A saúde e o invalidismo parecem ser maneiras opostas de ver a vida. A pessoa pode considerar-se sadia, forte, "inteira", ou deficiente, carente de algo no corpo e na psique. Do ponto de vista da saúde, as deficiências, incapacidades e lacunas são apenas problemas temporários que devem ser resolvidos; do ponto de vista do inválido, são simplesmente parte da vida.
Se porém existe um Arquétipo do Inválido, não deveria existir uma personificação mitológica do mesmo? Os arquétipos não aparecem em geral na mitologia como deuses ou deusas? Não foram essas representações coletivas a base para a teoria junguiana dos arquétipos? Onde, então, em quais mitologias, encontramos o inválido como uma imagem coletiva?
Os deuses gregos parecem ser tudo, menos inválidos. Em sintonia com a sua posição exaltada, são retratados como seres fisicamente perfeitos. Existem apenas duas exceções: Hefaístos, que manca, e Aquiles, com seu calcanhar vulnerável. Até mesmo o herói perfeito e intocável tem uma fraqueza.
Quando analisamos a mitologia alemã, encontramos um estado diferente de coisas. Ali existem inúmeros exemplos de inválidos. Aliás, o conjunto inteiro da mitologia alemã parece ser revestido por um clima de previsões — Nidhoggr se contorce nas raízes de Yggdrasil, a
árvore do mundo, enquanto se anuncia o conhecimento do Goetterdaemerung (Era alemão, no original: o crepúsculo dos deuses (NT).) iminente. Como figura individual, encontramos Thor, o deus da guerra, que tem um pedra de moinho incrustada em sua fronte, como dolorosa recordação de uma batalha anterior. Outros deuses alemães sofrem ferimentos graves, perdem uma das mãos, ou algo parecido. Baldur, o que brilha, é invencível contra tudo exceto contra o visgo parasita. O invalidismo parece ter maior importância na mitologia alemã que na dos gregos.
Muitas mitologias não européias — de origem mexicana ou indígena, por exemplo — costumam descrever seus deuses como seres grotescos e disformes. De maneira semelhante, encontramos figuras divinas bizarras em culturas pré-históricas que nos oferecem uma impressão de invalidismo.
Os artistas muitas vezes criam imagens mitológicas desse tipo. Vejo os quadros de Velasquez, por exemplo, como expressão do arquétipo do inválido.
Suas figuras são freqüentemente grotescas e distorcidas. O cineasta Fellini recheia seus trabalhos com inválidos — aleijados, perversos e representantes dos traços anormais da raça humana, como mulheres gigantescas e homens esqueléticos. O inválido, como imagem e símbolo mítico, aparece também nas histórias clássicas de aventuras. Podemos nos recordar das histórias de piratas, de Long John Silver com sua perna de pau no livro A Ilha do Tesouro, de Stevenson, e do arquiinimigo de Peter Pan, o Capitão Gancho, com sua prótese metálica. A figura do pirata, em si mesma uma imagem do inválido, é alguém que tradicionalmente não tem um braço, uma perna, ou pelo menos usa um tapa-olho preto. Outra imagem familiar do inválido na literatura é o Quasímodo de Hugo, o Corcunda de Notre Dame. Em geral, a arte parece assinalar a existência do arquétipo do inválido: o que são as gárgulas da Catedral de Notre Dame senão inválidos?
Dada a existência do arquétipo do inválido, também deve existir um complexo de inválido uma vez que os arquétipos atraem para si partes da psique e da vivência psíquica. É isso que se quer dizer com complexo. O homem com um complexo paterno tende a vivenciar a vida segundo a referência do patriarcado, independentemente de isto ter ou não relação com o fato de ser "pai". O policial, por exemplo, faz com que ele se sinta um menininho pequeno, interrogado pelo seu pai verdadeiro. Existe, de fato, um complexo do inválido. No decurso do meu trabalho como psicoterapeuta, tenho várias vezes atendido mulheres — assim como homens — que só conseguem se apaixonar por inválidos. Só se sentiram sexualmente atraídos por pessoas fisicamente inválidas.
Eu gostaria agora de esboçar um rápido "diagnóstico diferencial" do arquétipo do inválido, usando para isso uma definição e uma comparação. O inválido não deve ser confundido com o arquétipo da criança. Como aquele, esta é fraca e inferior, destituída das qualidades do adulto. No entanto, a criança cresce, muda, torna-se adulta, "mata o pai". Tem um futuro. O arquétipo do inválido também não deve ser confundido com o da enfermidade. Em boa parte semelhante à criança, a doença tem um futuro. Leva à morte, à saúde ou mesmo ao invalidismo. É temporária, uma ameaça passageira, uma catástrofe que terminará. A doença pode muito bem prejudicar o funcionamento psíquico e/ou físico, mas é aguda, dinâmica e fugaz. O invalidismo não leva a parte alguma, nem à morte, nem à saúde. É uma deficiência crônica, duradoura. É um estado crônico de estar "fora de ordem".
