMENO FARAGE

3.3. Contexto político britânico em 2019

3.3.1. O impasse do processo Brexit

O preâmbulo do Tratado de Maastricht, que constituiu a UE, é um manifesto de valores em que os chefes de Estado dos países fundadores exteriorizaram seu anseio por uma Europa mais integrada (Schirm, 2010). Entre uma série de outros compromissos, destaca-se que os Estados-signatários estariam envolvidos num processo de criação de uma União cada vez mais estreita entre os povos da Europa.

O que se observou no decorrer da evolução histórica do processo de integração europeu foi uma constante ampliação e estreitamento do vínculo entre os Estados.

Esta processo de integração vivida no âmbito da UE experienciou em 2016, um abalo sem precedentes: o RU referendou o chamado Brexit.

Em maio de 2015 e no sentido da promessa feita por Cameron, o governo britânico introduziu um projeto lei no Parlamento providenciando a base legal para um referendo sobre a continuidade do RU na UE (Foreign Affairs Committee, 2016).

Antes de anunciar uma data para referendo e de definir a sua posição relativamente a este, Cameron empreendeu uma série de esforços para renegociar a permanência do RU na UE em quatro áreas chave: governação económica, competitividade, soberania e imigração (Cameron, 2015). O acordo foi conseguido no Conselho Europeu, a fevereiro de 2016, todavia, o governo britânico anunciou o dia 23 de junho para a realização do referendo.

Antes do referendo, houve a elaboração de duas campanhas centrais – Leave e Remain. Uma característica predominante da campanha Leave foi a ênfase que colocaram na reposição da vontade soberana do povo britânico, exemplificada no próprio slogan “Take Back Control” (Vamos retomar o controlo). Os políticos por de trás da campanha Leave afirmavam que a independência do país estava a ser comprometida, criando por isso um grande problema democrático para todos os britânicos (Conservative Home, 2016). A mensagem de recuperar o controlo democrático da Nação foi entrelaçada com um segundo argumento que apontava para os retornos económicos e políticos que só surgiriam da separação da Grã-Bretanha com a UE.

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No centro da campanha havia também a preocupação com a imigração. De acordo com Nigel Farage, uma das também figuras centrais da campanha Leave, acusou a UE de enormes dados à Grã-Bretanha ao facilitar a imigração descontrolada: “A migração de portas abertas suprimiu os salários no mercado de trabalho não qualificado, o que significa que os padrões de vida fracassaram e que a vida se tornou muito mais difícil para muitos em nosso país” (The Express, 2016). A visão de uma Grã-Bretanha global independente não apenas oclui o racismo perante os imigrantes não falantes de língua inglesa, como também mostra uma incapacidade de aceitar as realidades de um capitalismo global do século XXI. A campanha Leave foi, de muitas maneiras, um exemplo de melancolia pós-colonial (Ashe, 2016).

Segundo Gyôri (2016) a UE emergiu sempre fortalecida de todas as crises, e cada crise foi superada pelo aprofundamento do processo de integração. No entanto o Brexit revelou ser algo diferente, pois nunca havia existido antes nenhum movimento contraposto tão profundo como este referendo. O discurso que se adotou foi de que a UE usurpou a soberania dos países europeus e que a saída do bloco seria o único caminho possível a se seguir para recuperá-la.

Foi então a 23 de junho de 2016, que 51,89%18 dos votantes foram a favor da saída do RU da UE (Electoral Commission, 2016), iniciando-se assim, o processo Brexit. No dia seguinte ao referendo, o Primeiro-Ministro David Cameron renunciou ao seu cargo, afirmando que o país necessitava de um novo Primeiro-Ministro que deveria tomar a decisão de ativar o artigo 50.º do Tratado da União Europeia (Comissão Europeia, 2017). A 13 de julho de 2016, a Secretária de Estado Theresa May sagrou-se a nova líder do partido Conservador, tendo, na qualidade de Primeira-Ministra, ativado formalmente o Artigo 50.º7 no dia 29 de março de 2017.

Segundo May este processo seria irreversível, pois Brexit means Brexit (Hillebrand, 2017).