Os que vivem em função do arquétipo do inválido podem ser muito cansativos e aborrecidos para quem os cerca. Entre parênteses, posso comentar ainda que só existe um outro arquétipo que torna as pessoas tão cansativas e aborrecidas: o da fantasia da saúde. A pessoa que não pára de se queixar de suas costas é muito cansativa, mas não é nada se comparada a quem nunca pára de falar da sua força física, de como seu coração continua batendo regular e ritmicamente depois de correr 10 quilômetros, de como se levanta todo dia às seis da manhã para tomar uma ducha gelada.
Claro que um arquétipo não é em si nem bom nem mau, nem interessante, nem cansativo. Dependendo da situação e do nosso ponto de vista, pode dar a impressão de ser negativo ou positivo. Nossa incumbência como psicoterapeu-tas é estudar e refletir sobre os arquétipos e suas características, permitir-nos sentir admiração e espanto por eles, e aprender — em alguma modesta extensão — a lidar com eles na nossa experiência cotidiana. O arquétipo do inválido pode ser muito desgastante e, por outro lado, pode ser muito agradável, como no exemplo seguinte.
Conheci um homem de meia-idade que sofria de dores crônicas nas costas, depressões periódicas e fadiga contínua. Ao mesmo tempo, era uma pessoa de trato muito agradável: ele fazia com que os outros se sentissem prestativos e úteis. Sempre se podia fazer alguma coisa por ele, como encontrar-lhe urna cadeira confortável. Ele parecia apreciar atitudes desse tipo. De modo algum consistia ameaça aos que o cercavam. Não transmitia qualquer senso de competitividade pelo tempo e pela atenção que lhe dispensavam. Ele fazia com que você se sentisse delicado e generoso, e desencadeava nos outros uma atitude amistosa, acolhedora. Era muito repousante estar na sua presença. Se o arquétipo do inválido for reconhecido e respeitado, dá margem a reflexões e debates. No caso desse homem, sempre que alguém sugeria uma caminhada, ele respondia: "Não, obrigado, minhas costas doem. Por que não ficamos aqui e conversamos um pouco?"
O arquétipo do inválido pode ser muito proveitoso para a pessoa que vive em função dele. Contrabalança a inflação do ego; cultiva a modéstia. Porque as fraquezas e imperfeições humanas são honradas, é possível uma espécie de espiritualização. O invalidismo é um contínuo memento mori, um confronto incessante com as limitações físicas e psíquicas. Ele não permite a fuga para fantasias de saúde ou o distanciamento da noção da própria morte. Promove a paciência e doma o exagero do agir. De certo modo, é um arquétipo muito
humano. A fantasia de saúde e integridade de corpo e alma pode ser conveniente aos deuses,
mas para meros mortais é uma verdadeira tribulação. Quod licet Jovinon licet bovi(O que convém aos deuses (a Júpiter) não convém ao boi (aos simples mortais).)
Uma vez que o arquétipo do inválido enfatiza a dependência humana, uma vez que força a aceitação da nossa necessidade mútua de outras pessoas, é um importante fator nos relacionamentos. Hoje somos atormentados por uma fata
morgana psicológica — a ilusão da Pessoa Independente. Ainda existem aqueles
que acreditam ser possível viver com total independência em relação aos ou tros. Todos nós somos dependentes de alguém — maridos ou esposas, pais ou mães, nossos filhos, amigos, até mesmo nossos vizinhos. Reconhecer nossas deficiências e fraquezas, nosso invalidismo, ajuda-nos a admitir a nossa eterna dependência em relação a alguém ou a alguma coisa. A pessoa "deficiente" em termos de sentimentos será sempre dependente dos que têm uma vida afetiva "saudável". A dependência mútua assim como a unilateral ganha seu merecido reconhecimento com o arquétipo do inválido. Este serve como contraponto à imagem da "pedra que rola não cria limo" do herói peregrino, figura popular junto à geração mais jovem. Para esta, o ideal é movimentar-se como os espíritos libertos, pelo mundo todo, sem vínculos, nem obstáculos: hoje na índia, amanhã no México. Liberdade e independência são seu alfa e ômega, o sentido e a meta de sua existência.