É neste novo contexto que o populismo britânico surge de forma mais consistente (Freeden, 2017). A oposição à integração europeia passou a ser percecionada por muitos cidadãos europeus e a essa falta da plena integração, junta-se a insatisfação com determinadas políticas instauradas pela UE. No caso concreto do RU, este Estado-Membro sempre foi um grande contribuidor líquido para o

18 The Electoral Commission (2016). UE referendum report.

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orçamento europeu, e com isso contribuiu mais do que aquilo que recebia sob forma de fundos estruturais europeus. Todavia a vaga de descontentamento ao longo das quatro décadas de integração europeia, nunca tinha visto números tao elevados como começou a ver a partir das eleições europeias de 2014, e em 2016 foi possível comprovar isso mesmo com os resultados do referendo.

Não querendo fazer deste estudo um debate sobre se os referendos podem ou não ser democráticos, até porque os nossos objetivos são outros, somos levados a supor, mesmo encontrando na literatura diferentes pareceres sobre este tema, que eles desempenham algum papel, e que a democracia direta e a representativa podem, sob certas condições, complementar-se, fortalecendo assim, a legitimidade democrática. O referendo sobre sair ou permanecer da UE fez parte dessa suposição, mas com a sua demora, muitos foram os pensamentos sobre se seria preferível para o país afinal manter-se, ou se, por outro lado, seria preferível a elaboração de um segundo referendo ou ainda, uma diferente perspetiva era se democracia na Grã-Bretanha tinha fracassado, pois a sua qualidade estava a ser questionada e com isso a vontade do povo em referendo não estava a ser acatada (Seidler, 2018). Tudo isto foi posto em cima da mesa e por isso o desfecho deste processo de revelou tardio.

A luta feroz entre aqueles que invocam a urgência na finalidade do Brexit, ilustra de maneira reveladora como uma mentalidade populista pode transbordar e penetrar em caminhos deliberativos e constitucionalmente prudentes em democracias bem estabelecidas (Freeden, 2017). Estes movimentos partilham entre si uma tendência para a mobilização política contra o mainstream político e contra a integração europeia. É certo que a concretização do Brexit sempre pareceu irreversível, no entanto, o seu fim revelou-se bastante longo, pois também ficou a parecer que alguns dos atores políticos que outrora estiveram à frente da campanha Leave, mostravam-se agora cautelosos com as consequências que poderiam ocorrer.

Três anos pós o referendo, a política partidária do Brexit estava num impasse completo, e era difícil ver como é que o governo na altura poderia sair do impasse que criou.

Em jeito de conclusão fazemos agora uma síntese do terceiro capítulo, em que procuramos fazer a distinção do contexto político britânico na altura da campanha para as eleições europeias de 2014 e 2019. O contexto político britânico em 2014 foi catalogado pela crise económica e financeira, pela crise migratória e pela

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intenção de realização de um referendo sobre a relação futura entre o RU e a UE, onde alguns investigadores consideraram Nigel Farage o ator político determinante nessa mesma intenção (Ford e Goodwin, 2014; Judis, 2016; Barnes, 2016). Além do mais, a construção da mensagem anti-imigrantes concebida por Farage compreendia exatamente esse elemento – crises – e, propositadamente, foram ligadas por ele para argumentar que as fronteiras abertas da UE tornavam o RU menos seguros. Este truque permitiu-lhe sugerir que saindo da UE recuperar-se-iam as fronteiras e a democracia e restringir-se-ia a entrada de imigrantes.

Quanto ao contexto político vivido durante a campanha de 2019, este foi marcado por complexas consequências do referendo sobre o Brexit. Este impasse político tornou a questão facilmente mobilizada por qualquer partido populista, qualquer que fosse a sua ideologia. O Brexit facilitou a abordagem destes partidos no apelo ao povo comum unido contra as elites que não responderam, ou melhor, que rejeitaram as leis democráticas e o processo tecnocrático (Eatwell e Goodwin, 2018). A impressionante convergência entre o sentimento nacional e o anseio pelo império, a ideia de que a Nação e o Império podem sentar-se juntos, foi uma das dimensões salientes, mas não expressas do Brexit. Além disso, o Brexit foi provavelmente a crise que mais se aproxima do nosso entendimento sobre uma conjuntura crítica e um evento deveras transformador. Simplificando, o Brexit apareceu como um cenário abrangente e dramático e irreversível.

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