Uma outra área em que o arquétipo do inválido tem um papel importante é dentro do fenômeno da transferência, na psicoterapia. A dependência, nesse contexto, é em geral compreendida como transferência de pai ou mãe e tida como regressão. Infelizmente, a fantasia de regressão filho/pai, na psicoterapia, pode ser muito prejudicial. Na grande maioria dos casos, a dependência do cliente reflete não a criança, mas o inválido. Às vezes, os clientes ficam dependendo de seus terapeutas durante anos — parece que a criança não cresce nunca. Mas como poderia? Não estamos lidando com uma criança, mas com um inválido e com a
sua necessidade correspondente de ser dependente! Nessas situações, muitas vezes o analista desenvolve uma sensação de culpa. Pergunta-se se não estaria, porventura inconscientemente, tentando manter um consultório cheio constelando a dependência de seus pacientes. Essa questão não tem razão de ser. O analista não está sendo antiético, mas sim servindo, de forma legítima, como muleta para o inválido. Embora o analista possa tentar modificar a necessidade do analisando de depender, encaminhando-o para alguém mais, um vizinho ou amigo, uma coisa é certa: a muleta será sempre necessária. A meta de uma independência total é simplesmente irreal. Se, por outro lado, o analista se identificar com a fantasia da saúde, da totalidade e do crescimento, simplesmente não vai enxergar o que está acontecendo. Achará que está lidando com o arquétipo da criança. Não percebe que a ausência de crescimento e recuperação da saúde assinala o inválido, não a criança. A criança, como dissemos acima, cresce e só pede ajuda por um certo tempo.
Devo insistir que são muito grandes e complexas as dificuldades e os perigos que acompanham o trabalho com o arquétipo do inválido. São estes justamente que muitas vezes resultam numa repressão tanto coletiva como individual, caracterizada pelo slogan "o inválido sempre estará conosco!". No nosso confronto com o invalidismo, sucumbimos todos rápido demais a uma atitude fatalista, a uma passividade que diz: "Por que me incomodar? Não há mesmo o que se possa fazer!" Deixando de compreender adequadamente o que implica o arquétipo do inválido, desistimos, paramos de tentar curar aquilo que pode ser curado. Até certo ponto, os grandes avanços efetuados tanto na medicina como na psicoterapia são uma decorrência da repressão do inválido. Ficamos de tal modo cativos da fantasia de uma saúde total que nos tornamos incansáveis em nossos esforços para chegar a essa condição. Não obstante, nós, analistas, não devemos ser os primeiros a atirar as pedras: a fantasia da saúde preenche nossa clínica na mesma medida que a do invalidismo.
Se pareço por isso mesmo um advogado de defesa auto-instituído no caso "saúde x invalidismo", é porque o arquétipo do inválido tem sido ignorado há muito tempo. Não tem recebido o respeito merecido. Minha ofensiva contra a "saúde", como advogado de acusação, não tem a intenção de desacreditá-la, mas em vez disso pretende ajudar a construir o equilíbrio melhor possível entre perspectivas que são essenciais. Com a pretensão de ampliar ainda mais a defesa, eu gostaria de apontar as armadilhas do arquétipo da saúde/totalidade, meu valoroso adversário.
Segundo a fantasia contemporânea de saúde, devemos nos tornar inteiros, totais, e totalidade aqui significa perfeição: "Sê perfeito..." O menor defeito, a menor disfunção, têm que ser removidos, curados, erradicados. Embora tivesse havido uma época em que o temperamento melancólico era aceito, até mesmo idealizado, hoje os melancólicos são diagnosticados como "depressivos", são tranqüilizados e medicados até serem transformados em hortaliças que vivem em estado de graça perpétua. Bem no fundo, todos temos consciência de nossas deficiências, fraquezas, de nosso invalidismo. Ao mesmo tempo, reprimimos essa percepção de todas as maneiras que nos sejam possíveis. Lutamos sem cessar, sem sentido, para manter a ilusão da totalidade tentando alcançar a saúde perfeita.
Nossa cegueira quanto ao lugar e à importância do arquétipo do inválido torna-se uma atitude moralista, que julga a saúde e a totalidade como o bem final. Não é difícil imaginar o quanto é devastadora essa atitude quando lidamos com pessoas que sofrem de neuroses e distúrbios psicossomáticos. Fico continuamente espantado com o tom de superioridade moral que se insinua na voz dos psicoterapeutas, quando se põem a discutir casos dessa natureza. Os neuróticos e os pacientes psicossomáticos são simplesmente seres inferiores, que não podem ser curados porque não querem ser curados. Não querem mudar, nem crescer. Recusam nossas tentativas de melhorar seu estado. Não chegarão sequer a dar ouvidos a seus próprios sonhos! Como afogados, agarram-se às suas resistências, defendem-se — segundo o nosso modo de ver — com absoluta tenacidade contra o terapeuta, que só está tentando ajudá-los.
Essas pessoas, coitadas, almas imersas nas trevas, só são dignas da nossa atenção quando assumem a nossa fantasia de crescimento/saúde/totalidade (mas será uma fantasia mesmo ou uma fixação delirante?). Na qualidade de terapeutas, só estamos interessados nelas quando
querem ser curadas.
Não pretendo criar a impressão de que todos os pacientes são casos crônicos, ou que não podem ser curados. Simplesmente, desejo apontar que, nos casos em que o arquétipo do inválido se manifesta, o resgate da saúde e da totalidade simplesmente não é possível. Aceitar esse fato poderia parecer imoral, tanto para o paciente como para o analista. Os efeitos positivos no entanto irão em pouco tempo desfazer as dúvidas remanescentes. Uma vez que o resgate da saúde e a totalidade estão hoje bastante em moda, necessitamos desesperadamente refletir sobre aceitar o arquétipo do inválido.
Ignorar ou denegrir um arquétipo convida a sua fúria a manifestar-se, desencadeia a sua vingatividade, e o arquétipo do inválido não faz exceção a essa regra. Parece que quanto mais tentamos curar os pacientes neuróticos crônicos ou os psicossomáticos crônicos, mais desesperadamente eles resistem. Tornam-se mais tirânicos, mais exigentes, e cobram mais ainda o nosso tempo e atenção. Longe de curá-los, nossos esforços parecem apenas exacerbar o seu estado. A impressão é que muitas pessoas estão simplesmente esperando pelo momento de poderem abertamente expor seu invalidismo. Um acidente de pouca monta, uma pequena diminuição da capacidade física e mental, e eles saem do emprego, entram com um pedido de licença-saúde e esperam que outras pessoas comecem a cuidar deles. Despertam em todos nós sentimentos de culpa. Parecem dizer: "Agora sou inválido. Agora é você quem tem que tomar conta de mim." É a nossa deficiência em aceitar o inválido que existe em nós, a nossa fantasia de que os seres humanos devem ser tão saudáveis quanto aqueles deuses gregos idealizados, que nos torna incapazes de enfrentar o arquétipo do inválido quando nos deparamos com ele. Nossa culpa nos obriga a prestar homenagem ao que nos recusamos a aceitar.
Os seres humanos funcionam com base em quatro funções ou padrões elementares: pensamento, sentimento, sensação e intuição. Em termos teóricos, todos possuem pelo menos o potencial para os quatro tipos, uma função sendo superior, outra sendo inferior, e as outras duas permanecendo como auxiliares. Os Sumos Sacerdotes da Saúde e da Totalidade nos fariam querer desenvolver em nossos pacientes todas essas quatro funções. No entanto, a maioria deles, por uma razão ou outra, não tem uma ou duas dessas funções. É como se fossem deformados ou aleijados. Se, por exemplo, não têm a função sentimento, seria inútil ajudá-los a desenvolver o que não está ali. Seria, ao contrário, muito melhor que os ajudássemos a explorar e avaliar sua deficiência, mostrar-lhes como viver com ela, e demonstrar de que maneira poderiam beneficiar-se de alguém que, por exemplo, tivesse uma função sentimento bem desenvolvida. Tentar desenvolver todas as quatro funções nesses pacientes apenas provocaria neles e nos terapeutas desapontamentos e frustração. Em vez de aceitar e respeitar o paciente tal qual é, ou seja, um inválido, existe o perigo de terapeuta e paciente não só rejeitarem o invalidismo, como também de o desprezarem. Para o paciente, o resultado dessa postura é compreensivelmente desastroso. Não somos nós, os analistas, na realidade, os advogados do arquétipo do inválido? Não é justamente isso que deveríamos ser?
A psique, por um lado, é considerada arquetípica, funcionando segundo padrões dados de ordem universal para comportamentos e vivências. Por outro lado, ela demonstra características completamente individuais e singulares. As imagens de totalidade e invalidismo são ambas universais, vale dizer, arquetípicas. Indaguemos de nós mesmos se seriam ambos arquétipos totalmente diferentes, ou se pertencem como aspectos complementares a um mesmo arquétipo. A imagem do invalidismo não pode existir sem a imagem da totalidade. A figura do Imperfeito só pode ser vista em contraste com a do Perfeito.
Para facilitar a discussão do tema, é mais fácil falar de dois arquétipos separados. Em última análise, no entanto, tanto a Totalidade como o Invalidismo são aspectos do Self, representando polaridades básicas da nossa psique. Infelizmente, quando falamos do Self, existe muita coisa insistindo em qualidades como redondo, completo, inteiro. Está mais do que na hora de falarmos da deficiência, do invalidismo do Self. Sempre tive dificuldade com o fato de as mandalas serem consideradas como o símbolo máximo do Self: são perfeitas demais para o meu gosto. O homem chega à plena constatação de sua própria natureza, de seu Self, mediante o encontro com seu invalidismo. A sensação do que é completo é máxima quando atravessa a sensação do que é incompleto.